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As Leis do Amor

por Andrusca ღ, em 03.02.12

Parte 4 – Conhecer o Arguido

 

- Pronta para o conheceres? – Perguntou-me Tom, já quando esperávamos que o seu irmão nos fosse trazido.

Estávamos na prisão há já alguns minutos à espera para eu conhecer o meu cliente. Ah pois, o meu “plano” deu certo. Logo depois de Tom falar com o meu suposto chefe, desconhecendo que era na verdade o meu pai, telefonou-me a dizer que me contratava. Como sei que não tem muito dinheiro, combinámos que me ia continuar a pagar o ordenado de secretária mas que, em vez de eu passar muito tempo a organizar-lhe as coisas, ele ia ter que me ajudar de modo a dar-me também tempo para estudar o caso.

Finalmente vi a expressão da cara de Tom mudar quando, passado por uma porta dupla, um rapaz se começou a aproximar acompanhado por um guarda. Envergava o uniforme da prisão, daquela cor alaranjada, que não ficava bem a quase ninguém. Conseguia ver as semelhanças entre eles. Os olhos eram da mesma cor, o nariz idêntico. Irmãos, sem dúvida. Luke era mais novo, tinha dezanove anos.

Ele sentou-se na cadeira à nossa frente, e pegou no auscultador do telefone. Eu e Tom fizemos o mesmo, e vi Luke suspirar através do vidro.

- Como te estás a aguentar, puto? – Perguntou-lhe o irmão.

- É como estar num hotel de cinco estrelas. Só que não é de cinco estrelas… e não é um hotel – disse ele, irónico – Trouxeste uma nova namorada, mano?

- Pára com brincadeiras. Ela é advogada, não te disse que te tinha arranjado uma advogada? – Disse Tom.

Luke abriu a boca de espanto mas depois suspirou e abanou a cabeça.

- O que foi? – Perguntei-lhe eu.

- Sem ofensa mas… não pareces uma advogada – disse ele.

- Eu sou boa – garanti – O meu nome é Sarah, e costumava trabalhar em Washington.

Vi um sorriso de ironia aparecer nos lábios de Luke, e abanei a cabeça. Ele não tinha gostado de mim. Não como pessoa, mas como advogada. Não acreditava que o conseguia defender perante um juiz.

- De novo, sem ofensa, mas vais ser literalmente comida por eles. Já falei com eles, e são tubarões. Tu és… um pequeno peixe-palhaço… - disse ele.

- Luke… - repreendeu-lhe o irmão.

- Não, não faz mal – disse eu a Tom, olhando depois de novo para Luke – Eu percebo. Sou pequenina, magrinha, e loira. E é o estereótipo de uma pessoa burra. Mas se há alguma coisa que não sou, é isso. Em todos os casos que entrei, entreguei-me a cem por cento. E tenho uma das taxas de sucessos mais altas dentre todos os advogados em DC, apesar de ainda ser nova. Não peço muito para defender um cliente, Luke, o mais importante que quero saber de ti é: és inocente? Estás a ser acusado com homicídio. É uma grande acusação que te pode arruinar a vida. Diz-me se és inocente, e se fores, garanto-te que vou dar o meu melhor para te salvar de seres erradamente condenado.

- Ouve…

- Não, ouve tu – interrompi-o – Os teus advogados anteriores desistiram. Talvez tenham sido comprados, talvez não. Não digo que sou a única advogada disponível, tenho a certeza que há mais, mas o que é perdes ao me aceitares? Nada. O máximo que pode acontecer? Não gostares de mim e o julgamento ser adiado até teres novo advogado. Uma semana, um advogado do estado, um daqueles que detestam os casos que lhes calham e não se esforçam minimamente. Não estás cansado de estares na prisão? Não queres a tua liberdade de volta? Não queres provar ao mundo que não fizeste nada? Diz-me Luke: não lhes queres provar que és inocente?!

- Sim…

- Então deixa-me ajudar-te.

Luke riu-se.

- Lá falar sabe ela – disse ele, para o irmão – Tudo bem. Se não funcionar, uma semana a mais aqui não vai ser o fim do mundo.

- Vai resultar – disse-lhe Tom, olhando depois para mim – Não vai?

- Vai – garanti – Agora Luke, eu vou falar com os guardas e amanhã volto cá. Temos bastante para conversar. Entretanto hoje vou passar no tribunal para ir buscar a pasta do caso e dar-me a conhecer lá no sítio, assim amanhã quando vier já vou estar a par do que aconteceu. Até lá, tenta lembrar-te de alguma coisa que possa ser relevante. Sei que falaste com a polícia, e com os outros advogados, mas qualquer detalhe, mesmo pequeno que seja, pode ser ouro num caso destes.

De novo, Luke riu-se.

- Agora quase me convenceste – comentou ele, encolhendo os ombros – Está bem, vou pensar. Se isto correr bem, quando é que vamos a tribunal?

- Na próxima semana.

- Consegues preparar-te até lá? – Ele continuava sem estar confiante.

- Conheces a história do julgamento dos Collen? – Perguntei-lhe.

- Sim, foi bastante falado no ano passado. Ganharam por sorte, parecia mesmo estar tudo perdido – respondeu-me. Abanei a cabeça.

- Não. Não por sorte. Porque me tinham a mim – Luke abriu a boca de espanto, e eu sorri-lhe – Por isso confia em mim. Eu vou arranjar uma maneira de conseguirmos sair disto a ganhar, combinado?

- Combinado.

Pouco depois, após Tom falar mais um pouco com o irmão, saímos de lá e começámos a caminhar na direcção do tribunal. Tom tinha fechado a clínica veterinária pela parte da tarde, porque já sabia que se ia despachar bastante tarde. Caminhávamos lado a lado, e em silêncio. Notava-se na sua cara o nervosismo e a tristeza por ver o irmão naquela situação. Saber que lhe menti para conseguir o trabalho também não ajuda muito. Não o devia ter feito, admito, mentir e manipular não é exactamente – ou nada – bom. Mas foi por um bem maior, certo? Assim saímos todos a ganhar, e talvez ele nunca precise de saber a verdade.

- Então, que achaste? – Perguntou-me Tom, cortando o silêncio já ao fim de alguns minutos de caminho.

- Foi… bom – Respondi.

-Ele consegue ser difícil, admito – disse ele, encolhendo os ombros e voltando o pescoço para mim – Mas é um bom miúdo. Achas mesmo que tem uma oportunidade de sair a ganhar deste julgamento?

Suspirei. Uma das minhas regras era nunca mentir ao cliente. Mas outra delas era não o deixar perder a fé. Pelo que percebi do caso, apesar de ainda não ter mergulhado nos detalhes, parece preto no branco. A minha única hipótese é criar uma dúvida razoável perante o júri. Escusado será dizer que o verdadeiro culpado nunca vou encontrar. Mas Luke também não merece estar atrás das barras. Vi como ele falou comigo, vi a verdade nos seus olhos. Ele é inocente, e por isso vou ter que arranjar maneira de criar essa dúvida razoável.

- Acho que vai ser difícil – admiti – Mas pelo que ouvi por aí, o advogado da acusação também não é grande coisa. Tem-se safado por causa das desistências dos vossos advogados. Talvez essa seja a nossa salvação.

 

Já faltou mais para o julgamento, mas será assim tão fácil como a Sarah pensa?

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