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Sob o Luar

por Andrusca ღ, em 26.04.12

Capítulo 5 – O “gato”

 

Dois meses tinham passado. Amanda continuava a andar juntamente com o grupo de Dean, por insistência da parte de Carry, e agora até estava a começar a conhecer uma pequena parte do rapaz que desconhecia. Mas ele era cuidadoso. Apenas a mostrava quando sabia ser seguro. Quando estavam os dois sós e não havia ninguém por perto para também perceber que ele não é tão livre de sentimentos e medos como aparenta.

- No que estás a pensar? – Amanda foi chamada de regresso à Terra quando Carry lhe falou, interrompendo-lhe a linha de raciocínio.

Estavam as duas no quarto dela, a estudar para o último teste do ano, visto que a escola acabava para a semana seguinte e seguiam-se três meses de férias cheias de calor e longos dias na praia.

- Em nada de especial – desvalorizou Amanda, à medida que voltava a olhar para os livros.

Carry continuou a fitá-la, e Amanda sentia bem o seu olhar sobre si.

- Nada de especial? – Insistiu a amiga.

- Sim, nada de especial – confirmou ela, desviando o olhar para Carry, que se encontrava no chão, sentada numa manta e entre almofadas.

- Mandy, vai mentir à mulher da mercearia, sim? – Disse – Eu sei muito bem no que estavas a pensar, e nem o tentes negar. Era no Dean.

Amanda revirou os olhos e levantou-se da cadeira da secretária, dirigindo-se para ao pé da janela. O dia estava bonito, não havia uma única nuvem a manchar o azul do céu.

- Talvez – acabou por admitir.

- O que é que se anda a passar entre vocês os dois, mesmo? – Carry largou os livros, mandando-os para cima do chão, e subiu para a cama, pondo-se confortável em cima da colcha cor de rosa. A amiga encolheu-lhe os ombros, e Carry suspirou – Ele sai de mansinho de ao pé do grupo para ir ter contigo. Tu sais depressa das aulas para estares com ele. Soa-me a alguma coisa, e normalmente tenho razão neste tipo de situações.

- Eu sei lá Carry! – Exclamou Amanda, mandando os braços ao ar e voltando-se de novo para a amiga – Eu gosto de passar tempo com ele, mas… mas… mas…

- Mas?!

- Mas ele é o Dean Finnighan, Carry! Como é que sei que não está apenas a fingir? Não quero ser apenas mais uma na sua longa lista de curtes.

- Não sabes. Cabe-te a ti decidir que consegues, ou não, confiar nele.

Depois de Carry se ir embora, Amanda continuou a pensar nisso. Deveria ou não confiar neste Dean tão diferente do conhecido? Mas numa coisa a melhor amiga tinha razão: ele não lhe era indiferente.

Terminou um trabalho para a escola e depois foi tomar um longo duche, antes de ir jantar. O jantar foi sereno. Os pais perguntaram aos filhos como tinha corrido o dia, e vice-versa, e depois falaram dos mais variados assuntos. Era um jantar igual a todos os outros.

Depois de ajudar a mãe a arrumar a cozinha, Amanda subiu para o quarto e sentou-se um pouco na secretária, ao computador. O assunto sobre o qual tinha falado com Carry voltou a invadir-lhe a mente, e um arrepio percorreu-lhe a espinha ao mesmo tempo que as bochechas assumiam um tom mais corado. Sim, ele deixava-a neste estado, por muito que o quisesse recusar.

Pôs-se então a ver fotografias antigas, que tinha guardadas numa caixa velha, de sapatos, no fundo do roupeiro. Eram todos crianças, nos tempos em que não havia preocupações nenhumas. Encontrou uma em que apenas aparecia ela e Dean, o rapaz sempre com o seu sorriso reguila, e um braço por cima do ombro dela. Amanda sorriu, talvez Carry tivesse razão. Talvez ainda não lhe tenha dado uma oportunidade maior por ter medo e não confiar nele o suficiente. Mas também… não teria já ele provado que consegue ser boa pessoa? Não havia nada a temer.

Estava deitada na cama, a ler um livro sobre o qual ia ter que fazer um trabalho para a escola, quando começou a ouvir um som pequenino vindo da sua janela. Franziu as sobrancelhas e olhou para o despertador, em cima da mesa-de-cabeceira, para verificar que já passavam das onze e meia. Levantou-se, um pouco reticente, e foi espreitar. Viu Dean, que do andar de baixo mandava pequenas pedrinhas. Abanou a cabeça ao mesmo tempo que se ria e abriu a janela.

- Estás maluco? – Perguntou ela, baixinho, para não acordar os pais nem o irmão.

- Desce – pediu ele.

- O quê? Não. Está tarde Dean.

- Então deixa-me entrar.

Amanda revirou os olhos e fechou a janela sem lhe dizer mais nada. O que é que seria que lhe queria dizer que não pudesse esperar mais um par de horas, até se encontrarem na escola?

Vestiu o seu roupão branco e desceu as escadas, com cautela. Abriu a porta e lá estava ele. Encostou a porta, para que o barulho da conversa não fosse para dentro de casa, e depois suspirou à medida que se voltava para ele de novo.

- Mas tu estás completamente louco? – Perguntou-lhe, num sussurro zangado. O rapaz riu-se – É uma coisa assim tão importante que não pode esperar até amanhã?

- Sim – respondeu ele – Estava a andar de mota hoje à tarde, ao pé do parque, e…

- Dean – suspirou Amanda, bocejando – Não me podes contar amanhã? Ia mesmo agora dormir.

- Não, não posso. Ouve, é rápido – insistiu ele – Parei a mota porque o sinal estava vermelho, e então olhei para o lado e sabes o que vi?

- Um extraterrestre à luta com um gambá? – Gozou ela, fazendo-o revirar os olhos.

- Uma rapariga pequena a cair e a esfolar o joelho, e depois um rapazinho a ajudá-la – continuou – E isso lembrou-me de nós.

Amanda franziu o sobrolho.

- Não estou a perceber onde queres chegar – murmurou.

- É que… quando éramos pequenos, eu costumava olhar para ti da maneira como o miúdo olhou para a rapariga. Ele correu para ela, todo preocupado, porque não queria que se magoasse – à medida que falava, Dean ia-se aproximando – Mandy, eu também não queria que te magoasses…

- Do que é que estás a falar?

- Afastar-me de ti foi o pior erro que fiz desde sempre – Dean agarrou nas mãos da morena e ela ficou estática à olhar para ele.

- Crescemos… é normal que nos tenhamos afastado – murmurou ela, engolindo em seco. Mas Dean abanou a cabeça, não concordava.

- Não é desculpa. A verdade é que naquela noite, quando saímos do bar, e éramos só tu e eu pela primeira vez em muito tempo, estranhei a tua frieza. E ao princípio não conseguia perceber porquê. Mas depois percebi: porque é que havias de ser simpática para o idiota que praticamente te tinha colocado na prateleira?

- Dean…

- Nunca me devia ter afastado de ti – repetiu ele – Porque tu és uma pessoa genuinamente boa. Percebi isso quando, sem mais perguntas, sem mais súplicas, me deixaste entrar outra vez na tua vida e deixar de ser só mais uma pessoa com quem dividias os copos. E a partir dessa noite comecei a lembrar-me porque é que costumava gostar tanto da tua companhia. Comecei a olhar para ti como olhava como quando éramos pequenos. Porque me deste outra oportunidade.

- Onde é que queres chegar, com isto?

Dean, ainda a agarrar nas mãos da rapariga, deu mais um passo quase colando o corpo dos dois e Amanda, encostada à parede, sentiu as bochechas a ficarem cada vez mais quente.

- Quero dizer que me importo, e que não te quero ver magoada, nunca, e que quero cuidar de ti. Porque de alguma maneira, tu ainda me consegues ver como sendo aquele rapazinho pequeno e inocente que te costumava amar.

A respiração da rapariga tornou-se ofegante. Ela nunca soube disso, ele nunca lhe tinha dito que gostara dela enquanto crianças.

- Tu…

- Estou a começar a ser esse rapazinho outra vez – interrompeu-a ele –, em todos os aspectos.

Dean não esperou mais. Olhou directamente nos olhos da rapariga e aproximou a face da dela, depositando-lhe um longo beijo nos lábios. Também ele tinha o coração a palpitar mais depressa que o normal. Largou as mãos de Amanda e colocou-as na cintura da rapariga, puxando-a mais para ele. Entre beijos, sorriu. Ela não o tinha afastado.

Uma luz acendeu-se dentro de casa, assustando-os aos dois, e passos foram ouvidos a virem lá de dentro.

- Mandy? És tu? – Perguntou a mãe de Amanda, enquanto descia as escadas.

- Tu tens que ir embora – sussurrou Amanda, para Dean, para em seguida gritar: - Sim mãe, sou eu!

- Mas o que é que estás a fazer na rua a estas horas? – A mãe dela aproximava-se cada vez mais.

- Sim – concordou Dean, também a falar num tom bastante baixo. Deu mais um beijo à rapariga e depois saiu a correr, mesmo a tempo.

Amanda entrou e fechou a porta, dando de caras com a mãe.

- Desculpa se te acordei. Tive sede e vim beber um copo de água, mas depois ouvi um barulho e vim espreitar – mentiu, indo em direcção à cozinha para ir então beber a água – Era só um gato, já o enxotei.

 

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