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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 09.11.10

Capítulo 19

Quem sou eu?

 

Depois de sabermos de Stolas, pensámos em ir caçá-lo antes que ele nos viesse caçar a nós, mas acabámos por o subestimar, e ele acabou por se mostrar muito mais forte do que aparentava. O confronto não correu como esperámos e acabámos em casa de Phil. Jason e Bryan estavam no sofá, a tratar das feridas. Vicky e Gabriel vigiavam o exterior pelas janelas e Phil estava sentado no cadeirão, também a desinfectar as feridas. Eu encontrava-me sentada no chão, encostada à parede.

- Mel… estás a ouvir? – Perguntou Vicky.

- Desculpa… o que é disseste? – Perguntei, quando voltei a mim.

- Estávamos a discutir se devíamos ou não voltar e tentar derrotá-lo, nós estamos um bocado enfraquecidos mas ele também está! – Disse ela, cheia de convicção.

- Não.

- O quê?! – Ela parecia indignada.

- Não acho que devêssemos ir ter com ele agora.

- Vá lá, estava à espera de um discurso encorajador, revolucionário, que desse força, daqueles discursos que só tu sabes fazer…

- Não tenho nenhum para agora. – Levantei-me. – Vicky, nós não o conseguimos derrotar, ele é demasiado forte… não dá, não assim, não agora.

Saí e fui para o quintal. Vicky veio atrás de mim.

- O que foi aquilo? Eu pensei que me ias apoiar. Ele está fraco Mel, é mais fácil de derrotar.

- Então e nós?! Não estamos fracos Vicky?! – Aproximei-me da janela, a observá-los lá dentro. – Olha para eles, o Jason deslocou um ombro e o Bryan furou a perna… o Phil só não levou com um tiro em cima porque o puxei. Com que cara é que queres que lhes peça para lutar agora? Eles não podem, nós não podemos. Nós quase morremos Vicky.

- Tu não estás aleijada.

- Foi sorte.

- Tudo bem, talvez tenhas razão, Stolas pode estar fraco, mas aqui também ninguém está apto para a luta… - Admitiu, apesar de conseguir ver que não ia desistir da ideia. – Vou voltar lá para dentro, tem cuidado, é perigoso cá fora, ele pode aparecer. – Ao ir-se embora, tocou-me no antebraço direito, e eu estremeci. – O que foi isso? – Ela notou.

- O quê?

- Encolheste-te… Mel, estás magoada?

- Não… - Tenho a certeza que o meu “não” não foi muito convincente.

- Mostra-me. Puxa a manga para cima.

Não valia a pena discutir por isso levantei a manga, ficando com o antebraço, completamente esfolado, à mostra.

- Caí. – Justifiquei.

- Quando?

- Quando o Stolas me mandou ao ar. Bati na parede e caí…

- Melanie! Tu disseste que estavas bem! Quando é que aprendes?!

- Eu estou bem. Comparada com eles estou óptima. Vicky, está só esfolado, eles não precisam de saber, já têm os próprios problemas.

- Tens a certeza que estás bem?

- Absoluta.

Passado pouco tempo voltei a entrar e continuámos na sala durante mais tempo. Bryan voltou a pôr o ombro de Jason no lugar e depois tratou da perna. Sendo caçadores há já muito tempo, já estavam habituados a este tipo de coisas.

Ouvi um estrondo no andar de cima e fui ver o que era. Stolas estava em frente a mim, com as suas calças pretas de cabedal e blusa vermelha, cabelo castanho-escuro, com longos caracóis.

- Voltamos a encontrar-nos. – Disse ele, com aquela voz presunçosa e arrogante.

- Bryan, Jason! – Gritei.

Ele fez um simples gesto que me mandou contra uma parede, e depois caí toda junta, para o chão. Aproximou-se de mim.

- Não é nada pessoal, só negócios. – Fez um gesto com a mão e eu senti-me a ficar cada vez mais fraca, até ao ponto de ver tudo a andar à roda. Desmaiei.

Acordei numa cama de casal, com uma colcha bege, num quarto muito bem arranjado. Tinha um cadeirão ao lado, ao pé de uma janela e tinha duas mesas-de-cabeceira e um roupeiro com uma porta espelhada. Estavam quatro homens e uma mulher a olhar para mim, com umas expressões muito preocupadas. Levantei-me devagarinho e dei-me conta que não sabia onde estava.

- Onde estou eu? – Perguntei, observando as suas caras. – Quem são vocês…? Quem sou eu…? O que é que se está a passar?!

- Mel… - Pronunciou um rapaz muito bem-parecido, com cabelo castanho-escuro, com uma pequena crista e de olhos verdes. – Estás bem?

- Quem são vocês? – As coisas estavam muito confusas na minha cabeça. Não sabia onde estava nem com quem estava, não sabia quem era… não me conseguia lembrar de absolutamente nada.

- Sou eu… o Jason… - Pronunciou o rapaz.

- Jason… - Repeti, tentando lembrar-me, sem sucesso. – Quem sou eu?

- Mel… não te lembras mesmo de nada? – Perguntou a rapariga. – Não te lembras de mim, do Bryan… nada? Eu sou a Vicky, vá lá, tens que estar a brincar…

- Desculpa eu… não me consigo lembrar… de nada… Mel… é o meu nome?

- Melanie. – Disse o homem mais velho. – O teu nome é Melanie. Eu sou o Phil.

- Então… tu és o quê, meu pai? – Perguntei.

- Não… ele é um amigo. – Disse o outro rapaz, que estava ao lado de Jason. – Eu sou o Bryan, irmão do Jason…

- Ok…

- E eu chamo-me Gabriel, sou… um amigo…

- O que é que aconteceu? Porque é que não me consigo lembrar de nada? Quem sou eu?

- Não te preocupes… - Disse Jason, abraçando-me. – Vai ficar tudo bem, tu vais ficar bem, nós vamos cuidar de ti.

Não sei a razão, mas quando aquele rapaz, Jason, me abraçou, senti umas borboletas na barriga e um grande calor no corpo. Apesar de não me lembrar de nada, não queria que aquele momento acabasse… queria que durasse, porque me fazia sentir melhor, como se não estivesse num grande sarilho e como se não precisasse de saber quem era para estar bem.

Eles ajudaram-me a tratar dos arranhões e disseram-me que tinha caído das escadas… pareciam todos muito simpáticos, e notava-se que estavam muito preocupados comigo. Já estava de madrugada, por isso fomos tomar o pequeno-almoço. Mostraram-me a casa e depois deram-me uma chávena de leite com chocolate. Depois disso sentei-me no sofá, a ver televisão, quando reparei numa coisa estranha, no parapeito da janela. Levantei-me e fui ver. Pareciam umas pedrinhas muito pequenas de uma coisa branca. Toquei e levei os dedos à boca, era sal. “O que é que isto está aqui a fazer?!”, pensei. Quando ia a limpar, Bryan chegou à sala.

- O que é que estás a fazer? – Perguntou ele, voltando a ajeitar o sal, no parapeito da janela.

- Estava a limpar… isso é sal… - Respondi.

- Sim… mas é para ficar aqui, ok Mel?

- Porquê?

- Mantém visitas indesejadas na rua.

- Ok… isso é estranho… posso ir dar uma volta?

- Tu não sabes os caminhos. – Disse Jason, chegando-se ao pé de nós. – Importas-te que vá?

- Tens a certeza que é seguro? – Não percebi bem a origem desta pergunta vinda de Bryan.

Jason respondeu afirmativamente e depois fomos dar uma volta.

Andámos na rua durante a tarde quase toda e eu sentia-me bem ao pé dele, como se nada estivesse a acontecer, como se não houvesse nada de mal em não me lembrar de nada. Parámos num pequeno jardim e sentámo-nos num banco. Reparei que ele não estava muito bom nos movimentos que envolviam o ombro direito.

- O que é que aconteceu com o teu ombro? – Perguntei.

- Nada de especial… magoei-o no trabalho.

- No que é que trabalhas? – Ele ficou um tempo a observar a minha expressão.

- Coisas perigosas…

- Tipo coisas militares, guerras?

- Coisas do género.

- Posso perguntar uma coisa? Mesmo que pareça tolice?

- Claro, diz.

- És o meu namorado? – Ok, esta pergunta tinha mesmo que ser feita, mas ele pareceu não gostar muito de a ouvir.

- Não.

- Porquê?

- Porque… é complicado.

- É que… eu sinto… alguma coisa. E pensei que talvez fosses meu namorado… desculpa eu…

- Não faz mal, eu só prefiro ter esta conversa quando recuperares a memória, se ainda a quiseres ter.

- Porque é que não havia de querer?

- Tu fazes muitas perguntas…

- Como não me lembro das coisas… tento obter respostas… mas está bem, falamos disso quando me lembrar de tudo. Podes-me dizer alguma coisa sobre mim? Se tenho emprego, irmãos…

- Nem uma coisa nem outra.

- Ok… que mais podes dizer?

- Bem, o teu nome é Melanie McKensie, tens 22 anos, vivias em Nova Iorque mas agora moras na casa do Phil, com ele, comigo e com o Bryan… és forte, divertida, encantadora, e não tens medo de dizer as coisas na cara, nem do que as pessoas possam pensar de ti. Lutas por aquilo que queres e que acreditas e essa é uma das muitas razões para… gostar de ti como gosto. – Comecei a aproximar-me dele inconscientemente.

Estávamos tão próximos que conseguia sentir o seu hálito, e quando o beijo estava prestes a acontecer, ele afastou-me.

- Tu disseste que gostavas de mim… - Disse eu, um bocado à nora.

- Mas tu não. Mel, eu não quero tirar vantagem de ti assim, se tu te lembrasses de tudo e fizesses estas escolhas… nem me passava pela cabeça ripostar, mas não assim. Tu não te lembras das coisas que eu fiz e não é justo eu estar contigo assim.

- E se eu não me lembrar? Nunca mais? Não podemos ficar juntos?

- Não assim.

Eu percebi que gostava imenso daquele belo “estranho” e apesar de ele também partilhar do mesmo sentimento, não seguia em frente. Mas é bom, saber que ele se preocupa com o que eu possa sentir, mesmo depois de me lembrar de tudo.

Mais dias passaram, não me conseguia lembrar de absolutamente nada de novo, excepto que gostava de ouvir Lifehouse, o que descobri quando pus os fones nos ouvidos e liguei o MP3.

As coisas andavam muito intensas lá por casa e ninguém me dava respostas. Cada vez que entrava numa divisão, eles calavam-se ou mudavam de conversa e por estranho que pareça, este tipo de coisa era-me muito familiar. Agora tinha pesadelos todas as noites, mal conseguia dormir e acordava sempre aos gritos, mas Jason, Bryan ou Vicky estavam sempre lá para me consolar, como se soubessem que ia acontecer. Talvez fosse devido à tensão e à pressão de me querer lembrar de quem sou.

Sentei-me no sofá, ao lado de Bryan e Jason enquanto Vicky, Gabriel e Phil falavam na cozinha. Ouvi um estrondo de vidro a partir e virei-me para trás. Estava lá um homem horrível, tinha o cabelo castanho muito escuro aos caracóis, que eram compridos e usava umas calças de cabedal e uma blusa vermelha.

- Então voltamos a encontrar-nos. – Disse ele, com uma voz horrenda.

- Melanie, sai daqui. – Ordenou Jason, pondo-se à minha frente.

O homem agarrou-o, como se não fosse nada e mandou-o contra a parede, dirigindo-se em seguida para mim. Soltei um grito, aterrorizada e corri para me esconder atrás do móvel da televisão, enquanto os via a lutar como se fossem profissionais. Onde é que me tinha metido?! Será que aquelas pessoas não me conhecem e simplesmente me encontraram? E se conhecem, como é que me posso dar com pessoas assim? À medida que a luta avançava, ia-me dando uma dor na cabeça, cada vez mais intensa. Comecei a ver flashbacks, desde criança, até quando enfrentei um monstro pela primeira vez, o wendigo, até aos dias de hoje.

Quando voltei a olhar, Bryan estava no chão, juntamente com Jason e os demais. Levantei-me e caminhei até Stolas.

- Tu retiraste-me a memória seu IDIOTA! – Gritei, com uma raiva na voz, enquanto lhe dei um murro.

Ele deu um passo atrás e recompôs-se. Começou a dizer uns cânticos que criavam uma barreira à sua volta e não deixavam ninguém entrar nem atacá-lo. Também nos podia manter quietos e fazer com que lhe obedecêssemos, e isso é que tinha resultado da primeira vez que o enfrentámos. Aproximei-me mais e dei-lhe um pontapé mandando-o ao chão.

- Não é possível. – Disse ele. – Estou protegido.

- Acredita, é possível. Devias pensar duas vezes antes de apagares as memórias das pessoas. Elas podem ficar completamente fulas! E mentiste-me, não é só trabalho, é pessoal. Eu consigo vê-lo nos teus olhos, só não sei porquê. – Dei-lhe mais um pontapé.

Ele levantou-se e recompôs-se, mantendo uma distância de mim.

- Nós vamos ver-nos de novo. Eu vou matar-te, quer queiras, quer não. – Ameaçou.

- Vou estar à espera.

Ele desvaneceu-se e corri até Jason, que estava deitado no chão ao lado de Bryan e muito perto de Vicky. Pus-me de joelhos a observá-los todos ao mesmo tempo.

- Estão bem? – Perguntei, com uma voz um bocadinho duvidosa.

- Tu lembraste-te. – Percebeu Vicky, com um sorriso nos lábios, levantando-se. – Até que ponto?

- Tudo. Eu lembro-me de tudo.

Ajudei-os a levantarem-se e depois fui buscar os primeiros socorros. Tinha sido uma semana mais que esquisita, mas até foi boa, fez-me perceber coisas que não percebia antes, principalmente por causa do meu passado. Depois de fazermos curativos subi para o quarto e mandei-me para a cama, fiquei lá deitada sem fazer nada. Ouvi baterem à porta e segundos depois, Jason entrou.

- Como é que estás? – Perguntou.

- Estou bem. É bom ter memórias… muito bom.

- Ainda bem. Fico feliz que as tenhas recuperado. – Ia a sair do quarto quando me levantei repentinamente da cama.

- Jason espera! – Pedi. Ele voltou-se para mim. – Obrigado… por não me teres dado ouvidos quando não me lembrava de nada, por não te teres aproveitado da situação.

- Eu nunca faria isso.

- Eu sei. É disso que eu gosto em ti.

- Isso significa que gostas de alguma coisa…

- Jason…

- Eu preciso de saber… estou mais perto de te conquistar do que estava há um mês atrás? Porque… não acho que as coisas estejam a mudar.

Aproximei-me mais dele.

- Mas estão. Um bocadinho. – Dei-lhe um beijo na face e ele esboçou um sorriso.

- Boa, isso é tudo o que preciso de saber. – Deu meia volta e saiu.

Sentei-me no cadeirão, virada para a janela.

- Posso? – Perguntou uma voz muito bem conhecida.

- Claro Vicky, entra. Passa-se alguma coisa?

- Não, só vim ver de ti. Como estás?

- Ainda não sei.

- Sabes… a Melanie sem memória gostava do Jason… será que esta só não gosta por causa dos acontecimentos passados?

- Vicky…

- Talvez devesses deixar o passado onde ele pertence. Vou-me embora. Mas pensa nisso.

Ela tinha razão, a Melanie sem memória adorava o Jason, então, talvez eu não admitisse por causa do nosso passado, mas a verdade é que gosto de estar com ele, e o que senti enquanto não me lembrava de nada é o que sinto todos os dias ao pé dele, acho que a diferença é mesmo que antes não me lembrava do que aconteceu e agora lembro, e talvez isso atrapalhe. Mas a verdadeira pergunta no fim disto tudo é: Será que o amo mesmo?

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