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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 08.09.12

Capítulo 11

A Gentileza dos Ricos * Parte 2

 

Passava pouco das oito da manhã quando a campainha da mansão dos Geller soou. Joseph apressou-se a abrir a porta, ficando espantado com quem via à sua frente. Não esquecendo as boas maneiras, deixou o rapaz entrar e encaminhou-o ao quarto do filho. Nate abriu a porta sem bater, e viu que Keith ainda dormia. Agarrou numa das almofadas que estavam no chão e bateu-lhe com ela, despertando-o. Assim que abriu os olhos, Keith começou a reclamar. O que é que ele fazia ali tão cedo? Porque o tinha acordado daquela maneira? Se não tinha mais nada para fazer na madrugada de um sábado?

- Meu… acho que fiz asneira – o filho do mordomo só parou de reclamar quando reparou bem na cara do amigo. Sim, Nate parecia preocupado, bastante preocupado. Keith ajeitou-se na cama, ficando sentado encostado à cabeceira, e o amigo acomodou-se na cadeira da secretária.

- Então? – Perguntou – O que se passou?

Nate engoliu em seco. O que se tinha passado? Nem ele tinha percebido.

- Ontem fui dar uma volta com a Cindy – Keith revirou os olhos. “Dizer-lhe para se manter afastada é inútil”, reclamou para si – Estava tudo bem, estávamos a rir, a falar… e então vimos uma mulher a remexer no lixo e a Cindy parou.

Como Nate se calou, Keith ficou a olhar para ele.

- E depois? – Acabou por insistir.

- Não sei, foi quando tudo ficou esquisito porque eu sei que a Cindy nunca agiria daquela maneira – pensou o outro em voz alta, para depois continuar o relato – Bem, depois eu fui até à mulher e dei-lhe o resto do meu cachorro quente. Quando voltei, a Cindy estava toda ofendida por eu ter dado o resto da minha comida à mulher, porque não era decente, e ela também era humana e não devia comer apenas restos… e depois disse-me que eu nunca iria perceber porque sempre tive tudo e olha… eu nem sei. Não consigo perceber.

Keith bocejou e depois esfregou os olhos. Caroline tinha-o posto numa posição difícil. O que é que ia agora dizer ao amigo? “Ah pois, é que afinal ela não é a Cindy, e como cresceu nas ruas é mais sensível a essas coisas”? Claro que não podia dizer nada assim!

- Talvez ela não tenha ficado chateada… se calhar foi só algo do momento.

Nate abanou a cabeça.

- Não – negou – Telefonei-lhe à noite, e não me atendeu. Mandei uma mensagem, e não me respondeu. Se tivesses visto o olhar dela… fiz mesmo asneira. Mas nunca pensei que se importasse tanto… nunca se importou.

Nate estava mesmo desorientado, e Keith via isso perfeitamente. Não podia deixar o amigo como uma barata tonta, apesar de não lhe poder dizer a verdade. Por muito que não concordasse com os sentimentos dele por Caroline, já tinha percebido que ia ser difícil mantê-lo afastado dela.

- Então, se ela se preocupa com essas coisas, porque não lhe mostras que também te preocupas? – Sugeriu – Talvez assim perceba que te julgou mal.

Os olhos de Nate iluminaram-se e nos seus lábios abriu-se um sorriso. Levantou-se da cadeira à velocidade de um tornado e saiu, entrando no quarto de Cindy logo de seguida.

- Não disse para fazeres isso agora! – Gritou Keith, saltando da cama e indo atrás dele.

Caroline dormia tranquilamente quando Nate a acordou de um modo gentil. Assim que abriu os olhos afastou-se do rapaz, e olhou especada para ele.

- O que estás aqui a fazer? – Perguntou, completamente apanhada desprevenida. Keith entrou pelo quarto nesse instante, e Caroline olhou também para ele – Alguém me pode explicar porque é que está um rapaz só de boxers no meu quarto, e outro que nem cá mora também? O que é que se passa?

Nate engoliu em seco e depois encheu o peito de ar.

- Podes-te vestir? Quero-te levar a um sítio. Por favor – pediu.

- Que horas são? É sábado… eu estava a dormir e…

- É cedo – interrompeu Nate – É cedo, mas por favor. Preciso de te mostrar uma coisa. Vá lá, Cindy.

Caroline revirou os olhos e tapou a cara com os lençóis, soltando um pequeno grunhido de frustração.

- Está bem! – Exclamou, ao perceber que nenhum deles ia sair dali – Mas saiam do meu quarto!

Quando eles saíram, Caroline levantou-se e vestiu-se. Vestiu umas calças e uma blusa, e calçou uns sapatos fechados e de salto alto. Penteou o cabelo e com ele fez uma trança, e só depois é que desceu. Nate esperava-a no quarto, e a rapariga supôs que Keith tenha voltado para a cama. Assim que a viu, Nate sorriu.

- Podemos ir? – Pediu, levantando-se do sofá.

Caroline ainda não tinha percebido o que se estava a passar. Ainda estava desiludida com ele, mas sabia que não tinha sido a sua intenção magoá-la ou ofendê-la. Ele não sabia quem ela era, logo nunca poderia ter feito aquilo com essa intenção.

Caroline agarrou numa maçã e depois foram no carro dele. Durante todo o caminho, ninguém abriu a boca. Ela ainda pensou em perguntar onde estava a ser levada, mas tinha a certeza que ele não ia responder, por isso remeteu-se ao silêncio. Passado um pouco mais de quinze minutos, Nate estacionou o carro em frente a uma grande mansão amarela, e Caroline franziu as sobrancelhas.

- O que estamos a fazer aqui? – Perguntou, enquanto ambos saíam do carro. “E onde é aqui?”, adicionou, em pensamento.

Nate sorriu e conduziu-a à entrada. Por cima da porta encontrava-se uma tabuleta que dizia “A Casa de Todos”.

- O que é este sítio? – Insistiu Caroline.

Nate nada respondeu e entrou, puxando-a atrás. Foram dar a uma pequena sala, e uma senhora passou por eles. Envergava um uniforme azul clarinho.

- Menino Nate, não sabia que nos vinha visitar hoje! – Exclamou ela – E trás uma amiga.

Nate sorriu-lhe e trocaram algumas palavras, antes de ela afirmar que tinha que voltar ao trabalho.

- Há dois anos convenci os meus pais a abrirem esta instituição. É uma instituição sem fins lucrativos, apenas para poder ajudar quem precisa de ajuda. Temos camas, comida… qualquer pessoa é bem-vinda – Caroline olhou para Nate incrédula.

- Qualquer pessoa? – Perguntou, sentindo-se como o pior ser à face da Terra. Nate assentiu.

- Sim. Ontem, quando dei o resto do meu cachorro àquela senhora, disse-lhe para vir para aqui. À noite passei por cá, e já cá estava.

Caroline sorriu e baixou a cabeça, envergonhada. Sentia-se pessimamente por ter ousado pensar que Nate podia ser igual a todos os outros. Ele não era nem parecido, estava a anos-luz de distância.

- Desculpa – proferiu –, pela maneira como agi e pelo que disse. No final de contas… és fantástico.

Nate riu-se e encolheu os ombros.

- Anda lá, vamos conhecer isto.

O rapaz fez questão que ela visse tudo, e Caroline até confraternizou com algumas das pessoas que lá estavam. O que Nate gostou mais foi de vê-la com duas das crianças, a maneira carinhosa e simpática como lhes falava. Por momentos pensou mesmo que era bem capaz de estar a ficar apaixonado por ela.

Acabaram por lá ficar o dia inteiro, e quando Nate a levou a casa já passavam das onze da noite. Caroline preferiu entrar pela porta das traseiras, e Nate, sendo o cavalheiro que era, acompanhou-a.

- Divertiste-te? – Perguntou-lhe, quando já estavam dentro da cozinha. Caroline riu.

- Muito – admitiu.

O silêncio instalou-se, mas Nate não se queria ir embora. Antes disso ainda tinha que fazer outra coisa.

- Ontem perguntaste-me se eu sabia como era ter pessoas a mentirem-me – murmurou – Sabes bem que sim, porque tu certificas-te disso.

Caroline olhou para ele e engoliu em seco.

- Nate…

- Não, deixa-me terminar. Diz-me a verdade, Cindy. Estás diferente, e não me venhas com tretas de que aprendeste a valorizar as coisas porque a Cindy que eu conhecia nunca aprenderia uma lição dessas. Pára de me mentir, eu preocupo-me contigo e quero saber o que se passou. A Cindy que passou o dia comigo, hoje? É cinco estrelas. Uma rapariga de sonho. Não é fútil, não é metediça, não é mimada… preocupa-se com as pessoas e com problemas reais… Uma pessoa não vai de se preocupar com roupa a preocupar-se com os pobres. Eu gosto de ti, Cindy. Gosto de ti assim, mas se fores mudar… se houver a mínima possibilidade de voltares a ser como eras… - Nate suspirou – Preciso de saber a verdade. Podes confiar em mim.

Caroline suspirou, já não sabia como fugir ao assunto.

- Queres mesmo saber a verdade? – Perguntou Caroline, para surpresa dele. Ela sabia que ao contar-lhe tudo o podia perder. Que a podia tomar como uma pervertida, uma sem vida que ocupa o tempo a fingir-se por outra. Mas sabia que podia confiar nele, bastava-lhe olhar para aqueles olhos verdes para saber isso – Está bem. A verdade é que… - Caroline engoliu em seco e respirou bem fundo – A verdade é que eu não sou…

- Cindy! – Aquele nome, dito por uma voz já tão sua conhecida, foi gritado assim que a porta da cozinha foi aberta – Está na hora de te despedires.

Caroline fechou os olhos e suspirou. Estava tão perto de lhe ter dito tudo, mas claro que nada podia ser assim tão fácil.

- Falamos amanhã – acabou por dizer, ao que Nate assentiu.

- Boa noite Sr. Joseph – disse ele – Até amanhã, Cindy.

Nate saiu, e Caroline engoliu em seco antes de se voltar para o mordomo, que a olhava de um modo chateado e enervado.

- Como pudeste? – Zangou-se – Ias-lhe contar a verdade? Porquê, Caroline? Porquê?

- Porque… porque… é demasiado difícil mentir a toda a gente – desabafou ela – Especialmente a ele. Ele sabe que algo se passa, não é estúpido.

- Primeiro contas-lhe a ele, depois a alguém à esquina… quando deres por ti metade de Beverly Hills sabe quem és realmente! – Disse ele, duro – Não podes deitar tudo a perder por uma paixoneta adolescente, percebes? Se alguém descobrir que não és a Cindy, não ganhas um dólar, sequer. Queres os cinco mil? Certifica-te de que isso não acontece. Não te esqueças que, quando ela voltar, desapareces. Esse é o acordo.

Caroline começou a sentir o seu coração apertado. Claro que aquele era o acordo. Afinal, ela era apenas uma peça no meio de um puzzle que não conseguia compreender. Tinha as lágrimas prestes a cair pelos olhos mas, mesmo assim, colocou-se à frente de Joseph.

- Não sei como me encontraste, ou porque me foste buscar – murmurou, também com uma voz forte – Mas sei que também escondes qualquer coisa, porque um mentiroso conhece um mentiroso. Olho nos teus olhos e vejo remorsos, Joe. Porquê? Como é que sabias quem eu era? Porque é que sentes remorsos?

A veia da testa de Joseph começou a palpitar, e Caroline percebeu que o tinha atingido em cheio. Estava a pô-lo nervoso, desconfortável.

- Vai para a cama – mandou ele.

Ela contornou-o e saiu da cozinha, e deixou que as lágrimas começassem a escorrer apenas quando chegou ao quarto. Joseph permaneceu imóvel no meio da cozinha, apoiado na mesa. Puxou uma cadeira e sentou-se. Todo o seu corpo tremia. Levou uma mão à cara e, num momento de fraqueza, deixou que uma lágrima lhe escorresse pela bochecha. Custava-lhe ser tão mau e severo para Caroline, uma rapariga que via ser boa pessoa e pura de coração. Mas já lhe tinha arruinado a vida, agora prometera-se não deixar que o mesmo acontecesse à dos seus pais e, para isso, ninguém podia saber da ausência de Cindy, nem que Caroline tivesse que fingir até ao fim dos seus dias.

 

Pois é, parece que ainda não foi desta...

O que acharam?

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