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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 06.09.12

Capítulo 10

A Gentileza dos Ricos * Parte 1

 

Caroline abriu os olhos e desligou o despertador. Espreguiçou-se e depois suspirou. Tinha adormecido tardíssimo porque tinha estado a estudar para o teste de Biologia que iria ter hoje, e por isso tinha descansado pouco. Sentia-se exausta mas, mesmo assim, arrastou-se até à casa de banho. Tomou um duche para ver se “arrebitava” e depois foi escolher a roupa para vestir. Quando desceu para tomar o pequeno-almoço, os seus pais já estavam a comer.

- Bom dia – saudou, ocupando o seu lugar habitual.

Marshall mirou-a e depois franziu as sobrancelhas. Achava-a diferente nos últimos dias, mais simpática… não os acusava de passarem as vidas nos trabalhos, não se queixava de nada, as suas notas tinham até melhorado. Mas decidiu não dizer nada, optando por apenas lhe dizer um breve “olá”. Terry recebeu um telefonema a meio do pequeno-almoço, e saiu apressadíssima de casa. Tinha havido uma emergência qualquer no hospital e a sua presença era imprescindível.

- Então… Cindy… como têm andado as coisas? – Caroline olhou surpreendida para o pai. Era a primeira vez, desde que tomara a identidade da irmã, que iam ter uma conversa que durasse mais que dois segundos.

- Estão normais… pai – disse ela, um pouco reticente – Mas porquê?

- Estava-me só a perguntar… tens andado muito recatada ultimamente. Há algum problema?

- Não – Caroline foi rápida na sua resposta – Não, não há nenhum problema. Tenho saído com as raparigas, e tenho estado ocupada com o estudo, só isso.

- Não me estás… a mentir, pois não? – A rapariga engoliu em seco. Por um lado sentia a preocupação do pai, e com essa preocupação veio-lhe também o sentimento de culpa por o estar a enganar. Mas porque deveria ela de sentir culpa? Eles é que a tinham abandonado. Se nunca a tivessem deixado, ela não precisaria de fazer tudo aquilo para poder ganhar algum dinheiro e fugir para outro país para escapar a Roger. Se não a tivessem deixado, poderiam todos ter vivido em paz e harmonia sem mentiras.

- Claro que não – afirmou – Mas estás certo acerca de uma coisa… posso-te perguntar uma coisa?

- Claro, qualquer coisa.

- O que está no quarto ao lado do meu? – A expressão de Marshall ficou dura, e Caroline percebeu que não devia ter tocado naquele assunto. O seu pai engoliu em seco e depois suspirou.

- Já falámos disto, Cindy – disse – O que está naquele quarto é passado, nada mais. Trazê-lo à conversa apenas vai causar mais dor.

- A quem? Porque não me dizes?

- Porque não precisas de saber – Caroline ficou perplexa a olhar para ele. Não precisava de saber? Não precisava de saber que tinha uma irmã gémea? – Tenho que ir trabalhar, querida.

Marshall levantou-se, mas parou ao ouvir a filha chamá-lo.

- Pai – dissera ela – Não podes esperar que seja honesta contigo quando vocês só me sabem omitir coisas.

Ele ficou especado enquanto Caroline se levantava, ia à sala buscar a mala e depois saía no seu carro, esquecendo-se completamente de Keith.

O teste correu-lhe pessimamente, mas ao falar sobre as respostas com as amigas, já fora da aula, percebeu que ia ter no mínimo um B-. O resto do dia seguiu com normalidade, mas Caroline esteve sempre com a cabeça na lua, completamente distraída a tudo o resto.

Nate ia com Keith em direcção ao seu carro quando os dois repararam nela. Estava sentada sozinha, num banco, muito quieta e mirar o horizonte. Vestia uma saia e uma blusa, e tinha umas botas calçadas.

- O que se passa com ela? – Perguntou Nate.

Keith encolheu os ombros.

- Acho que discutiu com o pai.

Keith ainda ia ter mais uma aula, mas Nate já estava despachado por hoje. Enquanto o filho do mordomo voltou para o interior da escola, ele começou a caminhar até Caroline.

- Posso? – Perguntou, ao apontar para o banco. Ela olhou para ele e sorriu-lhe.

- Sim, claro – respondeu. Porém, ele não moveu um músculo.

- Sabes que mais? Mudei de ideias. Porque não te levantas tu, e vamos dar uma volta? – Caroline franziu as sobrancelhas e ficou a olhar para ele por poucos segundos – Vá lá Cindy, eu sei que já não tens mais aulas hoje. Pareces ausente… pode ser que te animes.

Ela assentiu com a cabeça e fez o que ele lhe tinha dito. Começaram os dois a caminhar lado a lado, sem destino, pelas ruas de Beverly Hills. Ao princípio nenhum deles falou. Caroline lembrava-se do que Keith lhe tinha dito, que Nate podia estar a começar a gostar de si e que, se assim fosse, as coisas não iam acabar bem. Ela também sentia o coração aos pulos ao pé dele, mas não podia arriscar que lhe descobrissem o disfarce. “Ganhar o dinheiro, fugir. É o plano”, pensava. Sempre fora esse o plano.

- Não me queres dizer porque estás assim? – Acabou Nate por perguntar.

Caroline engoliu em seco.

- Alguma vez sentiste que toda a gente te está a mentir? – Ele olhou para ela e franziu as sobrancelhas – Esquece, é estúpido…

- Não, eu sei o que queres dizer – murmurou ele – Toda a gente finge neste mundo, é difícil de encontrar alguém real. Mas porque dizes isso?

- Porque… o meu pai e a minha mãe estão-me a mentir sobre uma coisa muito importante. E não falam nesse assunto de modo nenhum…

- Posso saber do que se trata? – Caroline abanou a cabeça, em sinal de negação – Cindy, podes-me dizer qualquer coisa. De facto… tenho uma pergunta para ti.

- O quê?

- Tu mudaste da noite para o dia – constatou ele, fazendo-a parar e esperar pelo resto – Porquê? É estranho, mas quando estou contigo… sinto que não estou contigo. É estúpido, eu sei, mas estás tão diferente que por fora pareces tu, mas por dentro és alguém completamente novo. Não consigo perceber isso.

Caroline engoliu em seco.

- Eu… acho que percebi o que era mesmo importante – murmurou ela.

Nate riu.

- Sabes, às vezes penso que és um clone da Cindy, ou algo assim – Caroline riu nervosamente. Um clone? Estava lá perto – Só quero que saibas que, sempre que precisares, podes contar comigo.

Andaram durante mais alguns minutos, até pararem numa daquelas caravanas para comprarem um cachorro quente para cada um. Iam a andar, a conversar e a rir enquanto comiam, quando Caroline parou subitamente a olhar para o que estava à sua direita. Uma mulher, com os seus quarenta anos, vestida pobremente vasculhava no lixo. Caroline sentiu um aperto no coração e ficou vidrada naquela imagem. Tantas outras vezes, ela tinha feito exactamente o mesmo.

Nate reparou no que ela via e, após alguns minutos de ponderação, começou a andar na direcção da senhora e trocaram algumas palavras. Deu-lhe o resto do seu cachorro quente, já muito menos do que metade, deixando Caroline completamente perplexa. Ela ia-se oferecer para lhe pagar uma refeição completa, algo que lhe enchesse o estômago e não que fosse comido em três dentadas, mas a senhora foi embora e Nate retornou para ao pé de si, de sorriso nos lábios. Ela, porém, olhou-o duramente até fazer com que o sorriso lhe desaparecesse.

- O que é que eu fiz? – Perguntou, sem perceber o que tinha feito de errado. Caroline abanou a cabeça e suspirou.

- Eles são pessoas, sabias? – Perguntou, com uma voz chateada – Não são animais, para comer os restos da comida que não queremos. Eles sentem como nós sentimos, e acredita em mim quando digo que sentir fome e não ter maneira de a saciar é a pior coisa do mundo.

- Mas Cindy… não te queria ofender… ou a ela. De maneira nenhuma – desculpou-se ele, sem perceber o que estava a acontecer. Agora sim, tinha a certeza que aquela Cindy não era a mesma. Uma vez estavam todos em grupo quando um grupo de sem abrigos passou por eles e a rapariga disse “ai não têm água? Bebam champagne”, com a sua indiferença no nível máximo. Não, esta era uma Cindy completamente nova.

- Só… deixa lá. Não percebes, mas quem te pode culpar? Sempre tiveste tudo. Vou para casa.

Caroline deu meia volta e começou a regressar para a escola, onde ainda tinha o seu carro estacionado.

- Cindy! – Nate ainda a chamou umas três vezes, mas Caroline não voltou atrás. Não tinha apreciado aquele gesto, pensava que ele era diferente mas afinal enganara-se. Afinal Nate era apenas mais um menino rico que não sabia nada sobre sacrifícios ou generosidade.

 

Desculpem a demora meus amores

Espero que tenham gostado do capítulo

O próximo é maior e já está feito :p

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