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Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 11.09.10

Capítulo 3

Apresentações

 

O dia domingo passou-se rápido, foi para descansar e fazer os trabalhos de casa. Depois do jantar sentei-me na sala a ver televisão.

Aquele rapaz, Derek, não me sai da cabeça, não sei se era por ter aquele ar misterioso ou aqueles olhos verdes familiares, mas ando a dar a volta à cabeça para ver de onde é que o conheço. Ele não deixou nenhum número de telemóvel, não que eu estivesse à espera, mas gostava de saber onde o posso encontrar de novo…

- Vou sair – disse Dylan, passando por mim e interrompendo-me os pensamentos.

- Não venhas tarde – pedi.

- Pois sim.

Pois sim… este rapaz não muda nem vai mudar… estou a ficar seriamente preocupada com o futuro dele. Se não tem cuidado ainda acaba na prisão.

Já estava farta de ver televisão, levantei-me e desliguei-a. Fui até ao quarto de Abby para ver o que é que ela estava a fazer. Bati à porta e entrei. Ela estava em cima da cama, de pernas cruzadas, a ler o livro “Eclipse”, da mesma saga do “Crepúsculo”. Juro que não percebo a mania das pessoas em acreditar em vampiros bons.

A Abby só tem dez anos, não percebo como é gosta destas leituras e da Cinderela, ao mesmo tempo.

- Abby, está a ficar tarde – disse-lhe – Não te queres deitar?

- Já me deito, estou a chegar à parte da luta – respondeu-me.

- Ok, mas não te deites tarde. Se precisares de mim vou estar no quarto.

- Está bem.

Fui para o meu quarto, vesti o pijama e sentei-me na ombreira da janela, a observar a rua. Estava tudo bastante quieto.

Quando era quase meia-noite deitei-me, e o Dylan já tinha chegado a casa.

De manhã, quando acordei olhei pela janela para ver o que vestir, o tempo estava nublado. Fui acordar Abby e Dylan, que não se queria levantar por nada, e despachámo-nos.

Fui a primeira a chegar à sala de aula, sentei-me e pus os fones nos ouvidos.

- Olá – ouvi.

Olhei para o lado e tirei os fones.

- Desculpa, não te ouvi – disse-lhe.

Ao meu lado estava uma rapariga muito bonita, podia jurar que era modelo. Tinha um cabelo liso até um pouco abaixo dos ombros, preto, e uns olhos azuis esverdeados muito expressivos. Tinha as pestanas longas e um sorriso maravilhoso. As linhas do rosto eram extremamente bem definidas. Estava muito bem vestida, com uma roupa muito moderna.

- Não faz mal – disse-me. Agora reparei na sua voz, tinha um timbre excepcional –, estava só a perguntar se a aula de Inglês do 11º ano é aqui.

- É. És nova?

- Sou, chamo-me Verónica.

- Chloe. Podes-te sentar aqui, se quiseres – disse-lhe, tirando a minha mala de cima da cadeira ao meu lado.

- Obrigado – respondeu-me, sentando-se.

Ao sentar-se, os seus movimentos foram muito graciosos.

Passaram-se quase dez minutos até que o resto da turma e a professora entrassem. Descobri que Verónica é muito simpática.

A aula foi normal, a professora apresentou Verónica e depois continuou com a matéria começada na outra aula.

As outras duas aulas a seguir foram uma seca, pareceu-me que demoraram séculos a passar.

Quando tocou para a hora de almoço, fui com Gwen para o refeitório e sentámo-nos ao pé de Lisa, a rapariga das fofocas da escola, Kyle, o melhor amigo de Josh, e Josh. O almoço estava muito bom, mas eu não estava com muita fome. Ainda estava a pensar de onde conhecia Derek.

- Estás bem? – Perguntou-me Josh, desviando-me o cabelo para atrás dos ombros.

- Estou – respondi, não foi mais que um suspiro, mas ele ouviu.

- Estás distante… - ok, isto já lhe saiu com uma voz acusatória. Qual era o problema dele? Uma pessoa já não pode estar a pensar?

- Não, não estou, estava só distraída.

Quando levantei os olhos do prato vi Verónica a passar.

- Verónica – chamei.

Ela mudou de rumo e dirigiu-se à nossa mesa.

- Olá – disse-me.

- Não te queres sentar? – Perguntei, com esperança que a resposta fosse afirmativa.

- Não, obrigado. Vou arranjar uma mesa para mim e para os meus irmãos.

- Oh, ok. Bom apetite…

Ela foi-se sentar sozinha numa mesa e eu voltei a olhar para o prato e a brincar com o garfo na comida.

- Quem são aqueles? – Perguntou Lisa, como se estivesse maravilhada com alguma coisa.

É raro Lisa não saber alguma coisa, por isso achei que valia a pena levantar a cabeça para ver do que se tratava. Ao olhar vi-o, Derek. Andava muito naturalmente e descontraído, com o tabuleiro apenas numa mão. Ao seu lado vinha outro rapaz que aparentava ter a mesma idade. Tinha o cabelo preto e tinha alguns jeitos, mas o cabelo estava curto. Tal como Derek, tinha os abdominais bem definidos e um sorriso de cair para ao lado.

Derek viu-me e alargou o seu (já) enorme sorriso. Dirigiu-se à nossa mesa, com o outro rapaz a segui-lo.

- Tu estudas aqui? – Perguntei, com uma certa alegria explícita na voz.

- Agora estudo – respondeu-me, passando com a mão livre no cabelo – Mas não sabia que também cá andavas – e soltou um pequeno riso. – Agora já gosto mais da escola.

Toda a gente lá da mesa o fitava, mas os seus olhos só vinham parar a mim. Josh levantou-se e estendeu-lhe a mão.

- Dá para ver que já se conhecem – disse ele – Eu sou o Josh, o namorado da Chloe – Fez questão de pronunciar a palavra “namorado” mais carregadamente.

O sorriso na cara de Derek não se desvaneceu e este apertou a mão a Josh.

- Prazer – Disse-lhe – Eu sou o Derek.

- Lisa – Disse Lisa, apressadamente, estendendo-lhe a mão também.

Após apertar a mão a Lisa, Derek voltou a dirigir-me um olhar e em seguida o outro rapaz fez um som com a garganta.

- Este é o meu irmão Gary – apresentou Derek, apontando para o irmão.

- Prazer com conhecer-vos a todos – pronunciou Gary.

- Igualmente – disse eu.

Gary também tinha os olhos esverdeados e um rosto que parecia ter sido desenhado ao pormenor.

- Nós vamos andando – disse Derek –, vamo-nos sentar ao pé da…

- Verónica – Interrompi eu –, a vossa irmã.

- Como é que sabias? – Perguntou, impressionado.

- Bem, eu conheci-a e vocês são os três parecidos, por isso não foi difícil.

- Certo. Até logo – e foram-se embora.

- Tu conhece-lo? – Perguntou logo Lisa.

- Sim, conhecemo-nos no sábado.

- Eles são tão giros! – Disse Gwen.

Josh fez um barulho como se estivesse a limpar a garganta, mas todas percebemos que o que queria era que nos calássemos.

Depois do almoço era hora de Biologia, e nem Gwen, nem Josh, tinham essa aula.

Fui para a sala de aula e sentei-me. A minha mente voltou a divagar e acabou por voltar a parar em Derek. Aparentemente não ia ter problemas em encontrá-lo. Mas de onde é que o conheço?

Acho que estou a ficar obcecada…

- Posso? – Perguntou uma voz agora já conhecida.

Ao virar a cara vi quem já sabia que era.

- Claro – Respondi.

Ele puxou a cadeira e sentou-se. A turma começou a entrar pouco depois e o professor veio a seguir.

Passei a aula quase toda a falar com ele. É estranho, mas tal como Verónica, ele fazia-me sentir à vontade. Tanto ele, como Derek, como Verónica deviam ter um dom de fazer as pessoas se sentirem bem à volta deles.

Quando a aula acabou, Gary saiu e eu fui perguntar uma coisa ao professor. Fui a última a sair da sala porque depois ainda estive a arrumar as coisas na mala. Vi o livro que Gwen me tinha impingido, tenho que lho devolver. Quando ia a sair fui de encontra a um rapaz.

- Estás com pressa – disse-me ele.

Não precisei de olhar, nem sequer de pensar, para saber quem era. Aquela voz… era capaz de a reconhecer em qualquer lado, passasse o tempo que passasse.

- Desculpa – disse-lhe – Tenho que ir buscar a minha irmã.

- Precisas de boleia? – Ofereceu, com o seu sorriso de uma ponta a outra.

- Não, não é preciso, obrigado.

- Tens a certeza?

- Sim, eu tenho carro. Adeus – e comecei a andar, mas qualquer coisa me fez voltar a virar-me para ele – Ei Derek! Não tens frio?

- Não, porquê?

- Estás gelado…

- Tenho a certeza que não é nada – e sorriu uma vez mais.

- Ok, tu é que sabes. Adeus – e voltei a andar.

- Conduz com cuidado! – Conduz com cuidado?! Acho que nunca ninguém me tinha dito essa… mas claro, sendo (praticamente) órfã, é normal.

Saí da escola e dirigi-me ao meu carro. Fui buscar Abby à escola e pelo caminho passei pela casa de Gwen, para lhe entregar o livro, porque me tinha esquecido de manhã.

Assim que chegámos a casa, Abby correu escadas acima e foi para o quarto. Eu fui pôr a máquina da loiça a lavar e depois fui para o meu quarto, para fazer os trabalhos de casa. Depois de os ter acabado, estendi-me em cima da cama e pus os fones nos ouvidos.

Já estava quase a pôr-se o sol, apesar de hoje nem o ter visto, quando oiço uma grande algazarra na rua, mesmo com os fones nos ouvidos. Tirei os fones e deixei o MP3 em cima da cama, e dirigi-me à janela. Vi Dylan, com mais um grupo de rapazes que aparentavam talvez dezoito, dezanove anos… estavam todos a rir à gargalhada e aos pontapés a um caixote do lixo. Mas quando é que este rapaz ganha juízo?

Desci as escadas à pressa, antes que os vizinhos viessem ver o que se passava, e abri a porta. Atravessei a estrada e parei atrás de Dylan, que estava de costas. Toquei-lhe no ombro e ele virou-se.

- O que é que se passa aqui? – Perguntei.

- O que é que achas? – Perguntou ele, com um sorriso parvo na cara.

- Oh Dylan… estás bêbedo?!

- Não… - respondeu, a fazer caretas – Ou… talvez só um bocadinho.

- Vá lá, vamos para casa – agarrei-lhe no braço e comecei a puxá-lo, mas ele fez força e não o consegui arrancar dali. Apesar de ter quinze anos, ele é bastante grande, parece muito mais velho (se não fosse o comportamento).

- Vá lá miúda, deixa-o lá ficar aqui a curtir uma beca – disse-me um.

- O que é que me chamaste? – Perguntei, a olhar para ele – “Miúda”?

- Vá lá, não sejas assim, senão ficas cota antes de chegares aos trinta – E riu-se.

Mas o que é que eu fiz para ter que aturar estes bêbedos atrasados?!

- Dylan, vamos – disse, para Dylan, que continuava quieto com cara de parvo, devido à bebedeira.

- Ainda sobraram algumas garrafas… não queres uma? – Disse-me outro dos rapazes – Curte uma beca.

- Eu não quero curtir, quero levar o meu irmão para casa! – Gritei-lhe.

- Ohh… estão tu és a Chloe… ele avisou-nos que tu eras assim… - disse a terceira voz idiota da tarde.

- Sabem a idade dele?!

- Ouve, ele queria divertir-se e passar um bom bocado. Deixa-o curtir a onda dele – disse o que tinha falado em segundo lugar, um rapaz loiro com o cabelo até aos ombros, apanhado num rabo-de-cavalo.

- Dylan, é a última vez que te estou a pedir, anda para casa – disse eu.

- Não – murmurou ele.

- Já olhaste para ti? É isto que queres para a tua vida?! Fazeres estas figuras?

- Não é da tua conta – e levou a mão à cabeça e sentou-se no banco detrás do carro, que tinha a porta aberta – Estou-me a sentir tonto – e riu-se.

- Vês? Já o puseste maldisposto – disse-me o terceiro rapaz, também a rir-se.

Cambada de bêbedos!

- Claro! Porque não foram as bebidas… - resmunguei.

- O quê? Pensas que estamos bêbedos? – Perguntou o segundo rapaz, a aproximar-se de mim.

- Não, tenho a certeza – respondi.

- Não estamos bêbedos! – E pôs a mãos nos meus ombros – Não estamos nada bêbedos…

Começou a aproximar a sua cara da minha ao ponto de lhe conseguir cheirar o hálito que tresandava a álcool. Ele continuou a aproximar-se até ficar a poucos centímetros.

- O que é que estás a fazer?! – Perguntei, com voz de poucos amigos.

Ele ignorou-me e continuou a aproximar-se cada vez mais. Eu tentei soltar-me, mas ele era demasiado forte.

- Larga-me seu bêbedo estúpido! – Gritei.

Ele fez cara de mau e desviou-se bruscamente, largou-me um braço e deu-me uma chapada que me fez virar a cara. Levei instantaneamente as mãos à bochecha.

- Quem é que pensas que és para me chamares bêbedo?! – Estava completamente fora de si, e os outros riam, enquanto o meu irmão estava sentado no carro a olhar para sei lá eu o quê.

Eu fiquei sem reacção, sentia a bochecha a ferver.

Ele voltou a levar a mão atrás enquanto os outros riam às gargalhadas de uma coisa que não tinha graça nenhuma. Não sei porque é que não me desviei, não sei porque é que não lhe dei uma chapada também, mas sei que ao ouvir o barulho de um carro familiar a derrapar senti-me segura.

No momento em que o rapaz me ia voltar a dar outra chapada, o seu braço foi parado por uma mão pálida. Conforme o rapaz olhou para ver quem o tinha impedido, levou um murro e agarrou-se ao nariz.

Derek passou ao lado dele e dirigiu-se a mim.

- Estás bem? – Perguntou-me.

- Sim – Respondi.

- Olhem só… - Disse o rapaz, que entretanto já se tinha recomposto mas tinha o nariz a deitar sangue – um segurança privado.

- Agarra no teu irmão e vai para casa – disse-me Derek. Como é que ele sabia que aquela confusão toda era por causa do Dylan? E porque é que parecia desconfortável? Pois, talvez por causa dos bêbedos… é possível.

- Então e tu? – Perguntei.

- Vai – pediu.

Peguei Dylan por um braço, mas ele era demasiado pesado para eu o levantar sozinha, e ainda se estava a fazer de mais pesado por não se querer ir embora.

Vi o rapaz dirigir-se a Derek com os punhos fechados e a tentar dar-lhe um murro, mas Derek desviou-se e mandou-o ao chão. Não sei o que os outros rapazes viram, mas começaram todos a correr disparatadamente para todos os lados, até se esquecendo do carro.

Derek deu meia volta e agarrou num braço de Dylan, enquanto eu o agarrava pelo outro. Dylan balbuciava coisas sem nexo durante todo o curto caminho. Derek não disse absolutamente nada.

Entrámos em casa e levámos Dylan para o quarto dele. Deixámo-lo cair em cima da cama e passámos pelo quarto de Abby, ela não deu por nada.

- Abby, já fizeste os trabalhos de casa? – Perguntei.

- Sim – respondeu, olhando em seguida para Derek – Quem é este?

- É o Derek, um amigo meu – acho que já me posso dirigir a ele como “amigo”, afinal já me livrou de problemas duas vezes.

- Oi Abby – disse ele.

De repente a cara dela modificou-se, abriu a boca de espanto, levantou-se e dirigiu-se a nós.

- O que é que te aconteceu? – Perguntou, chocada.

- Eu tive… uma discussão com os amigos de Dylan…

- Eles fizeram-te isso? – Será que a minha bochecha está assim tão mal?

- Ela vai ficar bem Abby – disse Derek – Vai pôr gelo e daqui a umas horas já nem se nota.

- Espero que sim. Dói-te muito?

- Não te preocupes, eu estou bem. Nós vamos estar na sala.

- Ok – e voltou para cima da cama.

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