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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 30.08.12

Este é maior'zinho ^^

 

Capítulo 8

Diários Escondidos

 

No dia seguinte, na escola, tudo o que se falava era sobre o reaparecimento de Jack, o rapaz que Caroline tinha conhecido de forma tão bruta no estacionamento. Rebecca e Phoebe comentaram imenso o seu regresso, fartaram-se de falar mal dele e de o difamar. Caroline, pelo que ouvia, não conseguia formar uma opinião sobre ele. Devido ao primeiro encontro de ambos, não lhe inspirava confiança, mas também estava curiosa com o porquê de tão grotesca conversa. O que teria Cindy feito, de tão grave, para o irritar assim tanto? “Será que é por causa dele que ela desapareceu?”, perguntou-se vezes sem conta durante o dia.

Quando chegou a casa, uma vez mais, não teve oportunidade de falar com Keith. Este estava atarefado com coisas que Joseph lhe tinha dado para fazer. Foi por isso para o quarto e, ao fim de algum tempo sem fazer nada, decidiu ir dar uma volta pelo roupeiro para escolher a roupa que ia vestir amanhã. Sem querer, derrubou uma caixa de sapatos que estava numa das prateleiras do closet, e esta abriu-se ao embater no chão. Lá dentro não estava um glamouroso par Louboutin ou Prada ou Dior, mas sim um grande conjunto de pequenos cadernos com a capa coberta de pêlos cor-de-rosa. Caroline franziu as sobrancelhas e agarrou num, à sorte, e abriu-o.

- Vinte de Abril de dois mil e dois… - leu. Era um diário. Todos eles eram diários, de vários anos. Ia voltar a guardá-los no sítio onde estavam antes de ter derrubado a caixa, mas então ocorreu-lhe um pensamento. Se Cindy tinha o hábito de escrever num diário, então talvez houvesse lá alguma pista do seu actual paradeiro. Ou talvez uma explicação para o porquê de ter tão misteriosamente desaparecido.

Caroline engoliu em seco e, ignorando o facto de estar a violar a privacidade da irmã, colocou todos os diários dentro da caixa e levou-a para cima da cama. Sentou-se de pernas cruzadas e tirou um, verificando a data. Começou a ler o do ano de 2012, ano em que se encontrava, e a primeira entrada era o dia dezoito de Março.

- “Querido diário…” – Começou Caroline a ler – “Após anos sem coragem, finalmente entrei no quarto ao lado do meu. Temi que escondesse algum segredo obscuro. Talvez o meu pai fosse um serial killer e escondesse lá partes de corpos. Mas tinha apenas mobílias de bebé. Vi uma fotografia da mãe, com dois bebés iguais a mim. Estou confusa. O que quererá isso dizer? Porque é que nunca ninguém me disse que tinha uma irmã?”

Caroline parou de ler e arregalou os olhos. Então Cindy nunca soubera da sua existência. Isso ainda era mais estranho.

- Como é que o Joe me encontrou? – Perguntou-se. Mas, por agora, não ia fazer essa pergunta a mais ninguém. Continuou a ler até ao jantar, e mais um pouco até à hora de dormir. Sentia que estava, através das palavras de Cindy, a começar a conhecer a irmã.

 

✽✽✽

 

Caroline estava a passear antes de ir para a escola. Ainda era bastante cedo, mas ela sentia que tinha que pôr as ideias em ordem antes de ir para o liceu e voltar a pôr-se na pele de Cindy. Ao longe começou a ver uma figura conhecida. Nate caminhava também, tranquilamente, pela rua. E, aos seus pés, um pequeno cachorrinho castanho claro acompanhava-lhe o passo. Nate acenou a Caroline e a rapariga sorriu.

- Por aqui tão cedo? – Perguntou o rapaz, quando pararam frente-a-frente. Caroline encolheu os ombros.

O cachorro que acompanhava Nate começou a ladrar para Caroline, e aos saltos para ela, a exigir também um cumprimento, algumas festas, e Caroline engoliu em seco. Já lhe tinha sido dito algures que Cindy detestava animais, fossem quais fossem, e por isso sabia que não podia fazer o que desejava e mimar aquele pequeno ser. “Pára bolinha de pêlo, eu não posso gostar de ti”, pensou ela, “vá lá, não me tortures”. Mas foi mais forte do que ela. Antes de Nate dizer alguma coisa, Caroline baixou-se e começou às festas ao cão.

- É o Archie – apresentou Nate, surpreendido por “Cindy” não ter dado um guincho e fugido do cão a sete pés – Acho que ainda não o tinhas conhecido.

Caroline sorriu.

- Bem… o Archie é lindo – elogiou. Archie, como se percebesse o elogio, saltou e deu uma lambidela na cara de Caroline, fazendo com que ela se risse antes de limpar a bochecha – Vá lá, bola de pêlo, fica quietinho está bem?

 

✽✽✽

 

Mais um segundo a ouvir Rebecca a falar do vestido piroso que a mãe tinha comprado, e Caroline rebentava. Gostava de poder falar sobre algo interessante. Algo que não começasse com “adivinha o que eu comprei”, ou “adivinha quem já não namora” ou “adivinha quem tem um fraquinho pela X”.

- Adivinha quem…

- Phoebe – Caroline interrompeu Phoebe, que franziu as sobrancelhas – Não quero adivinhar.

- Mas…

- Oh, não sejas desmancha-prazeres – queixou-se Rebecca – Diz lá Phoebs.

- Está bem – Phoebe pareceu, de novo, extremamente contente – Adivinha quem foi vista com o Nate Montgomery, esta manhã, num clima de intimidade?

Caroline sentiu as bochechas ligeiramente coradas e as memórias de há pouco mais de duas horas atrás apareceram-lhe na mente.

- Quem? – Perguntou Rebecca, chocada e curiosa.

- Não sei – Caroline, que se mantinha quieta e calada, mirou Phoebe com espanto. Não sabia? Então para quê começar aquela conversa? – A minha amiga Callie só a viu de costas. Mas disse que era… bem, bem feitinha. Mas não te preocupes Cindy, porque nós vamos descobrir e vamo-nos garantir que essa rapariga saiba que não pode brincar com os meninos das outras.

- Não… deixa estar – Caroline sentiu um certo alívio por as raparigas não saberem que era ela. Sabia que, se a palavra se espalhasse, elas não a iam deixar em paz.

Por ironia do destino, Nate apareceu no princípio do corredor nesse mesmo momento, e dirigiu-se a elas.

- Meninas – Cumprimentou Rebecca e Phoebe, dirigindo um sorriso cúmplice a Caroline, sem parar de andar. – O Archie adorou-te, Cindy.

- Archie? – Perguntou logo Rebecca – Quem é o Archie?

- O meu cão – Nate voltou-se para trás e respondeu, sem parar de andar, apesar de ir num passo lento.

- Mas a Cindy odeia cães! – Com a exclamação de Phoebe, o rapaz sentiu-se obrigado a parar e a voltar atrás, parando mesmo em frente de Caroline. A rapariga engoliu em seco, agora é que estava bem tramada.

- Diz-lhe Cindy – insistiu Rebecca – Odeias esses animais.

Caroline engoliu em seco. Não queria ser má nem fútil para Nate, mas se não concordasse com as outras então podia dizer adeus ao seu disfarce. “Cindy Geller, já me estás a lixar a vida”, pensou.

- Sim, é verdade – acabou por murmurar – Essas criaturas são completamente nojentas. E quando nos lambem? Deus!

Nate ficou perplexo a olhar para ela. Não percebia. Por um lado tinha uma Cindy com quem se podia falar de um modo natural e por outro tinha esta, que parecia uma boneca programada a dizer coisas más e a ser parva todos os dias. Ele apenas abanou a cabeça e foi embora, fazendo com que Caroline ficasse com o coração apertado.

Depois da escola, Caroline foi directamente para casa. Os seus pais ainda não tinham chegado, por isso optou por lanchar uma fatia de bolo na cozinha.

- Joe! – Exclamou, ao ver o mordomo chegar, vindo da sala, fazendo-o grunhir baixinho. Como odiava que ela o chamasse assim – Sabes onde está o Keith?

- Algum problema?

- Só preciso de falar com ele.

- Está a estudar, no quarto. Mais alguma coisa?

- Como… - Caroline travou-se a tempo. “Como é que me encontraste?”, era isto que ela ia perguntar? Ele nunca lhe responderia – Joe… tu pareces uma boa pessoa, posso-te fazer uma pergunta?

Joseph engoliu em seco e sentou-se na cadeira ao lado da dela, assentindo com a cabeça.

- Pergunta.

Ela ia perguntar, ia mesmo, mas arrependeu-se. Se Joseph não lhe tinha contado antes, então é porque não lhe iria contar agora. Pensou em perguntar sobre o quarto ao lado do de Cindy, mas assim estaria a revelar que lá tinha entrado sem autorização.

- Eles alguma vez falaram de mim? – Acabou por perguntar – Os meus pais?

- Quando vim trabalhar para eles, mencionaram ter tido outra filha, sim. Mas nada além disso.

Depois disso Caroline agradeceu e seguiu para o quarto de Keith. Perguntou-lhe se sabia o que Cindy tinha feito àquele rapaz, Jack, mas ele não lhe soube responder. Como ia ter um teste em breve, a rapariga deixou-o em paz.

Depois do jantar, quando foi para o seu quarto, viu que tinha uma chamada não atendida no telemóvel. Estranhou aquela pessoa ter-lhe ligado, mas decidiu retribuir a chamada. Agarrou no telemóvel e foi para a varanda e, enquanto mirava as estrelas, esperava que atendessem.

- “Estou?” – Disseram do outro lado.

- Olá… - Caroline não sabia muito bem o que dizer – Telefonaste-me…

Do outro lado fez-se silêncio após a sua constatação.

- “Não sei porquê” – acabou por admitir – “Se queres que te diga, não sei”.

- Bem… fiquei surpreendida – Caroline estava a ser sincera – Nate, sobre hoje…

- “Não te percebo. Mudas de atitude de uma maneira tão...” – Nate suspirou, frustrado – “Antes achava-te snob, e egoísta, e de alguma maneira acabei por mudar de ideias. Mas estou errado? Estás a brincar comigo, é isso?”

- Não. Não estou a brincar contigo. Eu só…

- “És bipolar, ou assim? Porque parece que tens mil e um humores indecifráveis”.

- Pára.

- “Mas é verdade! Quando estás só comigo és...”

- Eu própria. – Caroline não pensou antes de o interromper, e arrependeu-se no segundo seguinte. Mas era tarde demais para voltar atrás – Quando estou contigo consigo ser eu própria.

- “Então porque é que não és assim com todos os outros? És muito melhor assim do que quando ages como uma pirralha mimada”.

- É complicado, Nate.

- “Posso-te pedir uma coisa? Só uma”.

- O quê?

- “Não me confundas, por amor de Deus” – Caroline riu-se.

- Vou tentar.

 

Então, que acharam?

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