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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 24.08.12

Capítulo 6

Uma Cindy Diferente 


Caroline já se fazia passar por Cindy há uma semana e, aos poucos, ia começando a perceber como as coisas funcionavam em Beverly Hills. Cindy sempre se mantivera no topo porque era a melhor. Não deixava que ninguém a questionasse nem a deitasse abaixo. Caroline pretendia fazer a mesma coisa, mas com métodos diferentes. Preferia ter amigos, em vez de gente que a temesse. Acreditava que podia haver uma maneira de garantir o pedestal da irmã, sem se tornar completamente nela.

- Cindy, não vais para a escola? – Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Terry, do outro lado da mesa da sala de jantar.

Os seus pais também tinham sido uma grande surpresa. Não pensava que fossem assim. Sempre os imaginara gentis, e cuidadosos, apesar de a terem abandonado. Nunca pensara neles como materialistas e sem tempo para a família. Marshall estava sempre nos sets de gravações, enquanto Terry passava dia e noite no hospital.

Ao ouvir a pergunta da mãe, automaticamente a rapariga olhou para o relógio e percebeu que não se podia distrair ou chegaria tarde.

- Vou.

Levantou-se e foi até ao quarto buscar a mala. Passou pela cozinha, onde Keith a esperava, e seguiram os dois para o carro. Caroline começou a conduzir em direcção ao liceu mas, ao contrário dos outros dias, não estava entusiasmada e sempre a falar. Mantinha o olhar na estrada e não parecia, de todo, confortável.

- Passa-se alguma coisa? – Perguntou Keith, ao sentir a tensão presente no ar. Caroline abanou a cabeça, mas ele não ficou convencido – Caroline, eu sei que não nos conhecemos há muito tempo… mas podes-me dizer.

- Tive um pesadelo, só isso.

O rapaz franziu os olhos. Porque raios estaria ela assim tão alarmada por um pesadelo?

- Diz-me – insistiu – Diz-se por aí que, quando se contam os pesadelos, eles não se concretizam.

Caroline formulou um pequeno sorriso e depois respirou fundo.

- O que é que o teu pai te contou sobre mim? – Questionou.

- Que te encontrou em Nova Iorque. Que sempre viveste nas ruas… porquê?

- Fui criada por um traficante de droga. Chama-se Roger Carter – Keith franziu as sobrancelhas, não fazia ideia daquilo – Cresci habituada à maneira como ele me tratava, e não era assim tão mau. Mas começou a piorar há medida que os anos passavam. Há quatro anos, fugi.

- E vives nas ruas desde então?

- Sim. Fujo dele desde essa altura. Um dia conseguiu-me encontrar… e, mesmo antes de eu voltar a conseguir fugir, disse-me que me matava da próxima vez que me alcançasse.

- Não fazia ideia…

- Esta noite sonhei que me tinha encontrado. Não te preocupes Keith, eu fico bem. Já estou habituada.

- Se alguma vez precisares de alguma coisa, a qualquer altura, já sabes.

- Obrigado.

Quando chegaram à escola foram cada um para seu lado. Caroline viu Rebecca e Phoebe encostadas ao muro, e foi lá ter com elas. Já tinha percebido também o tipo de raparigas que elas eram, que apenas lhes interessavam os mexericos e as fofocas, e não conseguiam discutir nenhum tema relativamente importante. Ainda assim, esperava conseguir provar que eram mais que isso. Recusava-se a acreditar que não havia mais nada dentro daquelas cabeças além de compras e rapazes.

- Bom dia, meninas – cumprimentou, fazendo o seu melhor sorriso.

Mas elas não olharam para si como antes. Tinham ar de caso.

- Posso-te fazer uma pergunta? – Perguntou Rebecca, com um tom de voz como se fosse superior. Nate, que ia a passar nessa altura, parou para não ter que passar por “Cindy”, com receio de que se fosse mandar a si a pedir infinitas desculpas pelo acontecimento de há vários dias.

- Diz – disse Caroline.

- Porque é que continuas a dar boleia ao filho do teu mordomo? – Tanto Caroline, como Nate, franziram as sobrancelhas.

- Desculpa…? – Perguntou Caroline – O que queres dizer?

- O que quero dizer? Porque é que estás a deixar a ralé andar contigo, Cindy? – Nos lábios de Rebecca pôs-se um sorriso manhoso do qual Caroline não gostou – Passa-se alguma coisa entre ti e o filho do mordomo?

- Ele tem nome, Rebecca – afirmou Caroline, ofendida – Não há nada entre nós mas, mesmo se houvesse, não era da tua conta. No meu carro entra quem eu quiser, e se não parares com essas conversas estúpidas podes-te começar a mentalizar que ele vai-se lá sentar mais vezes que tu.

Rebecca engoliu em seco e olhou para Phoebe, que mirava o chão. Aquela sim, era a Cindy de que se lembravam. A que não deixa que ninguém a questione. Caroline podia ser muito boa, mas quando achava que algo estava errado “deitava as garras para fora” tão bem quanto a gémea.

- Eu… não te quis aborrecer – gaguejou Rebecca – Desculpa.

- Tudo bem. Para a próxima tenta controlar-te.

Caroline saiu de ao pé delas e entrou na escola, deixando-as completamente perplexas. Também Nate saiu do esconderijo, surpreendido com o que acabara de ouvir. “A Cindy defendeu o Keith? Que raios…?”, perguntou-se.

 

✽✽✽

 

Caroline estava cansada de estar em casa. Tinha a tarde livre, por isso decidiu ir caminhar um pouco pela cidade. Apesar de todos os sapatos que Cindy possuía serem de salto alto, ela não se importou. Usou a mesma roupa que vestira de manhã: uns calções pretos, uma blusa com folhos e umas sandálias de salto alto.

Andou por quase duas horas sem destino, até parar numa geladaria e comer um gelado. Veio-lhe à cabeça o que se tinha passado na escola, com Rebecca. Custava-lhe admitir, mas metade daquela escola pensava como ela. Metade daqueles meninos ricos e mimados viam os outros, que não tiveram tanta sorte à nascença, como inferiores.

- Isso não está certo… - pensou, em voz alta. Keith podia pertencer à “ralé”, mas Caroline gostava muito mais dele do que de qualquer um dos amigos de Cindy. Achava-os mimados, fracos e maçadores.

Ia a passar numa rua por trás da casa quando avistou o campo de basquetebol quase deserto. Lá no meio, a mandar a bola ao cesto vezes e vezes, estava uma figura já sua conhecida. Keith vestia uns calções de fato de treino e uma t-shirt velha, e calçava uns ténis já bastante usados. Caroline sorriu e encaminhou-se de lá.

- Ele rouba a bola… está a dirigir-se ao cesto… lança e é ponto! – Keith virou-se para trás ao ouvir a voz dela – E a multidão está ao rubro!

- És pouco gozona, és – riu-se ele, fazendo-a rir também, pondo a bola debaixo do braço – O que é que estás aqui a fazer?

- Estava aborrecida – lamentou-se a rapariga – Ei, já sei! Posso jogar contigo?

Keith olhou-a de alto a baixo e depois soltou uma gargalhada bem sonora.

- Vestida assim? Mais depressa vais a um desfile de moda – gozou ele.

Caroline fez um ar de amuada, mas depois riu-se. Do bolso dos calções tirou um elástico que usou para prender o cabelo negro, e depois descalçou as sandálias, ficando descalça no chão. Keith franziu as sobrancelhas enquanto a via a ir pôr o calçado a pé do cesto.

- Sabes que estou na equipa de basquete da escola, certo? – Perguntou-lhe – Não quero que partas uma unha.

- Oh, cala-te Keith – mandou ela, rindo-se – Vá lá, vamos jogar. A não ser… que tenhas medo.

Ele abanou a cabeça e passou-lhe a bola para as mãos.

- Até te deixo começar.

Estiveram a jogar um contra o outro por quase quinze minutos e, quando pararam, deitaram-se os dois no chão a rir à gargalhada. Caroline estava ofegante, e Keith ainda não podia acreditar. Ele tinha marcado dezoito pontos… mas ela tinha marcado vinte e dois.

- Onde é que aprendeste a jogar assim? – Perguntou-lhe, depois de se ter sentado no chão.

Caroline, ainda deitada, imitou-lhe o gesto.

- Passei uma temporada em Brooklin. Conheci gente fixe, e eles ensinaram-me a jogar – explicou.

Ao longe outro rapaz se aproximava. Quando chegou ao pé dos dois, ficou boquiaberto por ver Cindy Geller descalça, sentada no chão sujo da rua. Mal ele sabia que aquela era uma Cindy completamente diferente.

- Olá – disse, surpreendendo os dois que estavam de costas. Olharam ambos para ele e Caroline engoliu em seco. Não sabia como agir, não sabia o que Cindy faria.

- Nate! Finalmente! – Exclamou Keith, que se levantou e deu um aperto de mão ao amigo. Caroline imitou-o, ficando também de pé, e olhou para o outro rapaz.

- Olá Nate – pronunciou, normalmente, sem qualquer indício de histeria como Cindy o faria.

- Hum… o que… estás aqui a fazer? – Perguntou ele, a Caroline.

- Eu estava aqui sozinho quando ela chegou – foi Keith quem respondeu, levando a mão ao cabelo e afastando-o dos olhos – E então ofereceu-se para jogar comigo.

Nate olhou para ela, admirado, e por momentos não disse nada. Era estranho, não a conseguia ver como antigamente. O que lhe dissera na outra noite, a maneira como defendera Keith de manhã, vê-la ali sentada no chão e de um modo tão descontraído… nada fazia sentido na cabeça de Nate. “Se calhar está diferente”, pensou, um pouco incrédulo.

- Tu jogas? – Acabou por perguntar, pondo um sorriso nos lábios da rapariga.

Aquele sorriso deixou-o sem palavras. Nunca tinha reparado em como era tão simples e bonito.

- Um bocadinho – respondeu ela.

- Um bocadinho? Meu, ela joga melhor que a equipa toda! – Meteu-se Keith.

O outro riu-se.

- Vou precisar de provas para acreditar nisso.

Caroline, que tinha a bola nas mãos, virou-se para o cesto e lançou, acertando em cheio, deixando o capitão da equipa do liceu boquiaberto.

- Então vamos lá – desafiou.

 

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