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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 25.09.11

"Dez minutos após a hora combinada, lá o vi aparecer. Estacionou o carro em frente à minha porta e buzinou, sorrindo-me e acenando-me. Peguei na mala e tranquei a porta. Ele veio-me ajudar a colocar a mala no porta-bagagens, e depois entrámos."

 

Capítulo 8 (parte 2)

Milagre Natalício

 

- Pronta para a viagem? – Perguntou-me, cheio de energia.

Não consegui evitar rir-me.

- Na verdade não – admiti – Acho… acho que se não fosse por ter combinado contigo, já tinha mudado de ideias.

Rick ligou o carro e fez marcha atrás, pondo-nos a caminho.

- Tenho que admitir, não vim contigo só por vir – eu já sabia, havia uma tramóia qualquer. Era simples demais.

- Então porque vieste? – Perguntei.

- Acho que estava curioso em saber mais de ti… desde que desapareceste de Washington até voltares que nunca mais soubemos nada sobre a tua vida. Percebo se não me quiseres contar, mas acho que estava curioso para te conhecer melhor.

Pressionei os lábios com força, este não era um assunto do qual gostasse muito de falar. Mas eu considero-o um amigo, e por isso acho que consigo fazer um pequeno esforço.

- Bem, não foi fácil. Depois de a minha mãe morrer fiquei poucos anos numa instituição, e depois fui para uma família adoptiva. Uma mulher de cinquenta e tal anos e um filho com praticamente a minha idade. Nessa altura já tinha percebido que não era como as outras pessoas, e por isso isolava-me bastante. Houve uma altura em que o meu único amigo era o Frank. De qualquer maneira, a mulher e o rapaz não eram nada amigáveis… ela preocupava-se mais com a bebida e as drogas que com o filho, e ele era… repugnante. Era daquele tipo de rapaz que só pensava em sexo e coisas dessas e cada vez que me tocava eu arrepiava-me toda. Houve uma vez em que se esticou e eu lhe dei um murro, e depois levei um sermão da assistente social porque eles fizeram queixa. Claro que não disseram o porquê. Na escola era basicamente considerada a aberração que falava sozinha e não tinha amigos nenhuns. O meu irmão adoptivo fazia questão de pôr todos a gozar comigo.

- Não tinha ideia… - murmurou Rick, fazendo pisca para entrar noutra estrada – Como é o Frank? Falas bastante dele, mas como não o vejo é difícil de criar uma imagem…

Sorri. É verdade, às vezes esqueço-me de que sou a única que o consegue ver.

- Ele é um querido. Morreu com cinquenta e seis anos, e já é um fantasma há montes deles. Tem um bigode castanho clarinho, com as pontas bem aparadas, e um cabelo muito penteadinho para trás, também castanho. Tem um fato cinzento vestido, com riscas, e um lenço bordô atado ao pescoço.

- Como é que se conheceram?

- Pouco depois de eu estar na instituição… ele estava a cantarolar e a assobiar ao pé das crianças, e claro que ninguém o via. Lembro-me de achar estranho as roupas dele, e o bigode, e andar tão direitinho como andava… e por isso fiquei a encará-lo. E ele notou. Por isso veio ter comigo e começou a falar. E eu comecei a responder. Só depois é que percebi que era a única que o via. Com o tempo ganhámos a confiança um do outro, ele tornou-se meu amigo. Contei-lhe a minha história, e ele voluntariou-se para fazer umas perguntas entre os mortos para ver se encontrava o meu irmão. Eu meio que cresci com ele. Mas então e tu, como foi a tua vida?

- Normal, acho eu. Quando fiz os dezoito anos fiz logo os possíveis para entrar para o treino do FBI e acabei por ter sorte.

- Aposto que foste um daqueles galãs do liceu – opinei, a rir-me. Ele riu-se também.

- Porque é que dizes isso? Não é verdade. Tive as minhas paixonetas, mas não andava a partir corações todas as semanas.

- Se tu o dizes…

 

- O hotel até é bom – opinou Rick, quando entrámos no quarto dele. Eu tinha-lhe dito que o hotel era o mais baratinho da zona, e logo ele assumiu que não prestava para nada. Mas é mentira, o hotel tem tudo o que se precisa.

Tínhamos almoçado pelo caminho e tínhamos demorado mais do que o previsto, logo já faltavam três horas para que a festa começasse. Rick disse que se ia despachar e eu fui fazer o mesmo. Fui para o meu quarto e tomei um banho. Vesti o meu vestido novo e fiz caracóis no cabelo, maquilhando-me em seguida. Bateram à porta nesse momento, era ele. Tinha umas calças escuras e uma camisa azul clarinha de fora. Estava bonito, não podia dizer o contrário. Ficou à espera enquanto eu me calçava e punha a encharpe pelos ombros e depois rumámos ao restaurante, que ficava perto do liceu. Jantámos descansados, não havia pressa.

Saímos e caminhámos calmamente até lá.

- Estás nervosa? – Perguntou-me. Pensei bem na minha resposta.

- Não… tu és do FBI, acho que me consegues proteger por uma noite – ele riu-se, mas depois ficou um pouco sério e aproximou-se de mim.

- O que é isso? – Perguntou-me, apontando para o meu ombro. Olhei para lá também, tinha uma nódoa negra gigante.

- Não sei… - murmurei.

- Há outra aí – desta vez apontou para a parte de trás do meu outro ombro, e eu suspirei – Nikki…

- Raios. Não acredito. É um fantasma, Rick – balbuciei, furiosa, enquanto puxava a encharpe para que tapasse as marcas. “Perfeito, agora toda a gente vai pensar que sou vítima de violência doméstica ou assim”.

 

É super mini, desculpem =/

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