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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 18.09.11

"Olhei para o céu, o sol já estava a começar a descer.

- Quem és, de novo? – Perguntou ele.

- Nicole – respondi.

- E onde é que queres que vá?

Parei e voltei-me para ele e apenas aí reparei que envergava apenas uma camisa fina, com os dois primeiros botões desabotoados e as mangas dobradas.

- Por acaso tens sentido ondas de calor? – Perguntei, directamente.

- Desde o incêndio. Desconfio que seja por isso que aqui estás – afirmou, pondo as mãos nos bolsos."

 

 

Capítulo 7 (parte 3)

Fogo Posto

 

- Acreditas em fantasmas, Carl?

Ele soltou uma gargalhada.

- Claro, e no Pai Natal – gozou.

- Preciso que me contes o que se passou naquela loja. Não sou polícia, e não vou julgar. Mas preciso que não me mintas.

- Porquê?

- Porque eu posso fazer com que o calor passe.

- A Jamie não pode saber disto – afirmou, vários momentos depois, voltando-se de frente para uma montra de uma loja de electrodomésticos. Aproximei-me dele e prestei atenção a cada palavra que lhe saía pela boca. Nestes casos consigo notar quando uma pessoa mente, consigo aperceber-me das emoções e nele apenas notava tristeza, nada mais. Estava a contar a verdade.

Agradeci e afastei-me com a promessa de que faria tudo o que pudesse para fazer que a onda de calor se afastasse. Agora sabia porque Garret também o estava a influenciar.

Enquanto ia a andar até à antiga loja onde tudo aconteceu, senti o meu telemóvel começar a vibrar no bolso dos calções, e deitei-lhe a mão antes de começar a tocar.

- Já com saudades? – Brinquei, ao atender.

- “Já me conheces” – respondeu Rick, rindo-se – “Fechámos o caso, posso ir ter contigo”.

- Não é preciso, acho que o encontrei – afirmei – Com sorte, estou em casa em menos de uma hora.

- “Bolas, e eu aqui para nada” – resmungou ele.

- Aqui onde? – Perguntei, olhando em volta.

- “Que tal parares de olhar para trás e veres para onde estás a andar?” – Olhei para a frente e ri-me, ao vê-lo parado em frente à porta da loja de Carl e, agora, Jamie.

- Como é que descobriste? – Perguntei, alargando a passada para chegar mais depressa ao pé dele, e desliguei o telemóvel.

- Sou um agente do FBI – fingiu-se ofendido, e eu dei-lhe uma pancadinha no ombro, fazendo-o rir-se – Pensei que com todo o tempo que já tiveste, já estavas no fim da lista. Além disso, se tivesses já resolvido isto tudo, já me tinhas telefonado a dizer.

- O quê? Porque é que te ia telefonar?

- Para me avisares que estava tudo bem… ah, deixa lá. Na verdade só queria ver como é que fazias essas coisas.

- “Essas coisas”? Queres dizer falar com fantasmas? – Não pude evitar rir perante a sua atrapalhação.

- Sim, isso. E ainda nem acredito que falaste com o meu pai…

- Ouve, se quiseres falar sobre isso…

- Não agora – não me deixou acabar, e voltou a virar-se para a porta da loja – Agora tens outros assuntos a tratar.

Sorri-lhe e baixei-me, tirando a chave suplente da porta de baixo de um vaso, onde Carl me indicara que estaria. Abri a porta e entrámos, fechando-a em seguida.

A loja já estava praticamente pronta para voltar a ser aberta.

- E agora? – Perguntou-me Rick.

- Agora chamamos, e rezamos para que apareça – murmurei-lhe, para em seguida falar mais alto – Garret? Garret, eu sei o que aconteceu. Porque é que não vens até aqui a falamos? Posso ajudar…

- Acho que não está a funcionar – sussurrou-me Rick. Voltei-me para ele e suspirei.

- Não me consigo concentrar contigo a olhar-me assim. Rick, relaxa, para ti vai ser como me veres a falar sozinha – pedi.

Quando voltei a virar-me para a frente, para o balcão da loja, vi um pequeno fio de fumo vir de lá de trás, e nem um segundo demorou até criar faísca e explodir por completo.

 

- Garret – murmurei, entre as paredes de chamas que se criaram na loja.

- Ele fez isto – sussurrou-me uma voz. Tossi por causa do fumo e tapei a boca com o braço. – Ele matou-me.

- Não – afirmei, procurando-o entre o fogo – Não, foi um acidente.

As chamas abriram-se de lá apareceu a mesma figura que vira ontem à noite. Um corpo completamente chamuscado, deixando ver apenas uns olhos brilhantes, muito azuis.

- Não foi um acidente! – Gritou, fazendo com que as chamas de levantassem mais rapidamente.

Eu sabia que isto não era real. Sabia que o fantasma, Garret, me estava a fazer ver isto, mas não deixava de me sentir como se estivesse mesmo no meio de um incêndio. Dei uns passos para trás a tentar evitar ser cercada pelas chamas, e bati contra o balcão.

- Por favor, tenta lembrar-te – pedi, tossindo em seguida – Andavas chateado porque o Carl queria vender a loja. Esqueceste-te do telemóvel e voltaram os dois para o vir buscar.

- E depois ele matou-me! – Gritou, aparecendo de repente ao meu lado direito.

- E depois viste uma pilha de papéis em que ele te implorou para que não mexesses. Mas mexeste. Lembras-te o que eram?

- Contas… - murmurou – Tantas.

- E começaste a pensar no que podias fazer… e não havia nada. Vender a loja não seria suficiente. Terias que vender a casa, o carro… o que aconteceria à tua família? – Agora foi a minha vez de me tentar pôr no seu lugar, de tentar perceber o que lhe passou pela cabeça – Estavas doente, Garret.

- Comecei a sentir-me mal… - disse, baixo.

- E desmaiaste – conclui. – O Carl não conseguiu encontrar o batimento cardíaco, e teve um pensamento rápido. Deitou fogo à loja. Com o dinheiro da indemnização conseguiriam respirar mais folgadamente, e depois aos poucos poderia ajudar a tua mulher e o teu filho.

- Mas eu não tinha morrido – disse ele, num sussurro, enquanto eu via uma pequena lágrima a formar-se em cada um daqueles olhos azuis.

- Não… - murmurei – Acordaste, não acordaste? E viste o fogo, e assumiste que ele o tinha posto para te matar? Estou errada?

As chamas começaram a desviar-se lentamente, mas o calor era demasiado para que conseguisse respirar. Aos poucos estava a perder a força, mas tinha que aguentar, só mais um pouco.

- Ele tentou salvar a tua família – continuei, caindo no chão em seguida – Não sabia que estavas vivo. Lamento tanto.

- Também eu… - afirmou, aparecendo à minha frente – Também eu… não me consegui lembrar, eu…

- Estavas zangado, é normal. Mas agora tens que seguir em frente.

- Lamento… - pronunciou uma vez mais, ao mesmo tempo que as chamas se apagavam e ele voltava a parecer-se com ele, sem estar todo queimado.

- Não faz mal – jurei, enquanto o via ser envolto de luzinhas brancas e aos poucos tornar-se transparente até não o conseguir ver mais.

 

- Nikki! Nicole! – Rick abanava-me descontroladamente, e olhava para mim com preocupação.

- Desculpa – murmurei – Desculpa, ele arrastou-me para uma visão… eu…

- Começaste a gritar, e a transpirar e a tossir… - ele suspirou, largando-me – Assustaste-me mesmo.

Sorri e logo em seguida senti um arrepio gigante percorrer-me todo o corpo.

- Rick – chamei, com a voz a tremer – Estou gelada.

Ele olhou para e abanou a cabeça, para em seguida tirar o seu casaco e pô-lo aos meus ombros. Só é pena que me chegasse apenas à coxa e não me tapasse as pernas nuas por os calções serem curtinhos. Mais um espirro. Estou mesmo a ver que à conta de Garret já apanhei uma constipação. Mas pelo menos já estava tudo acabado.

 

Não sei quando vem o próximo...

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