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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 15.08.12

Capítulo 1

A Oportunidade de uma Vida

 

Caroline corria pelas ruas húmidas de New Jersey. Há três dias e quatro noites que a chuva não cessava, o que tornava a vida da rapariga bastante mais complicada. Estava encharcada, com frio e cansada, mas não podia abrandar o passo. Ele tinha-a encontrado uma vez mais. Não sabia como o fazia, mas sempre que se achava livre, ele aparecia. Estava cansada de viver fugida. Queria mais do que esgueirar-se dele, mais do que viver nas ruas e roubar e passar frio. Sonhava em ir para a faculdade e tirar o curso de Medicina. Antes disso, mais simples ainda, queria ir para um liceu e formar um grupo de amigos que durassem mais do que cinco dias. Queria paz, queria liberdade. Mas ele nunca a deixaria ter nada disso.

Entrou para um beco e viu que não havia saída. Agora sim, estava bem tramada. Entrou por uma porta de metal, do seu lado direito, ao ouvir passos apressados a chapinhar nas poças de água. Fechou a porta por trás de si e parou para recuperar o fôlego. Ele tinha mais de cinquenta anos, mas corria bem. Só passados poucos segundos é que viu onde estava. Era uma sala com um ambiente pesado, com a luz reduzida e várias pessoas amontoadas lá dentro. Uma discoteca, a julgar pela música densa que se fazia ouvir, algo duvidosa. Começou a tentar passar despercebida, a andar com uma calma forjada e sem olhar ninguém nos olhos, mas sabia que tinha que se apressar, em poucos segundos ele entraria também para ali e não pararia até a encontrar.

- Desculpe… lamento… com licença – ia dizendo, à medida que se desviava dos corpos vestidos de negro da cabeça aos pés, e tentava evitar as pisadelas devido às danças que por ali havia.

Conseguiu chegar até ao balcão, de onde já conseguia ter uma vista mais ampla da sala, e viu que era enorme. Porém, uma pessoa saltou-lhe à vista. As barbas negras e cinzentas eram um pouco compridas, e os olhos escuros. As roupas, modestas, e os sapatos rotos. Ele já estava lá dentro.

- Posso ajudar em alguma coisa? – Perguntou o empregado do bar, ao que Caroline respondeu com um abanão de cabeça.

Apressou-se a encontrar a saída, e saiu para a rua. Forçou os seus ténis velhos e desgastados uma vez mais contra o pavimento, enquanto corria com velocidade debaixo da chuva até à estação do metro. Embateu num senhor que levava um chapéu-de-chuva e uma gabardina, e apressou-se a pedir-lhe perdão enquanto habilmente lhe tirava a carteira do bolso.

Continuou a fuga, agarrou no dinheiro e mandou tudo o resto para o chão.

- Um bilhete para Nova Iorque – pediu.

Entrou no metro e apenas respirou fundo quando viu as portas fechar e o sentiu a avançar. Tinha conseguido. Mais uma vez tinha conseguido despistá-lo. Mas até quando poderia continuar a fazer isto? Para sempre é muito tempo, e Caroline estava ciente de que nunca viveria tanto.

Em Nova Iorque já não chovia e, como a noite já ia avançada, achou por bem encontrar um sítio onde passar a noite. Estava a passar calmamente em frente a umas casas térreas, quando notou que uma delas estava para venda. “Não faz mal ir espreitar”, pensou para si enquanto se aproximava. Espreitou pela janela da frente, depois pela das traseiras, e nada. A casa estava completamente vazia, não havia sinais de pessoas, nem de mobília. Caroline olhou para o céu e suspirou, mais chuva viria aí. Decidiu então que aquele era o sítio perfeito para si, e voltou à frente da casa. Tirou um dos ganchos do cabelo encharcado e abriu a porta com ele, sem dificuldade.

Estava completamente congelada. Despiu o seu casaco roxo claro, ficando apenas com uma blusa branca de alças, e deixou-o cair no chão. Estava pesado devido à água. Descalçou também os ténis e as meias, e deixou-os lá ao lado. As calças saíram a seguir, deixando-a apenas vestida com as cuecas e a blusa de verão. O estômago estava a começar a dar horas, mas Caroline decidiu descansar um pouco antes de ir procurar comida. Estava esgotada, por isso deitou-se no chão do que assumiu ser a sala de estar, e adormeceu toda encolhida.

 

✽✽✽

 

Estava em Nova Iorque há três dias, e nenhum sinal dele. Tinha conseguido roubar alguma comida num supermercado, e até tinha ido a um restaurante gastar o resto do dinheiro do homem que assaltara em New Jersey. Sabia que não podia continuar ali por muito mais tempo, mas também ainda não se tinha decidido sobre para onde ir. O que gostava mesmo era de conseguir ir para o estrangeiro. Talvez para a Suíça, ou para a Finlândia. Algum sítio bem longe, onde pudesse viver sem estar sempre a olhar por cima do ombro, mas para isso precisava de dinheiro.

Olhou para o ecrã do telemóvel que ele lhe dera há mais de cinco anos, e usou-o como espelho. A sua figura estava pior do que nunca. Os seus lindos cabelos negros, até aos ombros, pareciam sem vida, e os seus belíssimos olhos azuis-claros não tinham nenhuma ponta de brilho. Tinha atingido a exaustão, só queria uma solução e depressa.

Deu por si a pensar então no que a tinha levado ali. Ele criara-a. Dissera-lhe a sua verdadeira data de nascimento, o seu nome, e que os seus pais tinham abdicado dela. Que a tinham dado a ele de livre vontade. Ao princípio não deixava que nada lhe faltasse, tratava-a como se fosse sua, mas um traficante de droga não podia agir por muito tempo como se tivesse coração. Mal Caroline fez cinco anos, as tareias começaram. Usava-a para roubar e esquivar-se das pessoas e clientes e, quando ela recusava qualquer favor, enchia-a de nódoas negras. Viveu essa vida por treze anos até que, numa noite de trovoada, enquanto ele estava drogado na sala, arranjou coragem e desatou a correr sem olhar para trás. Há quatro anos que anda foragida, sempre com ele à sua procura. Agora já nem é por gostar dela, agora é por lhe querer dar uma lição.

- Ninguém faz do Roger Carter parvo – murmurou Caroline, sentada no chão do hall da casa para venda, lembrando-se daquela frase que tantas vezes ouvira.

Assustou-se ao ouvir um barulho na porta das traseiras, e o seu coração começou logo aos pulos. Tinha dezassete anos e pesadelos todas as noites. Se ele a encontrasse, o mais provável era matá-la, e isso assustava-a até ao ínfimo do seu ser. Pôs-se de pé rapidamente e escondeu-se atrás da parede que dava para a sala, pondo-se à espreita. Os passos eram calmos e pacíficos, nada como os brutos e apressados que Roger dava e, aos poucos, uma figura começou a aparecer à sua frente. Era um homem com quarenta e poucos anos, mas que aparentava ter muitos mais devido ao bigode grisalho e felpudo que usava. Envergava um fato muito fino, preto, e uns sapatos envernizados. Já lhe faltava um pouco de cabelo na nuca, mas nos lábios tinha um sorriso. Parecia amigável.

- Olá, Caroline – cumprimentou, assistindo ao pânico da miúda.

- Quem é você? – Apesar de assustada, Caroline fez de tudo para que a sua voz não fraquejasse.

O homem levou a mão dentro do fato e de lá tirou uma fotografia, que passou para as mãos dela. Lá estava uma rapariga idêntica a ela em todos os pormenores. O cabelo negro, os olhos azuis, o sorriso angelical e a beleza inexplicável. Vestia umas roupas finas, um vestido curto e sapatos altos.

- Não percebo… - murmurou ela – Nunca tirei esta fotografia. Não sou eu.

O homem sorriu e assentiu.

- Eu sei – proferiu – A rapariga nessa fotografia tem dezassete anos, e vive em Beverly Hills. O nome dela é Cindy Geller.

Caroline franziu as sobrancelhas. Não estava a perceber nada do que se estava a passar.

- Não entendo – murmurou – Ela é… igualzinha a mim.

- E devia ser. Vocês são irmãs gémeas.

 Aí sim, o coração da rapariga falhou uma batida. Ela tinha uma irmã? Uma irmã gémea? Como podia isso ser? Então… o seu último nome, coisa que nunca soubera, é Geller? Já tinha pensado em Caroline Erickson, Caroline Turner, Caroline Pitt, mas nunca em Caroline Geller. O que quereria aquilo dizer? E o que quereria aquele homem?

- Como é que sabe isso? – Questionou.

- Permite-me que me apresente. Chamo-me Joseph, e sou o mordomo na casa dela. A menina Cindy desapareceu ontem sem dizer nada a ninguém, não há rasto dela.

- Bem… até agora não sabia que ela existia, por isso não a vi. Se visse, notava… seria como olhar num espelho.

- Não vim para ver se a tinhas visto, Caroline. Vim, porque preciso que ocupes o seu lugar.

- O quê? Ocupar o seu lugar? Isso é de loucos, claro que não vou fazer isso.

Caroline dera-lhe a fotografia, e preparava-se para sair da casa devido à imensidade das revelações do momento, mas algo a fez parar. Uma proposta que nunca poderia recusar.

- Dou-te cinco mil dólares – apenas aquela frase fê-la parar e voltar a encarar de novo Joseph – Sei que tens problemas, imagina o jeito que esse dinheiro te podia fazer. Podias ir para onde quisesses. Tudo o que tens que fazer é ocupar o seu lugar, viver numa mansão por alguns dias, falar bem aos pais dela por algum tempo, ir à escola… e quando ela voltar, desaparecer.

Era uma oferta tentadora, bastante tentadora. E o dinheiro fazia-lhe falta, podia finalmente alcançar a liberdade que tanto queria. Sabia que não devia confiar naquele homem, nunca o vira mais gordo, mas era de facto uma oferta impossível de rejeitar. Além disso, o que era o pior que podia acontecer? Ter que fugir de dois homens, em vez de apenas um?

- Os pais… - Murmurou, engolindo em seco – Os meus pais?

Joseph assentiu com a cabeça. Ela queria conhecê-los. Queria saber o porquê de a terem abandonado, e mantido Cindy. Queria fazer mil e uma perguntas. Mas não precisou de mais de dois segundos para perceber que isso apenas lhe ia trazer tristezas. Se fizesse a sua parte do acordo, porém, poderia sair melhor do que nunca. Pensou no estrangeiro, pensou na Medicina.

- Viver em Beverly Hills por um tempo… muito bem. Está combinado.

 

Este capítulo foi grandinho, porque queria explicar um pouco da história da Caroline.

Espero que gostem.

Ainda não fiz o segundo capítulo, mas talvez uns comentários me dêem incentivo (a)

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