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O Milionário & Eu

por Andrusca ღ, em 04.01.12

Parte 8 – “Vais sobreviver”

 

- Isto é enorme! – Exclamou Liam de boca aberta, completamente maravilhado com a casa da loira – A minha é maior mas… a tua é muito mais bonita.

- Obrigado – agradeceu ela – Ora bem, a casa de banho é aqui – ela abriu uma porta e permitiu-lhe ver uma casa de banho bastante grande, com uma banheira enorme e um roupeiro de portas de correr – Podes tomar banho à vontade, eu vou pôr roupas do meu pai aqui para poderes vestir. Mas não te demores que tenho fome.

Melody saiu para ir buscar a roupa do pai e quando regressou, com uma blusa e umas calças do fato de treino, deu com Liam já apenas de boxers e apressou-se a voltar-se de costas.

- Era suposto esperares que voltasse, idiota – resmungou, ligeiramente ruborizada. Liam riu-se e pegou-lhe na roupa que ela tinha na mão, pousando-a no tampo da sanita.

- Podes olhar se quiseres, o que é bom é para se ver – disse ele, com uma voz presunçosa. Melody revirou os olhos e deu dois passos para sair da casa de banho, mas o rapaz agarrou-lhe no pulso e voltou-a para ele. Foi impossível não olhar, e, verdade seja dita, não gostar. Ele tinha um físico impecável e invejável, e mesmo sem ser rico tinha tudo para ter todas as raparigas aos seus pés. Mas depois do corpo Melody chegou aos olhos do rapaz, e lá não viu o brilho de outros tempos, o que estranhamente a entristeceu.

- O que foi? – Perguntou-lhe.

- Não sei porque é que estás a fazer isto… mas obrigado – disse ele, sorrindo levemente. A loira também lhe sorriu e saiu depois da casa de banho, fechando a porta.

Esperou por ele na sala de jantar, já com o almoço na mesa, que ela própria pôs. Era o dia de folga das empregadas, e o dia da semana de que Melody gostava mais por não ter ninguém e poder fazer tudo o que quisesse.

Quando o rapaz se juntou a ela apresentava uma figura cómica, no mínimo. As calças estavam-lhe larguíssimas, tal como a blusa, e o cabelo tinha cada ponta para seu lado. Ele sentou-se em frente à loira e franziu o nariz.

- O que é isto? – Perguntou – Tens a certeza que posso comer? Não vem cá mais ninguém?

- Hambúrgueres… - Respondeu ela – Podes sim, era para o meu pai mas ele ligou a avisar que não ia poder vir almoçar. Espera aí… tu nunca comeste um hambúrguer?

- Estou habituado a coisas mais… requintadas.

- Nunca ter comido um hambúrguer não é estar habituado a coisas requintadas, é viver-se noutro planeta – comentou a rapariga, pondo sumo nos dois copos – Come, agora já não vais poder alimentar o estilo de vida a que estavas habituado…

- Então ouviste, hum? – Liam levou o hambúrguer à boca e deu uma dentada grande, mastigando, engolindo, e sorrindo de seguida – É bom.

- Acho que toda a gente ouviu. Estás bem? – Melody imitou-o, ela já estava cheia de fome.

- Não, estou pobre – ele cuspiu as palavras e Melody suspirou.

- É verdade que estás em risco de perder a casa?

- O meu pai está a ver o que pode fazer. Nem sei como é que isto aconteceu.

- Ei… vais sobreviver. Eu conheço montes de gente que tem pouco dinheiro e são muitíssimo felizes – garantiu a loira, ao que ele revirou os olhos.

- Não te percebo – admitiu, suspirando – Tens um casarão destes, tens as possibilidades de ires para a escola no carrão que quiseres, de te vestires das marcas mais caras e calares todo o mundo ao dizeres que podes fazer qualquer coisa. E no entanto ages como se não fosses ninguém. És a Melody Baldoff, filha do 10º homem mais rico da América.

Melody encolheu os ombros.

- Exacto. O meu pai é o 10º homem mais rico da América. Ele trabalhou para isso, criou a sua fortuna do nada. Então e eu? Eu, tal como tu, tive apenas a sorte de nascer nesta família. Tenho dinheiro graças a um feliz acidente, não percebes? Há milhares de pessoas que o merecem bem mais que eu, e passam fome todos os dias. Eu não gosto de roupas de marcas, não gosto de grandes carros nem de dar nas vistas. Não estou minimamente interessada em comer comidas gourmet que são super caras e na hora seguinte já tenho fome, e não quero desperdiçar a minha vida em festas do Jet7 e coisas fúteis.

- Quase me convenceste que não gostas de dinheiro – murmurou ele, dando um gole no sumo.

- Tu não percebes… estás demasiado embrenhado no teu mundo para perceberes. Viste o que aconteceu mal toda a gente soube da falência? Como todos te trataram?

Liam baixou o olhar, detestava dar-lhe razão, mas ela tinha-a toda.

- Sim – afirmou – Viraram-me as costas, tal como disseste que fariam.

- Chegaste lá a mostrar notas verdes a toda a gente, chegaste lá e eles pensaram “uau, que parvo, ele paga tudo e nós aproveitamos”. E é por isso que eu não faço isso. Eu sei que os amigos que tenho estão comigo quer seja rica, ou pobre. Percebes? Tentei-te avisar, mas és tão…

- Já percebi, escusas de repetir o discurso todo – Liam riu levemente, e depois suspirou – É incrível, todos me tratavam bem quando era rico, e agora que sou pobre acho que é a primeira vez que tu falas comigo sem disparatarmos – a loira também sorriu – Talvez tenhas razão, se calhar se falar bem com o meu pai posso conseguir o meu carro de volta, basta dar umas roupas para aquelas instituições e alguma revista me patrocina por ser bom samaritano. Sim, não vamos já dizer que o mundo acabou.

Melody ficou chocada a olhar para ele. “Ele acabou mesmo de dizer isto?”, ela ainda nem tinha a certeza do que ouvira.

- Uau, isso… isso é a pior coisa que já ouvi – lamentou ela – Ouve, se queres ajuda então vais ter que mudar muita coisa. Para começar tens que parar de agir como se estivesses no topo do mundo, porque não estás.

- Mas sempre estive… - murmurou o rapaz.

Depois de comerem Melody meteu as roupas de Liam a lavar e tiveram que empatar tempo até estarem despachadas para depois irem para a máquina de secar, e para isso foram para o quarto da rapariga. Assim que Melody abriu a porta Liam ficou especado. O quarto estava cheio de telas por tudo quanto era sítio. Telas de um lado, aguarelas e guaches de outro. Ele aproximou-se de algumas das pinturas e observou-as com cuidado, esboçando um sorriso ao virar-se para a colega.

- Foste tu que fizeste? – Ela assentiu – São muito bons.

- Obrigado.

- Não, quer dizer… são mesmo muito bons – Melody corou e o rapaz riu-se – Devias abrir uma galeria de arte, terias imenso sucesso.

- Talvez um dia.

Enquanto via Liam maravilhado com as suas pinturas, Melody sorriu. Ele até não era mau rapaz, precisava era que alguém lhe abrisse os olhos para o mundo em que vivia. “Sim, ele vai sobreviver”, pensou ela.

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