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O Deus Caído

por Andrusca ღ, em 30.09.12

Segunda Parte

 

Suptka estava a sucumbir e a entregar-se ao desespero. Terem deixado Gnaux subir ao poder tinha sido um erro e os Suptakianos percebiam isso agora, porém nada podiam fazer além de esperar que o outro herdeiro, o outro Deus mais poderoso, regressasse miraculosamente e os salvasse do terrível destino que tinham traçado.

 

✵✵✵

 

Natalie ajudou Kröll a ir até ao café, e disponibilizou-lhe a sua cadeira. Ele sentou-se e ela foi-lhe buscar um copo de água, perante a incredibilidade das duas colegas, que arranjaram logo motivos para irem embora.

- Sentes-te melhor? – Questionou Natalie, após vários segundos de silêncio.

Kröll engoliu em seco e olhou em volta. Grandes pedaços de metal andavam por cima de um pavimento cinzento; os homens usavam fatos e as mulheres saltos altos; quase não se via o céu devido aos enormes blocos de cimento chamados prédios. Aquilo parecia-lhe tudo extremamente estranho. Apesar de não se lembrar de como eram as coisas em Suptka, nada disto lhe parecia natural.

- Um pouco – afirmou, tomando atenção agora à mulher que lhe estava à frente. Não era nenhuma beldade fora do comum, mas aqueles olhos castanhos transmitiam-lhe qualquer coisa. Uma calma, um calor, uma paixão.

- Já te lembras de alguma coisa? De onde és?

Kröll engoliu em seco e pensou e pensou e pensou. Nada.

- Não sei – disse, com frustração.

- Se calhar devia-te levar ao hospital…

- Hospital? – Nunca se lembrava de ter ouvido tal palavra – O que é… um hospital?

Natalie olhou para ele e cerrou os olhos. Respirou pesadamente e depois encolheu os ombros.

- É onde se trata das pessoas – disse, ao ver que ele estava a ficar ainda mais confuso – Ouve, não te preocupes. Estás em San Francisco. Eu levo-te ao hospital e fico lá contigo, se quiseres. Pode ser?

Ele não pôde resmungar, pois Natalie encaminhou-o logo para o seu carro e começou a conduzir. De quando a quando desviava o olhar da estrada e mirava-o. Só podia estar louca para estar a fazer uma coisa daquelas. Não conhecia aquele homem, por tudo o que sabia podia ser um assassino, um pedófilo, um canalha.

- Não te lembras mesmo de nada? – Insistiu. Kröll abanou a cabeça.

- Agradeço o que estás a fazer… - murmurou, baixinho, surpreendendo-a. Natalie apenas lhe sorriu, e continuaram o resto do caminho em silêncio.

No hospital os médicos fizeram meia dúzia de testes ao Deus, mas não conseguiram detectar absolutamente nada fora do normal. Não conseguiam arranjar explicação para o porquê de ele não ter quaisquer memórias. Aconselharam-no, porém, a não ficar sozinho nas próximas vinte e quatro horas para o caso de algo correr mal, e Natalie voluntariou-se – sem pensar – para ficar com ele.

O caminho até à casa dela foi feito no mais puro dos silêncios. Kröll tentava recordar qualquer coisa, por mais pequeno que fosse, ao mesmo tempo que pensava numa razão para aquela bela estranha o estar a ajudar tão prontamente. Já Natalie ia pensando que só podia estar louca para se ter oferecido para tal. Era como se, de súbito, já não raciocinasse direito.

Estacionou o carro e andou, ao lado de Kröll, até ao segundo andar de um prédio de nove. Abriu a porta do apartamento e corou ligeiramente ao ver a confusão que estava na sua casa. Os móveis desalinhados, as roupas mandadas a uso, a loiça no lavatório sem estar lavada.

- Desculpa, não tenho muito tempo para arrumar a casa… - desculpou-se.

Kröll abanou a cabeça enquanto olhava em volta.

- Não tem problema.

- Desculpa eu… não sei como te chamar – ela riu-se, apesar de a situação não ser para tal, e Kröll exibiu um pequeno sorriso.

- Nem eu a ti.

- Certo! Que parvoíce… chamo-me Natalie. Natalie Jenkins – Kröll assentiu com a cabeça, e Natalie cerrou os olhos enquanto pensava – Tu pareces um John… ou um Michael… mas por agora, até sabermos o teu verdadeiro nome, vou-te chamar X.

- X?

- Tens um nome melhor?

- Que seja X.

- Olha X, vou fazer o jantar, mas não esperes nada esplêndido. Não sou muito boa cozinheira… ou empregada doméstica, aparentemente. De facto, acho que não tenho nenhum talento.

- Tenho a certeza que isso não é verdade.

- De qualquer maneira… a casa de banho é ao fundo do corredor, podes tomar banho. Vou-te deixar algumas roupas do meu ex-namorado em cima da cama.

Enquanto ele foi fazer o combinado, ela foi para a cozinha e improvisou um pouco para o jantar. Acabaram por comer massa e carne, sentados no sofá com a televisão ligada. O ambiente não era propriamente cúmplice, mas também não estava “de cortar à faca”.

- Porque estás a fazer isto? – Perguntou Kröll.

Natalie encolheu os ombros.

- Sinceramente? Não sei – admitiu.

- Tens um coração muito bom – Natalie ia-se rir, mas ao olhar para aqueles olhos azuis ficou sem fôlego. Conseguiu ver uma luz especial, como se ele acreditasse genuinamente no que tinha acabado de dizer – Talvez seja esse o teu talento. É um importante.

A mulher limitou-se a agradecer.

Quando a noite se tornou mais avançada, Natalie retirou-se para o seu quarto mas não sem antes deixar uma manta a Kröll, que iria dormir no sofá. Disse-lhe também que se ia ter que levantar cedo para ir dar aulas, mas que ele podia ficar a dormir sem problemas.

Quando a manhã chegou, foi isso que aconteceu. Natalie saiu de casa sem fazer barulho e foi para o liceu. Já tinha dado duas aulas e estava a passar no corredor a pensar no quão mal-educados os adolescentes de hoje em dia eram, quando viu as suas duas colegas sentadas numa das mesas do bar. Estava quase a alcançá-las quando ouviu do que falavam.

- A Natalie? – Perguntou Mary, seguindo-se-lhe uma gargalhada – Por favor, toda a gente sabe o quão desesperada está para casar. Desde que eu fiquei noiva que chora todas as noites por saber que vai passar o resto da vida sozinha. É uma falhada, e há-de sempre ser.

A outra também se riu.

- E agora dizem que meteu o homem lá em casa. Que anedota.

Natalie engoliu em seco e deu meia volta. Esta não era a vida que tinha idealizado para si. Tinha pensado em ser professora universitária, respeitada, amada, querida. Mas uma série de más escolhas tinha-a levado ali e agora não tinha nem respeito, nem quem a amasse. Estava presa numa vida que sentia não ser a sua.

- Ei! Natalie! – Finn, o cozinheiro, chamou-a e ela foi ao seu encontro – Pareces em baixo, passa-se alguma coisa?

- Não, nada.

Finn observou-a bem. Ele era, provavelmente, a única pessoa em San Francisco que se preocupava com ela.

- Não me mintas, Nat.

- Estou bem, Finn. Tenho que ir, tenho uma aula.


Então e esses comentários, hum?

Vá lá, não custa nada (:

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