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As Leis do Amor

por Andrusca ღ, em 19.02.12

Parte 7 – Últimos Ajustes

 

- Sarah… acorda – ouvi, muito ao longe. Aos poucos a realidade ia-se aproximando de mim à medida que abandonava o mundo dos sonhos e, quando abri os olhos, vi Tom inclinado sobre o sofá com duas canecas com café na mão. Ajeitei-me repentinamente, e depois resmunguei baixinho – Sim, adormecemos.

- Que horas são? – Quis saber, agarrando-lhe no café e levando um gole à boca.

- Quase meio-dia – Tom espreguiçou-se, com cuidado para não entornar a chávena que tinha na mão, e depois sentou-se ao meu lado.

Ontem tínhamos estado a discutir vários assuntos, e acabámos por adormecer os dois no sofá. E numa posição bastante má, porque me doem as costas.

- Credo, e ainda tenho coisas para fazer – lamentei – Uns últimos ajustes para amanhã.

- Como o quê?

- Depois vês. Mas tenho mesmo que me despachar… vou a casa tomar um duche e depois… ai mãe! Os meus pais devem estar preocupadíssimos!

Ia-me levantar para alcançar o telemóvel, pousado na mesa, mas Tom puxou-me de novo para o sofá e abanou a cabeça.

- Telefonei-lhes enquanto dormias, não te preocupes – esclareceu, fazendo-me relaxar.

Acabámos de beber o café em paz, e depois fui buscar as minhas coisas, voltar a juntar todos os papéis e enfiá-los dentro da mala, e Tom acompanhou-me à saída.

- Vemo-nos amanhã, então? – Perguntou-me. Hoje nenhum de nós iria à clínica, não iríamos estar com qualquer concentração para trabalhar.

- Sim – respondi – Encontramo-nos no tribunal. Hoje vou acertar umas coisas com o Luke para estarmos todos preparados.

Tom assentiu e despediu-se de mim com um beijo na bochecha e um sorriso. Segui para casa, e lá tomei um bom banho e mudei de roupa. Os meus pais, pois claro está, como se eu de uma adolescente me tratasse, zangaram-se por ter ficado a noite fora de casa.

Segui depois para uma drogaria numa zona um pouco “diferente” do habitual de cá. Era mais problemática. A drogaria tinha um aspecto velho, e as coisas estavam todas amontoadas. Olhei para duas fotografias antes de lá entrar. Um homem, e a arma do crime. Se as minhas suspeitas estivessem certas, talvez o julgamento acabasse por se tornar muito mais fácil do que eu imaginara ao princípio. Agarrei num pequeno gravador e carreguei no Play, para que gravasse tudo daqui em diante.

- Está aqui alguém? – Perguntei, quando entrei.

De trás de uma pilha de ninharias saiu um homem com o cabelo todo desgrenhado, meio loiro, e bastante alto.

- Posso-te ajudar? – Perguntou ele, com uma voz um pouco azeda. Tinha mau aspecto. “Vá lá Sarah, sê corajosa”, exigi-me.

- Estava à procura de uma navalha – disse-lhe – Indicaram-me que aqui tinham coisas de qualidade, e por isso cá estou.

- Hum… tudo o que tenho são produtos únicos, não há cópias. É garantido.

“Não há cópias o tanas”, pensei eu. Assim que o homem me mostrou a colecção de navalhas, vi uma igual à que tinha sido usada para matar o pobre rapaz. Igual à do assassino, e igual à de Luke, e, agora… minha. Era uma prova em como a arma do crime não era única, uma prova em como aquela testemunha já não estava a dizer a verdade. Uma vantagem.

Saí de lá com a minha nova navalha guardada na mala e depois segui logo para a prisão. Tive que esperar bastante tempo até Luke vir ter comigo, e quando o vi notei que estava algo nervoso. É normal, pela primeira vez está a ver que o julgamento vai mesmo andar para a frente.

- Nervoso? – Perguntei-lhe, pelo telefone.

- Um pouco… - murmurou-me ele – Então és a minha advogada outra vez? Posso saber o que se passou?

Suspirei. E eu a pensar que ele nem ia tocar nesse assunto.

- O teu irmão não te contou?

- Contou-me. Mas não sei o que se passou para lhe mudares as ideias, ele estava bastante decidido.

- Pedi-lhe – encolhi os ombros e Luke franziu as sobrancelhas – Ele ama-te, Luke. E sabe que não ia encontrar mais ninguém. Eu sou a vossa melhor aposta, ou não concordas?

- Sim, eu acho o mesmo. Ao princípio não concordei, mas agora até gosto de ti – ele riu-se, e eu fiz o mesmo – E ele também gosta de ti. Nota-se no sorriso com que fica cada vez que diz o teu nome.

Senti-me a corar ligeiramente, e desviei o olhar para a bancada que tinha à frente, ouvindo Luke a rir.

- Vamos falar do caso – disse-lhe.

- Vocês mudam sempre de assunto – queixou-se – Diz-me a verdade, andas ou não a namorar com o meu irmão? Porque…

- Não, não ando. Somos apenas amigos.

- Não parecem apenas amigos. Ele é um bom partido, sabes? Ele…

- Eu sei Luke. Agora já podemos falar do que importa? – Ele assentiu com a cabeça – Amanhã só nos vamos encontrar no tribunal. A audiência começa às dez. Conhecendo o Félix como conheço, ele vai-te chamar a depor, mas não te preocupes que isso é normal. Ele vai-te tentar dar a volta à cabeça mas não te podes esquecer de uma coisa: és inocente Luke, independentemente do que ele te diga, pensa antes de lhe responderes a qualquer coisa. Ele é matreiro.

- Já me estás a assustar. As testemunhas também vão depor, certo?

- Certo. E tu provavelmente vais-te exaltar com muitas das coisas que ouvires, mas não podes fazer nada. Lá dentro a tua voz sou eu, não te podes chatear e falar a não ser que te seja pedido, está bem?

- Isso vai ser um bocado impossível.

- Os juízes reagem mal a réus que se exaltam no tribunal, ficam logo de pé atrás. Nós estamos lá para ganhar, preciso que confies em mim. Podes fazer isso?

- Eu confio em ti.

 

*

 

Olhei as escadas do tribunal e respirei fundo. Era hoje, o meu regresso àquilo que adorava fazer. Tinha vestido a minha saia preta, até aos joelhos e com apenas uma pequena racha, uma camisa branca metida para dentro dela, e calçado uns sapatos pretos de salto alto. O meu cabelo loiro encontrava-se preso num rabo-de-cavalo bem puxado para cima, e a maquilhagem era o mais simples possível.

As câmeras já estavam todas voltadas para o tribunal, e fotografavam quem já lá se encontrava. A audiência começava em meia hora. Félix dava uma entrevista, e Tom encontrava-se perto da porta. Assim que o avistei fui até ele, e sorri-lhe.

- Preparado? – Perguntei-lhe.

- Então e tu? – Retorquiu-me.

Notei que, tal como Luke no dia anterior, estava bastante nervoso, e por isso dei-lhe um abraço apertado.

- Vai correr tudo bem – garanti-lhe, ao ouvido, num sussurro.

Ao desviar-me Tom impediu-me, e ficámos bastante próximos. Senti um formigueiro por todo o corpo, e Tom inclinou-se ligeiramente para mim, porém coloquei-lhe a mão à frente dos lábios, e ele engoliu em seco.

- Desculpa, eu… - desculpou-se.

- Guarda-o para quando ganharmos o caso, está bem? – Pedi-lhe, fazendo-o sorrir de novo. Dei-lhe um beijo na bochecha e puxei-o pela mão para dentro do tribunal – Vamos lá.

 

Desculpem não ter chegado mais cedo.

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