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Déjá Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 05.11.10

Cá está o capítulo de hoje, espero que gostem:

 

Capítulo 15

De volta a velhos hábitos

 

- Como é que ela pode estar a dormir assim? Tão descansada, parece que os problemas desaparecem. Nem parece que está a ter um pesadelo. – Observou Vicky.

- Pois é, é incrível. – Concordou Phil.

Eu estava deitada no sofá, com os olhos fechados a descansar.

- Isso é porque não estou a dormir. – Sentei-me. – Estão aqui dois tagarelas que não me deixam.

- Desculpa, nós pensávamos que estavas a dormir. – Disse Vicky, sentando-se ao meu lado.

- Não consigo dormir.

- Pesadelos? – Perguntou Phil.

- Sim, mas estes não são enquanto durmo, são enquanto estou a acordada. Já foram ver do Bryan?

- Nós não…

- Tudo bem, não se preocupem, eu vou. – Levantei-me e fui à cozinha, agarrei num prato com arroz e carne e encaminhei-me para a cave.

Bryan estava trancado na cave há quase duas semanas. Tínhamos ido à caça de um demónio, mas de um momento para o outro apareceram vários vampiros e ele perdeu o controlo, antes que eu e Jason nos apercebêssemos os vampiros já estavam no chão, quase sem sangue. Jason já andava desconfiado que ele tinha voltado a beber sangue de vampiro, as provas estavam todas lá, eu é que não queria acreditar. Os vampiros estavam a desaparecer, Bryan estava cada vez mais forte, comia menos, estava mais impaciente… depois de descobrirmos tivemos que tomar uma atitude. Bryan tornou-se perigoso desde então, ele diz que precisa de mais sangue, mas como não olha a meios para atingir o fim, tivemos que o fechar na cave, onde não pode magoar ninguém. Eu levava-lhe comida todos os dias e ficava lá com ele, apesar de Vicky e Phil dizerem que qualquer dia ele me ia atacar.

Já estive mais longe de acreditar neles mas o que podia fazer? Ele continua a ser o meu amigo, está apenas… doente.

- E o Jason? – Perguntou Vicky, enquanto eu passava na sala para ir para a cave.

- Um irmão de cada vez. – Respondi.

Jason andava distante, estava muito abalado com o que acontecera com Bryan e estava sobretudo muito revoltado com a vida. Andava a beber demasiado e a sair a altas horas da noite e a chegar de madrugada, podre de bêbedo.

As coisas não estavam a correr bem em lado nenhum nos arredores. Gabriel, que estava à procura de Deus, estava desaparecido. Não respondia quando o chamávamos nem foi encontrado quando Vicky o foi procurar. Whitney, a dona do bar que os caçadores frequentam, morreu, foi atacada por um vampiro e não conseguiu reagir a tempo. Apesar de não a conhecer bem, percebi que lá por casa ficaram todos muito abalados. Os meus pesadelos continuavam e o pior era que como sabia que eram reais, fazia os possíveis para os impedir, o problema era que estava praticamente sozinha. Há duas semanas que trato de Jason, de Bryan e que caço sozinha, mal tenho tempo para dormir e quando o faço mais pesadelos vêm. Phil e Vicky tentam ajudar, mas perderam a esperança na primeira semana, por isso eu é que tenho que me segurar a mim e a eles.

Abri a porta da cave e desci as escadas. A cave estava escura, apesar de ter a luz acesa, esta não era muito forte.

Está pintada em tons de cinzento e depois tem o chão de alcatrão. Está completamente vazia, à excepção de Bryan, que se encontra sentado no chão, encostado à parede, com um cobertor e uma almofada ao lado, e tem uma corrente à volta do tornozelo direito.

- Trouxe-te o almoço. – Aproximei-me e pousei o prato com a comida no chão, ao pé dele.

- Eu preciso de mais. – Sabia perfeitamente ao que ele se referia.

- Não, não precisas. Tu bebeste foi demais, agora temos que aguentar até sair do teu sistema e depois ficas bom outra vez até… voltar a acontecer. – Era triste mas era a realidade, enquanto Bryan tivesse o sangue contaminado, iria sempre acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Sentei-me nas escadas.

- Devias comer. – Disse eu.

- Tu sabes o que eu quero.

- Bolas Bryan, eu não acredito em ti. Tu prometeste raios! E eu acreditei em ti. E o Jason sempre a dizer que tinha a certeza que tu tinhas voltado para essa porcaria e eu sempre a negar. Porque acreditava em ti. Pode não ser tua culpa, mas também não é minha e eu é que tenho que levar com os demónios todos e as bebedeiras que o teu irmão arranja por causa de ti! Estou prestes a chegar ao limite, e quando chegar não sei o que vai acontecer, porque não vai haver ninguém para me amortecer a queda. É melhor comeres, só volto à noite. – Depois de isto tudo, sentia-me extremamente revoltada.

Saí e voltei a fechar a porta à chave.

Voltei para a sala mas já não estava lá ninguém, espreitei pela janela e vi Vicky e Phil aos tiros ao alvo, nas traseiras da casa.

Ouvi a porta da rua, corri até ao corredor e espreitei, vi Jason, já quase sem se aguentar em pé. Fui ter com ele e ajudei-o a aguentar-se em pé.

- Jason, por onde é que andaste? – Ele não respondeu e comecei a subir as escadas, com ele a fazer uma força enorme no meu ombro direito, que tinha sido magoado numa pequena caçada ontem.

Entrámos no quarto dele e deixei-o cair para cima da cama.

- Eu preciso de dormir. – Disse ele, ajeitando-se.

- Pois… e depois precisas de um banho. De preferência de água fria. – Saí de lá e voltei a descer as escadas.

Sentei-me no sofá e quando estava prestes a deixar-me de dormir, ouvi um barulho vindo da cave. Quando lá cheguei, Vicky e Phil estavam de frente para a porta, fechada.

- Lá vamos nós outra vez. – Disse eu. – Vocês não entram?

- Eu acho melhor não. – Disse Phil. – Tu tens mais paciência para isto.

- Se não tivesse também mais ninguém tinha. – Resmunguei. Abri a porta e desci as escadas.

Bryan estava a tentar soltar-se da corrente, e quando me viu tentava a todo o custo chegar a mim.

- Acalma-te Bryan. – Pedi eu. – Pára com isso imediatamente. Tem calma.

Ele estava cada vez mais irrequieto e eu ia-me aproximando muito devagarinho. Ele estendeu-me a mão, aparentemente mais calmo e eu dei-lhe a minha, como sinal de tréguas, mas ele puxou-me e agarrou-me, pegou no garfo que eu lhe tinha levado com a comida com a outra mão. Ele era tão forte, era quase como estivesse a ser pressionada por duas paredes.

- Bryan pára. Larga-me, não faças isso! – Ele não me ligou, fez-me um corte no braço e começou a chupar o sangue. Dei-lhe uma cotovelada mais forte e escapuli-me.

Fiquei dois metros afastada dele, a olhar, durante segundos, com a desilusão estampada no rosto.

- Mel… - Balbuciou ele.

- Cala-te. Tu não és o meu amigo por isso cala-te! – Saí de lá e fechei a porta.

Passei por Phil e Vicky, que me disseram que ouviram gritos e perguntaram porquê mas não lhes disse nada, nem parei, se quisessem saber que tivessem descido lá abaixo quando os ouviram. Eles bem que tentam ajudar, mas de boas intenções está o inferno cheio, e eu preciso de actos, não de boas intenções.

Entrei no meu quarto de rompante e mandei-me para cima da cama. As lágrimas começaram a cair e eu já não as conseguia impedir, estava completamente cheia e precisava de descarregar. Deixei-me de dormir pouco depois e acordei de madrugada, com as lágrimas secas. Tomei um duche rápido e vesti umas calças brancas, uma blusa rosa, de atar ao pescoço e calcei os ténis pretos. Deixei o cabelo solto e agarrei no punhal e na pistola. Desci as escadas e comi um iogurte, mandei um pacote de bolachas para Bryan e disse a Phil que ia caçar.

Vi Jason no quintal, sentado na rede que estava atada a duas árvores a beber uma garrafa de cerveja e fui ter com ele. Encostei-me à árvore que estava ao seu lado. Já não sabia o que fazer com ele, agora andava sempre a beber e sempre calado, eu até percebo porquê, mas no fundo acho que ele estava em negação, precisava de um tratamento de choque.

- É um bocado cedo para estares a beber não?

- Não interessa.

- A Whitney morreu. – Comecei eu por dizer.

- Mel, o que é que estás…

- A Whitney morreu e o Gabriel está desaparecido. – Interrompi. – E o Bryan anda a beber sangue outra vez e os demónios são cada vez mais e o apocalipse está mais perto a cada dia que passa. E é mau. É muito mau, mas é a nossa vida Jason. Esta vida não presta mas é a que temos. E eu sei que estás preocupado com o Bryan e com o Gabriel e sei que tens pena pela morte da Whitney mas também sei que não é a beber que te vais sentir melhor. Pode ajudar durante umas horas mas depois volta tudo e depois tens que voltar a beber… Jason, com isto tudo ainda acabas em coma alcoólico.

Ele permanecia calado e quieto, como uma estátua e passados uns momentos resolvi vir-me embora, a conversa não ia adiantar nada.

Fui procurar por demónios em becos, estava mesmo a precisar de descarregar. Depois de matar quatro, continuei à procura de mais, em dias normais tinha parado, mas hoje não conseguia, tinha que matar mais, enquanto estava a lutar com eles esquecia os problemas, era como se fossem o remédio perfeito. Jason bebia, e eu lutava. Não sei até que ponto é que é melhor, mas tal como eles, eu preciso de uma maneira de lidar com tudo o que está a acontecer.

Voltei para casa já quase à noite, passei por Phil no corredor e disse-lhe que a caçada tinha corrido bem e que não me tinha magoado, subi as escadas.

Entrei no quarto, fechei a porta e tirei o casaco, ficando com a blusa de atar ao pescoço. Tirei os primeiros-socorros de baixo da cama e sentei-me em cima dela, a tratar das feridas que tinha feito nos braços.

- Com que então não tinhas ficado magoada. – Disse Phil, espreitando à porta.

- Acredita, não é o que dói mais. – Desabafei eu. – Entra.

- Eu sei que não… mas tu tens sido incansável Mel.

- Pois…

- Acredita. Incansável e corajosa.

- Phil, não é a primeira vez que caço sozinha.

- Não é por isso. Sabes, eu ainda não fui ver como é que o Bryan está, e no entanto tu desces lá todos os dias, apesar do perigo de ele te saltar para cima a qualquer momento. Também ainda não falei com o Jason, não sei o que lhe dizer, mas tu já tentaste falar com ele vezes sem conta.

- Mas nada disso leva a lado nenhum Phil. Eu posso descer à cave vezes sem conta e o Bryan vai continuar a querer sangue e também posso falar com o Jason montes de vezes mas ele não vai parar de se afundar assim. E eu não sou incansável. Porque estou cansada. Cansada deste drama todo, cansada de estar a fazer tudo sozinha… eu quero-os de volta Phil.

- Eu sei, eu também os quero de volta. E também sei que não sou um grande suporte e que não tenho feito nada de especial para te ajudar.

- Pois não… mas não te preocupes, as coisas hão-de se resolver.

- Optimista até ao fim.

- Se não fosse assim, o fim já tinha chegado, acredita.

Fui dar uma volta pelo sótão à procura de balas e caiu-me um livro velho de uma estante.

Voltei para o quarto.

- Vicky. – Chamei. – Vicky vá lá, eu preciso da tua ajuda.

Ela apareceu mesmo à minha frente e sentou-se na cama.

- Que se passa? – Perguntou. – Não há mudanças com o Bryan nem com o Jason?

- Não… mas eu preciso da tua ajuda, eu tenho um plano, mas não vou conseguir sozinha.

- Diz.

- Enquanto estava a vasculhar o sótão encontrei um livro velho, que tem mais histórias e lendas que outra coisa, mas encontrei uma coisa que pode ajudar muito.

- Vá lá Mel, acaba lá com o mistério, o que é que encontraste?

- Uma poção para limpar o sangue.

- Mel… tu sabes que as poções são arriscadas e nem sempre dão certo, é por isso que nunca as usamos. Podes transformá-lo num sapo ou qualquer outra coisa se a poção não estiver bem-feita.

- Então vamos ter que a fazer bem Vicky. Não vou perder os meus amigos outra vez.

- Mas com poções Mel… de certeza que não há mais nenhuma opção?

- Se houvesse achas que te pedia ajuda com isto? Claro que não há. Eu tenho um deprimido e um viciado em sangue trancado na cave, que agora já nem se importa se é de vampiro ou não, só quer é sangue e eles já estão assim há duas semanas! Vicky, eu não os quero perder, não os vou perder.

- Eu vou-me arrepender disto… do que é que precisas?

- Eu acho que da receita só tenho a água potável, por isso preciso de um pé de avestruz, 6 asas de besouro, água do mar, uma ponta de uma estrela-do-mar viva, e uns quantos ramos de verbena.

Vicky concordou e disse que ia arranjar os ingredientes. Deitei-me na cama, apesar de não ter muito sono por causa das preocupações, e fiquei mais de metade da noite a olhar para o tecto. De manhã levantei-me e vesti umas calças castanhas claras com uma blusa branca e os ténis pretos, fiz um rabo-de-cavalo e desci as escadas. Durante a noite tinha tomado uma decisão, as coisas iam mudar.

Jason estava sentado na mesa da cozinha, com uma garrafa de cerveja na mão. Estava na altura de parar de ser a amiga compreensiva e com pena, estava na hora de me impor e de me fazer entender. Cheguei ao pé dele e tirei-lhe a garrafa da mão.

- Então?! – Perguntou ele, muito chateado.

- Então?! Já chega Jason! Acabou! Esta história de amiga compreensiva chegou ao fim porque eu já me fartei ok?! Fartei-me dos dramas e das bebedeiras. Tu não achas que também não me apetece meter-me nos copos e esquecer-me das coisas?! Não achas que também me apetece fugir?! Pois fica a saber que apetece, apetece fazer isso tudo e muito mais, mas em vez disso estou a tentar concertar o teu irmão, estou a tentar manter-me firme e estou a tentar passar por isto, e não vou tolerar mais bebedeiras e vómitos à entrada porque eu também tenho problemas com que me preocupar e não faço essas coisas, percebes?! A nossa vida pode não prestar, mas olha que essa que estás a construir ainda fica mais atrás.

Ele olhou para mim, e voltou a olhar para baixo.

- Desculpa. – Pronunciou, baixinho.

- Desculpas já ouvi muitas. “Desculpa” é só uma palavra Jason, neste ponto eu preciso de actos.

Agarrei noutro pacote de bolachas e numa garrafa de água e levei a Bryan. Quando ia para o quintal Vicky apareceu à minha frente, com um saco castanho.

- Tenho o que pediste. – Entregou-me o saco. – Boa sorte.

- Obrigada.

Fui buscar o livro ao quarto, corri até à cozinha, Jason já não estava lá, fechei a porta e tranquei-a. Tirei as coisas de dentro do saco e espalhei-as pela mesa. Abri o livro na página com a receita da poção e comecei. Moí três ramos de verbena e mandei-os para dentro de uma panela com água doce e do mar a ferver. Pus as seis asas de besouro e o pé de avestruz numa tigela e comecei a moer tudo, depois mandei para dentro da panela, ainda ao lume e mexi. Agarrei na ponta da estrela-do-mar viva e mandei-a lá para dentro. A poção fez uma explosão que me apanhou desprevenida e caí para trás. Desliguei o fogão e deixei-a arrefecer. Como estava tudo líquido, com uma cor acastanhada, meti um bocado dentro de um copo e levei até à cave.

- Bryan, eu trouxe uma coisa que te vai ajudar. – Disse eu.

- Só há uma coisa que me vai ajudar.

- Isto é melhor, acredita. Bebe. – Pedi, entregando-lhe o copo.

- É melhor beberes. – A voz de Jason, atrás de mim, soou tão bem que nem queria acreditar que ele estava mesmo ali. – Não sei o que é mas ela tem-se esforçado imenso, não lhe vais fazer essa desfeita.

- Se beberes tudo e se depois ainda quiseres, eu dou-te sangue. – Disse eu. Jason ficou chocado a olhar para mim, mas Bryan aceitou logo e bebeu a poção toda que estava no copo.

As olheiras dele desapareceram e a expressão tornou-se mais calma, mais relaxada, mais… ele.

- O que era aquilo? – Perguntou, já num tom de voz normal.

- Não és um sapo. – Disse eu sorrindo, repleta de felicidade. – Era uma poção… para limpar o sangue.

- Tu deste-me uma poção?! Eu podia ter morrido.

- Tu mordeste-me por isso fica feliz de não te ter mesmo transformado em sapo ok?! Pensa assim, o teu sangue está limpo.

- O sangue está limpo? Como assim limpo? – Ele parecia tão confuso como Jason, que se mantinha quieto e calado.

- Bryan. – Sorri. – Não há sangue de vampiro. O teu sangue está limpo.

A cara dele ficou repleta de felicidade e a de Jason, que já se encontrava ao pé de nós, também. Era se como as coisas fossem ficar bem outra vez. Libertámos Bryan e este deu-me um abraço enorme, e muito apertado, apesar de não ser nada comparado a quando me agarrou.

- Au, au au. – Queixei-me. – Não me apertes, estou toda partida ok?

- Nunca conseguiríamos sair desta sem ti Mel. – Disse Jason.

- Eu sei. – Disse eu. – E é por isso, e porque vos adoro, que me vou retirar para o meu quarto. Preciso de dormir, não durmo uma noite de jeito há quase duas semanas.

 

E tal como prometido, cá vai um gostinho do próximo capítulo...

 

(...) Acordei agarrada a Jason e desviei-me instantaneamente, ele estava no lado dele da cama, aparentemente nem a dormir me controlo. (...)

 

(...)

- Nós somos casados e… eu estou grávida.

(...)

 

(...) Ele chegou-se ao pé de mim e beijou-me, senti-me a levantar voo, mas tive que manter os pés na terra (...)

 

(...)

- Jason… - Murmurei, levantando-me. Ele levantou-se em seguida e pegou-me na mão, virando-me para ele.

- Eu ainda… sinto falta disso porque lá no fundo, eu ainda… eu ainda te amo.

(...)

 

(...) Deixei-me ir e passados segundos caímos na cama. (...)

 

E agora não digam que sou má xD

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