Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Robin Hood - The Legend

por Andrusca ღ, em 15.03.12

Parte 2 – Oh Robin, Querido Robin

 

Elisabeth penteava os cachos dourados em frente ao espelho e cantarolava, enquanto via, através do reflexo, Aliena preparar o seu vestido para vestir.

- Para quem foi raptada ontem, está de bom humor – reparou a aia. Elisabeth sorriu e voltou-se para trás.

- Posso-te contar um segredo? – Perguntou.

- Claro – Aliena aproximou-se da cadeira onde a ama estava sentada e Elisabeth respirou fundo.

- Não podes dizer a ninguém. Eu conheci-o. O Robin Hood. Bem, o seu filho, cujo nome é igual. Aliena se o pudesses ter visto… ele era ágil, e lutava como um verdadeiro Deus. Abriu-me os olhos Aliena, o que o meu pai está a fazer com o povo… fazê-los passar fome e depois matá-los por roubarem e cortar-lhes as mãos… Pensei que o Robin fosse mau, um fora de lei comum e vulgar. Mas não é. Rouba dos ricos para dar aos pobres. É um verdadeiro herói, e eu espero… espero vê-lo de novo.

Aliena franziu o nariz; ela não estava a gostar do entusiasmo com que a sua ama falava naquele rapaz.

- Veja lá, não se meta em problemas com o seu pai por causa desse fora de lei – aconselhou.

- Não – afirmou Elisabeth –, descansa. Mas eu só… tenho que lhe agradecer…

- Agradecer? – A aia soltou uma gargalhada – Ele raptou-a!

Elisabeth encolheu os ombros e suspirou.

- Raptou – confirmou –, mas acho que com o dinheiro que ganhou ajudou muitas pessoas. Devia-lhe agradecer por isso.

Aliena suspirou e abanou a cabeça.

- Isso não serão apenas desculpas? Não haverá aí apenas uma vontade de o ver novamente? – Perguntou ela.

- Oh Aliena, não sejas tonta. Claramente que não. Agora vou tomar banho, e depois vou sair. Quero conhecer Nottinghan.

- Devia descansar… passou a noite…

- A dormir – garantiu a rapariga dos caracóis de ouro – Dormi bem, numa casa pobre, mas aconchegada. Estou bem, Aliena, só quero arejar as ideias.

A aia assentiu e retirou-se para ir preparar o banho para a sua ama, enquanto Elisabeth se levantou da cadeira e se dirigiu à janela, pela qual espreitou. Do castelo tinha uma vista para quase toda a cidade, mas o que mais perto estava arrepiava-a: uma plataforma com uma forca. Ela queria saber quem era mesmo o seu pai, se o homem de quem se lembrava e sobre o qual cresceu a idolatrar, se o monstro horrível que só pensa em carnificina.

- Robin Hood… - murmurou ela, ao pensar em voz alta – vou-te encontrar.

Depois do seu banho, vestiu um vestido até aos pés, verde musgo, e fez uma trança com o seu cabelo. Calçou umas botas castanhas e, à semelhança do dia anterior, escondeu lá o pequeno punhal. Estava prestes a sair do castelo quando um dos guardas a avisou de que o seu pai a queria ver, e a acompanhou à sala do xerife.

- Desejava ver-me, pai? – Perguntou ela, ao entrar. O xerife sorriu, com o seu dente de ouro bem cintilante. Levantou-se da cadeira da sua secretária e caminhou até ela, abraçando-a.

- Estou feliz por cá estares – afirmou, apesar de o tom soar um pouco irónico a Elisabeth.

- Estou feliz por cá estar – disse ela, sorrindo-lhe.

- Infelizmente tenho a tarde ocupada, mas posso destacar alguns guardas para te levarem a conhecer a cidade, se desejares – prontificou-se ele.

- Não há necessidade. Preferia conhecer a cidade sozinha.

- Mas pode ser perigoso. Os fora de lei…

- Vivem na floresta. Eu não vou passar pelas muralhas.

 

*

 

A tarde estava quente e Elisabeth já caminhava pela floresta de Sherwood há longos minutos. Tinha mentido ao seu pai. Tinha saído das muralhas de Nottingham. Tinha ido à procura deles.

- Podia jurar que o acampamento era por aqui… - murmurava ela, enquanto procurava pelo local em que na noite anterior fora presa a uma árvore.

Andou por mais alguns minutos até suspirar, já cansada. O seu sentido de orientação nunca fora perfeito, mas também não era mau. Safava-se bem. Mas por alguma razão não encontrava o acampamento daquele grupo de amigos.

- Procuras alguma coisa? – Ouviu, por trás de si, assustando-se. Voltou-se rapidamente para ver o rapaz de cabelos desgrenhados, de cor castanha, e olhos azuis a sorrir para si.

- Robin Hood – murmurou.

- Elisabeth O’Connery – disse Hood.

- Estás sozinho? – Perguntou a rapariga, enquanto ele se aproximava mais dela, de arco ao ombro.

- Eu não preciso de guarda-costas… - Elisabeth assentiu e, com um movimento rápido, deu um murro na cara do rapaz, apanhando-o desprevenido.

- Isto é por me teres beijado – afirmou, recompondo-se.

Robin endireitou-se, com uma mão no maxilar, e riu-se para ela.

- Filha de um xerife, sem dúvidas – disse ele.

Elisabeth revirou os olhos e voltou-se de costas, olhando em volta.

- Podia jurar que o vosso acampamento era por aqui perto – murmurou ela.

- E era. Claro que não íamos ficar no mesmo sítio depois da filha do xerife ter visto a localização – ele deu alguns passos e ficou ao lado da rapariga, enquanto a observava de alto a baixo. Uma beleza natural, sem dúvida.

- Eu não sou como o meu pai – garantiu ela, com a voz firme, o que o surpreendeu – É verdade que ele é um assassino? – A rapariga engoliu e voltou-se para ele, deixando-os aos dois bastante próximos – Diz-me Hood.

Robin sorriu.

- Eu já te beijei, tu já me deste um murro, acho que me podes chamar Robin – sussurrou ele, respirando fundo em seguida – Lamento dizê-lo mas… o xerife não é uma boa pessoa.

Elisabeth assentiu e desviou-se do fora de lei, caminhando até uma das muitas árvores daquela floresta verde e encostando-se a ela.

- Era isso que temia – confidenciou.

Robin, que ficara no mesmo sítio, sorriu-lhe.

- Se contar para alguma coisa, não acho que sejas como ele – afirmou ele, fazendo-a olhá-lo de novo – Milady, esta manhã não tinhas a obrigação de fazer o que fizeste. Estavas solta, podias ter ido em liberdade e com o dinheiro. Não o fizeste, escolheste ajudar os pobres. Foi uma decisão que o xerife nunca faria.

- Fiz um erro ao vir para Inglaterra, não fiz? – Elisabeth encostou a cabeça ao tronco da árvore e olhou o céu, sorrindo tristemente.

- Porquê?

- Vim à procura de um pai que me deixou há dezassete anos atrás. Tinha três, na altura em que me disse que iria ser o xerife aqui. A minha mãe… ela morreu quando eu era muito pequena, e sempre fui criada num convento, até que o meu pai se veio embora e eu fiquei lá a morar definitivamente. Ele escrevia cartas, mandava dinheiro… acho que talvez a imagem dele, com que cresci, não corresponde à real. Não devia ter vindo para Inglaterra, devia ter ficado em França.

Robin pressionou os lábios e aproximou-se dela, agarrando-lhe na mão de uma maneira reticente. Ela olhou-o de maneira reprovadora, mas antes que algo pudesse dizer, a voz do rapaz perturbou os sons naturais da floresta.

- Um erro seria viver numa mentira – afirmou ele, sorrindo-lhe. Elisabeth abanou a cabeça e retirou a mãos de entre das dele, dando alguns passos para os distanciar.

- E agora conto-te tudo isto. Gostaria de saber o porquê. Dizer-me-ias o porquê? – Quando se voltou de novo para ele, já Robin se encontrava demasiado perto, de modo a ficarem separados apenas por milímetros. Elisabeth ficou vidrada naqueles olhos azuis, e nas covas nas bochechas que Robin fazia de sorrir. Era lindo.

- Porque, quer gostes, ou não, confias em mim – disse ele, num tom baixo. A rapariga assentiu, era verdade – E gostas de mim, é compreensível.

- É engraçado… as freiras do convento diziam maravilhas do Robin Hood; o meu pai, desgraças. E agora venho e conheço-te e eu… não consigo…

- Não consegues… - Robin começou a passar com o seu dedo pelo braço da rapariga, fazendo-a arrepiar-se.

- Não me consigo decidir sobre quem tem razão – disse ela, rápido, desviando-se – Tenho que regressar ao castelo, disse que não sairia de Nottingham.

- Vou-te ver de novo? – Gritou ele, quando ela ia já ao longe.

Elisabeth voltou-se para trás e continuou a andar de costas, enquanto se ria.

- És o Robin Hood, a lenda é que consegues qualquer coisa que queiras. A pergunta é: queres-me ver de novo?

Robin riu e a rapariga começou a abandonar o seu campo de vista de uma forma rápida.

 

*

 

A noite caíra fortemente na floresta, e Sherwood estava bastante calma. Alfred, Percy e Robert estavam sentados à volta da fogueira, a comer a carne já assada, enquanto Robin permanecia deitado no chão, em cima de uma manta, a olhar as estrelas.

- Anda comer! – Gritou-lhe Alfred.

- Deixa-o, não vês que está a pensar? – Retorquiu Robert. Percy soltou uma alta gargalhada, que fez com que captassem a atenção do herói do povo.

- Aposto que sei em quê – disse o rapaz – Quando fiz o meu desvio para ir a Locksley, sabem o que vi? O Robin com a filha do xerife.

Os outros dois abriram a boca de espanto, e Robin levantou-se para ir agarrar no pedaço de carne que lhe pertencia, dando-lhe uma trinca.

- É verdade? – Perguntou Robert.

- O que veio ela fazer a Sherwood? – Perguntou Alfred.

Robin encolheu os ombros, e os outros três olharam-se entre si.

- Estavam bastante próximos – comentou Percy – Será que o rapaz que teima em não se apaixonar se está a tomar de liberdades com a filha do xerife?

- Não é nada disso! – Garantiu Robin, dando-lhe um pequeno empurrão – Ninguém está a tomar liberdades com ninguém. Ela é a filha do xerife, metam juízo nessas cabeças. Mas se me puder divertir um pouco, não vou recusar.

Percy riu, mas os outros dois conseguiram conter-se.

- Oh, Robin, querido Robin… isso é sério – murmurou Robert.

10 comentários

Comentar post