Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 16.09.11

"- Boa tarde – ouvi, do meu lado esquerdo. Dirigi para lá o olhar e vi uma mulher com os trinta e poucos anos, a agarrar num bloco pequeno, e com um aventar branco à cintura – Estão prontos para pedir?

- Eu quero um hambúrguer – respondi, sorrindo à mulher.

- Podem ser dois – disse Rick.

- Dois hambúrgueres… e para beber? – Perguntou a mulher, enquanto apontava o pedido no seu bloco.

- Uma Coca-Cola – afirmei.

- E um copo de água – ambas, eu e a mulher, olhámos para Rick desconfiadas, e ele suspirou – Não sou amante de sumos, e estou em serviço, por isso não posso beber nada com álcool, certo?

- Muito bem – disse a mulher, que se foi afastando aos poucos.

- Fizeste o que te pedi? – Perguntei, inclinando-me sobre a mesa, na sua direcção.

- Talvez… vais-me explicar a razão por andares quase nua em pleno Dezembro? – Retorquiu-me, inclinando-se também."

 

Capítulo 7 (parte 2)

Fogo Posto

 

 

- Quase nua? Eu estou perfeitamente vestida – defendi, ao que ele revirou os olhos – Estás com inveja Rick? Não queres que os outros homens me vejam? – Brinquei, sarcástica, fazendo-o soltar uma gargalhada.

- Sabes que mais? Nem me importo. Podes ficar com a pesquisa – afirmou, tirando umas folhas dobradas de dentro do casaco do fato.

Agarrei nas folhas e desdobrei-as. Não eram muito poucas, e tinham várias fotografias.

- Um fantasma veio a mim ontem à noite. Foi… ardente, tipo literalmente – Comecei.

- O que é que queria? – Perguntou-me.

- Justiça, talvez. Pela maneira como estava, assumi que morreu num incêndio. E para estar tão chateado como está, não deve ter sido acidente nenhum.

- Como é que sabes se está chateado?

- Os fantasmas têm várias energias. Tristemente, raiva é a mais poderosa. Ele nunca teria o controlo sobre aquilo que sinto, se não estivesse tão poderoso.

- Sobre o que sentes?

- Rick, pensa um pouco. O homem morreu num incêndio, e eu estou com roupa de Verão em pleno Dezembro. Isso não te diz nada?

- É como se estivesses a sentir o calor do incêndio – murmurou, como se tivesse acabado de desvendar a última parte do enigma. – Mas o que é vais fazer agora?

- Descobrir quem é… quem começou o fogo, porquê… e depois falar com ele, acho. Tentar fazer com que fique em paz.

- E depois o que acontece?

Encolhi os ombros e sorri.

- Não sei… alguns vão embora, outros desaparecem para sempre… a verdade é que ninguém vivo pode dizer ao certo, e aqueles que morrem e passam por isso, nunca voltam para dizer. É uma pergunta impossível de obter resposta Rick.

- Como é que descobriste tudo isto? – Ele parecia surpreendido.

- É quem eu sou Rick, tenho vivido assim praticamente toda a minha vida, vou obtendo alguns conhecimentos à medida que cresço.

- E como é que vais identificar o fantasma?

- Ele tinha estes olhos azuis… tudo o resto estava queimado, mas os olhos… só espero que não hajam muitos nestas fotografias.

A comida veio, e enquanto comíamos íamos vendo as fotografias. Rick tinha as datas dos incêndios, os locais, e as fotografias das vítimas. A selecção foi fácil, olhos azuis para um lado, olhos de qualquer outra cor para outro. Complicou-se quando ficámos com três pares de olhos azuis.

- Tenho que voltar para o FBI – disse Rick, enquanto se levantava da cadeira.

Discutimos pela conta do almoço. Sim, porque ele queria pagar tudo, e eu defendi que devíamos pagar metade cada um, visto que ambos comemos. Mas perdi essa batalha, ele é demasiado teimoso e eu estou com demasiado calor.

Acompanhei-o até à porta do prédio do FBI, e quando estávamos prestes a separarmo-nos, vimos Marty vir na nossa direcção, acabado de passar a estrada.

Ele olhou para mim e assobiou, sorrindo e fazendo uma cara estranha ao mesmo tempo.

- O que é que te deu? – Perguntou, abraçando-me. “Oh Deus, que calor”, resmunguei, interiormente. Quando me largou, sorri-lhe e comecei a abanar-me com as folhas da pesquisa de Rick – Sabes que calores são sinais de menopausa, certo?

- O quê?! – Perguntei, dando-lhe com as folhas em seguida – Não sejas idiota Marty.

- É um facto – defendeu-se, rindo que nem um perdido – Ei… - aproximou-se mais de mim e agarrou-me numa mecha de cabelo – isto é um cabelo branco?

- Oh, pára! – Resmunguei, dando-lhe um empurrão devagar e começando a andar para trás – Tenho mais que fazer do que te aturar.

- Tu adoras-me! – Gritou-me, quando já estava mais afastada.

- Depois diz-me qualquer coisa – Gritou-me Rick.

- Combinado – retorqui-lhe, ignorando Marty por completo. Agora que o conheço melhor, consegui perceber que aquele papel de durão e mau só funciona a sala de interrogações, que fora dela é apenas mais uma criança grande que só está bem a contar piadas e a gozar. Mas tenho que admitir que gosto de me meter com ele de vez em quando.

No meu carro dirigi até ao local mais próximo onde tinham havido os fogos, e vi que continuava abandonado. Primeiro iria verificar os outros locais, e apenas se nenhum deles estivesse a ser remodelado ou algo do género, é que iria começar a pesquisar as famílias dos falecidos. Às vezes o simples facto de o sítio onde morreram ser aberto ao público de novo, pode fazer os fantasmas despertarem e revoltarem-se, já aconteceu várias vezes.

Decidi ir então ao segundo local, um antigo restaurante chinês. Mas não me pareceu sentir qualquer tipo de vibração estranha ou sobrenatural. Parecia tudo normal.

Quando estava à procura de um sítio onde estacionar o carro, ao pé do terceiro local, uma loja de artigos antigos, notei que ela já estava completamente reconstruída, e com um sinal a dizer “Aberta em Breve”. Tem que ser o fantasma ligado a esta loja, só pode ser ele.

Estacionei o carro e observei bem a face do homem, que estava impressa numa das folhas que Rick me dera. Cabelos claros, olhos azuis.

Se este não for o “meu” fantasma, não sei o que mais posso fazer.

Vi também na folha que a morada da esposa e do filho de Garret, o homem que espero ter visto, é aqui perto, por isso decidi continuar a pé.

Procurei nas várias portas pelo número certo, e quando o encontrei, toquei à campainha e respirei fundo.

- Sim? – Perguntou-me uma mulher algo mais velha que eu, ao mesmo tempo que abriu a porta.

- Olá, desculpe o incómodo – apressei-me logo a dizer – O meu nome é Nicole, por acaso era a mulher do Garret Reis?

- Sim – murmurou ela – O que posso fazer por si?

- Estava a pensar se podia falar consigo um pouco sobre o seu marido.

- Falecido marido – corrigiu-me, com uns olhos tristes.

- Lamento – afirmei, antes de passar para dentro da casa.

- Sente-se – pediu, apontando para o sofá. Eu obedeci, e ela olhou-me de alto a baixo – Não tem frio?

- Não – respondi rapidamente – Ouça… - e apenas aí percebi que não sabia o nome dela.

- Jamie – apresentou-se.

- Jamie… pode-me falar sobre o fogo na noite em que o Garret…

- É da polícia? Porque se é, eu já disse tudo o que tinha a dizer.

- Não – sorri-lhe – Não sou da polícia. Pode-me apenas falar sobre isso?

- Tínhamos acabado de fechar a loja, mas o Garret esqueceu-se do telemóvel lá. Ele andava desorientado com uns problemas. Enfim, voltou lá com o Carl e foi quando aconteceu. A polícia declarou fogo suspeito, mas nunca se chegou a provar nada.

- Quem é o Carl? – Perguntei.

- O meu irmão. E também sócio da loja. E em caso de se estar a perguntar, não, não o matou. O Carl nunca conseguiria fazer isso.

- O Carl nunca conseguiria fazer o quê? – Perguntou um homem alto, de pele muito clara e cabelo muito escuro, que tinha acabado de entrar pela porta.

- Já chegaste – constatou Jamie – Carl, esta é a Nicole. E Nicole, este é o meu irmão.

- Posso falar consigo? – Perguntei, directamente para Carl. Jamie defendeu-o com uma garra incrível na voz, como se a sua vida dependesse disso. O seu marido deixou-lhe um filho pequeno, e a única ajuda que provavelmente tem é o irmão. Por isso o que aconteceria se ele também desaparecesse… digamos, para a prisão?

- Claro, sobre o quê? – Perguntou-me ele.

- Jamie, obrigadíssimo – proferi, voltando-me para ela – Com sorte, nunca mais a incomodo outra vez. Carl, podemos ir dar uma volta?

- Eu…

- É rápido – afirmei.

- Rápido – disse ele, num tom de condição. Assenti com a cabeça e levantei-me, dirigindo-me à porta. Já estava a ferver, Jamie tinha a lareira acesa. Carl fechou a porta, e começámos a andar em silêncio, sempre com ele a olhar-me de lado.

Olhei para o céu, o sol já estava a começar a descer.

- Quem és, de novo? – Perguntou ele.

- Nicole – respondi.

- E onde é que queres que vá?

Parei e voltei-me para ele e apenas aí reparei que envergava apenas uma camisa fina, com os dois primeiros botões desabotoados e as mangas dobradas.

- Por acaso tens sentido ondas de calor? – Perguntei, directamente.

- Desde o incêndio. Desconfio que seja por isso que aqui estás – afirmou, pondo as mãos nos bolsos.

 

Desculpem a demora, espero que tenham gostado ^^

15 comentários

Comentar post