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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 29.10.11

Capítulo 9

Febre-amarela

 

- Isto… e isto… e isto também… - ia pondo os vários produtos dentro do carrinho do supermercado, até ter todos os nomes da lista riscados. Quando olhei para o carrinho até me assustei. Cheio até não poder mais. Acho que Eleanor tem razão quando diz que me desleixo com as coisas da casa… não é mentira nenhuma. Mas só de pensar no tempo que gasto ao vir às compras…

Dirigi-me à fila para pagar, e após esperar um pouco finalmente foi a minha vez. Agarrei nos sacos todos e saí do supermercado, pousando-os logo no chão. “Acho que exagerei nas compras”, pensei. Eram demasiados sacos. Demasiado pesados. Suspirei e voltei a pegar neles, parando uns quantos passos mais à frente. “Isto vai ser bonito”, reclamei.

Ao fim de muita força e muitas paragens, consegui chegar ao carro. Conduzi até casa e depois houve um vizinho que me ajudou a transportar as comprar, graças a Deus.

- Obrigado – agradeci, sorrindo – Posso-te oferecer alguma coisa?

- Não, tenho que ir andando também. Mas foi bom ver-te Nicole.

- Sim, a ti também.

Eu não era muito amiga da maior parte dos meus vizinhos, eles tinham a impressão de que morava numa casa assombrada, o que os levava a afastarem-se sem pensar muito, mas mesmo assim, haviam as excepções.

Depois de ele se ter ido embora, comecei a arrumar tudo nos armários. Sumos, cereais, bolachas, o pacote dos guardanapos, o azeite…

 Estava cansada, mas ainda não tinha feito nada de especial, ainda era cedo. Hoje acordei com dores nos músculos e de cabeça, mas não consegui ficar mais tempo na cama, não me sentia bem de nenhuma maneira. Só espero não estar a ficar com gripe ou algo do género… isso não vinha nada a calhar, acho que ninguém gosta de estar doente, mas eu odeio com todas as minhas forças. Só de pensar nos espirros, e no nariz entupido, e na quantidade de lenços que se gasta a assoar o nariz… bah, mais vale nem pensar nisso.

Quando esvaziei o último saco das compras, subi para o quarto para mudar de roupa. Vesti um fato de treino, para estar mais confortável. Comecei a ouvir aquele zumbido que me tinha arruinado a noite. Mosquitos. Mais que um.

- Onde estão seus desgraçados? – Perguntei, agarrando numa revista e enrolando-a. Eu ouvia os zumbidos, mas não os conseguia ver em lugar nenhum. E o pior era que parecia que estavam mesmo em cima de mim. E estiveram, porque quando acordei tinha uma picadela.

Olhei em volta e aproximei-me de todos os locais mais escuros, como a parte entre a mesa-de-cabeceira e a cama, ou ao lado do armário… mas não o conseguia ver. O barulho passou, e eu suspirei. De manhã, antes de sair, tinha posto o remédio para os insectos, por isso os mosquitos já deviam estar nos anjinhos a esta hora… mas aparentemente, não sei como, sobreviveram. Suspirei e fui buscar mais remédio para pôr no quarto. Depois fui aquecer a sopa que Eleanor me tinha deixado cá, e comi-a sentada no sofá enquanto via televisão. Não parei de me mover o tempo todo, não conseguia estar bem em qualquer posição. E a cabeça também já me começava a doer bastante. Quando me levantei senti uma tontura e fraqueza nos músculos, por isso caminhei muito devagar até à cozinha.

- Odeio estar doente – queixei-me.

Deixei a tigela ainda com a sopa quase toda em cima do balcão e subi as escadas até à casa de banho, onde entrei. Pelas gavetas procurei por um termómetro e em seguida medi a temperatura.

- 42 graus?! – Exclamei, assustada – Tenho que tomar alguma coisa…

Voltei a remexer nas gavetas e encontrei uma caixa de comprimidos para a febre e outra de comprimidos para as dores de cabeça. Quando me voltei para sair senti cada vez mais náuseas e acabei por ter que vomitar. Reparei que saiu sangue, o que nunca era bom sinal. Agora já não sabia o que devia tomar. Despejei o autoclismo e após passar a boca por água saí da casa de banho, dirigindo-me ao andar de baixo. Olhei para o relógio na parede, era a hora de almoço de Rick, talvez ele me pudesse levar ao médico. Peguei no telemóvel e disquei o seu número, pondo depois a chamar. Demorou tempo, mas lá atendeu.

- “Bom dia!” – Saudou.

- Bom dia… - pronunciei, a custo. – Rick, estás na hora de almoço?

- “Sim… está tudo bem?” – Ele já tinha notado que não.

- Eu preciso que me leves ao médico… não me sinto bem… - pedi.

- “Claro, vou-te já buscar. Mas o que é que tens?”.

Não lhe respondi pois vi um conjunto de mosquitos entrarem-me por baixo da porta e juntarem-se todos, fazendo a imagem de um corpo, que depois ficou normal e pude identificar como um homem militar.

- Eu não queria… - pronunciou ele – Não te queria pôr doente… só queria ajuda – fiquei vidrada no seu aspecto. Era um homem jovem, com uma farda do exército. Tinha sangue a sair-lhe pelo nariz e pelas orelhas, e tinha um ar muito pálido e amarelo. Os mosquitos continuavam a voar à volta dele.

- És tu quem me está a fazer isto? – Perguntei. Ele assentiu com a cabeça e, com um olhar triste, desapareceu.

- “Nikki? Nikki estás aí?!” – Perguntou Rick.

- Sim… não podemos ir para um hospital… - murmurei, agarrando-me à bancada para amparar a queda que uma tontura me ia causando. As coisas estavam a começar a dançar à minha volta e eu já não me conseguia manter em pé – é um fantasma… - sussurrei, largando o telefone e deixando-o cair ao meu lado. Perdi todas as forças e deixei que os meus olhos se fechassem.

 

É pequenino, eu sei... vou tentar não demorar tanto tempo a postar o outro...

Beijinho*

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