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As Leis do Amor

por Andrusca ღ, em 01.03.12

Parte 9 – “Pensem com cuidado”

 

- Gostava de chamar a testemunha Daniel Tompkin, da acusação, a depor – disse eu, olhando para o velhinho sentado no banco das testemunhas. Ele levantou-se nervosamente e caminhou, de bengala da mão, e a coxear, até ao assento ao lado da juíza – Conte-nos o que sabe, Sr. Tompkin.

- Bem… - o velhote clareou a voz e depois coçou a cabeça, dando uma olhadela ao pai da vítima, sentado na mesa da acusação – Ouvi gritos vindos do beco, e por isso fui ver o que se passava.

- Mas estava deitado, não está correcto? – Intervim.

- Sim, estava deitado na minha cama.

- E a janela para o beco fica na sua cozinha, não é verdade? – Perguntei.

- É verdade…

- Portanto, para chegar à cozinha, para poder espreitar à janela, teria de percorrer o corredor e a sala de jantar, correcto?

- Sim.

- Hum… - fui até à minha mala e de lá tirei os anteriores depoimentos, folheando-os apenas para dar um ar de graça. Sim, porque eu sabia exactamente o que ia dizer – Disse nos seus anteriores depoimentos que não levou mais de dezassete segundos para fazer tudo isso.

- Disse.

- Então estava deitado, ouviu o barulho, pegou na bengala e colocou os óculos, percorreu o seu corredor e a sala de jantar, abriu a portada da janela e espreitou para o beco.

- Precisamente, excepto que não coloquei os meus óculos.

- Mas vê mal ao longe, não é assim?

- Bem… se a distância for demasiado grande.

- Bem, fez tudo isso em menos de dezassete segundos.

- Exacto.

- E quando espreitou, Sr. Tompkin, o que viu?

- Vi um rapaz caído no chão, sem vida. E vi outro a fugir.

- Esse outro rapaz, é aquele que está sentado naquela mesa? – Apontei para Luke.

- Precisamente. Aquele rapaz.

- Quantos anos tem, Sr. Tompkin?

- Oitenta e três.

- E já tinha tido algum contacto anterior com a família da vítima?

- Já. Costumava comprar-lhes coisas, quando era mais novo. São boa gente, faziam-me sempre descontos.

- Descontos esses que, mais cedo ou mais tarde, têm que ser pagos, certo? – Daniel ficou a olhar para mim e engoliu em seco. Eu segui até ele e agarrei na bengala, observando-a – Importa-se?

- Esteja à vontade.

Peguei na bengala e fui até à mesa onde Luke estava sentando.

- Sr. Tompkin, pense na distância que o seu corredor e a sua sala de jantar têm. Diria que é de onde eu estou, até àquela parede – apontei para a parede em frente a mim, onde estava a bancada dos júris –, se eu for e vier duas vezes? Fazendo assim quatro percursos?

- Sim… mais ou menos, sim.

- Então permita-me demonstrar uma coisa – pedi, retirando um cronómetro de dentro da mala – Meritíssima, peço paciência, pois os meus métodos podem ser pouco ortodoxos. No entanto estou aqui para provar a inocência do meu cliente – a juíza assentiu. Sentei-me na cadeira e cliquei no botão para que o cronómetro começasse a contar – Ouço o grito – informei, levantando-me da cadeira – Levanto-me da cadeira… - peguei na bengala, que estava ao lado – e na bengala. Começo a andar apressadamente, pois fiquei alertada – mesmo a andar depressa, a coxear e a ter que usar a bengala não me conseguia mover muito bem – Estou a caminho… estou a caminho… - fiz o percurso quatro vezes, e depois voltei a parar em frente à mesa – E cheguei – desliguei o cronómetro – Este teria que ser o percurso que o Sr. Tompkin teria que fazer, estou correcta?

- Sim – disse Daniel.

- Protesto, Meritíssima! – Disse Félix – A advogada de defesa não pode imitar uma testemunha! E ainda por cima brincar com o estado de saúde da própria, que não se consegue movimentar depressa!

- Estava a provar a minha teoria – contestei.

- Negada – disse a Meritíssima, a Félix, que ficou vermelho de raiva – Prossiga.

- Eu demorei exactamente… trinta e cinco segundos a fazer estes percursos – anunciei – Não foram mais dois, não foram mais cinco. E além disso, mesmo que tenha chegado a tempo, não há garantias de que visse bem as pessoas devido ao estado avançado de miopia que o Sr. Tompkin possuí. Há alguma coisa que queira mudar no seu testemunho, Sr. Tompkin?

Daniel engoliu em seco, e eu sorri interiormente.

- Talvez tenha confundido o tempo – disse ele – E talvez tenha os óculos… não sei.

- Quando viu o rapaz, se o viu de todo, ele estava de costas – afirmei, tendo como referência o seu anterior testemunho – Como pode ter tanta a certeza que era o Luke White?

- Bem… o cabelo era igual… e o casaco…

- Então não podem haver mais rapazes com o cabelo castanho-escuro nesta localidade? Ou mais rapazes que possuam casacos idênticos? Sr. Tompkin, viu a cara do Luke White? Viu alguma marca que apenas ele tenha? Viu, ou não viu, alguma coisa relativamente importante para fazer essa acusação?! – O velhote engoliu em seco, e eu sorri-lhe – Bem me parecia. Não tenho mais perguntas.

Voltei ao meu lugar a Félix olhou-me de lado, visivelmente chateado. Começou a chamar mais testemunhas, mas nenhuma delas me interessava. Apenas ia precisar de uma. E se tudo corresse bem, que ia correr, Luke estava safo.

- Não tenho mais perguntas – afirmou Félix, regressando ao seu lugar. A juíza olhou para mim e levantei-me, dirigindo-me à pessoa sentada ao seu lado. Ele olhou para mim e, pela primeira vez, observou-me bem.

- Eu conheço-te! – Afirmou.

Sorri interiormente e ignorei.

- Afirma ter vendido a arma do crime àquele rapaz, Luke White, não está correcto? – Perguntei-lhe, sem rodeios.

- Sim – respondeu-me, após engolir em seco.

- E disse que era especial. Porquê?

O homem com o cabelo loiro e todo desgrenhado, com um fato pobremente cuidado, começou a mexer freneticamente as mãos. Estava a ficar nervoso.

- Por nada de especial – disfarçou.

- Não é verdade – acusei, recorrendo de novo aos meus papéis – Aclamou que era uma navalha única, sem que no mundo houvesse outra igual, não é verdade?

O homem engoliu em seco.

- Sim – acabou por dizer.

Andei até à minha mala e de lá tirei a navalha que lhe tinha comprado no dia anterior, provocando uma exclamação geral.

- E, no entanto, ainda ontem me vendeu uma igualzinha, aclamando o mesmo – declarei.

- Protesto! – Gritou Félix – Não há provas de que a minha testemunha tenha, de facto, vendido essa navalha.

- Não é verdade. Posso, Meritíssima?

- Sim. Negado, advogado da acusação – Félix bufou, e eu retirei um pequeno gravador também de dentro da mala. Pu-lo a tocar, fazendo-se ouvir a conversa que tinha tido com o homem, em que o próprio me dizia ser uma navalha única e sem parecenças com quaisquer outras.

- Esta não é a sua voz? – Perguntei-lhe.

- É – acabou por dizer, após hesitar vários segundos – É a minha voz.

Depois disso apenas mais duas pessoas falaram. E então chegaram as alegações finais. Félix falou primeiro, e depois eu.

-… portanto, para concluir, não há testemunhas viáveis, não há qualquer ligação à arma do crime que, pelo que se sabe, pode nem ser aquela navalha. O meu cliente está inocente Meritíssima, júri, eu sei disso e vocês também. Não mandem um rapaz inocente para a prisão. Decidam cuidadosamente.

O júri juntou-se para deliberar o veredicto, e Félix veio falar comigo para me insultar mais um pouco. Mas eu nem lhe prestei atenção. Só pensava em qual seria o desfecho de tudo isto.

Quando o júri voltou, o porta-voz ficou de pé e, após clarear a garganta, falou:

- O réu é, por unanimidade, considerado…

 

Este capítulo chegou muito atrasado, peço desculpa :s

Foram os trabalhos, a escola, o chegar tarde... enfim...

Mais uma parte e acaba, por isso já sabem, 7 comentários para verem o desfecho disto tudo ^^

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