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As Leis do Amor

por Andrusca ღ, em 15.02.12

Parte 6 – Uma Segunda Oportunidade

 

Saí da banheira e enrolei o meu corpo numa toalha castanha, indo depois na direcção do quarto. Vesti umas calças de ganga e uns sapatos de salto, com uma camisa preta. O meu cabelo apenas sequei, e depois desci as escadas para ir tomar o pequeno-almoço.

A minha mãe tinha ido às compras, e o meu pai estava sentado à mesa a ler o jornal, como sempre.

- Bom dia – cumprimentei, dando-lhe um beijo na bochecha, como sempre fazia.

- Dormiste bem, querida? – Perguntou-me ele.

Suspirei. Não, não dormi. Faltavam dois dias para o julgamento de Luke, e mais uma vez este estava em risco de ser cancelado. Ontem tentara falar com Tom, mas ele não estava na clínica. Andava à procura de advogado. Mas ninguém vai aceitar representar o seu irmão… não contra aquela oposição, não contra Félix Burtin.

- Mais ou menos – respondi-lhe. Ele encolheu os ombros, e eu revirei os olhos – Força, diz lá. Sei que estás desejoso.

O Sr. Parker baixou o jornal e olhou-me, suspirando.

- Tu é que te puseste a jeito – disse ele – Como é que vais remediar as coisas?

- Vou tentar falar com o Tom hoje, outra vez. Não posso deixar que o meu erro condene o irmão dele à prisão, certo?

- Achas que ele te vai ouvir?

- Ele pode estar chateado, e tem razões para isso, mas acho… - um pequeno sorriso ingénuo apareceu-me nos lábios. “Eu gostava de ti”, dissera-me ele – Acho que me vai ouvir. Pelo menos tenho que tentar.

Depois de comer saí em direcção à clínica, e quando lá cheguei já esta se encontrava aberta. Incrível, três dias sem mim e aquela secretária já se encontrava com pilhas de papéis de quase três metros. Nunca vi ninguém tão desorganizado como aquele homem. Assim que entrei o sino tocou, e ele apareceu à porta da sua sala. Quando viu que era eu, a sua expressão mudou.

- O que queres? – Perguntou-me, com mau feitio.

Pronto, talvez eu mereça. Caminhei até à secretária e da minha mala tirei a pasta do caso de Luke, deixando-a cair lá em cima.

- Quero este caso – afirmei-lhe, segura das minhas palavras.

Ele suspirou e revirou os olhos.

- Roubaste-o.

- Já to devolvi. Estás a dois dias do julgamento, Tom. Já encontraste algum advogado? Diz-me, vá lá – notei na sua expressão que não, por isso prossegui – Bem me parecia. Não vais arranjar mais nenhum advogado! Vocês estão contra uma das famílias mais queridas e respeitadas da América Tom. Sim, menti-te, mas sou mesmo a vossa melhor opção neste caso. Estudei o processo de trás para frente e de frente para trás. Consigo fazer isto, consigo fazer com que o teu irmão fique livre, prometo.

- Como é que esperas que confie em ti? – Perguntou-me simplesmente. Respirei fundo e aproximei-me um pouco dele, olhando ligeiramente para cima para lhe poder ver a face.

- Eu sou a mesma pessoa – garanti, encolhendo os ombros, para depois falar com calma – Se te tivesse dito que tinha sido despedida, davas-me aquela oportunidade? Não davas.

- Por isso decidiste mentir.

- Tens razão. Menti. Mas quer gostes, ou não, sou a tua melhor chance de tirares o teu irmão da prisão. Menti porque queria voltar a exercer, porque precisava de um caso de sucesso que me levasse de volta a DC. Pensei que nos pudéssemos ajudar mutuamente, mas devia-te ter dito a verdade.

- Então diz agora.

- Eu trabalhava na mesma firma que o Félix, e tínhamos um cliente… eu julgava-o inocente, mas afinal todos sabiam da sua culpa menos eu. Quando descobri, recusei-me a defendê-lo perante um juiz. Perdi o meu trabalho, poucos meses depois vim para cá.

- E como é que sei que és boa advogada, e não como o Félix te descreveu?

Dirigi o meu olhar para baixo e suspirei, para depois voltar a olhar para ele.

- Luke White, dezanove anos, acusado de matar John Ling, vinte anos. Testemunhas juram tê-lo visto a sair da cena do crime logo depois do acontecido. A família do John quer um culpado, provavelmente por não quererem que se descubram mais escândalos sobre eles. A verdade é que os seus investimentos baixaram e a fortuna diminui a cada dia que passa. Investiguei-os. O pobre John era viciado em droga, mas isso não o matou. Foi esfaqueado. A mesma faca pertence, segundo várias testemunhas, ao teu irmão. Mas há coisas que não batem certo, e acho que encontrei uma maneira de fazer com que a acusação não possa chegar longe com este caso. Os Ling querem um culpado, mas não é o Luke. Talvez tenha sido um traficante, não sei. Mas não foi o Luke. Porque é que o querem tanto incriminar não sei. E não é o meu trabalho saber. O que sei é que se o teu irmão perder, Tom, vai ficar preso para o resto da vida. Eu sou uma boa advogada. Deixa-me vencê-los. Dá-me uma segunda oportunidade.

Tom respirou fundo e dirigiu o seu olhar para a parede por breves segundos, para depois voltar a olhar para mim.

- Vem ter à minha casa logo à noite, deves querer combinar algumas coisas. E por amor de Deus, organiza-me esta secretária.

Sorri e, sem pensar muito, dei-lhe um abraço bem apertado.

- Não te vais arrepender – prometi.

 

*

 

- Tu queres mesmo derrotar este tipo, não queres? – Perguntou Tom. Estávamos ambos sentados na sua mesa da cozinha, com a pasta do caso aberta. Entre conversas sobre Luke, Tom chamou Félix ao barulho.

- Quero mesmo. Quero provar que o teu irmão é inocente, e quero fazer com que o Félix perca. E ele vai perder.

- O que aconteceu entre ti e ele?

- Ele era meu namorado – Tom franziu o sobrolho, e eu encolhi os ombros – Costumávamos vencer os casos juntos, éramos os melhores… e depois houve aquele caso. Pensei que o tipo era inocente, mas descobri no dia do julgamento que não era. Se ele me tivesse dito logo, não teria concordado defendê-lo, e o Félix sabia disso, por isso mentiu-me. Quando desisti do caso arruinei-o, o Félix perdeu e o tipo foi preso. Ele certificou-se que ninguém me contratasse e por isso tive que vir para cá. Ele é simplesmente tão egoísta e egocêntrico. Só pensou no dinheiro que ia ganhar, mas quando eu olhei para aquela família, destroçada por ter perdido a sua menina de treze anos… não consegui. Não conseguia fazer com que aquele assassino saísse em liberdade.

Tom sorriu, e levou as suas mãos às minhas, olhando-me nos olhos.

- Gosto da maneira como te preocupas tanto com as pessoas. É raro, já há poucas pessoas assim.

Senti-me a corar ligeiramente, e desviei o olhar, sorrindo involuntariamente. Tinha sido exactamente o contrário do que Félix me dissera, dissera que toda essa preocupação com as pessoas me tornava fraca. Mas eu partilhava a opinião de Tom, era algo que merecia a pena ser guardado bem dentro de mim.

- Sabes porque me tornei advogada?

- Porquê?

- Queria ser polícia, mas tinha demasiado medo de armas. Desta maneira podia pôr os maus da fita na prisão, sem correr o risco de ser baleada.

- Nunca pensei nisso dessa maneira. Mas suponho que faça sentido. Só espero que corra tudo bem depois de amanhã.

 

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