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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 27.01.13

Cá está.

Comentem, não se esqueçam ^^

 

9.  Algum Tipo de Ajuda

 

Só dos poucos centímetros que separavam a mesa da bancada da cozinha senti medo de que os pratos nas minhas mãos que tremiam caíssem e se partissem. Se isso acontecesse, estava tramada, e era mesmo esse pensamento que me fazia tremer ainda mais.

- Bom, vou trabalhar – ouvir aquelas palavras era um alívio. Significava que tinha meia dúzia de horas de descanso, de paz de alma, se é que me conseguia mesmo distanciar o suficiente dele para que isso acontecesse.

Lewis levantou-se da mesa e veio até à bancada, para me dar um beijo forçosamente nos lábios. Depois saiu, sem mais nenhuma palavra. Limpei a boca freneticamente e partilhei um olhar com Elise, que me olhou com compreensão. Ajudei-a a arrumar a cozinha e depois disse-lhe que ia às compras, estávamos a ficar sem algumas das coisas essenciais. Ela advertiu-me que não me demorasse, pois Lewis poderia descobrir e ficar chateado, ao que eu assenti.

Fui até ao quarto e, ao tirar a camisola do pijama ao espelho, observei a pequena-nódoa negra que repousava no meu ombro e suspirei. Troquei de roupa e saí, respirando fundo assim que me vi fora daquela casa. Mesmo nestes momentos não conseguia estar descansada, pensava sempre que ele podia estar atrás de mim, que me ia seguir, que me ia magoar. Andava sempre paranoica.  

Quando me despachei do supermercado comecei o caminho de regresso à casa quando, sem estar à espera, duas pessoas me interpelaram na rua.

- Bom dia – cumprimentou a senhora.

- Bom dia… - disse também, para não ser antipática, ficando depois à espera que dissessem algo mais.

- Não sei se tem conhecimento, mas abriu recentemente um centro de ajuda a todas as pessoas ao lado da biblioteca municipal – começou o homem a falar – Temos uma linha directa em que todas as chamadas são recebidas e tratadas por psicólogos profissionais e muitos voluntários. Atendemos pessoas com todos os tipos de problemas, sejam de bebida, droga…

- O que o meu colega está a dizer, é que damos qualquer tipo de ajuda – interrompeu de novo a senhora –, e todas as chamadas são confidenciais. Somos um género de apoio, de “ombro amigo”, para quem precisa.

- O que…? – Não me deixaram terminar.

- Vou-lhe deixar o nosso cartão, caso conheça alguém que possa precisar, ou até mesmo para si – o homem passou-me um cartão para as mãos com o nome de “Um Amigo” e um número de telefone e sorriu-me.

- Obrigado – disse, apenas.

Eles seguiram caminho e vi-os a interpelarem mais pessoas depois de mim. Enfiei o cartão para dentro do bolso das calças e depois dirigi-me para casa.

Elise ajudou-me a guardar as coisas no sítio, e depois disse que ia subir para ver se descansava um pouco, deixando-me completamente só na sala. Fui até ao sofá e sentei-me nele, ligando a televisão. Ligou no programa da Oprah Winfrey, o que me fez logo vir as lágrimas aos olhos. Costumava vê-lo com a minha avó. Ao mesmo tempo que o meu coração se enchia de saudades, pensava em como estaria ela. Alcancei o meu telemóvel, que estava em cima da pequena mesa situada em frente ao sofá, e procurei o número dela, detendo-me quando chegou a altura de carregar em “ligar”. Queria tanto ouvir-lhe a voz, pedir-lhe perdão e dizer-lhe que estava certa sobre tudo. “Be, desculpa, fiz asneira, perdoa-me”, imaginei-me a dizer. Mas qual seria o sentido? Isso apenas serviria para me sentir pior, pois Lewis nunca me deixaria ir vê-la, nunca me deixaria fazer nada nunca mais. E então ambas iriamos sofrer mais. Por isso, em vez de telefonar à minha querida Be, marquei outro número e esperei que atendessem.

- ““Um Amigo”, boa tarde, como posso ajudar?” – Aquela voz masculina era muito calma e tranquilizadora. Não o sabia na altura, mas eu seria a sua primeira chamada e, de certeza, ficar-lhe-ia marcada. Fiquei alguns segundos em silêncio, o que o fez insistir – “Boa tarde?”

- Boa tarde – acabei por falar, clareando a voz, percebendo o que tinha acabado de fazer – Desculpe eu… nem sequer sei porque liguei para este número.

Silêncio do outro lado.

- “Normalmente as pessoas ligam porque precisam de ajuda. De desabafar. Chamo-me Tyler”.

- Ruby. E eu não… eu… - esfreguei a cabeça e engoli em seco. Eu precisava de desabafar, era um facto. E não o podia fazer com Elise, nem com a minha Be, não o queria fazer com Joshua e tinha perdido todas as minhas amizades. Que opções me restavam? Um estranho sem rosto por trás de uma linha telefónica – Tudo o que aqui falarmos é confidencial, não é?

- “Absolutamente. Queres falar de algo em particular?”

- Não.

Ouvi um pequeno riso suprimido.

- “Então eu começo. Tenho vinte e cinco anos e fui criado em Nova Iorque, com três irmãs. É a tua vez” – conseguia ver o que estava a tentar fazer. Queria pôr-me à vontade, confortável.

- Tens irmãs?

- “Pensava que te devia estar a ajudar”.

- Ajudas ao distrair-me – acabei por murmurar.

- “Sim, tenho três irmãs”.

- Mais novas?

- “Sim. E tu?”

Parei um pouco antes de responder, mas optei por falar a verdade. Aquela voz ao telefone não me ia julgar e, mesmo se o fizesse, nunca saberia quem eu sou na vida real.

- Eu não tenho ninguém.

De novo silêncio e, pelo tempo que demorou a falar, percebi não sabia o que me dizer. Afinal, faltava-lhe a experiência nisto.

- “Isso não é verdade. Agora tens-me a mim”.

Pensei que isso não fosse significar nada, mas significou o suficiente para me pôr os olhos em lágrimas. “Tens-me a mim”, o que eu não dava por ouvir apenas essas três palavras de um dos meus antigos amigos, da minha Be, de qualquer pessoa palpável que estivesse à minha frente. Mas vindas daquela voz ao telefone também serviram o seu propósito, confortaram-me ligeiramente, mesmo sabendo de que aquela voz de nada serviria quando Lewis e o seu cinto de cabedal chegassem perto de mim.

Nos dias que se seguiram, sempre que Lewis ia trabalhar, telefonava para aquele número e pedia para falar com Tyler. Ele facilitava a conversa e, por breves minutos, fazia-me esquecer o pesadelo em que vivia, até que lhe comecei a contar tudo aquilo que me atormentava o sono e o pensamento.

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