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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 10.09.12

Capítulo 13

O Sítio Preferido

 

Caroline entrou no quarto de Keith sem bater à porta, e atirou-se para cima da cama com ele ainda lá deitado. Keith virou-se e remexeu-se e reclamou, mas ela não se deixou intimidar.

- O que queres? – Contestou ele, olhando para o despertador – Seis e quarenta?! Caroline! – Ele voltou-se repentinamente e mandou-a para fora da cama, fazendo-a cair no tapete. Caroline olhou para ele e cerrou os olhos, como se lhe estivesse a declarar guerra, e Keith tapou-se com os lençóis – Deixa-me dormir, o despertador só toca daqui a meia hora!

- Preciso de falar contigo, seu resmungão! – Insistiu ela, voltando a pôr-se em cima da cama. Keith suspirou e destapou a cara. Pareciam dois irmãos amuados um com o outro. Só então é que ele viu o que Caroline trazia na mão.

- O que é isso? – Perguntou.

Caroline fez um ar triunfante, tinha conseguido captar-lhe a atenção.

- Não conseguia dormir, por isso achei que podia fazer uma… leitura leve – disse, abanando o diário de Cindy em frente aos olhos do rapaz – Quero-te ler uma coisa – depois de clarear a voz e de abrir na página certa, Caroline começou a ler – “Querido diário… não acredito nisto. Os meus pais dão-me sermões enormes sobre mentir e esconder-lhes coisas, mas os grandes mentirosos são eles. “Adoramos-te querida… és a nossa bebé…” tudo tretas! Afinal não sou a única bebé deles. Afinal há mais uma. Tenho uma gémea e eles nem sequer pensaram que eu podia querer saber isso! Que egoístas… que raiva… Pergunto-me onde andará ela, o que terá acontecido… odeio isto, odeio que nunca me digam as coisas importantes!”.

Caroline calou-se e Keith ficou a olhar para ela. Notava-se que ainda estava um pouco ensonado, mas agora já lhe prestava a máxima atenção.

- E depois? – Perguntou. Caroline abanou a cabeça.

- Nada – disse – É a última entrada que tem. Escreveu-a no dia antes de desaparecer. Agora sabemos porque disse ao teu pai para arranjar uma maneira para que não dessem pela falta dela. Ela já sabia que eu existia.

Keith pensou durante uns segundos.

- Achas que te foi procurar?

- Isso não faria sentido. Porque é que me haveria de ir procurar… quando sabia que eu ia ficar aqui a ocupar o seu lugar? Talvez tenha fugido… talvez precisasse de uma pausa qualquer da vida dela… não consigo perceber. Keith… como é que o teu pai sabia onde me encontrar?

- Sempre pensei que tivesse sido a Cindy a dizer-lhe… mas se ela tinha acabado de descobrir que existias… não faço ideia.

 

✽✽✽

 

A campainha fez-se soar e os alunos começaram a sair das salas. Caroline caminhou sozinha até ao pátio e, ao longe, viu que Keith caminhava lado a lado com Rachel. Sorriu, talvez o amigo tivesse uma oportunidade. Sentou-se num banco de pedra e colocou a mala ao seu colo. Tinha quinze minutos de intervalo e nenhum sítio para onde ir. Sabia que, quando Cindy regressasse, ia dar cabo de si por ter estragado as coisas com Rebecca e Phoebe, mas isso não era problema dela. “Recebo o dinheiro e ponho-me a andar”, pensou, ocorrendo-lhe logo um “porém” depois disso. Nate. O que tinha acontecido na noite anterior não lhe saía da cabeça. Quase o tinha beijado. Por dezassete anos tinha conseguido fugir e escapar a tudo, ignorando qualquer sentimento que se revelasse como uma fraqueza, e agora bastava olhar naqueles olhos verdes para ficar completamente à sua mercê.

- Parece que ele teve sorte, hum? – A voz que mais ansiava ouvir fez-se soar atrás de si, e Caroline voltou a cabeça a tempo de ver o rapaz sentar-se ao seu lado – Ao contrário de mim…

Caroline riu-se.

- Sim, eles parecem estar a dar-se bem – comentou.

- O que fazes hoje à tarde?

- Que eu saiba… nada. Porquê?

- Óptimo – Nate levantou-se e começou a afastar-se – Estás por minha conta.

A rapariga franziu as sobrancelhas e foi atrás dele.

- Mas pensava que ias treinar com o Keith, por causa do grande jogo – uma grande partida de basquetebol aproximava-se e toda a equipa e todos os alunos estavam entusiasmados.

- Treinamos amanhã, já falei com ele.

- E vamos fazer o quê, posso saber?

- Quero-te mostrar um sítio.

- Andas-me a mostrar muitos sítios, não achas?

Nate riu-se e voltou-se para ela.

- Vou-te buscar às quatro?

- Podes-me dar uma pista? Sobre onde vamos?

Ele pensou durante alguns segundos, e depois assentiu.

- Não vás muito chique.

O resto do tempo passou a correr, e quando Caroline deu por si já eram quase três e meia. Decidiu então mudar de roupa. Nate tinha-lhe dito para não ir muito chique, por isso optou por uns calções e uma blusa preta, a mais simples que conseguiu encontrar no closet, e calçou umas sabrinas. Comeu uma maçã e esperou sentada na sala. Às quatro em ponto a campainha tocou, e Caroline disse a Joseph que ia embora. Nate conduziu durante poucos minutos, e parou o carro no estacionamento de uma praia.

- Não me disseste para trazer o biquíni – brincou Caroline.

- Não vais precisar – disse ele, com um olhar maroto, ao que ela revirou os olhos – Anda lá, quero-te mostrar o meu sítio preferido.

Nate agarrou na mão de Caroline e começou a puxá-la. Depois de se descalçarem andaram pela areia durante algum tempo, sempre a rir das piadas que o outro dizia e então, ao longe, numa colina, algo começou a tomar forma. Caroline soube que era para ali que se dirigiam quando começaram a subir a colina. Quando deu por si, estavam no meio do que pareciam umas ruinas gregas. Os pilares estavam destruídos e desgastados do tempo, com musgo agarrado e várias pedras soltas pelo chão de areia e ervas, mas mesmo assim aquele espaço tinha o seu encanto.

- Este é o teu sítio preferido? – Perguntou Caroline, completamente maravilhada com o que os seus olhos viam. Andou mais depressa e espreitou o mar, deixando Nate um pouco atrás de si.

- Já devia saber que não ias gostar – pensou ele, em voz alta.

- Não! – Ela voltou-se e começou a andar para ele, enquanto cerrava os olhos – Não, pelo contrário. Eu percebo… é maravilhoso. Mas tu? Desportista, milionário, garanhão… como é que te encaixas neste sítio?

Nate soltou uma gargalhada sonora, mas não fazia mal. Não havia ninguém ali nas redondezas.

- Desculpa? Então e tu? Snob, fina, também milionária… como é que tu te encaixas?

“Ele tem razão”, pensou ela. Cindy nunca gostaria daquele sítio. Não ia gostar das ruinas, nem do musgo, nem das ervas que Caroline sentia agora com os pés descalços. Mas para si, uma menina da rua, uma pessoa que nunca tivera qualquer bem material, alguém que nunca parara para respirar fundo e apreciar algo, aquele sítio era algo de extraordinário. E então pensou na outra coisa que Nate disse. “Snob, fina, milionária…”, ele tinha razão, onde é que ela se encaixava ali?

- Acho que não me encaixo – acabou por dizer – Ou então… talvez não seja essa pessoa.

- Sim… - Nate respirou fundo e começou a aproximar-se lentamente de Caroline –, talvez não sejas. Pões-me a cabeça a andar às voltas, sabias?

- Talvez seja por levares com bolas de basquetebol nela, e não por minha culpa.

- Não consigo dormir à noite… e quando consigo sonho contigo. E durante o dia não te consigo tirar da cabeça. Só de saber que vais estar a percorrer aqueles corredores… apenas a expectativa de te ver…

Ele parou à frente dela e levou a mão à sua bochecha, fazendo-lhe uma festa carinhosa. Caroline sentiu o coração a disparar. A sua razão deixou de funcionar, o cérebro parou de pensar.

- Nate… não podemos… eu não posso… - disse ela, mesmo antes de sentir os lábios dele junto aos seus.

 

✽✽✽

 

Caroline entrou em casa e não viu ninguém. Na mesa da sala de jantar estava um recado de Dorcas, a cozinheira, a dizer que tinha ido às compras. Kim, a empregada, estava de folga. Caroline, com um enorme sorriso nos lábios, ia começar a subir as escadas.

Não conseguia pensar em nada a não ser nos minutos anteriores que tinha passado com Nate. Por muito que não quisesse, estava a ficar apaixonada, e depois dos beijos trocados tivera a certeza que ele também estava. Parecia estar a viver um conto de fadas onde só faltava ser dito “e eles viveram felizes para sempre”.

Já tinha subido três degraus quando ouviu um ruído na cozinha, e decidiu ir ver o que se passava. Assim que abriu a porta viu Joseph encostado à bancada, com uma expressão dura, e Keith ao lado dele, algo tristonho.

- O que se passou? – Perguntou, preocupada.

Eles apenas olharam para ela e não tiveram tempo de dizer mais nada até outra voz se fazer soar.

- Já podes ir.

 

Quem é que consegue adivinhar de quem é a última fala? :o

Que acharam do capítulo? 

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