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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 18.08.12

Capítulo 3

Ser Outra Pessoa

 

Pouco tempo depois de estar despachada, Caroline começou a ouvir barulho no corredor. Até lá tinha estado a ver o quarto ao pormenor, a mexer nas roupas e abrir gavetas, mas agora sabia que estava na hora de ir conhecer os pais.

Desceu as escadas com as pernas a tremer, estava com um certo nervosismo, e fez barulho com os saltos altos ao andar sobre o chão de madeira até chegar à sala de jantar. Não conseguiu evitar de ficar especada à porta, enquanto observava as duas figuras que estavam já sentadas. Um homem bem-parecido, com os cabelos escuros e uns olhos claros, que vestia um fato preto estava à cabeça da mesa. Do seu lado direito, uma mulher nos seus quarentas anos, de caracóis castanhos-escuros e olhos da mesma cor, vestida com um vestido lilás e calçada com umas sandálias altas, punha manteiga numa torrada. Caroline engoliu em seco, não era assim que os tinha imaginado. Era a primeira vez que via os seus pais, e não sabia o que dizer ou como agir. Por momentos pensou em deitar tudo a perder, dizer-lhes quem era e perguntar porque a tinham deixado, mas descartou logo essa ideia. “Concentra-te”, obrigou-se, “eles abandonaram-te, Caroline. Ganha o dinheiro e podes ser livre”.

- Bom dia – cumprimentou, dirigindo-se ao seu lugar à esquerda do Sr. Geller, o único que restava e tinha loiça posta.

- Olá Cindy – O seu pai tinha uma voz forte, mas suave ao mesmo tempo. Era agradável ao ouvido.

- Bom dia, querida – disse a Sra. Geller, sem levantar os olhos da torrada. Quando o fez, soltou um gemido e olhou escandalizada para a filha, que não percebia a razão daquilo. Será que a tinha reconhecido e sabia que não era a Cindy? Será que estava tudo estragado? Afinal, as mães conhecem sempre os filhos, certo? – Oh meu Deus, Cindy! Foste cortar o cabelo?

Caroline engoliu em seco. Aquelas não eram, definitivamente, as primeiras palavras que esperava ouvir da mãe. Lembrou-se das fotografias que tinha visto da irmã, em que ela apresentava o cabelo pela cintura. Claro que, tendo ela o dela pelos ombros, as pessoas iriam notar.

- Sim… fui – respondeu, da maneira mais simples que conseguiu.

- Mas porquê? Tinhas um cabelo tão bonito, tão longo... no que é que estavas a pensar?

A rapariga ficou sem reacção a olhar para a mãe. Pensava que o assunto morria ali, não sabia como falar de cabelos, não esperava que armassem um grande escândalo por o dela estar mais curto que o de Cindy.

- Eu… que… era demasiado longo? – Respondeu, em tom de pergunta.

- Oh… tinhas um cabelo tão bonito.

- Obrigado? – Caroline não sabia se devia agradecer, ou apenas ficar calada, mas a verdade foi que o resto do pequeno-almoço foi desconfortável e constrangedor.

- Bem, adoro-vos às duas mas o dever chama – disse o Sr. Geller, ao levantar-se da sua cadeira – Bom trabalho querida, e boa escola Cindy.

- Obrigado… pai – Caroline sentiu-se estranha ao pronunciar aquela palavra. Roger obrigava-a a chamar-lhe isso, mesmo não sendo ele o seu verdadeiro pai, e agora sentia que era esquisito chamar aquilo ao Sr. Geller sem sequer o conhecer. Acontece que ser outra pessoa não era tão simples quanto ela esperava.

Pouco depois também a sua mãe se foi embora, deixando-a à vontade para ir até à cozinha, onde viu pela primeira vez a cozinheira e a empregada. A cozinheira era uma senhora de terceira idade, com cabelos grisalhos apanhados num carrapito, e a empregada parecia ter vinte e muitos anos, de cabelos castanhos. Cumprimentou-as às duas como se fosse um dia normal, desconhecendo que Cindy nunca fazia tal coisa, e depois Joseph levou-a para a sala com Keith.

- Como foi? – Questionou, sobre o pequeno-almoço.

- Constrangedor – resumiu Caroline – E agora?

- Agora vamos para a escola – quem falou foi Keith, que tinha já a sua mochila ao ombro e agarrava numa mala cinzenta com uma só asa na direcção dela. Ela agarrou na mala e respirou fundo.

- Está bem. Tu conduzes, ou vamos a pé?

Joseph e Keith entreolharam-se e ambos se riram.

- Não exactamente – murmurou o jovem, enquanto a encaminhava até à porta. Saíram sem dizerem mais nada a Joseph, e Keith levou Caroline até perto do gradeamento, onde um carro descapotável cinzento estava estacionado – Tu conduzes.

Ela olhou com um brilho especial no olhar para ele e riu-se. Era tudo demasiado bom para ser verdade.

Keith passou-lhe as chaves e entraram. Era a primeira vez que Caroline estava atrás de um volante de um carro que não tivesse sido roubado, e era uma boa sensação. Keith ligou o GPS.

- Basta seguires o GPS para ires para a escola – informou, enquanto ela punha o carro a trabalhar – Enquanto não chegamos… força. Pergunta o que quiseres.

- Está bem… hum… como são os nomes deles? – Keith olhou para ela e franziu as sobrancelhas, não tinha percebido a pergunta – Dos Geller.

- Ah! Ela chama-se Terry, e ele chama-se Marshall.

- Terry e Marshall… - murmurou ela – E o que é que fazem?

- Ela trabalha num hospital local, é chefe da cardiologia, e ele é um produtor de cinema.

- Está bem… - Caroline pensou em mais perguntas, enquanto absorvia as informações dadas por Keith – E como se chamam a cozinheira e aquela senhora que também lá estava?

- A cozinheira é a Dorcas, e a empregada chama-se Kim.

- Então e tu? Desde quando é que moras naquela casa?

- Há dezassete anos, desde que nasci. A minha mãe morreu no parto…

- Lamento.

Durante o resto do caminho continuaram a falar sobre Terry e Marshall, até que chegaram à escola e Keith disse a Caroline onde ela devia estacionar o carro. Saíram e a rapariga observou a escola. Era enorme e tinha vários alunos à entrada.

- Vês aquelas raparigas ali? – Keith apontou para duas raparigas que estavam entretidas na conversa – A da esquerda chama-se Rebecca, e a outra é a Phoebe. São as tuas melhores amigas. Nós, pelo contrário, não falamos na escola. Uma coisa que tens que saber sobre a Cindy é que ela não fala com gente… bem, inferior.

- O quê? Porquê? Isso é uma estupidez.

- Não interessa, é o que tu tens que fazer agora. Vai ter com elas.

- Há mais alguma coisa que devesse saber?

- A tua primeira aula é História, e sentas-te na mesa ao lado da Rebecca. Ah! E o teu cacifo é o 558, tens as chaves na mala. Boa sorte.

Keith abandonou-a ao pé do carro e dirigiu-se a um grupo de rapazes, com quem começou a falar. Caroline respirou fundo e começou a andar na direcção das duas raparigas, enquanto as admirava. Rebecca vestia umas calças justas e uma túnica lindíssima, e tinha uns belos caracóis loiros; Phoebe era morena e estava de calções pretos e blusa justa. Ambas usavam saltos altos. Assim que chegou ao pé delas, ambas lhe sorriram.

- Cindy! – Exclamou Phoebe – ­Oh meu Deus! Cortaste o cabelo!

- Fica-te… diferente – admirou Rebecca, dando um sorriso amarelo – Gostava mais de como estava… mais longo…

- Bem… precisava de uma mudança – inventou Caroline.

- Pareces estranha… o que é que se passa? – Perguntou a outra.

- Nada – garantiu ela – Absolutamente nada.

Foi salva pela campainha, que ecoou por todo o lado. Caroline esperou que as “amigas” fossem para a sala, e seguiu-as. Phoebe foi para outra sala, despediram-se à entrada da de História, e ela teve que esperar que a outra se sentasse para saber onde era o seu lugar. Sentou-se e tirou as coisas da mala, respirando fundo. Viu também que lá dentro estava um smartphone cor-de-rosa e uma carteira, juntamente com chaves e alguma maquilhagem, além dos cadernos. Era tudo tão estranho, ninguém fazia ideia que aquela pessoa ali sentada não era Cindy, mas sim ela, e isso metia-lhe um pouco de confusão. Pensou em como seriam as notas de Cindy, se seriam boas ou más. Decidiu que, fosse como fosse, ia dar o seu melhor para aprender o mais que pudesse. Era bastante curiosa.

Passou a parte da manhã mais ou menos bem, ia dizendo umas coisas que faziam com que as outras duas franzissem as sobrancelhas, mas no geral até não se safou mal. Percebeu, porém, que muita gente a olhava de lado naquela escola. Tinha várias raparigas a idolatrá-la, uma imensidão de rapazes a admirá-la, mas também várias pessoas a detestá-la. Isso só poderia querer dizer uma coisa: aquela rapariga que nos filmes é dona de uma beleza invejável mas má como as cobras, era ela. Era Cindy, e agora era ela.

Detestava não saber onde eram os sítios, como a biblioteca ou a cantina, mas também percebeu depressa que nem Phoebe, nem Rebecca, queriam saber dos livros. De novo, teve que esperar que elas fossem para a cantina para as poder seguir. Assim que lá chegaram, Caroline arregalou os olhos perante a fila enorme. Suspirando, pôs-se no fim, surpreendo as outras duas.

- O que é que estás a fazer? – Perguntou Phoebe, rindo-se – Pára com as brincadeiras, anda lá.

Caroline apenas percebeu o que elas queriam dizer quando as viu a passar à frente de toda a gente para irem buscar os seus almoços. Engoliu em seco e respirou fundo. “Se é assim que a Cindy faz”, pensou para si. Saiu também da fila e imitou as outras duas. Depois de terem a comida, Rebecca expulsou um grupo de rapazes de uma mesa e sentaram-se lá.

- Então, o que há de novo? – Perguntou Rebecca, depois de ter dado meia dúzia de golos na sua água.

- Hum… nada – disse Caroline, encolhendo os ombros.

- Oh Cindy, por favor. Sabes sempre de qualquer coisa – insistiu Phoebe.

- Já sei! Nem vão acreditar! – Exclamou Rebecca – O Bruce Lo finalmente acabou com a parva da Naomi, não é fantástico?!

Caroline apenas riu nervosamente e encolheu os ombros, enquanto Phoebe se riu.

- Já estava na altura – comentou ela.

 

✽✽✽

 

Caroline vagueava sozinha pelos corredores do liceu. As amigas de Cindy não tinham mais aulas, mas ela ainda tinha mais uma. Estava distraída, a pensar em quão mesquinhas e superficiais elas eram quando, sem querer, embateu num rapaz numa curva. Quando levantou a cabeça viu que ele era portador de uns belos olhos verdes, e um cabelo castanho-escuro. Não pareceu ficar muito feliz por a ver.

- Desculpa – proferiu ela, formando um pequeno sorriso.

- Não te preocupes. Já devia saber que os corredores têm que estar vagos para ti – com aquela resposta, Caroline engoliu em seco. Sem dizer mais nada, rodeou-o e ia a andar, mas de novo a sua voz fê-la parar – Pareces diferente.

- É... cortei o meu cabelo – respondeu, voltando-se de novo para ele, para depois uma usar uma voz sarcástica – Era tão longo, e tão bonito, não sei porque o fiz.

- Não é isso... mas de qualquer maneira, gosto mais desta maneira. Vejo-te ao jantar.

Ele foi-se embora, e Caroline ficou especada a vê-lo a afastar-se. “Jantar?”, pensou.

 

E pronto, chegou o terceiro capítulo.

O que estão a achar?

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