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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 05.11.10

Vá, pronto, vou abrir uma excepção xD

Podem agradecer à Tila por o capítulo ainda ter chegado hoje, ela é que pediu ;)

E por isso é dedicado a ela.

 

Tou furiosa com a ZON, tem um problema qualquer e tirou-me a internet -.-'

Mas vêem, pus a pen mesmo só para postar, depois digam que não gosto de vocês -.-'

Ok, agora calei-me e vou deixar-vos ler...

 

Capítulo 16

Desejos

 

Bryan já estava bem e Jason tinha voltado ao normal, assim como eu, depois de dormir uma boa noite de sono sem pesadelos nem preocupações. Voltámos a caçar juntos o que, por muito que me custe dizer, é um alívio, porque os demónios estavam-me a pôr cada vez mais dorida. Agora estávamos a caminho de Atlanta, Geórgia. Íamos à caça de um génio, por incrível que pareça.

Aparentemente os génios nem sempre são bons como nas histórias, parece que mudam a realidade e as suas vítimas vivem as vidas com que sonharam. Para as vítimas parece uma vida inteira, mas a verdade é que poucas horas depois, morrem, desgastadas. Génios são criaturas muito matreiras e inteligentes, mas também têm um grande nível de maldade em cima.

Fomos até o hotel mais próximo e fomos tratar dos quartos.

- Lamento. – Disse a recepcionista. – Temos apenas dois quartos disponíveis, um com cama de casal e outro com uma cama de solteiro.

- Não há nenhuma hipótese de se pôr outra cama, em qualquer um dos quartos? – Perguntou Jason.

- Lamento. Como disse, essas são as únicas opções.

- Tudo bem. – Disse Bryan. – Nós ficamos com os quartos.

Os quartos era um ao lado do outro, entrámos nos dois, eram relativamente pequenos e tinham cada um, uma casa de banho. No de casal tinha um roupeiro pequeno e uma mesa redonda com duas cadeiras, também pequenas. Nenhum dos quartos tinha sofá.

- Acho que temos um problema. – Disse o óbvio.

- Porquê? – Perguntou Bryan.

- Porque nós somos três e as camas são duas e a não ser que queiras dormir com o teu irmão…

- Ou então dormes tu. – Desta não estava à espera. – Pensa bem, vocês já namoraram.

- Sim, no passado. – Dei ênfase ao «passado».

- Tudo bem, mas não morrem por passar duas noites na mesma cama.

- Bryan, quando é que foi a última vez que o teu irmão esteve numa cama acompanhado sem fazer alguma coisa?

- Se me perguntares amanhã, eu respondo “ontem”.

- Eu durmo no chão. – Declarou Jason, que tinha estado calado durante a conversa toda. – É na boa.

- Tudo bem, dormes na cama. Mas não tenhas ideias. – Disse eu. – Acho que não morro por dormir na mesma cama que tu durante poucas noites, além disso não é a primeira vez.

Nesse dia não aconteceu nada de especial, fomos procurar o génio mas não lhe vimos nem a sombra. Anoiteceu e fomos comer a um bar perto do hotel. Vicky apareceu e ficou connosco à conversa. Ainda não havia nem sinal de Gabriel.

Quando voltámos para o hotel Jason e Bryan ficaram no andar de baixo a fazer não sei o quê e eu e Vicky subimos para o quarto. Vesti o pijama, uns calções às riscas azuis escuras e uma blusa de alças branca e sentei-me na cama, ao lado de Vicky.

- Com que então vais dormir na mesma cama que o Jason… - Disse ela com uma voz sugestiva.

Percebi logo onde ela queria chegar, de anjinha não tinha absolutamente nada.

- Não vai acontecer nada Vicky.

- Mas gostavas que acontecesse?

- Que história é essa?

- Vocês quase se beijaram há um tempo atrás e tens que admitir que isto…

- Isto não é nada Vicky, não vai acontecer nada entre mim e ele.

- Tu é que sabes, mas não sei não… cá para mim vocês ainda vão dar muito que falar.

Mandei-lhe com uma almofada. Continuámos à conversa até Jason entrar no quarto, ele foi para a casa de banho mudar de roupa e Vicky foi-se embora, deitei-me do lado direito da cama. Por muito que me custe, Vicky tinha razão, o facto de estarmos na mesma cama era meio caminho andado para tudo o que eu não queria que acontecesse outra vez.

Ele deitou-se ao meu lado.

- Jason.

- Que foi?

- Tu ficas no teu lado da cama e eu fico no meu ok?

- Ok. Boa noite.

- Boa noite. – Virei-me de costas para ele e fiquei à espera que o sono viesse.

Devo ter ficado umas duas horas acordada, e depois deixei-me de dormir. Sonhei com o génio, mas não foi um pesadelo, era mais como um sonho normal. Acordei agarrada a Jason e desviei-me instantaneamente, ele estava no lado dele da cama, aparentemente nem a dormir me controlo.

- Eu estou no meu lado da cama. – Murmurou. Assustou-me porque pensei que estivesse a dormir.

- Eu sei. – Afirmei, envergonhada.

- Óptimo. Só para não me acusares. Mas de qualquer modo, nem fui eu que inventei essa regra do lado da cama.

Levantei-me, levei a roupa para a casa de banho, tomei um banho e vesti umas calças de ganga e uma blusa roxa, com uns enfeites pretos, calcei uns ténis bota pretos e penteei o cabelo.

Quando saí da casa de banho, Jason já estava levantado, à espera que a casa de banho ficasse livre.

- Então, apesar de teres invadido o meu lado da cama, dormiste bem? – Perguntou-me.

- Eu estava a dormir, não foi voluntário, mas sim dormi. Tu?

- Também.

Foi para a casa de banho e eu desci para o andar de baixo e sentei-me numas poltronas que lá estavam. Ouvi passos e vi Vicky a vir para ao pé de mim.

- Então, nada aconteceu? – Perguntou, sentando-se na poltrona ao lado.

- Não. Eu disse que nada ia acontecer e nada aconteceu. Isto tudo porque eu tenho auto-controlo. – Ou pelo menos espero ter.

Depois de eles estarem despachados, tomámos o pequeno-almoço e fomos outra vez à procura do génio, Vicky voltou para a sua tarefa de encontrar Gabriel.

Fomos conduzidos até um beco muito escuro. Ouvi um ruído atrás de nós e virei-me, o génio, um homem vestido à árabe, com pele laranja e quatro braços tocou em mim, em Bryan e em Jason.

- Os vossos desejos, são uma ordem. – Disse ele.

Senti uma dor aguda e depois acordei numa cama com lençóis de seda, num quarto muito luxuoso. Olhei em volta, o quarto era em tons de amarelo clarinho, com o tecto branco, ao lado da cama tinha uma mesa-de-cabeceira, com um despertador, um telefone e um candeeiro em cima. Tinha um roupeiro enorme, com duas portas de espelho e a do meio castanha, tinha um plasma na parede, à frente da cama e uma poltrona ao pé da varanda, que tinha um cortinado em tons de dourado e amarelo-torrado, com enfeites florais. Vi que tinha uma pessoa ao meu lado na cama. Sentei-me, encostada à travesseira e vi uma fotografia enorme, por cima da minha cabeça, na parede. Era uma fotografia comigo vestida de noiva e de Jason.

- Ahh!!! – Gritei.

Jason deu um pulo e virou-se para mim.

- O que é que foi, o que é que se passa? – Perguntou, em pânico.

- Não me estou a sentir nada bem. Nós somos casados. – Olhei para a minha mão esquerda, que tinha uma aliança no anelar. – Nós somos casados…

Ele começou a olhar em volta e a ver o mesmo que eu. Sentei-me na cama, calçando os chinelos e depois tirei os lençóis de cima de mim.

- Ahhh!

- Mel, tens que parar de fazer isso! – Disse ele, já nervoso.

- Nós somos casados e… eu estou grávida.

- O quê?!

- Acho que vou vomitar. – Saí a correr pela enorme porta e entrei pela porta ao lado, que por sorte, era a casa de banho.

Voltei para o quarto poucos minutos depois, com as mãos na barriga. Jason estava, agora, tão em choque quanto eu. O telefone na minha mesa-de-cabeceira tocou e eu atendi.

- Estou sim?

- Mel? O que é que estás a fazer na casa do Jason? – Perguntou Bryan, do outro lado da linha.

- Aparentemente é a minha casa também.

- Whoa, és casada com ele?

- Yap e isso nem é a maior notícia… Bryan, vais ser tio.

- O quê?! Ok, o que é que se está a passar?

- Sei lá, mas seja o que for, não gosto, e tem que parar.

- Tem calma, a minha namorada disse íamos aí almoçar hoje, falamos quando eu chegar.

- Namorada? Ok, esquece. Falamos depois.

Desliguei o telefone e sentei-me na cama. Jason estava sem palavras, isto tinha sido, sem dúvidas obra do génio, afinal, ele disse que os nossos desejos eram uma ordem, mas eu sei que não desejava nada disto.

Entrou uma mulher no quarto, com um vestido cinzento-escuro e um carrapito.

- Bem me parecia que já estavam acordados. Muito bom dia, o pequeno-almoço está servido. – Disse ela, levantando as persianas.

- Eu não acho que consiga comer. – Disse eu, baixinho.

- Senhora, você tem que se alimentar, a si e ao seu bebé. Vou mandar fazer a sua comida preferida para o almoço com o seu cunhado e a namorada e os seus paizinhos, que me diz?

- Perfeito. – Sorri falsamente.

Quando ela saiu, eu mandei-me para trás e belisquei-me.

- O que é que estás a fazer? – Perguntou Jason, levantando-se.

- A tentar acordar. Isto não pode estar a acontecer.

- Tem calma, o melhor agora é agir normalmente, ela disse que o Bryan vem cá comer, falamos disso depois com ele. Vai correr tudo bem, acalma-te. Vá, vamos tomar o pequeno-almoço.

Saímos do quarto e fomos para uma enorme sala de jantar, também decorada em tons de dourado. Na mesa estavam panquecas, várias variedades de bolos, café, sumo de laranja, leite, açúcar e chocolate para o leite. Sentámo-nos à mesa e começámos a comer, e apesar de eu não estar a comer nada de especial, estava a começar a ficar enjoada.

- Não comes mais? – Perguntou Jason, admirado.

- Não consigo. Estou enjoada. Vou mudar de roupa, até já.

Fui para o quarto e abri o roupeiro enorme, estavam lá vestidos e mais vestidos, e sapatos de salto alto e de salto raso.

- Será que não há calças nem ténis?! – Perguntei para o ar.

Vesti um vestido preto, largo, por causa da minha barriga que aparentava ter quatro meses, e calcei umas sabrinas, também pretas. Fui à casa de banho e pus espuma no cabelo. Voltei para o quarto.

- Vicky. – Chamei. – Vicky, por favor, preciso de ti.

Ninguém apareceu. Fui dar uma volta pela casa enorme. Tinha sete quartos, dez casas de banho, uma sala de estar e uma sala de jantar, tinha a cozinha e um escritório enorme. Da parte de fora, o jardim era enorme e tinha uma piscina de meter inveja. Estavam dois lamborguinis estacionados à entrada, um preto e um cinzento.

Voltei para dentro de casa e fui para o escritório, procurei por qualquer livro que me ajudasse a descobrir como sair desta embrulhada, mas não encontrei nenhum de sobrenatural. Ouvi a campainha tocar e fui até ao hall, que era muito glamouroso e cheio de luz. Vi Bryan a entrar com uma rapariga loira a seu lado, era muito bonita.

- Olá… - Disse eu, percebendo que não sabia o nome dela.

- Jill. – Disse ela. – Jill Andders, a tua melhor amiga… estás bem Mel?

- Ainda não. Olá Bryan, como estás?

- Bem.

- Óptimo, vamos para a sala de estar então.

- E o Jason, onde está? – Perguntou Bryan.

- Algures na casa… a casa é grande… se calhar perdeu-se… - Jill entendeu como uma piada, mas Bryan entendeu o que quis realmente dizer.

Fomos para a sala de estar e conversámos durante um bocado e depois Jason veio ter connosco. Descobri que Jill era supostamente a minha melhor amiga e minha médica e namorada de Bryan, já viviam juntos.

A campainha voltou a tocar e uma das empregadas foi abrir. Vi os meus pais a entrarem pela sala adentro. O meu pai vinha vestido normalmente, com umas calças de bombazina e um pólo e a minha mãe vinha com um vestido chiquíssimo e cheia de jóias. Olhei para Jason, em pânico, e ele para mim, era óbvio que a minha mãe não gostava dele, e não fazia esforço nenhum para o esconder.

Cumprimentámo-nos todos e para meu espanto, os meus pais pareciam gostar bastante de Jason e Bryan, o que nunca acontecera na nossa realidade.

Fomos para a sala de jantar e almoçámos um almoço digno de aparecer numa revista de culinária, depois os meus pais disseram que tinham muita pena mas tinham que se ir embora. Bryan, Jill, eu e Jason dirigimo-nos de novo para a sala de estar. Eu e Jason sentámo-nos no sofá grande e Bryan e Jill sentaram-se cada um numa poltrona. Estávamos todos na conversa.

- Au. Pára com isso. – Eles ficaram todos a olhar para mim. – O bebé está-me a dar pontapés…

Vi os olhos de Jason brilharem.

- Queres sentir? – Perguntei.

- Posso? – Peguei-lhe na mão e encostei-a à minha barriga, à espera que o bebé voltasse a chutar.

- Pois está. – Disse Jason, com um brilho no olhar, sentindo o bebé.

- Au. – Queixei-me. – Nota-se mesmo que é teu filho. Vai sair um lutador de primeira. – Isto definitivamente não soou como eu tinha planeado.

- Porque é que havia de sair um lutador? – Perguntou Jill.

- Não é esse tipo de lutador. – Disfarcei. – É do género de nunca desistir.

O telemóvel de Jill tocou e ela disse que tinha que ir para o hospital, um dos pacientes piorou de estado e precisavam dela lá. Quando finalmente ficámos a sós com Bryan, começámos a falar do que realmente interessava.

- Como é que saímos desta? – Eles ficaram os dois em silêncio. – Olá! Ouviram? Nós temos que fazer alguma coisa.

- Eu não sei se quero fazer alguma coisa. – Disse Bryan. – Quer dizer, esta vida é… é fantástica. Nós vivemos na zona mais rica de L.A. e temos brutas casas… temos dinheiro e as pessoas que amamos… eu gosto.

- O quê?! Meu, tu nem conheces a rapariga que é a tua “namorada” e as casas e o dinheiro até é giro, mas não dura para sempre, é preciso mais e daqui a um bocado vais-te sentir vazio, digo-te por experiência própria que o dinheiro definitivamente não equivale a felicidade. – Disse eu.

- Nós sabemos mas… pensa nisso Mel, uma vida sem demónios, sem guerras. – Disse Jason, com um ar sonhador. – Ia ser tudo tão mais fácil. Podíamos ao menos tentar.

- Tu sabes que isto não é real Jason! É uma ilusão, é uma ilusão criada por um génio, por amor de Deus! Se não sairmos desta vamos estar mortos em breve.

- Talvez. Mas eu gosto desta paz, deste sossego, de não ter que viajar de um lado para o outro para combater a próxima grande ameaça… Mel, nós temos uma casa linda e aparentemente o nosso casamento é perfeito, estamos à espera de um filho e tudo.

- Não, não estamos! Porque eu não me casei contigo e eu não fiz este filho, não percebes?! Foi tudo plantado, não é real!

- Mesmo assim, não podes, por favor, tentar adaptar-te? Tu própria disseste que estavas a ficar cansada do drama das nossas vidas. Agora temos a oportunidade de a mudar. – Insistiu ele.

- Não quis dizer isso assim! Não vou ganhar esta discussão pois não? – Perguntei, já sabendo a resposta.

- Não me parece. – Respondeu Bryan. – Mas quem sabe, talvez daqui a um tempo comeces a gostar. Melanie, por favor, não faças nenhuma estupidez.

- O que é que achas? Que vou correr atrás de um génio que provavelmente não existe nesta realidade enquanto tenho um bebé de quatro meses na barriga?

- Capaz disso eras tu. – Disse Jason.

- Sabem que mais, estou cansada. Vou-me deitar um bocado. Isto de estar sempre enjoada é esgotante.

Fui até ao quarto e deitei-me na cama. Não acredito que eles queriam continuar com esta vida, com esta farsa. Como é que não percebiam que isto não é real? Ou se percebiam, como é que não se importam? Bateram à porta.

- Estás bem? – Perguntou Jason, ao entrar.

- Tenho saudades da Vicky.

- Mel, tu viste-a ontem.

- Sim, mas não a vou ver amanhã nem depois de amanhã, porque nesta realidade nunca a conheci. Nem a ela, nem ao Gabriel, nem ao Phil…

- Acho que percebi onde queres chegar. – Sentou-se ao meu lado.

- A sério?! – A minha voz soou mais sarcástica do que o planeado.

- Eu também vou ter saudades. Mas eles iam querer que fossemos felizes, certo? E com esta vida, nós temos essa oportunidade.

- Pois bem, adivinha, eu era feliz. Era difícil e andava sempre à porrada e a olhar por cima do ombro, mas era real e era a minha vida e eu até gostava.

- Sim mas esta é uma nova vida. Vá lá, tu vais ter um filho, eu pensava que gostavas da ideia de ser mãe.

- Não, eu nunca pensei nesses assuntos, mas sim, um dia gostava de encontrar uma pessoa e de formar família, não de acordar um dia com um marido e grávida.

- Mel… - Levantei-me e saí porta fora.

Fui dar uma volta pelo jardim, como costumava fazer quando ainda vivia na casa dos meus pais. O jardim de lá também era enorme e eu costumava sentar-me numa cadeira, a beber chocolate quente com marshmellows. Dei uma volta e sentei-me num banco de pedra, de frente para a piscina. Fiquei lá o resto da tarde e quando voltei a entrar para dentro de casa, comi uma sandes na cozinha e depois fui para o quarto. Uma das empregadas disse-me que Jason estava a tratar não sei do quê no escritório. Ele era sócio, juntamente com Bryan de uma empresa muito importante, aqui em Los Angeles. Eu passava os dias em casa sem fazer nenhum.

Fui para o quarto e vesti uma camisa de noite, larga. Comecei a abrir a cama.

- Tu não pareces feliz… - Disse-me Jason ao entrar no quarto.

- Achas?! Deixa-me ver, estou casada, tenho uma vida completamente desinteressante numa casa enorme, tenho um bebé a crescer dentro de mim e não tenho lembrança nenhuma dos últimos cinco anos, diz-me lá porque é que não havia de estar feliz?! – Saí de lá. Estava a ficar farta de estar sempre a sair porta fora, mas já não conseguia aguentar esta necessidade de fugir da vida real.

Fui à casa de banho e vomitei, pela terceira vez do dia. Quando voltei para o quarto já estava mais calma. Jason já estava deitado, deitei-me ao lado dele.

- Ok, se vamos fazer isto, temos que nos dar bem. – Disse eu. – Vou fazer um esforço, mas não significa que tenha que gostar.

- Tudo bem.

Deixei-me de dormir poucos minutos depois e acordei a meio da noite para ir à casa de banho.

Quando acordei de manhã, constatei que não tinha tido pesadelo nenhum, e que provavelmente nunca mais iria ter. Senti uma tristeza muito profunda. Apesar de os pesadelos não me deixarem dormir e serem assustadores como tudo, tinham-se tornado uma parte de mim, e agora, que nunca mais os ia ter, sentia-me como se me tivessem tirado uma parte de mim, como um braço ou uma perna. Virei-me para o lado de Jason e vi que ele já não estava lá, no seu lugar estava um pedaço de papel.

 

«Fui trabalhar, consegues acreditar? Não vou caçar nem nada do género, vou mesmo para uma empresa! Espero que o teu dia corra bem.»

 

Ele parecia completamente feliz, ele e Bryan, por isso decidi fazer um esforço por eles, afinal, depois de tudo, compreendo o porquê de quererem uma vida normal, se bem que viver numa mansão em L.A. e ter empregados não é considerado exactamente normal para a maioria das pessoas.

Levantei-me, tomei um banho e vesti um vestido roxo escuro com umas sabrinas prateadas, deixei o cabelo solto e fui fazer a cama. Entrou uma empregada no quarto.

- Minha senhora, não devia estar a fazer esforços, deixe estar que eu faço a cama.

- Eu não estou a fazer esforço nenhum, a sério. E por favor, não me chame «senhora», chame antes Melanie, ok?

- Mas isso não é muito apropriado.

- É apropriado quanto baste.

Resolvi fazer uma surpresa e Jason e Bryan e fui até à empresa deles.

- É culpa tua. – Ouvi, num sussurro, enquanto caminhava.

Olhei em volta mas não vi ninguém, continuei a andar e quando finalmente cheguei à empresa, subi até ao escritório de Jason. Pelo caminho, montes de pessoas que não conhecia cumprimentavam-me como se nos conhecêssemos há uma vida, eu correspondia, apesar de não fazer a mínima ideia de quem eram.

- Surpresa. – Disse eu, ao entrar no escritório de Jason.

Ele levantou-se da cadeira da secretária e veio ter comigo.

- O que é que estás aqui a fazer? – Perguntou.

- Estou-me a esforçar, eu disse que o ia fazer, por isso vim fazer-te uma surpresa. Podíamos ir comer a qualquer lado.

- Que tal na cantina lá em baixo? É que tenho montes de trabalho e não faço ideia de como o fazer, aparentemente sou genial… o problema é que não me lembro da minha genialidade, nem sei fazer o meu trabalho.

“Boa escolha de palavras, genial”, pensei, sarcástica.

- Tenho a certeza que te vais habituar.

Descemos para o andar de baixo, para irmos almoçar e sentámo-nos na mesma mesa que Bryan. Os “colegas” e “amigos” deles vieram sentar-se ao pé de nós e começaram a falar de coisas que eu não fazia ideia o que eram.

- Vocês devem estar radiantes com a vinda do novo membro da família. – Disse um deles.

- Ui, nem imagina o quanto. – Respondi.

- Tens tido muitos enjoos? – Perguntou uma.

- Ultimamente.

- Bem, um brinde, apesar de ser com água, a vocês. Espero que sejam muito felizes. – Disse outro, levantando-se. Levantámo-nos todos e brindámos. – E agora, para finalizar, um beijo.

Viraram-se todos para mim e para Jason.

- Um quê? – Perguntei eu, a olhar para Jason, com um pedido de socorro estampado na cara.

- Porquê, há algum problema? – Perguntou o homem do brinde.

- Não. Claro que não, eu e a minha mulher gostamos muito um do outro só que…

- Só que… - Esperou o outro.

- Só que o bebé não gosta. – Disse eu. – Começa a dar montes de pontapés com muita força... nem sei bem porquê.

- Sim, é isso. – Disse Jason.

- Oh, vá lá, não sejam assim. Chefão, mostra como se faz.

Virei-me para ele. “É só um beijo, um beijo não muda nada de nada”, repeti, vezes e vezes, em pensamento.

- Só um beijo. – Disse eu.

Ele chegou-se ao pé de mim e beijou-me, senti-me a levantar voo, mas tive que manter os pés na terra, porque aquilo tudo não passava de uma farsa.

Passou-se uma semana e eu e Jason estávamos cada vez mais próximos, especialmente quando tínhamos que fazer de marido e mulher ao pé de outras pessoas. Estaria de novo apaixonada por ele? Não, é impossível.

Os sussurros que tinha ouvido quando fui visitar Jason à empresa estavam piores, estavam sempre a culpar-me de coisas e só eu é que os ouvia. Estava a dar em doida porque no fundo, tudo o que eles diziam, tinham razão.

Jason estava sempre a tentar descobrir como fazer o trabalho dele e eu andava com rédea curta, com as empregadas sempre a vigiar-me, por causa do bebé. Sentei-me encostada à cabeceira da cama e liguei o plasma, estavam a dar notícias dos crimes mais violentos do ano. Deu uma reportagem sobre assaltos às bombas de gasolina em Phoenix, Arizona, deu também a morte de uma família, duas gémeas, um rapaz, uma mulher e um homem, numa casa em Mississípi, houveram corpos encontrados drenados de sangue encontrados em Anápolis, Maryland…

- Mas como? – Perguntei, para o ar. – Nós impedimos isso tudo. – De repente bateu-me. – Ou então não… nunca salvámos aquelas pessoas porque nunca conhecemos demónios. Eles existem, nós é que não os caçamos.

Os remorsos começaram a apoderar-se de mim e tive que me forçar a lembrar que isto não era a realidade, apesar de às vezes parecer. Era apenas uma ilusão, um mundo vazio, feito de desejos, e estava na altura de acabar.

Por muito que procurasse, não tinha um par de ténis em lado nenhum, decidi que não valia a pena. Pus-me no meu lamborguini, o cinzento, e conduzi até uma falésia. Vi o carro de Jason à minha frente, e vi Bryan lá dentro com ele. Iam na mesma direcção que eu, por isso limitei-me a ir atrás.

- O que é que estão aqui a fazer? – Perguntei, quando estacionámos e saímos dos carros.

- Tinhas razão, isto não é real, e sim, sinto-me completamente vazio. – Disse Bryan.

- Isto já deu o que tinha a dar. – Disse Jason.

- Todos os sonhos acabam quando o sonhador morre. – Pensei, em voz alta. – Está na hora de acordar.

Demos as mãos e saltámos do penhasco, acordando segundos depois, pendurados por umas cordas que nos amarravam as mãos.

Sentia-me fraca, e especialmente, muito cansada, mas foi bom constatar que já não estava grávida. Tentei libertar-me das cordas mas estava complicado. O primeiro a soltar-se foi Jason, que me soltou a mim e a Bryan em seguida. Estávamos num género de cabana de madeira. Fomos por trás, muito silenciosos e Jason cortou a garganta ao génio, com o meu punhal. Senti as minhas forças a voltarem ao normal.

Voltámos para o hotel e eles disseram-me para me preparar para a noite, porque íamos celebrar o facto de estarmos de volta à nossa realidade. Fui para o quarto e vesti uma mini-saia preta e uma blusa laranja, cai-cai, calcei umas sandálias pretas, de enfiar no dedo, mas com umas tiras depois e com um bocado de salto. Penteei-me e maquilhei-me e quando estava finalmente despachada lembrei-me de Vicky.

- Vicky! – Chamei. – Por favor aparece.

- Porque é que não havia de aparecer? – Perguntou ela, atrás de mim.

Virei-me e dei-lhe um enorme abraço. Convidei-a para vir celebrar connosco.

Fomos para o bar do outro lado da rua do hotel e comemos hambúrgueres, para variar.

- É tão bom sentir o cheiro do hambúrguer sem me enjoar. – Disse eu.

- Porquê? – Perguntou Vicky.

Pedimos bebidas e explicámos-lhe tudo, depois ficámos à conversa mais um tempo. O primeiro a ir embora foi Bryan, que disse que estava esgotado, seguiu-se Vicky meia hora depois, ficando só eu e Jason. Passada uma hora e algumas bebidas, Jason foi pagar e eu dirigi-me para a porta, quando estava quase lá a chegar, senti um apalpão no rabo e virei-me, vendo um brutamontes com cara de bêbedo. Não tive tempo para reagir porque Jason deu logo um murro no homem, que correspondeu. Meti-me entre eles e insisti com Jason para se vir embora.

Fomos para o hotel e subimos para o quarto.

- Nossa, estás horrível. – Observei a cara de Jason e meti um bocado de betadine num pedaço de algodão.

- Vá lá Mel, vais dizer que nunca me viste pior?!

- Já, mas não por minha causa. Não te devias ter metido… mas obrigado.

- De nada.

- Agora está quieto para eu tratar disso.

Sentámo-nos na cama e eu comecei a tratar-lhe da cara.

- Pronto, já está. – Disse eu, desviando o algodão da cara dele.

- Não pares. – Pediu, ao agarrar na minha mão.

- Jason, o que é que estás a fazer?

- Sabe bem, faz-me lembrar de quando nos conhecemos…

- O quê?

- E meses depois estávamos a namorar… não tens saudades desses tempos?

- Jason… - Murmurei, levantando-me. Ele levantou-se em seguida e pegou-me na mão, virando-me para ele.

- Eu ainda… sinto falta disso porque lá no fundo, eu ainda… eu ainda te amo.

- Não digas isso, por favor.

- Porquê?

- Porquê?! Porque vais estragar tudo, nós somos só amigos e além disso estivemos a beber e…

- Eu não estou bêbedo. E estou a ser honesto quando digo isso, e amanhã vou continuar a dizer o mesmo.

Abanei a cabeça, estava a começar a ver tudo a andar à roda enquanto ele se aproximava ainda mais de mim.

- E consigo ver nos teus olhos que também não te sou indiferente.

Agora encontrava-me encostada à parede, com Jason a menos de 20 cm de mim e quase que não conseguia respirar, por muito que me quisesse inclinar para a frente e beijá-lo como é que as coisas ficariam depois? Como é que iríamos superar se alguma coisa acontecesse nesta noite? Ele encostou as mãos à parede, deixando-me sem escapadela possível e começou a juntar a sua cara à minha.

- Jason pára. – Pedi baixinho, mas no fundo esperava que ele não ouvisse, e se ouviu, não fez caso e os nossos lábios cruzaram-se, finalmente. Ele beijava tal e qual como me lembrava. Apesar do último beijo a sério que tínhamos dado ter sido há cinco anos e uns meses. A sensação continuava igual, era como se não tivesse passado tempo nenhum e ainda fôssemos dois adolescentes. Deixei-me ir e passados segundos caímos na cama.

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