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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 02.09.12

Capítulo 9

O Motivo

 

“(…) A Becky e a Phoebs estão a ficar impossíveis. A Becky não pára de falar na mãe, e a Phoebs só fala nela. Esquecem-se do mais importante: moi. Eu também tenho problemas. Eu também preciso de atenção. Deve ter sido por isso que fiz o que fiz. Nem sei o que tinha na cabeça. Dormi com ele. A minha primeira vez, desperdiçada com o drogado do Jack Kunn. Aposto que depois foi logo fumar erva, é a única coisa que sabe fazer. (…) Querido diário, hoje voltei a vê-lo. Como é que isto foi acontecer? Eu, Cindy Geller, completamente caidinha por um drogado. Não ia dizer nada, ia passar por ele de cabeça levantada com a dignidade que me resta, mas não fui capaz. Porque assim que acabou de fumar, foi ter com uma vadia qualquer e só lhes faltava ter uma cama no meio do pátio. (…) É oficial, ele está a gozar comigo. Primeiro quer-me, depois não quer. Agora vai-se arrepender, porque com a Cindy Geller ninguém brinca. Meu querido Jack, nem sabes onde te vieste meter. Tenho um plano e, depois de o executar, não vais continuar por aqui. (…) Depois de amanhã um dos directores estrangeiros que trabalham com o meu pai vem cá a casa. A casa que ele alugou é aqui perto, tenho a certeza que de hoje não passa. (…) Consegui. Roubei a câmera de filmar do colega do meu pai. Ele ama-a como à própria mulher que ficou na Rússia, e vai enlouquecer quando descobrir que não está onde a deixou. Consegui pô-la no cacifo do Jack hoje de manhã, amanhã é só fazer-me de inocente e dizer que o vi com uma câmera. Não vão demorar a revistar-lhe a casa e o cacifo da escola e, quando encontrarem a câmera, o paizinho dele não vai ter alternativa. Além da droga, agora o seu precioso filho já rouba. Vai ter que o mandar para um colégio interno. (…) O meu plano funcionou na perfeição. O pai do Jack meteu-o logo num colégio interno… em Inglaterra. Nunca pensei que o mandasse para tão longe. Mas também, a mim não me faz diferença. Ele que fique por lá. Mas… antes de ir veio-me ver. Tinha um olhar tão frio… jurou vingança. Disse que eu não sabia o que tinha feito, que lhe tinha arruinado a vida. Ele que não brincasse comigo”.

 

Caroline, estendida na cama, ia lendo as entradas nos diários da irmã, separadas por dias ou até meses, e estava cada vez mais estupefacta. Por momentos Cindy conseguia ser simpática e querida no que escrevia, notava-se que às vezes deixava transparecer que gostava das amigas e que faria qualquer coisa por elas mas, das outras vezes, era pura e simplesmente uma grande víbora. Pelo menos agora Caroline sabia o que Cindy tinha feito a Jack para que este estivesse tão chateado. Temia era ser ela a pagar o preço da vingança, em vez da irmã.

- Caroline, estás despachada? – Keith, depois de bater à porta, abriu-a e falou com ela.

Caroline fechou o diário e meteu-o dentro da caixa, que empurrou para debaixo da cama. Calçou umas sabrinas com rapidez e deu um jeito ao cabelo em frente ao espelho do closet.

- Vamos – disse, ao amigo.

Foram para a escola juntos mas, ao chegarem lá, não se via Rebecca nem Phoebe em lado nenhum. Caroline não sabia para onde ir, por isso perguntou a Keith se não podia ficar consigo por um bocadinho. Ela não sabia como lidar com as outras pessoas, que tipo de relação tinham com Cindy. Encostaram-se a um muro a falar e, pouco depois, chegou Nate. Vinha pelo lado de Keith, por isso não conseguia ver quem estava com o amigo e, quando viu Caroline, ficou espantado.

- Cindy Geller, a confraternizar com os menos favorecidos? – O que em outros tempos teria dito em tom de ofensa e desagradável, disse com um ar de brincadeira e boa disposição. Caroline revirou os olhos.

- O que posso dizer? – Perguntou, encolhendo os ombros. Nesse momento Rebecca apareceu a poucos metros, e chamou-a – Desculpem rapazes, tenho que ir. Até logo.

Caroline foi-se embora e Nate ocupou o seu lugar, observando-a enquanto ia andando. Por momentos sentiu-se perdido nela. Nunca antes tinha percebido o quanto era bonita. Como aquele cabelo negro esvoaçava ao sabor do vento… como o sorriso era bonito e genuíno, como os olhos brilhavam. Keith olhou para o amigo e franziu as sobrancelhas.

- Porque é que estás a olhar assim para ela?

Nate voltou o olhar para Keith e encolheu os ombros, numa tentativa escusada de disfarçar.

- Não estava a olhar de modo nenhum.

- Eu conheço-te desde que nasceste, mentires-me não resulta – afirmou Keith – É impressão minha, ou… não, não pode ser – Keith calou-se e pôs-se a pensar. Será que ao fim de tanto tempo a ter Cindy atrás de si, Nate se tinha deixado apaixonar por Caroline? Seria possível que, em apenas poucos dias, Caroline tinha deixado o seu amigo de beicinho?

- O quê? – Insistiu Nate.

- Meu… aquela é a Cindy Geller – disse o outro, na tentativa de o fazer recuar aqueles sentimentos que a cada dia começavam a desabrochar mais – A rapariga que te persegue há anos. A barulhenta e mimada que detestas e nem podes ver à frente. Não te esqueças disso.

- É? – Nate surpreendeu o amigo com aquela pergunta – Porque começo a achar que aquela rapariga é uma que não se importa de estar descalçar na rua, que ri e joga com rapazes com uma simplicidade incrível, que gosta de animais e não liga assim tanto a mexericos. Estou enganado?

Keith engoliu em seco, e Nate sorriu vitorioso. Não, não estava errado, mas Keith não lhe podia dizer o porquê.

- Só porque ela está um pouco diferente, não quer dizer que fique assim para sempre – limitou-se a afirmar. Afinal, Caroline não interpretaria o papel da gémea para sempre. Quando Cindy regressasse, regressavam também as manias, os guinchos e os mexericos – Eu não ficava muito esperançoso, se fosse a ti.

 

✽✽✽

 

Caroline estava com Rebecca e Phoebe, enquanto as últimas duas falavam entre si, quando viu Jack passar e entrar para a casa de banho dos rapazes. Não era tarde, nem cedo, era a hora certa.

- Meninas, estou a ficar com fome. Podem ir andando para o bar? Vou só à casa de banho.

As outras duas foram andando e Caroline olhou para os lados e, quando viu que ninguém estava a ver, entrou para a casa de banho dos rapazes e deu de caras com um daqueles bem altos, que parecia surpreendido em vê-la.

- Sai – mandou, não lhe dando tempo sequer para lavar as mãos. Ele saiu, atrapalhado, e Caroline trancou a porta.

Saído de detrás de uma parede que esconde os urinóis, Jack olhou-a e revirou os olhos. Com a maior das calmas foi até aos lavatórios e começou a lavar as mãos. Caroline espreitou, para se garantir de que não estava ali mais ninguém.

- Temos que falar – afirmou.

- Meti-te medo? – Perguntou Jack, enquanto limpava as mãos ao papel – Pensava que a Cindy Geller não tinha medo de nada.

Caroline abanou a cabeça e respirou fundo.

- Ouve… eu sei que o que te fiz não foi certo – começou – Não te devia ter posto as culpas do roubo do colega do meu pai, e não devia ter deixado que fosses mandado para a Inglaterra. Não tenho desculpa, já sei isso, mas queria dizer-te que lamento.

Jack voltou-se para ela e cerrou os olhos. Depois deu alguns passos na sua direcção e rodeou-a, fazendo-a virar-se à medida que ia andando.

- Lamentas? Por dois anos fiquei preso num colégio em Inglaterra, e tu dizes que lamentas? Não te vais arrepender até eu me garantir que arruinei a tua vida como arruinaste a minha.

Caroline desviou-se dele e foi até aos lavatórios, onde se viu ao espelho. Ele não ia mesmo mudar de ideias. Não lhe restava escolha.

- Queres destruir a minha reputação? O que sou nesta escola? Será que eles vão acreditar num drogado que passou os últimos dois anos fora, ou em mim? – Dito isto Caroline voltou a aproximar-se dele, deixando-os a poucos centímetros um do outro – Não sei qual é o teu plano para me fazeres cair, Jack, mas eu não caio facilmente. Por isso, a não ser que tenhas uma bomba, acho que devias ter calma com o que dizes. Não aceitas as minhas desculpas? Está bem. Aceita isto: consegui pôr-te fora daqui uma vez, consigo fazê-lo tantas vezes quantas as que queira. Ameaças-me de novo, bates-me de novo, e vais mesmo desejar estar em Inglaterra.

Jack riu-se e passou as mãos pelos cabelos de Caroline. Ia puxá-la para ele, divertir-se um pouco, mas a rapariga deu-lhe uma joelhada no meio das pernas e deixou-o cair de joelhos no chão, em sofrimento.

- Vadia… - insultou ele.

- Se te queixas muito, posso usar também o outro joelho.

Ela destrancou a porta e fechou-a, deixando-o lá. Caroline podia não ser nenhuma Cindy, mas conseguia perceber quando desistir de algo, e Jack era um caso perdido. Nunca perdoaria Cindy, e nunca a deixaria em paz, por isso decidiu avisá-lo.

No final do dia, quando estava no quarto, Keith foi lá ter com ela. Levava umas bolachas porque o jantar ainda estava demorado, e aproveitou para se sentar e falar sobre algo que o estava a preocupar.

- Acho que o Nate está a começar a sentir alguma coisa por ti – acabou por dizer, fazendo com que Caroline, em choque, automaticamente corasse.

- O que… o… porque é que dizes isso?

- O meu medo é que sintas o mesmo – Caroline engoliu em seco – Tu estares aqui é provisório, nunca te podes esquecer disso. Apaixonam-se, começam uma relação… o que acontece quando a verdadeira Cindy regressar? E vais dizer ao Nate quem és? Ou vais-lhe mentir a toda a hora? Não te podes deixar apegar Caroline, nem a ele nem a ninguém.

Keith deixou-a sozinha com os seus pensamentos. Sim, ela sabia que não era inteligente deixar-se apegar a alguém, mas não conseguia comandar os sentimentos e a verdade era que, cada vez que via aquele rapaz a vir ao longe, o seu coração disparava. Ele não lhe era indiferente.

 

Digam-me o que acharam, sim?

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