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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 03.09.11

"- A tua casa é assustadora – foi Maggie quem falou, e notei que estava a fazer um pequeno esforço para que as palavras de facto saíssem.

- Eu sei – murmurei, pondo-me de cócoras, para ficar à altura de Jesse e mais próxima de Maggie – Ouçam, eu sei que a casa parece… assombrada? – Eles assentiram com a cabeça – Mas acreditem em mim, lá dentro é muito melhor. Eu remodelei-a toda. Sabem como as casas assustadoras têm a mobília estragada e as portas enferrujadas? – De novo, assentiram-me com a cabeça – Em vez disso, eu tenho um sofá grande, e… uma televisão enorme. E sabem o que podemos fazer?

- O quê? – Perguntou Jesse.

- Depois de tomarem banho, e do jantar, eu vou-vos mostrar que a casa não é assustadora de todo. Vamo-nos divertir, ok?"

 

Capítulo 4 (parte 2)

Tia Emprestada

 

- Eu não quero ir – murmurou Maggie – O tio Rick não nos pode vir buscar?

- Maggie… - murmurei, endireitando-me e aproximando-me dela – ele está a trabalhar… mas… o que é que costumas fazer com o tio Rick?

- Ele deixa-nos ficar acordados até tarde – Jesse respondeu em vez da irmã.

- Sim, e fazemos lutas de almofadas – disse Maggie, a rir-se.

- Então, hoje, eu vou transformar-te, pequena Maggie, numa princesa. E depois vou encher o Jesse de cócegas. E esperem, guardei o melhor para o fim.

- O quê? – Perguntou Jesse, a rir-se.

- Surpresa – disse-lhes, com uma voz de quem se queria rir – Mas temos que entrar, está bem? Eu posso ser como uma tia fixe… que acham?

- Está bem – disse Maggie.

- Sim… tudo bem – concordou Jesse.

- Vamos lá rapaziada, temos muito que fazer – murmurei, enquanto dava uma mão a cada um e nos encaminhava para dentro da casa.

Assim que passámos a porta para dentro de casa, notei que Maggie apertou-me mais a mão, tal como Jesse. Mas eu não lhes menti. Eu vou-lhes mostrar como nos podemos divertir aqui se esquecermos que esta casa nos assusta. E vou manter a minha palavra. Nós vamo-nos divertir. Espero eu…

Primeiro Maggie tomou banho, mas insistiu que eu ficasse por trás da cortina, porque tinha medo, e depois eu dei banho a Jesse, que me molhou mais a mim do que eu desejava. Começou logo aí. Fartei-me de levar com água, por isso declarei guerra. E nem a Maggie se livrou de ficar encharcada outra vez. E por isso, tive que lhe emprestar um dos meus pijamas, pois, quando a ataquei com o chuveiro, já ela tinha vestido o dela.

Depois disso, mandei os pirralhos para o andar de baixo e enquanto eles foram ver televisão tomei o duche mais rápido de toda a minha vida e limpei a casa de banho. Vesti o meu pijama dos ursinhos, porque Maggie achou-lhe imensa piada e praticamente que me implorou que o usasse.

Quando desci as escadas, ainda com o cabelo molhado, peguei no telemóvel e fui até à sala, onde eles estavam os dois a ver televisão.

- Que comida querem? – Perguntei. Pois, eu não sei cozinhar – Querem pizza?

- Não – respondeu Maggie.

- Bem… chinesa? – Perguntei.

- Não – de novo, Maggie foi quem me respondeu.

- Um hambúrguer…? – Estamos a ficar sem opções.

- Não – disse ela, firmemente, voltando-se para mim no sofá.

- A Maggie não come – resmungou Jesse.

- Bem, Maggie, tu vais jantar – afirmei, sentando-me ao lado dela – Estamos entendidas?

- E não gosto de comer – discutiu ela.

- Maggie… lembras-te quando eu disse que a casa não tinha nada de mal? Se não comeres, vai ter, eu certifico-me disso – disse-lhe, já com a voz mais firme que consegui arranjar. Vi-a engolir em seco e respirar fundo, olhando com uns olhos que parecia querer matar-me.

- Chinesa soa bem – murmurou, num tom baixo.

- Gostas de comida chinesa Jesse? – Perguntei.

- Sim – respondeu ele, sorrindo-me.

- Então será chinesa.

Encomendei a comida e ela chegou pouco depois. Jantámos no sofá, e por incrível que pareça, Maggie até se portou bem. Detesto o facto de ter descido tão baixo ao ameaçá-la, mas teve que ser. Afinal, não a ia deixar não comer. Não na minha casa.

Quando acabámos, lavei a loiça e depois desfiz o sofá, transformando-o num sofá cama, onde os pequenos iam dormir. Era a primeira fez que o desmontava, e de facto fazia uma cama bastante grande.

Disse à rapaziada para esperar por mim, e fui ao meu quarto buscar a minha maleta da maquilhagem, cheia de coisas que sabia que ia pôr Maggie num delírio. Ela parecia exactamente o tipo de rapariga que adora estas coisas. E estava certa, assim que viu a quantidade de coisas diferentes que eu tinha, quis experimentar de tudo. Quando acabei de a pintar, e se viu ao espelho, ficou com o maior sorriso que alguma vez tinha visto numa menina da sua idade. Os olhos até brilhavam.

- Estou linda – murmurou ela, enquanto apalpava as bochechas.

- Tu és linda – afirmei – Quando comes, e me ajudas a preparar a cama, e não te zangas com o teu irmão, és linda Maggie. E não precisas de maquilhagem para isso.

- Tu também és linda – disse Jesse, esticando-se ao meu lado, no sofá cama – E não usas muita maquilhagem.

- É tudo natural – brinquei, fazendo-os rir. Olhei para o relógio, eram quase horas de dormir, eles tinham escola de manhã. Mas não ainda. Ainda faltava a maior atracção da noite. – Venham comigo – pedi, esticando uma mão a cada um.

- Onde? – Perguntou Maggie.

- Sim, onde? – Insistiu Jesse.

- Confiam em mim? – Perguntei.

Eles primeiro deitaram um olhar um ao outro, mas depois de franzirem o nariz lá me agarraram nas mãos e se deixaram levar. Subimos as escadas até ao primeiro andar, e depois seguimos o corredor até às escadas que davam para o sótão. Eles ficaram um bocado reticentes, mas depois lá as começámos a subir. O sótão já estava limpo, tal como o resto da casa. Já não restavam teias aranhas, nem pó, nem mesmo aquelas bonecas de porcelana que sempre me meteram impressão por serem das que entram sempre nos filmes de terror. Tudo o que eu não queria, foi para o lixo. Acendi a luz, permitindo-nos observar um sótão praticamente vazio, à excepção de umas caixas de papelão num canto, e de uma arca velha cheia de bordados a outro.

- Isto não é arrepiante – murmurou Jesse, rindo-se em seguida.

- Eu disse-vos que a casa por dentro não era tão assustadora – afirmei, rindo-me também – Venham lá, vão adorar isto.

Conduzi-os até à janela e abri-a, passando em seguida para a parte do telhado. Eles ficaram os dois a olhar para mim, desconfiados, enquanto eu esperava que pelo menos um agarrasse a minha mão.

- Nós podemos fazer isso? – Perguntou Maggie.

- Definitivamente não – respondi-lhe – Mas vale a pena. Anda lá.

Maggie riu-se e deu-me a mão, permitindo-me ajudá-la a passar para o lado em que eu estava. E a seguir aconteceu o mesmo com Jesse. Eu não sou louca, não estou a tentar matar os miúdos. Sei exactamente o que estou a fazer. Indiquei-lhes para que trepassem pelas telhas até ao topo, o que não faltava muito, e fiquei por baixo caso um escorregasse, coisa que não aconteceu. Quando subi eu, dei com eles maravilhados a olhar para o céu, de boca aberta. Olhei também, e sorri. Um sorriso genuíno.

- É lindo, não é? – Perguntei. Olhei para eles, e tenho a certeza que os meus olhos estavam a brilhar tanto como os dos miúdos.

Lembro-me de quando era mais pequena e vivia nesta casa e costumava trepar até aqui. Deus, fazia a minha mãe enlouquecer, especialmente porque ela tinha medo de alturas e não lhe era nada fácil fazer-me descer. Mas eu amava. Sempre amei. Tomei uma golfada de ar e observei o céu. Estava num tom azulão bem escuro, mas tinha aquelas pintinhas reluzentes chamadas estrelas. Se esperássemos o tempo suficiente, poderíamos ver uma estrela cadente, aconteceu-me inúmeras vezes. Não sei em que é diferente de as observarmos do chão, mas parece que aqui em cima… não sei, é libertador. Parece que estamos mais perto daqueles pontinhos do que nunca. Como se por acaso nos esticássemos, os conseguiríamos de facto alcançar.

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