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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 07.09.11

"- Horatio? – Chamei. Ele agiu como se não me tivesse ouvido, por isso comecei a aproximar-me mais. Tenho que admitir, ver fantasmas até me dá jeito de quando a quando – Horatio, preciso de falar consigo.

- Não – estremeceu – As sombras… os borrões… - começou a balançar-se com mais força, cada vez mais, até que desapareceu por completamente. Olhei em volta, e quando me voltei para trás vi que ele estava mesmo perto de mim.

- Horatio, você trabalhou num caso há uns anos. Hugh Conrad. Lembra-se dele? – O seu rosto tornou-se assombroso e começou a fazer um barulho como se estivesse a sufocar – Horatio, ele é o meu irmão. O que aconteceu?

- Os borrões… - gemeu e levou as mãos à cabeça, como se algo por dentro o torturasse, lhe proporcionasse uma dor sem fim – Louco… lúcido… quem sabe? – Parou e riu-se, altas gargalhadas – O menino… eu lembro-me… os borrões… loucura."

 

Capítulo 5 (parte 3)

Investigação

 

- O quê? Horatio…

- Não! – Gritou, estilhaçando-se depois em poucos pedaços que desapareceram. Fiquei estática. Nunca tinha visto nenhum fantasma estilhaçar-se, ou algo do género.

Os borrões… serão as mesmas manchas que eu me lembro de ter visto?

Respirei fundo, para tentar acalmar um pouco o ritmo a que o meu coração ia, e voltei à estrada. Avistei o carro de Rick, ele tinha deixado a janela um bocado aberta. As informações dos homens com quem íamos falar estavam numa pequena pasta ao lado do seu banco, eu vi-o tirar de lá a morada de Horatio. Não podia ir para casa. Precisava de saber o que os borrões significavam. Preciso de descobrir se o outro, o único, sobrevivente de toda esta história também os vê.

Corri até ao carro e enfiei a mão pela janela, para alcançar a fina pasta. Tirei a informação do segundo homem e voltei a pôr a pasta no sítio, com as coisas referentes a Horatio ainda dentro dela.

Por sorte, um táxi passou, e após eu esticar o braço ele parou.

- Para onde? – Perguntou o taxista.

- Hum… só um segundo – comecei a ler a informação, e tenho que admitir que saber a morada actual de Ted não me deu confiança nenhuma. Disse ao taxista onde se dirigir, e assim começámos a nossa viagem.

Quando chegámos, paguei-lhe e saí do carro, observando um Hospício com um estado bastante agradável, na verdade. Acho que temos sempre uma ideia de um prédio a degradar-se por causa dos filmes de terror, mas este até está bonito. Está pintado de branco e tem vários canteiros de flores plantados. Mas sabia perfeitamente que quando entrasse o espectáculo ia mudar. Infelizmente, Hospícios são dos sítios mais assombrados de todos os outros edifícios. Hospícios e Hospitais.

Tomei uma golfada de ar e comecei a dirigir-me ao interior do edifício, onde me dirigi até um balcão que lá estava. Informei o senhor que lá estava que queria falar com Ted, e ele disse-me em que quarto o encontrar e deu-me as direcções. Todo o caminho evitei olhar para fantasmas, mas às vezes era impossível. Havia de tudo, desde palhaços a pessoas perfuradas a arrastarem-se de um lado para o outro. Um verdadeiro circo de horrores. Quando finalmente cheguei à porta do quarto de Ted, bati e depois de esperar um pouco, entrei. Ele não me tinha respondido, mas estava no quarto. Estava a olhar pela janela, e quando me aproximei dele posso jurar que tinha o olhar vazio.

- Ted – Chamei. Mas ele não me olhou – O meu nome é Nikki. Acredito que trabalhaste por poucos dias no caso do meu irmão, Hugh Conrad. Lembras-te? – Ele não teve reacção – Ted por favor, diz qualquer coisa. Porque é que estás aqui?

- Loucura – murmurou.

- Porque é que dizem que és louco? – Perguntei.

- Os borrões – suspirou, levando a mão à cabeça para a coçar freneticamente – Os borrões! – Gritou – Negros, manchas, dor, angustia, desespero… mal.

- Tu vês os borrões? – Ele estava a ficar exaltado e agora andava rapidamente por todo o quarto, enquanto insistia em se coçar, por vezes nos braços, outras vezes na barriga, ou então na cabeça – O que são Ted? Podes-me dizer, eu acredito em ti.

- Não! – Gritou – Eles avisaram-me… que tu virias.

- Quem? Os borrões? Ted…

- Ah! – Gritou. Um grito de dor. Encolheu-se todo e gritou mais ainda – Afasta-te… afasta-te!

- Acalma-te Ted – pedi, aproximando-me mais dele.

- Não! – Gritou, dando-me um empurrão que me fez ir até à cama – Estão aqui. Pessoas. Elas sussurram, e mentem, mas dizem a verdade, mas enganam.

Ele não fazia nenhum sentido. Talvez estivesse mesmo louco. Talvez não fosse nada a ver com o caso do meu irmão, se calhar apenas… enlouqueceu.

Mesmo assim, olhei em volta e não vi ninguém.

- Não está aqui ninguém Ted, só tu e eu – garanti.

- Não! Eu não disse nada! Não disse nada! – Gritou. Não parecia estar a falar comigo.

- Ted! – Tentei fazê-lo dar-me atenção, mas foi em vão.

E depois mudei de ideias. Mudei de ideias quando vi um móvel voltar-se ao contrário sem ninguém lhe tocar, e abrir-se uma gaveta das da mesa-de-cabeceira, de onde uma corda saiu sozinha e se atou no varão do cortinado, e a outra ponta se enrolou ao pescoço de Ted, começando a puxar até ficar pendurado. Retirando-lhe o oxigénio aos poucos. Mudei de ideias quando percebi que ele não tinha enlouquecido. Alguma coisa estava a fazer-lhe isto. Alguma coisa relacionada com o que aconteceu a Hugh. Conseguia sentir isso.

Tentei soltar Ted, mas foi em vão, e aos poucos vi a vida escapar-se pelos seus olhos e senti os seus últimos tremores.

Quando acabou, afastei-me do corpo a tremer do choque, e depois vi um corte a ser feito no vidro de uma moldura.

- Quem está aqui? – Perguntei. Havia pânico na minha voz. Não conseguia perceber o que passava. Eu conseguia sentir fantasmas, mesmo que não os visse. E agora cá estava eu, e não sentia absolutamente nada, e muito menos via – Quem está aqui?!

A única resposta que obtive foi um jarra estilhaçar-se, e isso foi o suficiente para me fazer correr para fora do quarto e pelo corredor até chegar à entrada. Disse ao senhor de há pouco que o Ted estava morto, depois de ele me ter acalmado e de me ter dado uns três copos de água, e disse-lhe que ia chamar a polícia. Rick. Iria chamar Rick.

Quando o FBI chegou, primeiro vi Marty, que se dirigiu a mim e me observou. Eu estava sentada numa cadeira, ainda a tremer ligeiramente. Aquele espectáculo nunca me sairia da cabeça.

- Estás bem? – Perguntou Marty. Abanei a cabeça e engoli em seco, mas depois lembrei-me que ele não sabia. Não sabia de nada.

- Vou ficar bem – garanti-lhe.

Ele assentiu e sorriu-me.

- O Rick vem já aí atrás. Eu vou ver a vítima, ele vai recolher o teu depoimento – concordei com a cabeça e o senhor da entrada começou a conduzir Marty até ao quarto. Vi Rick segundos depois, andou apressado até chegar a mim, e olhou-me com preocupação.

- Desculpa – pedi – Eu vi as informações no teu carro e tive que vir. Rick, eu…

- Não faz mal. O que aconteceu? Estás bem? Estás magoada? – Abanei a cabeça, e ele sentou-se ao meu lado, agarrando nas minhas mãos. Só ao sentir o calor da sua pele é que reparei que eu estava completamente gelada – Conta-me tudo. A versão do polícia Nikki.

- Suicídio – afirmei – A versão do polícia é suicídio Rick. Tal como o Horatio. As outras pessoas associadas ao caso, suicidaram-se?

- E sofreram acidentes descuidados. E a tua versão? – Perguntou.

- Havia alguma coisa lá connosco. Naquele quarto, alguma coisa… má.

- Era um fantasma?

- Não sei – ele olhou-me mais directamente, e eu suspirei – Eu não vi nada, e não senti a presença de um fantasma, mas senti… a morte. Nunca tinha sentido nada assim antes Rick, foi tão… aterrorizante. A corda enrolou-se ao pescoço do Ted e amarrou-o Rick, ele não fez nada. E antes, ele parecia estar a falar com alguém, a garantir que não me tinha contado a nada.

- Fazes ideia a quem?

- Aos borrões – murmurei. Só podia ser – Os borrões que levaram o meu irmão.

- Nikki ouve… - ele suspirou e saiu da cadeira, pondo-se de cócoras à minha frente, enquanto ainda me agarrava as mãos – talvez… talvez devêssemos afastar-nos um pouco do caso. Não quero que te magoes à procura de uma coisa que podemos nunca encontrar Nikki. Afasta-te, tenta superar… por agora, dá um tempo para a poeira assentar.

- O quê? Não. Não vou esquecer o meu irmão Rick. Nunca vou esquecer aquele dia. Não me podes pedir isso – disse-lhe, já com a voz mais firme.

- Não digo para esqueceres. Peço-te que tenhas paciência. Eu não quero que morras Nikki, e para isso não te podes pôr no caminho destes… borrões. Obviamente não têm qualquer problema em livrarem-se de pessoas. Vais-te zangar se te perguntar uma coisa?

- Depende… o quê?

- Já consideraste a hipótese de o teu irmão estar morto? – Engoli em seco. Sim, já tinha pensado nisso. Mas tinha a certeza que ele estava vivo.

- Ele não está morto – disse-lhe, com certeza.

- Como é que podes ter a certeza?

- Se ele estivesse morto, procurar-me-ia. Além disso, o Frank procurou por todos os lados por ele.

- O Frank…?

- Morto. Fantasma – ele assentiu com a cabeça – Ele não está morto Rick. E eu quero encontrá-lo.

- E eu quero ajudar-te. Mas para isso preciso que estejas viva.

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