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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 09.09.11

Capítulo 6 (parte 1)

Presos em Nenhures

 

Espreguicei-me na cama e dei mais uma volta. Estava-se bem por baixo das mantas e do cobertor, sentia-se calor, ao contrário do que ia acontecer assim que arranjasse coragem para me levantar e enfrentar o primeiro dia de Dezembro. Este ano estava mais frio do que me lembrava, mas também já não voltava a Washington DC há tanto tempo, como é que me posso lembrar das coisas como realmente eram?

Respirei fundo e destapei-me, sentindo logo um friozinho atravessar-me o corpo. Levantei-me e vesti o meu roupão, para em seguida ir até à janela e abri-la. Assim que o fiz, observei as nuvens. Ia nevar, de certeza. Podia não ser ainda hoje, mas não faltava muito tempo.

Dirigi-me ao roupeiro e tirei umas calças de ganga com pêlo por dentro, e uma camisola de lã, para vestir depois do banho, e depois dirigi-me à casa de banho para me despachar. Tinha prometido que hoje ia ajudar Eleanor, a mãe de Rick e Sheilla, a arrumar umas coisas que tinha espalhadas na garagem.

Distraí-me do tempo enquanto estava com aquele manto de água quente a cobrir o meu corpo, e o deixava absorver todo o calor. Eu nunca me dei bem no Inverno, sou demasiado friorenta. Verão sim, é do melhor que há. As roupas frescas… sandálias… vestidos… que saudades. Em vez disso, sou obrigada a vestir calças até a baixo, blusas quentíssimas, e botas com pêlo para que os meus pés não gelem.

- Ganha coragem Nikki, vá – exigi-me, enquanto me mentalizava que tinha que sair da banheira e enfrentar o frio da manhã.

Respirei fundo e saí, embrulhando-me numa toalha que me dava abaixo do joelho, dirigindo-me rapidamente até ao quarto onde tinha a minha roupa à espera. Vesti-me e depois calcei umas botas por cima das calças, castanhas, de salto raso. Voltei à casa de banho, onde enxuguei o cabelo e o penteei, e depois apliquei um pouco de maquilhagem bastante suave.

Desci as escadas e quando estava a aquecer o leite para beber a acompanhar as torradas, o meu telemóvel tocou. Corri até à sala, e apanhei-o do sofá, onde estava.

- Estou? – Atendi sem ver.

- “Nikki, olá”.

- Quem fala?

- “Marty. Marty Kohl… FBI?”

- Oh! Desculpa. O que foi?

- “Queria saber se sabes do Rick, ele ainda não apareceu no trabalho, e como vocês têm andado tão amigos, pensei que talvez soubesses alguma coisa dele”.

- Não… mas já lhe tentaste telefonar?

- “Sim, vai directo à caixa de mensagens” – Ouvi um suspiro – “Não te preocupes, provavelmente não é nada, deve ter adormecido. Obrigado Nikki”.

- Claro. Se souberes alguma coisa telefona-me.

- “Sim, eu telefono. Adeus”.

- Adeus.

Desliguei o telemóvel e suspirei também. O que é que Rick estaria a fazer desta vez?

Os meus pensamentos foram interrompidos por um cheiro a queimado. As torradas. “Eu odeio o Inverno”, resmunguei interiormente.

Depois de estar completamente despachada, vesti o casaco mais quentinho que tinha, um castanho da cor das botas, com pêlo, e saí de casa, indo em direcção à de Eleanor.

Pensei em perguntar-lhe pelo filho, mas depois ela ia perceber que algo estava mal, e ia ficar numa pilha de nervos.

Afastei essas ideias, e bati à porta, que ela abriu segundos depois com um enorme sorriso.

- Nikki! – Exclamou, dando-me dois beijinhos – Fico-te tão agradecida. A Sheilla e o Rick estão sempre ocupados, sou sempre só eu, e a idade já não dá para tudo, não é verdade?

- Não tens que me agradecer Eleanor – sorri-lhe e entrámos, indo logo em direcção à garagem, onde me ia dando um ataque de coração quando vi a quantidade de caixas que lá estavam.

- Acho que está na hora – murmurou ela, mexendo numa chave de fendas e acariciando-a com as mãos. Por trás dela, vi Albert aparecer, e cumprimentei-o com a cabeça, como também ele me fez – As ferramentas do meu marido são para encaixotar, tal como algumas das coisas de quando a Sheilla e o Rick eram pequenos, e que os meus netos não dão uso.

- Então está na hora de pormos mãos à obra! – Exclamei, fazendo-a sorrir. Mas notava que ela estava triste por estar a guardar as coisas do marido, como se fosse mudar alguma coisa, por isso cheguei ao pé dela e agarrei-me na mão – Eleanor, não é arrumar umas míseras ferramentas que te vai fazer esqueceres-te dele. Ele vai estar sempre contigo. Sempre esteve.

- Bem que podes dizer isso outra vez – ouvi Albert dizer.

- Eu sei minha querida, eu sei – disse ela, sorrindo-me de novo – Vamos lá começar então.

Durante duas horas Eleanor esteve comigo a arrumar as coisas, e Albert não nos abandonou dois segundos, mas depois a hora do almoço começou a aproximar-se, e Eleanor foi para a cozinha, deixando-me com o falecido marido.

- Sinto falta de conversar – murmurou Albert, fazendo-me dirigir-lhe mais atenção.

- Agora é a altura perfeita para isso – garanti, sorrindo-lhe, enquanto metia umas bonecas da Sheilla dentro de uma das caixas de papelão.

- Gostava que eles me conseguissem ouvir. Todos eles – Desabafou.

- Bem, se quiser, posso-lhes dizer alguma coisa. O Rick já sabe que vejo fantasmas, tenho a certeza que o consigo fazer ouvir.

Ele abanou a cabeça, e eu deixei o que estava a fazer e fui para a sua beira, encostando-me à parede.

- E trata-me por “tu” – disse ele, sorrindo-me – Fazes isso com a minha mulher, não me venhas com respeitos porque estou morto.

- Estás a gozar? Eu vejo pessoas mortas todos os dias. Tu não és especial – brinquei, fazendo-o rir – Mas Albert, porque é que não queres que fale com eles?

- Os meus últimos dias, bem… foram… atribulados. Sempre discuti bastante com o meu filho, mas chegámos a um momento em que foi insuportável. A minha mulher chorava noite e dia, e a minha filha continuava a fazer-se de forte, mas algumas vezes vinha-se a baixo. E depois uma noite, a minha última noite, o Rick e eu discutimos, foi feio…

- Sobre o que é que discutiram?

- Ele disse-me que eu fui egoísta em não ter dado uma oportunidade aos tratamentos. Disse que estava a matar a sua mãe, aos poucos, por a fazer cuidar de mim noite e dia. Disse que eu… - suspirou e olhou para chão – disse que eu estava melhor morto.

- E depois morreste – murmurei.

- Não antes de lhe dizer que ele era um mau filho. Que punha a carreira em frente à família. Que nunca seria feliz porque nunca ninguém quereria ficar com um homem que dá mais atenção aos criminosos que persegue que à mulher com quem está. Já tinha acontecido antes. As relações dele acabam sempre porque ele é demasiado ocupado, não tem tempo para mais nada além do trabalho. Nós acusámo-nos mutuamente, e… encontrei as minhas últimas forçar para lhe bater – engoli em seco.

- Ele é uma pessoa Albert – disse-lhe.

- Eu sei disso agora. Eu sei disso. Mas ele tinha razão, em vida, eu era egoísta. Sempre pus as minhas ideias à frente das necessidades dos outros. Eu era uma má pessoa, e a Eleanor nunca me deixou.

- Tenho a certeza que ele disse metade das coisas da boca para fora, ele raramente fala de ti, mas quando fala, eu vejo um brilho nos seus olhos. És o pai dele, ele ama-te. – Ele sorriu-me, ainda que um sorriso pequeno – Não sei, talvez seja por nunca ter tido uma figura paternal mas… posso ver que também o amas.

- E amo – sorriu de novo – Eu lembro-me que quando vocês eram pequenos, tu costumavas vir brincar para aqui, e ele estava sempre a chatear-te – ri-me também – E eu soube que tu irias ser muito especial. Mas depois desapareceste.

- Pois. E agora voltei.

- E ele parece não te chatear tanto – ambos nos rimos.

- Oh, ainda chateia de vez em quando. Albert, tenho que te pedir uma coisa… eu acho que ele pode estar numa embrulhada qualquer.

- Como assim?

- Não sei. Mas ele não está em casa, não atende ao telemóvel, ninguém sabe onde está. Preciso que vás a ele e descubras onde está.

- Mas eu não sei onde ir – afirmou.

- Sim, mas… és um fantasma. Podes seguir sentimentos, emoções, qualquer coisa. Ele é teu filho, não há maior ligação que essa. Tu podes encontrar o caminho.

- E quando o encontrar?

- Voltas e dizes-me. Só espero poder ajudar.

Albert concordou, e enquanto eu fui almoçar com Eleanor, ele foi procurar o filho. Ele não está habituado a sair de casa, está sempre aqui fechado, a observar a mulher, a fazer-lhe companhia ainda que ela não o saiba, e por isso compreendo que seja mais difícil para ele, do que para Frank por exemplo, encontrar uma pessoa. Mas eu tenho fé nele, sei que é capaz de encontrar Rick.

Depois de comermos, ofereci-me para lavar a loiça enquanto Eleanor regressou às arrumações na garagem, e foi aí que Albert voltou a aparecer.

- Não é bom – afirmou-me. Engoli em seco. Não que não esperasse uma má notícia, já esperava. Mas isso não quer dizer que estivesse preparada para receber uma confirmação – Está a ser mantido preso numa cave, longe.

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