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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 01.10.11

Já que estive tanto tempo sem postar, desta vez trago-vos um grandinho. Espero que gostem.

 

"- O que é isso? – Perguntou-me, apontando para o meu ombro. Olhei para lá também, tinha uma nódoa negra gigante.

- Não sei… - murmurei.

- Há outra aí – desta vez apontou para a parte de trás do meu outro ombro, e eu suspirei – Nikki…

- Raios. Não acredito. É um fantasma, Rick – balbuciei, furiosa, enquanto puxava a encharpe para que tapasse as marcas. “Perfeito, agora toda a gente vai pensar que sou vítima de violência doméstica ou assim”."

 

Capítulo 8 (parte 3)

Milagre Natalício

 

- Aqui? – Ele parecia surpreendido.

- Sim, aqui. – Comecei a olhar em volta, mas não vi ninguém que me chamasse a atenção. Até voltar a olhar para Rick e ver uma mulher da minha idade, ao seu lado. “Raios!”, pensei, furiosa. Nunca confundiria aqueles olhos acidentados e os cabelos negros lisinhos.

- Quem? – Perguntou Rick.

Eu continuava a observar a figura que apenas eu via. Ela tinha-se estragado ao longo dos anos. Ou pelo menos alguém a tinha estragado. Continuava magra, mas agora em demasia. E tinha nódoas negras espalhadas por todo o corpo. Não soube o que pensar. Em toda a minha vida a odiei, e rapariga popular e amada por todos. Aquela que tanto me gozou e a quem os outros seguiam, deixando-me sozinha.

- Phyllis – murmurei. Ela olhou-me com um olhar estranho. Misturava tristeza, ódio, e um pouco de tudo o mais. Mas não disse nada, em vez disso desapareceu, deixando-me apenas com Rick de novo – A ex princesa do liceu. Não acredito nisto… o objectivo era mostrar-lhes que sou uma pessoa normal, e em vez disso vou aparecer toda negra…

- Ela está aqui agora?

- Não, foi-se embora. Bolas, é que nem… - arrependi-me a calei-me. Não era meu fazer aquela fita toda por opiniões alheias – Talvez devêssemos ir embora, acho…

- Nem penses, já estamos quase a chegar ao liceu, não escapas.

E claro, ele ganhou. Acho que não há nenhuma alma mais teimosa em todo o mundo e arredores, morta ou viva.

O liceu estava igual, as mesmas paredes riscadas, os mesmos buracos nos tectos, as mesmas sensações. Quando chegámos ao ginásio, este estava bem arranjadinho. Até tínhamos direito a balões.

Depressa avistei as ex princesinhas do sítio num lado, os nerds noutro, os do clube do basquete, de xadrez… era mesmo como se fôssemos adolescentes outra vez.

Cumprimentei meia dúzia de pessoas, que me conheceram pelo nome colado no meu vestido, mas não passou muito disso. Fui alvo de vários olhares vindos de muita gente. Eu era popular, apenas pelos motivos errados.

- Queres ir dançar? – Perguntou-me Rick.

- Quero.

Fomos para a pista de dança e Rick pôs uma mão à volta da minha cintura, começando a conduzir-me levemente ao som da música de uma banda calma que tocava num palco improvisado. Deixei-me levar. É estranho, mas nunca tinha tido uma dança num baile do liceu. Nunca ninguém me convidou.

Estávamos num momento tranquilo quando senti um apalpão no rabo, e Rick nem me deixou associar o que tinha acontecido, pois voltou-me e pôs-me atrás dele tão depressa que até me deixou surpreendida. Vi-o empurrar uma figura já estragada pelos poucos anos que passaram, e com uns poucos quilinhos a mais.

- Então?! – Disse-lhe Rick, de um modo chateado, após o empurrar. Ele apenas olhou para mim e abriu mais os olhos, como se estivesse a provocar.

- Nicole Conrad… arranjaste um guarda-costas? Olha que esse gajo ao pé de mim não vale a ponta de um corn…

- Cala-te – mandei, chegando-me ao pé deles e voltando-me para Rick – Rick deixa isso, anda buscar qualquer coisa para bebermos.

- Deixa isso? Não. Mas quem é que este palhaço pensa que é? – Insistiu ele.

- Sou o irmão adoptivo dela… nunca falaram de mim, não? – Perguntou-lhe o retardado do Simon, rindo-se. Notei que Rick ficou mais tenso e cerrou os punhos, por isso agarrei-lhe no braço e fi-lo olhar para mim.

- Está tudo bem, anda lá – supliquei, pressionando os lábios em seguida. À medida que nos voltámos embati contra uma das raparigas que andavam de bandeja na mão, e duas das bebidas entornaram-se para cima de mim, criando uma gargalhada geral.

- Nikki…

- Não Rick, está tudo bem – descansei-o, respirando fundo – Vou à casa de banho pôr um bocado de água nisto – “Além disso também já estou habituada às gargalhadas”, pensei.

Deixei-o perto da mesa dos aperitivos e rumei à casa de banho, que estava vazia. Abri a torneira e comecei a molhar o meu vestido. Apesar de tudo tive sorte, além de uns pingos, a maior parte da bebida foi toda para o chão.

- É preciso ter sorte – reclamei baixinho, enquanto me via ao espelho. Apesar de tudo estava bonita. Aproximei-me mais e descobri o meu ombro, vendo o hematoma que lá se formava. E agora já doía um pouco. Suspirei e quando parei a água e me voltei para trás lá estava ela.

- Phyllis – murmurei.

- Então é verdade… - pronunciou ela, mostrando-me um sorriso triste – Podes mesmo ver fantasmas.

- Aparentemente. O que é que queres?

- Eu quero que as pessoas saibam a verdade. A V. e a L. – ela sempre tratou as melhores amigas apenas pela primeira letra – estão a planear um discurso em como morri num acidente porque… não seria tão vergonhoso se soubessem o que realmente aconteceu? Eu, Phyllis, rainha do liceu, rebaixada por um homem e morta por ele.

- Ele está preso?

- Sim, mas só a V. e a L. sabem. Elas sabem… elas pensam que não quero que se saiba.

- Não é vergonhoso… tristemente acontece bastantes vezes. Mas não percebo o que queres que faça.

- Eu quero que lhes contes a verdade. Nunca fui uma boa pessoa, não sei, talvez tenha merecido tudo isto… especialmente para ti, devo ter sido como um diabo pessoal. O teu ombro está a ficar feio… - tapei mais o ombro com a encharpe, ela tinha razão, estava mesmo – desculpa, não queria transmitir isto para ti, não sei como o impedir… Oh não, vai começar.

Num segundo via-a, no outro já não. E depois comecei a ouvir a música parar. Saí da casa de banho e fui para ao pé de Rick, que estava de frente ao palco como todas as outras pessoas. Vi a Phyllis em cima do palco, ao lado de Verónica, a mulher que falava, um das suas amigas.

- Boa noite a todos – disse ela – É com grande honra e um enorme prazer que vos dou as boas vindas ao primeiro encontro das turmas… - e continuou a falar. Todos a ouviam com a maior atenção enquanto mostrava a felicidade que sentia.

- O que se passa? Pareces pensativa – disse-me Rick, baixinho.

- Falei com o fantasma, Phyllis. Ela quer… ela quer que eu diga a todos como morreu em vez da versão que foi inventada.

- E isso é mau?

- Rick… se todos já não gostavam de mim, agora é que me vão mesmo odiar.

Phyllis olhou para mim com pena, e eu retribui-lhe. Se eu subisse àquele palco e começasse a dizer que a rainha do liceu tinha sido vítima de violência doméstica toda a gente ficaria chocada, e pior, todos me acusariam de trazer ao de cima uma verdade tão horrenda. Mais valia meter-me num buraco para toda a eternidade.

- Ela não pôde estar aqui presente connosco em vida, mas de certeza que nos está a observar, esteja onde estiver – continuou Verónica – A Phyllis era uma rapariga fantástica, sempre preocupada, sempre pronta a ajudar… teve um fim trágico. Um autocarro passou num sinal vermelho e sugou-lhe a vida em poucos segundos…

Não consegui aguentar mais e por isso inspirei bem o ar. Eu sou aquela que dá voz a quem não consegue ser ouvido por mais ninguém. Sou quem ajuda a dar um fim aos fantasmas. Não é justo que não o faça por não gostar da pessoa que morreu. Afinal, sempre me prometi não julgar um fantasma.

Subi as escadas para o palco e tirei o microfone a Verónica, que olhou escandalizada para mim. Phyllis posicionou-se ao meu lado, e mostrou-me um pequeno sorriso.

- Boa noite a todos – disse eu, ainda a ouvir Verónica reclamar – Muitos de vocês podem lembrar-se de mim como a rapariga que falava sozinha e era gozada a toda a hora. Bem, o liceu é mesmo assim. Mas estamos aqui para falar da Phyllis Allen. E ao contrário do que a minha ex colega disse, ela era horrível. A sério, a pior pessoa que alguma vez tive o azar de conhecer – ouviu-se um “ah” geral, de escândalo, mas não me retraí – Era egoísta, não se importava com mais nada além de si. Quer dizer, quantos de vocês foram gozados por ela e pelas amiguinhas e o clube dos populares? A verdade é que a Phyllis não prestava. Mas ela não merece que lhe façam isto, especialmente quando ninguém a pode ouvir a defender-se. Ela não foi atropelada por um autocarro. O marido matou-a. Ele abusou dela por vários tempos e matou-a a sangue frio.

- O que é que pensas que estás a fazer? – Disse-me Verónica, chateada.

- Mas mesmo assim, consigo ver que ela mudou – mas eu continuei sem me importar – Percebi que aquela Phyllis fria e calculista tomou consciência dos seus actos. Talvez ela pense que mereceu o que teve. É mentira, ninguém merece isso.

- Diz ao John Rain que lamento daquela vez em que fiz com que o clube de basquete lhe rapasse o cabelo – pediu-me Phyllis.

- John Rain, ela arrependeu-se de ter feito com que te rapassem o cabelo, e Tiffany, ela lamenta ter-te perseguido todos aqueles anos a chamar-te nomes e a baixar-te a auto-estima… - e assim sucessivamente, Phyllis dizia-me a quem falar, e eu falava, até que acabámos – Não vos peço que a desculpem… eu sei que para mim é difícil, mas acho que toda a gente merece uma segunda oportunidade, certo? O liceu já acabou pessoal, hoje não sou apenas a rapariga esquisita que não tinha amigos. Hoje os populares engordaram e metade está em vias de ser careca. Nós crescemos, mudámos, alguns de nós… alguns de nós morreram. Como a Verónica disse, a Phyllis está connosco, mesmo que ninguém – além de mim – a veja. Obrigado.

Saí do palco e puxei Rick por um braço para fora dali. Estava acabado, tudo.

 

Durante o dia mostrei aquela cidade a Rick, e depois voltámos para DC. Acabámos por chegar já quase à hora do jantar, e Rick fez questão de me deixar à porta de casa.

- Então, o que vais fazer para a Véspera de Natal? – Perguntou-me ele, com um sorriso no rosto.

- Bem eu… - encolhi os ombros – acho que me vou enrolar numa manta no sofá e ver televisão…

- Não tens planos? – Ele parecia surpreendido.

- Não tenho família, lembras-te?

- Pois… então está resolvido, vens comigo para a casa da minha mãe.

- Não… a sério, não me quero intrometer. Natal é para ser passado em família, e além disso ela não está a contar comigo para comer e…

- Disparates. A Sra. Eleanor faz comida para um batalhão, e além disso o Marty também vai lá jantar. Anda lá, não custa nada.

Torci o nariz, mas acabei por ir.

Eleanor ficou eufórica quando me viu, e o jantar foi passado entre muitas gargalhadas. Estavam lá todos, incluindo o falecido Sr. Albert. Depois do jantar as mulheres ajudaram a arrumar a cozinha e depois fomos todos para a sala. Os pequenos estavam no chão, a entreterem-se com umas coisas, e vai, não vai, iam ao pé do grande monte de presentes que estavam ao pé da árvore de Natal bem grande e enfeitada para os apalparem e deduzirem o que eram. Era agradável, uma boa Véspera de Natal.

- Parece que agora já são mais amigos – notou Eleanor, sorrindo para nós de uma maneira bastante carinhosa, quando me apanhou a rir de uma coisa que Rick tinha dito – É bom, porque quando eram crianças andavam sempre às turras um com o outro.

- É culpa dele – defendi-me, rindo-me – Ele costumava roubar-me as bonecas.

- Sim… desculpa, era porque tinha uma queda por ti – disse ele, dando-me um encontrão ao de leve em seguida – Coisas de miúdos. Não te preocupes, passou por completo.

Dei-lhe um murro ao de leve no braço e ri-me.

- Já é meia-noite! – Anunciou Maggie, com os olhos a brilhar.

A felicidade e a troca de prendas pareciam que nunca mais acabavam. Esqueci-me de como era ver o brilho no olhar de uma criança quando abrem uma prenda. É algo único.

- Pirralhos, cheguem aqui – pedi, já depois de terem desembrulhado tudo. Eles puseram-se os dois à minha frente – Não vos comprei nada porque não sabia que vinha para cá, mas Maggie… - tirei o meu colar, que por acaso era bastante simples mas bonito, e pu-lo ao seu pescoço – este fica-te lindo. E para ti Jesse, tenho… - comecei a remexer nos bolsos e tirei as minhas chaves, separando-as do guarda-chaves em seguida. Calhava bem, porque era uma bola de futebol americano – isto. A tua mãe disse-me que gostavas de futebol americano.

- Bué da fixe! – Disse ele.

- Olha mãe, pareço uma princesa! – Disse Maggie, para Sheilla.

Pouco depois o sono começou a rondar os pirralhos, e por isso começámos a ir cada um para suas casas.

- Nikki, espera aí! – Parei no meio da estrada e voltei-me para trás, para ver Rick a correr na minha direcção e parar mesmo à minha frente.

- Desculpa, pensava que ias ficar mais um bocado – desculpei-me.

- E vou. O que achaste? Gostaste?

- Foi… - sorri e baixei o olhar, envergonhada – sem mentir, foi o melhor Natal da minha vida.

Mordi o lábio e olhei para ele, vendo-o a olhar para mim de sorriso nos lábios e olhos brilhantes.

- Bem, faltou distribuir-se uma prenda – Rick começou a remexer os bolsos do casaco castanho e de lá tirou uma pequena caixa quadrangular e azul escura – Espero que gostes.

- O quê? Rick… - eu fiquei atónica. Agarrei na caixa e abri-a, vendo uma linda pulseira prateada enfeitada com pedrinhas verdes brilhantes – É tão bonita… não devias…

- Não, não, não, eu comprei porque quis. Gostaste?

Apressei-me a abraçá-lo, e ele enrolou os seus braços à volta da minha cintura.

- Adorei – afirmei-lhe, num sussurro, ao ouvido.

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