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As Leis do Amor

por Andrusca ღ, em 22.02.12

Parte 8 – O Julgamento

 

- Chamo agora o réu a depor, Meritíssima – disse eu.

O julgamento já estava a decorrer há algum tempo, e tenho que admitir que as coisas não pareciam boas para o nosso lado. Mas eu ia dar a volta a isso. Eu ia ter que dar a volta a isso.

Luke levantou-se da cadeira onde estava, à mesa onde também era o meu lugar, e dirigiu-se à cadeira do lado direito da juíza. Após jurar dizer a verdade, tive permissão para começar com as minhas perguntas.

- Conta-nos o que aconteceu, Luke – pedi-lhe.

Luke respirou fundo e esfregou as mãos, uma na outra. Estava nervoso, e não o conseguia esconder.

- Disse ao John que queria desistir das drogas… já estava afastado há um tempo, quando ele me telefonou naquela noite – começou Luke – Disse que precisava da minha ajuda, que era só mais aquela vez. Disse-me para o encontrar naquele beco, por isso fui para lá. Ele já estava morto quando lá cheguei.

- A que horas é que lá chegaste? – Perguntei-lhe.

- Por volta das nove e meia.

- A hora de óbito está estimada entre as nove e as nove e quinze – informei – Viste lá alguém?

- Não, ele estava sozinho.

- Então ninguém pode confirmar que apenas lá chegaste às nove e meia?

- Não.

- A arma do crime?

- Não sei, não vi nada. Só quis sair de lá o mais rápido possível.

- Mas é verdade que tens uma navalha igual.

- Sim.

- E mostrou traços de sangue. Porquê?

- Tinha-me cortado poucos dias antes. Ainda tinha a marca quando a navalha foi confiscada.

- Porque é que não chamaste as autoridades, Luke?

- Porque sabia que me haviam de incriminar. Ninguém do grupo dele gostava de mim, tal como a família, por isso eu sabia.

- Mataste-o, Luke? Mataste o John Ling?

- Não.

Assenti com a cabeça e dirigi o meu olhar para a juíza.

- Não tenho mais perguntas – afirmei.

- O advogado de acusação? – Perguntou ela, a olhar para Félix. Eu respirei fundo e recuei até à minha cadeira, onde me sentei, ao mesmo tempo que Félix se levantava da dele e caminhava para mais perto de Luke.

- Luke White… - murmurou ele, rindo-se – Tens um grande ficheiro, sabias? Drogas… agressões… não percebo a dúvida do tribunal entre te considerar culpado, ou não. Diz-nos, Luke, fazias, ou não fazias, tráfico com a vítima?

Luke olhou para mim, e eu assenti com a cabeça.

- Fazia. Mas já tinha parado, não falava com ele há semanas.

- E usavas, ou não, essas drogas? – Perguntou Félix.

Luke cerrou os punhos.

- Aconteceu poucas vezes – admitiu.

- Sim, poucas vezes… - Félix soltou uma gargalhada e voltou-se depois para a juíza – Então este rapaz, este adolescente com precedentes criminais, este cidadão que afirma ter usado drogas, que tem problemas de auto-controlo, que defende ser inocente, é um bom citadino para o nosso mundo? Alguém que faça o mundo um bom lugar?

- Objecção Meritíssima! – Interrompi, levantando-me e caminhando para ao pé deles. Todos os olhos se viraram para mim, e Félix era o mais presunçoso deles todos – Ele está a difamar o meu cliente para que quando lhe perguntar as perguntas certas, ninguém acreditar nas respostas. Chama-se ad hominem (ataque pessoal), está a acusar o meu cliente e não o que ele diz. Não está a refutar os factos Meritíssima. Em duas perguntas, nenhuma delas foi relevante para o caso.

- Concedida – disse a juíza – Advogado, chegue à questão que quer provar.

- Claro, Meritíssima – disse Félix – Este telefonema que recebeste, podes-nos dizer as horas?

- Não sei… perto das oito, acho eu – respondeu Luke.

- E há alguém que o possa confirmar? – Perguntou Félix.

- Sim… o meu irmão.

- Então gostava de chamar o Thomas White a depor – disse Félix, lançando-me um pequeno sorriso – Não tenho mais perguntas.

Luke voltou a sentar-se na sua cadeira e eu sussurrei-lhe um “muito bem”, discretamente. Foi a vez de Tom jurar a veracidade das suas palavras, e de se sentar para depor.

- Sr. White, é verdade que tem cuidado do seu irmão desde a morte dos vossos pais? – Perguntou Félix.

- Sim – respondeu Tom.

- E nunca notou o problema com as drogas? As más companhias? Porque esses problemas podem ter levado a torná-lo num assassino, Sr. White.

- Notei. E repreendi-o. Foi até obrigado a cumprir trabalho comunitário uma vez – disse Tom.

- Sobre a chamada, ouviu-a?

- Partes da conversa, sim. Ouvi-o combinar as horas, nove e meia, e o sítio.

- Diga-nos outra coisa – Félix foi remexer nos seus papéis, e depois tirou de lá uma fotografia da navalha que tinha sido usada para cometer o crime – Já alguma vez tinha visto esta navalha na posse do seu irmão?

- Sim.

- E não achou estranho?

- Ele costumava frequentar zonas perigosas, por isso não.

- Já alguma vez viu alguma navalha igual a esta?

- Só porque nunca vi, não significa que não exista.

- Obrigado, Sr. White. Não tenho mais perguntas.

- Advogada Parker? – Perguntou a juíza, a olhar para mim.

- Também não tenho perguntas para o Sr. White – respondi.

Nesse momento Félix gargalhou, atraindo assim para si toda a atenção de toda a gente.

- Algum problema, Dr.? – Perguntou a juíza.

- Não Meritíssima, estava apenas a pensar… não será conflito de interesses que a Dra. Parker esteja a defender o irmão do namorado?

- Filho da mãe – deixei sair baixinho, sendo apenas ouvido por poucas pessoas – Meritíssima, isso não é verdade, não há nenhum tipo de relação entre mim e ninguém relacionado com o réu.

- Desde que se mantenham nas provas, não tenho nada contra no meu tribunal – afirmou ela, ditando um intervalo.

A maior parte aproveitou para ir à casa de banho, ou espairecer, mas Luke preferiu ficar quieto na cadeira, tal como Tom.

- Isto está a ser um fiasco – queixou-se Tom.

- Tem calma – pedi-lhe – Ele chacinou todas as nossas testemunhas, é verdade, mas nenhuma delas era relativamente importante. As da acusação é que são. Não te preocupes, eu vou provar que os depoimentos não são credíveis.

Decidi sair também um pouco, estava a começar a sentir-me claustrofóbica. Um caso contra Félix era difícil, admitia isso. Vi-o a beber uma garrafa de água, encostado a uma parede, e andei até ele.

- Bom truque, tentares tirar-me do caso por interesses pessoais. – Disse-lhe, ironicamente – Tens assim tanto medo que te vença, que precisas de jogar sujo? Ah espera, é verdade, só assim é que sabes jogar.

- Desde que ganhe – limitou-se a dizer.

Comecei a ouvir uma grande confusão dentro da sala. Ia começar outra vez.

- Não vais ganhar. E eu nem sequer vou precisar de descer aos teus métodos baixos – os meus trunfos chegam agora.

 

Será que a Sarah consegue dar a volta ao julgamento?

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