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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 19.08.12

Capítulo 4

Os Montgomery

 

Caroline entrou no “seu” carro e conduziu até casa. Ainda não conseguia acreditar, tinha estado um dia inteiro na escola e ninguém tinha suspeitado de nada. Era algo de outro mundo.

Estacionou o carro no lugar onde ele estava de manhã, e entrou em casa e olhou em volta. Não se via ninguém, estava tudo muito quieto. Num requintado relógio alto, a um dos cantos do hall, pôde ver que eram seis horas. Foi até à cozinha e lá viu Joseph, sentado à mesa a desfolhar o jornal diário.

- Cheguei – fez-se anunciar, ao mesmo tempo que apurava que não estava mais ninguém naquele espaço – A Dorcas e a Kim?

- Saíram – Joseph respondeu-lhe sem sequer a olhar, e Caroline franziu os sobrolhos. Puxou uma cadeira e sentou-se à frente dele.

- Joe. Posso-te chamar Joe, certo?

- Preferia se não o fizesses.

- Joe, já tiveste notícias da Cindy?

Joseph levantou o olhar do jornal e suspirou. Dedicou então toda a sua atenção à rapariga à sua frente.

- Ainda não. Quando se foi embora, deixou um recado. Dizia para eu arranjar maneira de impedir os pais dela de descobrirem que tinha fugido. Mas também disse que ia voltar. Não a vou procurar, pois sei que quando estiver pronta voltará.

- E até lá…

- És ela. Como foi hoje, na escola?

- Esquisito… mas bom ao mesmo tempo. Conheci um rapaz… ele disse que me via ao jantar. Vou jantar fora?

Joseph abanou a cabeça.

- Conheceste o Nate Montgomery – deduziu ele – Ele e os pais vêem hoje cá jantar. O pai dele trabalha com o teu.

- Hum…

- Vêem às oito. Até lá, estás livre para fazeres o que quiseres. Podes ir explorar a cidade, ou a casa, entretém-te.

Caroline assentiu e levantou-se, arrumou a cadeira e rumou ao andar de cima. Não lhe apetecia explorar a casa, e estava cansada para ir ver a cidade, doíam-lhe os pés devido aos saltos e, por apenas alguns minutos, queria ser ela própria. Por uma das janelas do corredor, viu a sua salvação.

Vestiu um biquíni azul e saiu para o jardim. A água da piscina não estava muito quente, mas isso não a deteve. Pôs-se a boiar de barriga para cima após ter dado algumas braçadas, e os pensamentos começaram a surgir-lhe na mente. Sabia que algo não batia bem. Não era normal aquele mordomo subitamente saber do seu paradeiro, nem sorte tê-la ido buscar no momento em que a sua gémea decidira desaparecer misteriosamente. Ele escondia qualquer coisa, e Caroline sabia-o bem. Ela própria era uma mestre em esconder, e mentir, e fugir. E via nos olhos do pobre homem que também ele fugia a algo, talvez uma memória menos boa ou a tempos de outra vida. Decidiu que, na devida altura, lhe poria todas essas perguntas. Até lá, ia aproveitar a vida que nunca teve, mas que sempre poderia ter sido a sua.

Com os olhos fechados, por causa do sol já fraco, lembrou-se também de Roger. Tinha sido ele a ensiná-la a nadar, quando tinha ainda cinco anos. Nessa altura era meigo para ela, foi antes de se ter afundado nas drogas de modo a não conseguir vir mais à superfície. Antes de ela sentir que tinha que fugir para sempre.

 

✽✽✽

 

Como não sabia bem o que vestir para o jantar, Caroline pediu a ajuda de Keith, que lhe vasculhava pelo roupeiro.

- Ela nunca me deixou vir ao quarto dela – confidenciava ele, sobre Cindy, enquanto mexia nas roupas.

- Keith, está a ficar tarde – queixou-se Caroline, ao ver que ele não estava a ajudar em nada.

- Calma… calma… - o rapaz saiu do closet com um vestido preto e um cinto largo – Usa este. E uns saltos altos. Era algo que ela usaria.

- Então, basicamente, ela arranja-se sempre como se fosse para os Emmy’s.

Keith riu-se e saiu do quarto. Muito bem, se era assim que tinha que ser, então Caroline teria que se aperaltar. Após um duche rápido vestiu o vestido, que lhe acima dos joelhos, e fez um apanhado com o cabelo. Só depois calçou umas sandálias da mesma cor do vestido e aplicou a maquilhagem. Ouviu a campainha e respirou fundo. Se os pais de Nate gostassem tanto dela, como ele, então o jantar seria tudo menos agradável.

Mal desceu as escadas, viu-os. Os Montgomery estavam impecavelmente arranjados, tal como os pais de Caroline. A mãe de Nate usava um vestido simples mas bonito, e o pai dele, tal como Marshall, tinha um fato vestido. Caroline andou até eles e parou junto aos pais, que os recebiam.

- Cindy! – Exclamou a Sra. Montgomery – Que bonita que tu estás.

Caroline sorriu, e agradeceu. Viu Nate por detrás dos pais. Tinha umas calças escuras e uma camisa branca. Não parecia contente, não formava nem um pequeno sorriso. Na verdade, parecia estar ali por obrigação.

Depois de todos se terem cumprimentado, seguiram para a sala de jantar. Os homens falavam de negócios, e as senhoras iam falando dos mexericos, das lojas, da escola dos miúdos. Caroline estava à frente de Nate, e nenhum deles abria a boca a não ser para comer.

- Cindy, querida, estás tão calada – comentou Terry.

“É estranho, por esta altura já me tinha saltado para cima”, pensou Nate automaticamente. Cindy tem, desde sempre, uma grande fixação por ele. Apesar de andar sempre envolvida com este ou com aquele, nunca deixa de pensar em Nate. Era chata e estava sempre junto a ele, a fazer conversa de conveniência e a tentar a sua sorte. Mas ele nunca gostou dela. Sempre a viu como uma “interesseira sem alma nem coração”, como ele próprio dizia a Keith. Achava que apenas estava atrás dele por causa do seu dinheiro, ou não fossem os Montgomery uma das famílias mais ricas de Beverly Hills.

- Desculpe, estou só cansada – desculpou-se Caroline.

- Então e tu, Nate, não dizes nada? – Perguntou a Sra. Montgomery – Credo meninos, parece que não são amigos nem andam na mesma escola.

- Tem razão – concordou Caroline, formando um sorriso nos lábios – Então, Nate…

- Lá vamos nós – murmurou o rapaz, fazendo com que a mãe lhe desse uma cotovelada – Sim, Cindy?

- Como está… - Caroline calou-se a meio. Ia perguntar como estava o quê? Os estudos? As namoradas? As coisas em casa? E então lembrou-se que, quando o vira na escola, ele levava uma bola de basquetebol debaixo do braço. Talvez tivesse sorte – A equipa?

Nate franziu as sobrancelhas, e depois encolheu os ombros.

- Queres falar de basquetebol? – Perguntou, duvidoso. “Credo, está mesmo desesperada”, pensou.

- Claro.

As mulheres voltaram à conversa de antes, permitindo a Nate calar-se assim que lhe pararam de prestar atenção. A sobremesa chegou pouco depois, e então levaram a conversa para a sala de estar. Nate recebeu uma mensagem no telemóvel, e sussurrou qualquer coisa à mãe para, depois, se despedir de todos os outros. Saiu e fechou a porta atrás de si sem dizer mais nada. Caroline suspirou. Achava-o… diferente. Notou que, tal como ela, não estava confortável com as conversas do jantar. Não se importava com os mexericos, nem as conversas de filmes e de actores. Podia admitir que tinha ficado um pouco intrigada, mas então ele vinha com o seu mau-humor e respostas breves e deixava-a de novo na espectativa.

- Desculpem – meteu-se, subitamente, na conversa – Estou a ficar com um pouco de calor de estar aqui. Vou dar uma volta e já venho.

Todos assentiram e Caroline levantou-se do sofá, dirigindo-se à cozinha. Dorcas ofereceu-lhe um copo de água, e ela bebeu-o e depois passou-o por água, o que fez com que a cozinheira estranhasse.

- Sabes onde está o Keith? – Perguntou.

- Não sei, menina, mas é provável que esteja no campo de basquetebol, aqui atrás – informou Dorcas.

- Obrigada.

Apetecia-lhe falar, não queria ficar sozinha nem regressar para a sala. Keith era a única pessoa da sua idade que sabia de tudo e que a tratava bem, por isso queria ver se o encontrava. Saiu de casa e contornou-a, caminhando a rua com os seus saltos altos até avistar um pequeno campo com dois cestos de basquete. De costas, viu duas figuras. Reconheceu uma de imediato, tinha acabado de ver aquela camisa branca e calças escuras há pouco tempo, e assumiu que a outra era a do filho do mordomo.

À medida que se aproximava, e que os via a tentar encestar, ia conseguindo ouvir a conversa.

- Não tens noção! – Dizia Nate – Ela é um pesadelo. Cada vez que a minha mãe me diz que é para virmos cá jantar, tremo todo. Lembras-te do jantar de Natal?

Keith soltou uma enorme gargalhada.

- Aquele em que ela fingiu tropeçar só para se sentar ao teu colo? – Perguntou – É impossível esquecer.

- E que depois me puxou para dançar e me pisou os pés – completou o outro, fazendo o amigo rir ainda mais – Não sei como é que aguentas viver na mesma casa que ela. Ela é tão… pegajosa. Podia bem ficar obcecada por outro rapaz, eu já estou farto.

Caroline franziu as sobrancelhas. Era evidente de quem falavam. Então Nate fazia parte do grupo de pessoas que não gostavam da sua irmã, e Keith também lá estava. Foi nesse momento que Caroline percebeu que, por fora, podia continuar a ser a Cindy Geller, mas isso não queria dizer que não pudesse tentar mudar as coisas. Talvez quando a irmã regressasse tivesse menos gente a detestá-la, talvez tivesse notas mais altas e, até lá, talvez ela conseguisse fazer alguns amigos.

- Tiveste azar, mano – disse Keith.

- E hoje fingiu estar interessada em basquetebol, vê lá. Até hoje só me falava de moda e essas tretas, e depois virou-se para o desporto. É muito triste, mesmo.

Caroline clareou a garganta e os dois rapazes viraram-se, ficando de frente a ela. Nate engoliu em seco e Keith arregalou os olhos, até tinha medo do que ela pudesse fazer. A rapariga deu meia dúzia de passos e parou à frente do filho dos Montgomery.

- Falar mal das pessoas nas costas não é bonito – repreendeu – E tu não sabes nada sobre mim, por isso pára de julgar.

Nate ainda pensou em ficar calado, mas só esse pensamento fê-lo rir.

- Conheço-te desde que eras bebé – argumentou, a tentar suprimir o riso – Credo, persegues-me desde que usavas fraldas.

Caroline olhou para Keith e este respirou bem fundo. Não a podia ajudar, nunca o fizera por Cindy. Achava-a a rapariga mais atraente do mundo, mas em termos de personalidade Nate tinha razão. Era triste.

- Ah, a sério? – Perguntou Caroline, por fim – Fica a saber que eu não corro atrás de ninguém. De facto, fujo das pessoas. E era preciso uma coisa muito forte para me fazer, alguma vez, correr atrás de ti. És imaturo, rico e chato, já para não falar de que um sorriso não te ficava mal de vez em quando. Fica descansado… considera-te esquecido. Aproveitem o resto da vossa noite.

 

Bem, que tal?

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