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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 13.09.11

Capítulo 7 (parte 1)

Fogo Posto

 

Abri os olhos lentamente e suspirei. Tinha adormecido no sofá, toda torta, e com uma manta por cima para não congelar. Mas no entanto, sentia calor. Demasiado calor. Era como se fosse sufocar, como aquelas ondas de calor abrasador que vêm no Verão de um momento para o outro. Tirei a manta de cima de mim e levantei-me, enquanto me abanava com uma revista. Eu não estava bem, isto não era normal. Comecei a ver as coisas turvas, custava-me imenso a respirar. Cambaleei até à cozinha e liguei a água da torneira do lava loiça, passando em seguida pela cara. Aliviou, mas não fiquei inteiramente bem. Quando me voltei, ainda agarrada à bacia, aí sim parei de respirar. Era como se o ar não entrasse, e o que entrava, fazia-me tossir. Cheirava-me a queimado, mas nada ardia. De súbito vi uma figura aparecer a poucos centímetros de mim. Não conseguia distinguir se era um homem ou uma mulher, apenas que a pessoa estava toda queimada. Tinha um rosto indecifrável, mas os seus olhos azuis sobressaíam. Comecei a sufocar, agora a sério, e a perder as forças, até me deixei cair no chão e levei as mãos à garganta.

- Por favor – implorei.

- Tudo arde – anunciou. Não consegui perceber bem à primeira, a sua voz era como se tivesse interferências, coisa que era bastante regular nos fantasmas – Tudo arde.

- O quê… - não consegui finalizar a pergunta. Perdi os sentidos, não aguentei o calor, fiquei sem oxigénio. Senti o meu corpo a embater com força contra o chão, e comecei a fechar os olhos. Desmaiei.

Quando acordei levei a mão à testa. Estava toda transpirada. Não sei quanto tempo estive desmaiada, mas já tinha amanhecido, por isso ainda deve ter sido bastante. Continuava a ferver e a transpirar por tudo quanto é sítio.

Levantei-me ainda com poucas forças e arrastei os pés até às escadas, subindo-as, e depois até à casa de banho, onde enchi a banheira com água fria. Livrei-me da roupa que tinha e pu-la na cesta para lavar, e depois deitei-me na banheira. Nem sequer senti frio.

- Incrível – murmurei – Estamos no princípio de Dezembro e eu cheia de calores.

Apenas estive bem enquanto tive o corpo submerso, pois assim que saí de dentro da banheira, comecei novamente a sentir aqueles calores horríveis. Claro que eram originados pelo fantasma, foi a maneira que arranjou de comunicar comigo, mas podia ter arranjado uma outra que fosse melhor.

Vesti uns calções curtos e uma blusa de alças, e continuei cheia de calor. Olhei para a rua, pela janela. A estrada estava branquinha, várias pessoas bem agasalhadas desviavam a neve para as bordas, para que os carros se pudessem movimentar. Suspirei.

- Olá? – Chamei – Estás aí? Desculpa, não sei o teu nome. Se fores o fantasma que quase me sufocou ontem à noite, por favor aparece. Quero falar contigo. Posso ajudar.

Nada. Como resposta apenas obtive silêncio. Perfeito, ele não me ia facilitar a vida.

Liguei o meu computador portátil e levei-o para a mesa da sala de jantar, onde me pus a pesquisar sobre incêndios recentes. Claro que apenas encontrava notícias de jornais, e infelizmente a maior parte não me sabia dizer o nome das vítimas e muito menos me mostrava alguma fotografia. Olhos azuis. Era tudo o que tinha sobre o fantasma.

Estiquei-me até ao meu telemóvel, que repousava sobre a mesa-de-cabeceira, e pus a chamar.

- “Que surpresa tão bonita” – atenderam.

- Preciso da tua ajuda – proferi, abanando-me mais com a revista. Isto estava insuportável.

- “Está tudo bem?” – Rick soava preocupado, consigo perceber isso.

- Sim, só… - mordi o lábio, ele nunca concordaria com isto – preciso que vejas uma coisa nos ficheiros do FBI…

Silêncio. Tudo bem, esta ideia deve ter sido das piores de sempre.

- “Porquê?” – Perguntou.

- É uma coisa de um fantasma, e eu preciso de descobrir urgentemente quem ele é, porque estou a ferver e se não o ajudar ele não me deixa em paz, e eu não vou aguentar isto durante muito tempo.

- “Isto o quê? Nikki, o que é que se passa?”

- Rick, consegues fazer a pesquisa ou não? Um incêndio com pelo menos uma vítima. Não sei se foi posto ou foi acidental.

Ouvi-o respirar pesadamente, e suspirei. Precisava de outro banho.

- “Vem ter comigo à hora do almoço ao FBI, e depois de me explicares tudo, recebes a tua pesquisa”.

- Isso é perfeito. Obrigado.

Desliguei a chamada e fui tomar o pequeno-almoço. Não me apeteciam torradas, e muito menos um café quente ou algo do género. Por isso bebi um sumo de laranja, que tinha um frigorífico, e comi umas bolachinhas.

O resto do tempo foi passado em frente a ventoinha, coisa que nunca pensei fazer em pleno Inverno.

Quando a hora do almoço de aproximou, mudei de roupa novamente porque já estava toda transpirada. Vesti outros calções e uma blusa cai-cai, laranja, e calcei uns ténis. Apesar de me aquecerem os pés, não me podia esquecer que havia neve lá fora, certo?

Pus as minhas coisas numa mala preta e saí de casa, para me enfiar no meu carro logo em seguida. E liguei o ar condicionado, já não podia com o calor. Maldita altura em que os fantasmas se lembram de me passar sintomas ou de me fazerem sentir o que sentiram na altura da morte.

Conduzi até ao prédio do FBI, e estacionei. Quando saí do carro senti-me aliviada, o ventinho frio que passava por mim refrescava-me um pouco, ainda que minimamente.

Enquanto caminhava para entrar no prédio, via as pessoas a olharem para mim e a comentarem, mas acho que se vestisse algo mais quente rebentava. Fui de elevador até ao andar de Rick, e depois espreitei para o seu escritório, mas não o vi lá, por isso achei melhor esperar quieta. Os meus olhos começaram a divagar pela sala, e pararam numa máquina de bebidas. Garrafa de água. Precisava de uma garrafa de água. Fui até à máquina, introduzi as moedas, e a garrafa caiu logo de seguida. Assim que a agarrei senti-me aliviada. Estava fresquinha, bastante fresquinho. Bebi uns quantos goles e depois encostei-a ao meu pescoço, para me refrescar. Sabia tão bem…

- Nikki? – Voltei-me para trás e vi Rick, a olhar para mim feito parvo – Que raios é que estás a fazer?

- Eu explico tudo ao almoço – afirmei – Mas agora podemos sair daqui? Isto mais parece um forno.

- Não tens frio? – Ele ia dar-me o casaco, mas eu parei-o a tempo.

- Acredita, tenho é calor. Vamos embora, eu já explico – supliquei.

- Ei! Vão fazer alguma coisa de útil, sim? – Gritou ele, para trás de mim. Olhei para esse sítio e vi vários homens a observar-me de maneira estranha. Tudo bem, eu sei que estou com roupa de Verão em pleno Inverno, mas já chega – Vamos lá então.

Assim que saímos para a rua, respirei de alívio, e Rick olhou-me da mesma maneira que todas as outras pessoas olhavam: como se me achasse maluca.

Rick guiou-me até um café/restaurante duas ruas abaixo do prédio do FBI, com um aspecto bastante rústico. Sentámo-nos na mesa junto à janela, um em frente ao outro.

- Vais-me explicar porque é que estás assim vestida? – Perguntou-me ele.

- Boa tarde – ouvi, do meu lado esquerdo. Dirigi para lá o olhar e vi uma mulher com os trinta e poucos anos, a agarrar num bloco pequeno, e com um aventar branco à cintura – Estão prontos para pedir?

- Eu quero um hambúrguer – respondi, sorrindo à mulher.

- Podem ser dois – disse Rick.

- Dois hambúrgueres… e para beber? – Perguntou a mulher, enquanto apontava o pedido no seu bloco.

- Uma Coca-Cola – afirmei.

- E um copo de água – ambas, eu e a mulher, olhámos para Rick desconfiadas, e ele suspirou – Não sou amante de sumos, e estou em serviço, por isso não posso beber nada com álcool, certo?

- Muito bem – disse a mulher, que se foi afastando aos poucos.

- Fizeste o que te pedi? – Perguntei, inclinando-me sobre a mesa, na sua direcção.

- Talvez… vais-me explicar a razão por andares quase nua em pleno Dezembro? – Retorquiu-me, inclinando-se também.

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