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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 31.10.10

Capítulo 10

Tu és eu e eu sou tu

 

Passaram-se duas semanas desde a última vez que vira Jason e Bryan. Agora, andava a caçar um demónio que estava à caça da sua presa da noite. Estávamos num bar em Oklahoma mas não conseguia ter uma boa visão dele, precisava de um sítio que me desse uma visão mais ampla, precisava de um sítio alto, precisava de ir… para o palco.

Arranjei uma desculpa e comecei a cantar lá em cima, sempre sem tirar os olhos do demónio, e de repente vi Jason e Bryan a entrarem pela porta do bar, fiquei em cima do palco, parada, a olhar para eles só com as palavras a sair. Passados poucos segundos voltei a dançar e a cantar, como era normal vindo de mim. Eles continuavam parados a olhar para mim mas eu evitava olhar para eles, estava a concentrar a minha energia no demónio. Vi-o a aproximar-se de uma rapariga e a meter conversa. A música acabou e ao sair do palco dirigi-me para o local onde o demónio estava a conviver com a rapariga, mas fui puxada por uma mão, que me virou.

- O que foi?! – Perguntei, bruscamente, já sabendo quem me tinha puxado.

- O que é que estás aqui a fazer?! – Perguntou Jason.

- Provavelmente o mesmo que vocês. – Respondi.

- Mel, eu pensava que isso já tinha acabado. – Disse Bryan. – Nós estamos à caça de um demónio perigoso por isso é melhor saíres.

- O quê?! Mas é que nem sonhes, ando atrás dele há quatro dias, este demónio é meu.

- Ai sim? E por acaso sabes onde é que ele está? – Perguntou Jason.

- Claro que sim, esta mesmo… ali. – Disse eu, virando-me e procurando-o com o olhar, porém, não o vi. – Eu não acredito nisto! Ele estava mesmo ali… vocês fizeram-me perder o demónio.

Comecei a procurá-lo em todos os sítios, mas ele já não estava no bar, como nós estávamos à entrada e ele não tinha passado por lá, fui pela saída das traseiras, mas estava trancada por dentro, com um cadeado. Jason e Bryan seguiram-me.

- Pensa Mel, pensa. – Dizia eu, para mim mesma. – Se não podes ir pelos lados, nem por cima… - Levantei o tapete, vendo um alçapão. – Vais por baixo.

- Estás doida?! Tu vais mesmo entrar por aí? – Perguntou Jason.

- Porque não?! – Perguntei eu, fazendo uma força horrível para tentar levantar o alçapão.

- Porque é uma armadilha Mel, só pode ser. – Gritou ele.

- Azar! Ele tem uma rapariga Jason, eu não a vou deixar ser morta por ele. – Disse eu. – Já me podiam dar uma mãozinha…

- Lamento, se te queres matar vais ter que o fazer sozinha. – Disse Bryan.

Continuei a tentar levantar o alçapão mas não conseguia nem movê-lo. Acho que o meu vestido preto, curtinho e as sandálias de salto alto não ajudam.

- Uau Mel, tens-te mantido em forma. – Elogiou Jason.

- Lutar com demónios não perdoa… - Murmurei, finalmente levantando e pousando a tampa do alçapão.

- Nós não cabemos aí. – Disse Bryan.

- Azar, eu caibo. – Disse eu, sentando-me no rebordo, e saltando para lá.

- Tu és pior que sei lá o quê! – Gritou Jason. – Boa sorte!

Percorri um longo caminho até chegar a uma câmara em que a rapariga estava amarrada no centro, a um poste. Corri até ela e desamarrei-a, ela não falava, estava demasiado chocada. O demónio estava atrás de mim e deu-me uma chapada que me fez cair, levantei-me e vi dois vultos em direcção ao demónio, Jason e Bryan deitaram-no ao chão, mas depois ele deitou-os a eles e fugiu, ao sair olhou para trás e olhou para mim e para Jason e sorriu, estalando os dedos. Não percebi bem o porquê daquele acto final, mas depois de levarmos a rapariga a casa, eu e os rapazes fomos para o hotel, que por acaso era o mesmo. Eu fui para o meu quarto, tomei um banho, vesti o pijama e deitei-me. Adormeci instantaneamente.

Quando acordei, a vista do quarto estava diferente, tinha uma cama ao lado, com uma pessoa deitada nela. O quarto era maior mas a cama era de corpo e meio, enquanto a cama em que me tinha deixado de dormir era de casal. Espreguicei-me e ao sentar-me na cama vi no espelho que estava em frente a figura de Jason, que repetia tudo o que eu fazia.

- Ahhh! – Gritei, virando-me e caindo da cama.

Bryan acordou sobressaltado e veio ter comigo.

- O que é que se passa, estás bem?! – Perguntou ele.

- Não. – Murmurei. – Devo ter tomado qualquer coisa…

- Jason, concentra-te, o que é que se passou?

- Jason?! – Repeti.

Levantei-me do chão, ainda a tremer e voltei a olhar-me ao espelho, eu estava, sem sombra de dúvidas, no corpo de Jason.

Neste momento a porta abriu-se e vi-me a mim, ou ao meu corpo, a entrar com uma cara tão aterrorizada como a que eu tinha feito quando me vi ao espelho, no corpo de Jason.

- Algo não está bem. – Disse Jason, no meu corpo.

- Não me digas, ainda não tinha notado. – Disse eu, sarcasticamente.

Pedimos a Bryan que nos deixasse sozinhos e concordámos que tinha sido o demónio a mudar-nos de corpo e também concordámos que Bryan não precisava de saber disto, porque ia ser uma coisa que se ia remediar depressa. Jason voltou para o meu quarto para se vestir e eu fiz o mesmo, vesti umas calças de ganga e uma t-shirt verde clara com umas letras a laranja, vermelho e amarelo e vesti uma camisa castanha por cima, desabotoada. Calcei uns sapatos castanhos e pus gel no cabelo, de modo a fazer uma pequena crista.

Quando fui ter com Bryan à recepção, tentei agir normal, tentei agir como irmão dele, como um homem, mas parecia que fazia tudo ao contrário. Quando vi o meu corpo aproximar-se de nós, ia-me dando uma coisa má, Jason tinha vestido umas calças verde-tropa com uma blusa vermelha viva de manga comprida e calçou umas sandálias de enfiar no dedo. Arranjei uma desculpa e entrei com ele no meu quarto, escolhi-lhe roupas para vestir e voltei para junto de Bryan. Quando Jason chegou pela segunda vez, já se parecia mais comigo, tinha uns calções pretos e uma blusa laranja, de atar ao pescoço e tinha calçado uns ténis castanhos e laranjas. O fio continuava ao pescoço.

Decidimos ficar juntos, afinal, eu e Jason tínhamos que voltar a trocar de corpo, eu não ia passar o resto da minha vida num corpo de homem.

Fomos ter a uma rua do lado de trás do bar em que nos tínhamos encontrado na noite anterior e vimos que o caminho pelo esgoto ia levar à câmara em que tínhamos encontrado o demónio, mas o buraco para o esgoto era um bocado apertado.

- Eu consigo caber aí. – Disse eu, esquecendo-me completamente que me encontrava no corpo de Jason.

- Meu, lamento dizer isto mas… não és assim tão magrinho. – Disse Bryan ao dar-me uma palmadinha nas costas.

- O quê?! – Perguntou Jason, no meu corpo, bruscamente. – Eu estou numa óptima forma. É tudo músculos.

- Eu sei Mel, não estava a falar de ti. – Respondeu Bryan. – Bolas, vocês hoje estão esquisitos. Tu é que consegues entrar aí, por isso força. – Disse ele, olhando para o meu corpo.

- Eu?! – Ripostou Jason. – Deves estar mas é a sonhar. Com as dores de costas que tenho devo mesmo entrar.

Dei-lhe uma cotovelada.

- Então Mel. – Disse-lhe eu. – Não sejas assim, eu tenho a certeza que consegues, não sejas fraquinha, eu conseguia.

- Claro… desculpa. – Disse ele, baixando-se para entrar no esgoto, levantando-se logo em seguida. – Não consigo, as minhas roupas são demasiado curtas, desculpem. É que parece que me estão a observar por trás e…

- Importas-te de te despachares?! – Perguntei eu.

Insistimos com ele e ele lá acabou por entrar.

Depois de esperarmos durante bastante tempo ele voltou, não trazia grandes novidades, apenas um panfleto de uma festa super chique que se ia realizar num iate, perto da costa.

Voltámos para o hotel, para o quarto de Jason e Bryan… ou seria meu e de Bryan? E concluímos que talvez o demónio aparecesse nessa festa, para encontrar uma próxima vítima.

- Nós podíamos infiltrar-nos lá, vestíamo-nos todos chiquíssimos e entrávamos lá. – Disse Jason.

- Não é muito boa ideia Mel. – Disse Bryan. – Tens alguma ideia Jason? Jason…?

Jason deu-me uma cotovelada.

- Ãh? Ah, eu. Deixa-me pensar… podíamos vestir-nos a rigor e entrar na festa… - Disse eu.

- Sim é capaz de resultar. – Respondeu Bryan.

- O quê?! Mas eu tinha acabado de dizer isso! – Queixou-se Jason.

- Pois Mel… desculpa. – Disse Bryan. – Eu vou buscar café, alguém quer?

Ambos pedimos café e depois ficámos à conversa e a tentar engendrar qualquer plano para recuperarmos os nossos corpos… mas não conseguíamos nada.

Quando chegou a noite, Jason foi de novo para o meu quarto para se arranjar e eu e Bryan vestimos smokings. Fui espreitar o que Jason me estava a vestir e vi-o com um vestido até aos pés, amarelo e umas botas pretas, como um manto de pêlos azuis pelos ombros.

- Tu só podes estar a brincar. – Disse eu de maneira reprovadora. – Não vais sair daqui de maneira nenhuma vestido dessa maneira, eu tenho uma reputação a manter.

- Qual é o mal? – Parecia ofendido por isso pu-lo em frente ao espelho.

- Pensa um bocado. Se quiseres pensa assim, saías com uma rapariga que se vestisse assim?

Soltou um risinho.

- Definitivamente não.

- Aí está.

Comecei a ver a roupa que tinha e dei-lhe um vestido curtinho, lilás, cai-cai, e que fazia uns folhos em baixo, dei-lhe umas sandálias pretas, de atar na perna e de salto alto, fiz-lhe um apanhado com o cabelo e pus-lhe umas argolas de prata, a combinar com a prata do coração, do colar. Maquilhei-o e tentei fazer com que se aguentasse a andar em cima dos saltos. Quando saímos do quarto, Bryan já estava à espera na recepção, fomos para o Opel de Jason e eu ia-me a sentar no banco de trás.

- O que é que estás a fazer? – Perguntou Bryan, a olhar para mim, incrédulo.

Fiquei calada durante uns instantes.

- Pois. Eu sou o Jason… o carro é meu, eu conduzo. – Acabei por dizer, indo para o lugar do condutor.

Jason não parava quieto no banco de trás, estava constantemente a ver-se num espelho pequeno e a mexer no cabelo, ah, e levantava-se montes de vezes para puxar o vestido para baixo, mas depois tinha que o puxar para cima, por ser cai-cai. Era hilariante.

- O que é que estás a fazer?! – Perguntou Bryan, já farto, virando-se para trás.

- Nada. – Respondeu Jason, atrapalhado. – Só me estou a ajeitar.

- Mel, tu não costumas ser assim… está tudo bem?

- Sim, está tudo perfeito. – Respondeu Jason.

Chegámos ao porto e saímos do carro, encaminhámo-nos até à entrada do iate, mas parámos a meio.

- Já não aguento mais. – Disse Jason. – Estes saltos estão-me a matar.

- Tu só podes estar a gozar Jas… Mel. – Disse eu. – Não é assim tão difícil.

- Ai não?! Então vê lá se tu os usas, não usas. – Disse Jason. Fiquei a encará-lo. – Tudo bem, pode não ser assim tão mau.

- Vocês hoje não estão nos vossos dias pois não? – Perguntou Bryan.

- Acredita que não. Definitivamente. Parece que está tudo dos avessos. – Respondi eu.

Andámos mais um pouco.

- Esperem um bocado. – Pediu Jason.

- O que é que foi agora?! – Bryan já se estava a exaltar.

- É o vestido. Não posso usar um mais comprido? Eu sinto-me muito… exposto... exposta, quero dizer.

- O vestido está perfeito, não gostas de ver as raparigas em vestidos curtinhos? É assim que elas se sentem. – Disse-lhe eu.

- Está bem, mas é mais giro quando são elas e não eu! – Disse Jason.

- Esperem lá! – Gritou Bryan. – Mel, desde quando é que aprecias raparigas? E desde quando é que não te sentes bem em roupas curtas? – A cara dele mudou, tornou-se mais gozona. – Há quanto tempo é que mudaram de corpo?

- Eu descobri quando acordei e gritei e caí da cama… quando tu saltaste da tua e me vieste perguntar o que se passava. – Respondi eu.

- Uau… bem… Mel, por isso as cotoveladas todas e o facto do teu corpo não aguentar os saltos. Meu… tu ficas… esplêndido no corpo de uma rapariga. – Gozou ele.

- Goza, goza, gostava de ver se fosses tu. – Disse Jason.

Acabámos por entrar no iate sem muitos problemas, agora era só encontrar o demónio. O iate era enorme e as pessoas estavam todas muito finas nos seus smokings e vestidos de alta-costura.

- Nem acredito que vim parar aqui. – Queixei-me. – Depois de uma vida a fugir destas festas vim-me pôr aqui de livre vontade… a boa notícia é que não tenho que usar um vestido…

- Que bom para ti. – Disse Jason, ainda a puxar o vestido para baixo e depois para cima.

- Olhem, ele está ali! – Disse Bryan, apontando para o demónio.

Fomos atrás dele mas ele viu-nos e correu para o andar de baixo do iate, em que não estava ninguém. Bryan fechou a porta.

- Então, estão a gostar do novo corpo? – Perguntou o demónio, a rir-se.

- Nem por isso. – Respondeu Jason, que, ao atacar, tropeçou com os sapatos e espetou-se no chão.

- Tu facilitaste muito. – Riu o demónio, tirando um machado detrás do sofá. – Mas não é a ti que quero.

De repente tudo o que estava à minha frente mudou, estava agora tudo inclinado, eu estava deitada. Olhei para cima e tinha lá o demónio, que espetou o machado no chão, nem tive tempo de pestanejar, virei-me para que o machado não me acertasse e levantei-me.

- Sou eu outra vez! – Conclui, repleta de felicidade.

O demónio continuou a atacar-me e eu a defender-me, apesar do vestido e dos saltos altos. Mandou-me algumas vezes ao chão e contra as paredes. Estava a ficar encurralada, olhei para trás, devia estar a uns cinco metros da parede. “Se fazem isto nos filmes talvez não seja tão complicado”, corri em direcção à parede com o demónio a seguir-me e subi-a, dando um mortal para trás, ficando de frente para o demónio. Agora quem estava encostado à parede era ele, comigo a dar-lhe murros, mas falhei um e ele agarrou-me, virou-me e encostou-me à parede, estava-me a apertar o pescoço e eu estava prestes a ficar K.O. quando ouvi um gemido horrível e o demónio largou-me, caindo no chão. Levei a mão ao pescoço e comecei a respirar fundo.

- Estás bem? – Perguntou Jason.

- Estou, agora estou, obrigado. – Respondi, com um pouco de dificuldade.

Recompus-me.

- Tu foste incrível. – Disse ele. – Eu estive na tua pele e não foi nada fácil. Como é que te aguentas em pé?!

- Tu habituas-te aos saltos. – Disse eu, sorrindo, enquanto nos dirigíamos à saída.

- Eu não estou a falar só dos saltos, quer dizer, os saltos, o vestido, também são impressionantes mas eu estava a falar mais era das dores… Mel, tu tens as costas piores que sei lá o quê.

- Apanhaste-me num dia mau, só isso. Isso é uma coisa boa em mim, amanhã já não me dói nada. Mas admito que também não é fácil ser tu, estão sempre todos à espera que tomes as decisões todas e isso tudo.

- Acredita, daqui em diante nunca mais te ignoro, é bom ter-te de volta.

- Eu não estou de volta. – Disse eu, parando. – Jason, tudo bem, foi bom encontrar-vos mas eu não estou de volta.

- O quê? Mas eu pensei que… Mel, vá lá. Desculpa ok? – Pediu Bryan.

- Não, não está ok. Eu não sou um brinquedo que se possa mandar fora e ir buscar as vezes que se quer.

- Eu sei disso. Desculpa. – Disse ele, enquanto se metiam no carro, com umas caras tristes. – Adeus.

Aquele adeus parecia tão intenso, apesar de tudo tinha pena de não ficar com eles, mas eles é que pediram.

Voltei para o meu quarto de hotel a pé, e quando lá cheguei tinha uma visita inesperada.

- Eles estão com problemas. – Disse Gabriel.

- Jason e Bryan? Porquê? – Perguntei.

- Eles vão matar-se, há pouco tempo receberam uma oferta de um anjo e agora vão aceitá-la.

- Óptimo, agora mandam-te a ti para me convenceres a ficar com eles?!

- Eu sei que eles podem ser difíceis de lidar. – Disse Gabriel.

- Difíceis de lidar?! Isso era uma bênção Gabriel, eles tornaram-se impossíveis…

- Talvez, mas vais mesmo deixá-los matarem-se?

- Eles não se vão matar Gabriel, e eu não vou voltar.

- Porque não?!

- Ouve, eu não quero ter mais nada a ver com eles! – Gritei furiosa.

- De certeza? Então porque é que continuas a usar esse colar todos os dias? – Perguntou ele, atingindo-me em cheio. – Eu sei o que significa para ti. E sei o quanto eles significam para ti. Mel, eu imploro-te, não deixes que façam esta estupidez.

- Eles não se vão matar. – Disse eu, impávida.

Ele desapareceu e eu mandei-me para cima da cama, esgotada. Comecei a pensar neles… e se eles se matassem mesmo? E se já estivessem mortos? Não, eles não se iam matar, não podiam. Levantei-me e comecei às voltas pelo quarto. “Não acredito que estou a fazer isto outra vez!”, pensei.

- Gabriel! – Chamei, em voz alta. – Eu não sei lá muito bem como chamar um anjo mas… eu preciso de ti… tens razão… eles não me são indiferentes, e eu quero ajudar… Gabriel?

- Eu cheguei quando chamaste pela primeira vez mas gostei do resto. – Disse ele, atrás de mim, assustando-me.

- Olá. – Disse Vicky, que tinha vindo com ele.

Abracei-a.

- É tão bom voltar a ver-te! Tive tantas saudades tuas! – Exclamei. – Mas agora… onde é que eles estão?

- Num abrigo do anjo que lhes fez a proposta. – Respondeu Gabriel.

- Ok… como é que eu chego lá?

- Não consegues, só anjos podem lá chegar.

- Ok… podes-me levar?

- Iria tirar toda a minha energia, pondo-me num profundo estado de coma.

- Ok mas… vocês são dois, podiam dividir a energia precisa, assim só ficavam um pouco mais fracos certo?

- É capaz de resultar. – Disse Vicky.

Eles agarraram-me e num piscar de olhos estava numa sala enorme, em tons de azul e prateado e completamente ampla. Vi Jason e Bryan mais ou menos no centro, com uma pistola cada um e vi um homem, com grandes barbas brancas, encostado a uma das paredes, a observar.

Corri até Jason e Bryan, que não ligaram nenhuma ao facto de eu lá estar. Fui ter com o homem da barba, percebi que estava a sussurrar qualquer coisa. Abanei-o.

- O que é que pensa que está a fazer?! – Perguntei. – Aqueles são os meus amigos que está a incentivar para se matarem!

- Tu. – Disse ele, com uma voz muito áspera. – Tu tinhas que aparecer! Eles têm toda esta escuridão dentro deles e depois uma pequena luzinha, que insiste em não os deixar em paz.

- A sério?! Pois bem, adivinha “Pai Natal”, a luz está prestes a ficar maior. – Disse eu, dando-lhe um murro, que o deitou ao chão.

Corri de novo até Jason e Bryan.

- Não façam isso! – Gritei, enquanto me aproximava.

- Não te aproximes. – Ordenou Jason.

Obedeci.

- Jason, não faças isso… Bryan… porque é que querem desistir de tudo?! Não façam esta estupidez!

- Não temos mais nada. – Começou Bryan. – Não temos ninguém.

- Isso não é verdade, vocês têm o Phil… vocês… têm-me a mim. - Disse eu.

- Tu não nos suportas e o Phil também já deve estar farto de tantos dramas. Ninguém quer saber de nós. – Disse Jason.

- Eu quero! – Gritei. – Acham que estava aqui se não quisesse?! Acordem pessoal, eu preocupo-me com vocês, o Phil também… têm o Gabriel e a Vicky… vocês é que não vêem!

- Já não aguento mais. – Disse Bryan.

- Por isso vais pelo caminho mais fácil?! Vais premir o gatilho e desaparecer?! As coisas não funcionam assim! – Já estava furiosa. – Não podes fugir dos problemas, eles apanham-te sempre! Não façam isto, não desistam. Esta vida é difícil, eu sei que é e sim, posso não estar nela há tanto tempo como vocês mas sei que é difícil, mas não podemos desistir… não podemos ceder assim… vocês não são desistentes ok? Não são! E eu não vou desistir de vocês! – Viraram-se ambos para mim. – Ponham as armas no chão, por favor… pelo Phil… por mim.

Obedeceram e eu aproximei-me deles, dei dois pontapés nas armas, para deslizarem para longe e abracei-os, depois afastei-os e dei uma chapada a cada um.

- É a segunda vez que me obrigam a dar-vos uma chapada, não obriguem a uma terceira. Estou a avisar. – Disse eu, com uma lágrima a cair-me.

Voltámos para o hotel e fomos para o quarto deles, que era maior. Eu sentei-me num cadeirão e Jason e Bryan mandaram-se cada um para uma cama. Vicky e Gabriel ficaram de pé.

- Que noite. – Suspirei. – Eu preciso de uma bebida… será que o bar ainda está aberto?

- Este do hotel não, mas há um ao virar da esquina que ainda deve estar. – Disse Bryan.

- Óptimo, vou para lá, vêm? – Disse eu.

- Vamos.

Fomos todos para o bar e enquanto Jason e Bryan foram buscar bebidas, eu, Vicky e Gabriel sentámo-nos numa mesa.

- Melanie, não te percas. Tu viste como eles ficaram, o que esta vida lhes fez. Eles perderam a vontade de viver. – Disse-me Gabriel.

- Tem calma, isso não me vai acontecer, eu não me vou esquecer de quem sou. Vai correr tudo bem.

- Espero que sim, porque eu gostava de te pedir um favor.

- Diz.

- Devolve-lhes essa vontade, a vontade de continuar vivo, a vontade de viver.

- Como assim?

- Dá-lhes um motivo por que sorrir, eu sei que aos poucos vais ter os teus amigos de volta, se alguém os consegue trazer de volta és tu. – Disse Vicky.

- Espero que sim.

Eles voltaram com bebidas e eu dei um gole na minha, começou a dar uma música mexida.

- Eu vou dançar, querem vir? – Perguntei.

- Como é que consegues? Depois de um dia destes… - Perguntou Jason. – Eu não vou.

- Eu também não. – Disse Bryan.

- Às vezes precisamos mesmo é de descontrair… - Disse eu, pegando numa mão de cada um. – Por isso vamos dançar. – Concluí, puxando-os.

Estivemos na pista de dança durante um pouco, consegui com que se rissem e com que se mexessem, o que foi um grande começo. Passado pouco tempo Vicky e Gabriel vieram ter connosco.

- Nós vamos embora. – Disse Vicky.

- Mas precisamos do teu colar. – Disse Gabriel.

- Do meu colar? – Perguntei, levando a mão ao pescoço.

- Sim, acreditamos que ele é o amuleto preciso para encontrar Deus.

- O meu colar? – Repeti.

- Sim… não é sobre o colar, é sobre o sentimento que alberga. E o sentimento nesse colar é muito forte.

- Que colar é? – Perguntou Jason.

Olhei para Gabriel.

- Para alguns é… - Sussurrei, virando-me depois para Jason. – Este colar foi…

- O que eu te dei no dia em que começámos a namorar não foi? – Perguntou ele.

Sorri.

- Foi. – Tirei o colar e agarrei-o, antes de o entregar a Gabriel. – Eu quero-o de volta. – Disse, entregando-o.

Fomo-nos sentar e acabar as bebidas.

- Então, para onde é que vamos a seguir? – Perguntei.

- Vamos? Isso significa que queres vir connosco? – Perguntou Bryan. – Porque se não quiseres… não te sintas obrigada porque tivemos uma crise…

- Bryan… eu fui a um hotel assombrado com uma peruca loira porque sonhei que vocês se iam magoar lá…

- Então sempre eras tu… - Disse Jason – Eu sabia!

- Sim… o meu trabalho de vos proteger fica bem mais fácil se estivermos juntos. – Disse eu, rindo-me.

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