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Robin Hood - The Legend

por Andrusca ღ, em 22.03.12

Parte 4 – A Quem és Leal?

 

- Estás a dormir? – Elisabeth ignorou, mantendo-se de olhos fechados – Beth? Estás a dormir?

A rapariga suspirou, retirando os braços de debaixo das mantas e deixando-os cair com força no colchão.

- Não me chames isso! – Discutiu, fazendo Robin rir baixinho. Ambos tinham sussurrado, pois os outros dois encontravam-se a dormir e a ressonar. Robert encontrava-se perto da janela, sentado no chão encostado à parede, e Percy estava sentado na cadeira perto da cómoda, torcido e com a cabeça caída para trás. Robin estava deitado sobre uma manta fina, no chão, com as mãos atrás da cabeça e de barriga para cima.

- Então não estás a dormir! – Confirmou ele. Elisabeth revirou os olhos, e aproximou-se da berma da cama, pondo-se de lado de maneira a conseguir vê-lo através da pouca luz da única vela agora acesa.

- Devias descansar – aconselhou – Vais precisar de estar bem acordado amanhã. Se não queres descansar, pensa numa maneira de saíres daqui sem seres apanhado. Haverá guardas por todo o lado.

- Senti preocupação? – Elisabeth sorriu.

- Não – garantiu ela – Mas admiro a tua determinação. És um bom amigo, Robin Hood, leal.

Ela ouviu o pequeno barulho que ele fez a sorrir, e observou-lhe todos os traços enquanto o via a olhar para o tecto.

- Eles estão comigo desde quase sempre. São as únicas pessoas a quem sou leal, e que sei que o são para mim – confidenciou – Os únicos amigos que possuo. Então e tu? A quem és leal?

Elisabeth encolheu os ombros.

- Não sei – admitiu – Nunca tive que escolher posições. Gosto de pensar que o sou às boas pessoas.

- Então devias-me ser leal a mim – foi a vez dela rir.

- Porque começaste a fazer isto? Foi o teu pai? Obrigou-te?

- Não… dificilmente. Sou bastante parecido com ele, e tenho a teimosia da minha mãe. Acredito no que é certo, e o povo de Inglaterra precisa de alguém que tome conta deles.

- E porquê tu?

- Porque não?

- Não te parece que é demasiado, às vezes?

- Há partes boas também.

- Como o quê?

- O sorriso nas caras deles, quando recebem dinheiro… o gozo de poder humilhar alguns guardas, o James e o xerife…

- Mas valem os riscos?

Robin parou, pela primeira vez, e olhar o tecto e dirigiu o seu olhar para Elisabeth.

- Este momento definitivamente vale.

Ela sentiu-se a corar, e desviou o olhar para a vela.

- Devíamos dormir.

- Sim, devíamos.

 

*

 

Elisabeth acordou com os raios de sol a baterem-lhe na cara, já sem mais ninguém no quarto. Certamente já se teriam ido pôr em posição, para que quando chegasse a hora do enforcamento estivessem a postos. Aliena chegou pouco depois e preparou-lhe o banho.

- Parece pensativa – comentou, enquanto ela brincava com a água, fazendo remoinhos com o dedo. Elisabeth sorriu, a aia já a conhecia demasiado bem.

- Haverá um enforcamento esta manhã? – Perguntou.

- Sim, é verdade! Já me esquecia, o seu pai pediu o seu comparecimento – disse Aliena.

- Claro.

Depois do banho, Elisabeth vestiu um vestido vermelho, com várias rendas brancas, e apanhou o cabelo num carrapito muitíssimo bem feito. Comeu junto do pai, e depois seguiram juntos para a frente o castelo, onde se encontrava a forca. Sentiu-se chocada ao ver a quantidade de pessoas que lá estavam reunidas. James e os guardas estavam lá a manter a segurança; alguns nobres; muita gente do povo; e, algures, camuflados, os salvadores de Alfred.

- Adoro um bom enforcamento pela manhã – comentou o xerife, para horror da filha. Ela não partilhava a mesma opinião. Sabia que as leis tinham que ser cumpridas, mas achava toda aquela encenação algo desumana.

Alfred foi trazido por dois guardas, e subiu para a plataforma. Olhou para a multidão antes de lhe ser enfiado um saco castanho na cabeça, e então um dos guardas fê-lo subir para cima de uma altura e enrolou-lhe a corda ao pescoço. Elisabeth engoliu em seco. “Onde está o Robin?”, perguntava-se ela.

- Alfred de Locksley, está aqui a ser julgado pelos crimes de roubo, e blá blá blá, cuja punição é a morte. Força!

Elisabeth olhou chocada para o pai. As suas palavras mostravam-se nuas de quaisquer sentimentos. Apenas queria que a parte da morte viesse, nada mais, e isso admirou-a bastante. Desiludiu-a bastante.

O guarda deu um pontapé no suporte em que Alfred estava em pé e depressa o rapaz começou a espernear enquanto o ar lhe era cada vez menos. A filha do xerife olhava escandalizada para a multidão, à procura de Robin, à procura de algo que salvasse Alfred, mas não havia sinais de nada.

- Parem! – Gritou ela, para surpresa de todos, voltando-se para o pai – Pai por favor, pare. Isto é uma atrocidade! Aquele homem…

- É um fora de lei! – Gritou-lhe o xerife – E, como tal, deve ser punido. Nunca mais me fales nesse tom.

Elisabeth engoliu em seco, mas no preciso momento em que ia ripostar uma flecha foi lançada, cortando a corda de Alfred, e caiu mesmo aos pés do xerife. Alfred caiu na plataforma, e para lá subiram Robert e Percy, que começaram a lutar com os guardas ao mesmo tempo que ajudavam o amigo a livrar-se da corda e do saco. Elisabeth sorriu involuntariamente, mas recompôs-se logo a seguir.

- Não é demasiado cedo para crimes, xerife? – Aquela voz.

Robin desceu da janela de uma casa, com a ajuda de uma corda, e todos se desviaram para o deixar passar.

- Robin Hood – Amaldiçoou o xerife, entre dentes – Apanhem-no! Apanhem o Hood! Não o deixem fugir, seu bando de escumalha! James! Guardas! Apanhem o Hood!

Uma luta entre espadas e flechas tomou lugar, e aquilo deu tantas voltas que às tantas Elisabeth já não sabia a quantas andava. O seu pai e James já estavam lá para o meio, mas chegou a um ponto em que Robin e os amigos ficaram mesmo perto da muralha. A liberdade estava aos seus alcances, e todos pararam nesse momento. Elisabeth sorriu, mas olhou para o seu pai e viu-o fazer sinal a um arqueiro que se encontrava numa das varandas do castelo. Se disparasse, teria um tiro limpo sobre Robin.

A rapariga viu um arco no chão e, sem pensar, agarrou nele e na flecha que estava ao lado e fez pontaria ao arqueiro da guarda do pai. Disparou, descontraída e com técnica, a tempo de apanhar a flecha do outro no ar e trespassá-la, fazendo-as ficar as duas pregadas à muralha. Sorriu triunfante, e Robin olhou para si, sorrindo também. Ele apercebera-se. Quando o xerife se ia voltar, ela escondeu-se por trás de um dos pilares do castelo, afinal, ele não podia saber o que ela tinha feito. Matá-la-ia com as próprias mãos.

 

*

 

- Que grande confusão – comentou Aliena, enquanto abria a cama de Elisabeth – E afinal o fora de lei fugiu. Era um dos amigos do Robin Hood. Não teve medo, milady ?

- Não… - Murmurou Elisabeth, penteando o seu cabelo – Aliena, dás-me um conselho?

- Se conseguir.

- Estou dividida entre o que acho ser certo, e a razão. Sei que não devia ir de encontra aos conceitos do meu pai… mas parte de mim não consegue parar de pensar que são errados. Que… e Deus me perdoe, Robin Hood está certo. Parte de mim quer…

- Seguir o Hood? – Interpelou a aia. Elisabeth assentiu, levantando-se e voltando-se para ela, e Aliena aproximou-se e pousou-lhe a mão sobre o coração – Sempre seguiu o seu coração. Costumava levar as freiras à loucura devido a isso. Isso é o que a faz tão especial, milady.

Depois disso, a aia voltou costas e saiu, deixando Elisabeth entregue aos seus pensamentos. Tinha sido mais um dia atribulado, e não lhe parecia que fossem melhorar. Não com o Robin Hood e o xerife perto um do outro. Respirou fundo e pousou a escova na cómoda e, quando se voltou para a cama, saltou ao ver Robin perto da janela.

- Assustaste-me – queixou-se, sem uma voz reprovadora. Caminhou até à cama e sentou-se, voltada para ele.

- Lindo truque com o arco esta manhã… foi impressionante – elogiou ele – Devo-te um agradecimento e, provavelmente, a minha vida. Onde aprendeste aquilo?

Elisabeth sorriu-lhe.

- Tenho alguns truques. Devias ir, agora – aconselhou. Robin assentiu, apenas lá tinha ido para agradecer. Voltou-se de novo para a janela e pôs uma perna para fora, agarrando-se à corda – Espera! – Ele parou e olhou para a rapariga, que se levantou e se aproximou dele. Aliena tinha razão, Elisabeth sempre seguira o coração e não ia ser agora que ia mudar, por muito que tentasse – Eu sou leal a ti, Robin Hood.

Nos lábios de Robin formou-se um sorriso deslumbrante, e depois depositou um beijo na bochecha da rapariga, coisa à qual ela ainda não se tinha acostumado.

- É bom saber Beth.

 

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