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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 10.11.10

Já todos "ouvimos" o Jason dizê-lo, então e Mel? Será que ela também pode vir a dizer que o ama?

Leiam para descobrir ;)

 

Capítulo 20

Intuição Especial

 

- Tens a certeza que não queres ir jantar lá abaixo? – Perguntou Vicky, sentando-se ao meu lado na cama. – Sei que não é o melhor dos incentivos, mas o Phil fez lasanha…

- Estás mesmo a tentar que vá? – Definitivamente, esta não era a melhor maneira de me fazer ir comer.

- É por causa da Kelly?

- Não…

- Hesitaste.

- Não hesitei nada.

- Estás com ciúmes por causa do Jason?

- O quê?! Não… eu só… eu não gosto dela.

- Parecem-me ciúmes…

- Não são ciúmes! – Afirmei.

- De certeza? É que ela anda muito juntinha ao Jason… - Por muito que não quisesse ver, Vicky tinha razão.

- Não são ciúmes. – Reafirmei.

- Tudo bem… tu é que sabes…

- Pronto… talvez seja um bocadinho de ciúmes… mas não só, eu não gosto mesmo dela. Mas se tenho ciúmes… isso quer dizer que…

- Estás apaixonada. – Cantarolou.

- Não.

- Melanie, qual é o problema de admitires? Pelo que sei da primeira vez não houve tantos problemas.

- E olha como acabou…

- Querida, estás com medo que ele te deixe outra vez?

- Não, não é isso, eu só… não sei.

- Deixa-me dizer uma coisa… eu adoro-te e tu és minha amiga, mas a verdade é que mudaste bastante.

- O que é que queres dizer?

- Quero dizer que quando te conheci eras diferente, gostavas de te divertir, de dançar, cantar, eras tu. E agora estás uma “tu” diferente, tornaste-te uma excelente caçadora, como querias… mas como pessoa, estás a começar a perder-te. Estás a perder as pessoas de quem gostas depois de tanto trabalho para as manteres unidas… andas insegura, com medos… a Melanie que eu conheci não era assim, essa Melanie dizia as coisas que sentia e não tinha medo de levar um não como resposta.

- Vicky…

- Não. É verdade, e acho que está na altura de a reavivar.

- Tudo bem, mas mesmo assim não vou comer à cozinha.

- Tu é que sabes…

Kelly era uma rapariga que tínhamos salvado há uma semana e agora fazia questão em ficar lá em casa, connosco, sem fazer nada. Fazia de tudo para dar nas vistas e estava-se constantemente a atirar a Jason, mas o pior era que ela não era verdadeira, tudo o que lhe saía da boca eram mentiras, conseguia senti-lo, não sei como nem porquê, mas conseguia saber com todas as certezas que ela não era boa pessoa, aliás, ainda tenho dúvidas se é mesmo uma pessoa. De repente, lá e casa era tudo sobre esta rapariga, esta Kelly, de cabelos compridos pretos e olhos azuis. Ela era falsa e há qualquer coisa que não me permite confiar nela, só não sei o quê exactamente.

Depois do jantar, e depois de todos se deitarem, desci as escadas e tirei um bocado de lasanha do frigorífico, aqueci-a e sentei-me à mesa a comer.

- Sabes, quando embirras com alguém embirras mesmo a sério. – Repreendeu Jason, sentando-se na cadeira ao meu lado. – Isto vai ter que acabar Mel…

- Eu não embirro com ela, não gosto dela, é diferente.

- Pois… muito melhor.

- Jason vá lá, o que é que ela ainda está aqui a fazer?

- Ela diz que tem medo de ficar sozinha em casa.

- Oh, vai gozar com outra! Eu usei essa carta do “tenho medo de monstros e não quero ficar sozinha” porque queria alguma coisa.

- Isso não significa que ela seja como tu.

- E não significa que não é. Jason… a sério? Confias mesmo nela? Quer dizer, a sério? Nós salvámo-la uma vez e ela colou-se a nós como se fossemos siameses.

- Nada exagerada…

- Estou a falar a sério, e algumas das atitudes que ela tem… não são normais, tipo da outra vez em que a apanhei no meu quarto…

- Ela estava à procura de roupa.

- Pedia! E aquela vez em que entrou no sótão à socapa?

- Tu também fizeste isso.

- Sim, para arranjar armas e consegui o que queria. Estou preocupada que ela também consiga. Eu só… eu tenho este mau pressentimento sobre ela…

- Sonhaste com alguma coisa?

- Não mas…

- Se estivéssemos em perigo, sonhavas com alguma coisa. Estás a preocupar-te demais. Vou dormir, boa noite e pensa bem sobre esta atitude.

- O que é que és, o meu pai?

- Graças a Deus que não, dava em maluco. Dorme bem.

Acabei de comer e pus o prato na máquina. Ia para o corredor, para subir as escadas, e quando vou a fazer a curva, paro repentinamente, sobressaltada.

- Kelly! – Foi um grito sussurrado. – Assustaste-me.

- Desculpa. Não foi a minha intenção.

- Sabes, as pessoas normais fazem barulho com os pés. Devias tentar…

- Desculpa… eu ia só beber água, volto já para a cama.

- Tudo bem. Boa noite.

E ainda dizem que ela não é esquisita.

Subi as escadas, entrei no quarto e enfiei-me na cama. Adormeci instantaneamente, apesar de ter acabado de comer. A noite foi muito calma, não houveram pesadelos nenhuns, o que era um alívio porque pensava mesmo que se algum dos meus amigos estivesse em perigo, o meu alarme nocturno iria despertar, alertando-me. Como não sonhei com nada, fiquei tranquila.

Vesti uma túnica azul-turquesa, só com uma alça e vesti umas leggins pretas. Calcei umas chinelas pretas, com umas tiras à frente, de salto alto. Pus o meu colar com o coração, que já tinha voltado a ser um hábito e umas pulseiras prateadas e pus espuma no cabelo. Hoje era um dia especial, uma data importante.

Desci as escadas e fui para a cozinha tomar o pequeno-almoço. Já lá estavam todos, incluindo… Kelly.

- Bom dia. – Disse Vicky, abraçando-se a mim. – Estás feliz?

- Porquê? – Perguntei.

- Bem… - Começou Bryan. – Hoje é um dia especial…

- Por isso… - Continuou Jason, fazendo suspanse. – Comprámos-te uma prenda!

Phil dirigiu-se a mim com um embrulho nas mãos. Pousou-o na mesa e ordenou-me que o abrisse. Aparentemente, nem Vicky nem Gabriel sabiam o que era, visto que estavam tão impacientes para ver o que estava lá dentro como eu.

Rasguei o papel e abri a caixa, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos, e lá dentro estavam… fotografias e papéis.

- O que é isto? – Perguntei.

- Vê, e lê. – Disse Jason.

Meti lá a mão e tirei um papel ao acaso.

 

«Melanie, eu sei, eu sei, fomos muito chatos quando te quiseste juntar a nós e muito parvos contigo. Mas o importante é que nunca desististe e hoje, estou feliz por isso, por isso, “Feliz Aniversário”. Beijinhos, Bryan.»

 

- Tão querido. Obrigado. – Estava com um sorriso de orelha a orelha. Tirei outro papel. Foi a vez do de Phil.

 

«Tenho que dizer que me enganei completamente da primeira vez que te vi, fui parvo como tudo ao ter-te menosprezado, e por isso desculpa. Tu não tens absolutamente nada a ver com uma bonequinha, como te chamei. Aliás, podes ter um aspecto parecido, mas és uma óptima lutadora, e provaste-me que estava errado, provaste-me que havia mais para além do que sabia, provaste-me que as pessoas conseguiam tudo, desde que quisessem. Tu quiseste, e mesmo com roupas finas, saltos altos e unhas pintadas, dás cabo dos demónios. “Parabéns”»

 

Agora desviei as fotografias, à procura da última carta da caixa, a carta de Jason. Quando finalmente a encontrei, respirei fundo e comecei a desdobrá-la.

 

«Mel… não tenho muito a dizer, só que… tu és especial. Tu consegues agarrar numa pessoa que esteja à beira de um abismo e fazer com que volte para trás e mais, podes fazer com que seja feliz de novo. Tu és especial porque tu lutas, e não desistes, e sabes o que queres e não tens medo de o ir buscar. Tu és especial porque… porque por muito que procurássemos, nunca conseguiríamos encontrar ninguém como tu, nem que esperássemos até ao próximo século. Tu és especial… porque és tu, porque não tens medo de assumir quem és nem de fazer as coisas à tua maneira, e muito mais que isso, não tens medo de fazer mudanças, não tens medo de chegar a um sítio e de ser mandada para trás, porque sabes que os consegues convencer a ficar. Tu és única, nunca mudes. Com amor, Jason.»

 

Nem tudo era verdade, eu tinha medo de ir buscar uma coisa, a coisa que mais queria neste momento, a coisa que mais desejava.

- Pessoal, vocês não precisavam… - Disse eu, a fazer um esforço para conter as lágrimas de alegria.

- Precisávamos sim. – Disse Bryan, pegando numa das fotografias. – Lembras-te deste caso? Foi quando tivemos que entrar à socapa num parque de diversões…

- E eu aproveitei e liguei as diversões, e fiz com que vocês andassem em algumas depois de matarmos o demónio. – Soltei uma gargalhada.

- Pois foi. E depois tirámos esta fotografia, enquanto estávamos numa delas. É por isso que queres sempre o telemóvel à mão. – Disse Jason.

- E esta! – Disse eu, tirando outra fotografia da caixa. – Esta foi quando fomos para aquela casa que pensávamos que era assombrada mas depois não deu em nada e ficámos lá dois dias fechados porque nos deixámos de dormir e os homens que iam lá fazer obras trancaram as portas. – Soltei outra gargalhada, mais sonora que a anterior. – E arranjámos estas formas esquisitas para nos divertirmos…

- Nós demos-te isto, porque queremos que te lembres dos bons momentos que passámos todos juntos neste ano. – Disse Jason.

- É estranho não é? Há um ano, por esta hora, estava eu a ser despedida e depois esbarrei contigo na livraria. – Dei um murro na brincadeira no ombro de Bryan. – E depois a minha vida levou esta grande reviravolta. E é culpa vossa.

- Estás a brincar? Fazer com que quisesses ficar connosco foi o melhor que podias ter feito. – Disse Bryan. – Já faz um ano. O tempo voa mesmo…

- Pois voa. – Concordou Jason. – Por isso, feliz aniversário, este deve ser o dia mais feliz da tua vida porque, tchanã, foi há um ano que nos reencontraste!

- Que bonito. – Disse Kelly, estragando a festa toda. – Pensava que fazias anos…

- Não. – Respondi, secamente. Jason lançou-me um olhar. Respirei fundo. – Não faço anos. Faz um ano desde que os reencontrei.

- E vocês festejam isso todos os anos? – Perguntou.

- Não sei, este é o primeiro… - O que é que ela é, burra?

- E é por isso, e porque te adoramos, que vamos os quatro jantar fora hoje, a um sítio muito fino, por isso arranja-te bem, vais relembrar os velhos tempos. – Disse Bryan.

- Os quatro? – Pensava que este dia era só nosso, e não de um quarta pessoa.

- Sim. – Respondeu ele. – Tu, eu, o Jason e a Kelly.

- O quê?! – Jason deu-me uma cotovelada. – Ok, tens mesmo que parar de fazer isso Jason! Mas tudo bem, eu sou uma pessoa que gosta de se divertir, logo, não há problema. Kelly, eu vou… adorar… que venhas connosco.

- Não foi tão difícil pois não? – Sussurrou-me Jason ao ouvido.

- Preferia ter convidado um chimpanzé. – Sussurrei eu, ao seu.

Finalmente tomei o pequeno-almoço e depois levei a caixa para o meu quarto, para rever as fotografias. Sentei-me na cama e espalhei-as à minha volta. Haviam fotografias de montes de sítios a que tinha ido com eles, era incrível como era bom estar a relembrar todos estes momentos, alguns não tão felizes, mas outros, sem sombra de dúvida, radiosos.

Comemos pizza ao almoço e vimos um filme à tarde. Como era um dia especial, decidimos que não iam haver caçadas aos demónios. O filme era cómico, era feito com o Eddie Murphy. A tarde passou-se rapidamente, até demais, e quando era quase sete horas, subi para o andar de cima e vesti um vestido de cetim roxo, de atar ao pescoço, que acabava um pouco acima do joelho. Tinha uma fita, num tom de roxo mais escuro, para atar à cintura. Calcei umas sandálias pretas, de salto alto e fiz um rabo-de-cavalo para o lado, deixei umas farripas de cabelo soltas e pus um gancho, com umas pedrinhas roxas. Maquilhei-me e agarrei numa mala pequena, preta, que tinha o meu telemóvel, maquilhagem, as chaves da casa de Phil e a minha Desert Eagle, só para prevenir.

Quando desci as escadas eram sete e meia e já estavam todos à minha espera. Jason estava com uma camisa branca e umas calças pretas, com a sua crista cheia de gel, como sempre, e uns ténis calçados. Bryan tinha umas calças de ganga e uma camisa preta, também com uns ténis e Kelly tinha umas calças pretas e uma blusa cor-de-laranja, com um laço enorme em cima, mas que dava um ar requintado ao visual.

Fomos para o restaurante, que era lindo de morrer.

Sentámo-nos numa mesa ao centro, eu fiquei ao lado de Jason, em frente a Kelly e a Bryan. Pedimos a comida e começámos na conversa. Não conseguia deixar de estar preocupada com o facto de Kelly estar ali, mas se pensarmos bem, antes ali comigo, do que sozinha em casa com Phil, Vicky e Gabriel, se bem que dois anjos e um caçador deviam conseguir matar uma demóniazinha. Mas por outro lado, eu já estava a assumir que ela era, de facto, um demónio, e não a podia acusar, não sem provas.

Quando a comida veio começámos a comer, estava deliciosa. Jason e Bryan estavam na conversa e eu estava a admirar a decoração do restaurante, que tinha vários quadros abstractos em tons de vermelho e preto, nas paredes beges, e Kelly estava a olhar para o prato. Desviei os olhos durante um segundo dos magníficos quadros e reparei num espelho, que reflectia a imagem de Bryan e de Kelly. Fixei a imagem, tentando perceber se o que via era verdade, e infelizmente, era. Kelly estava com uns olhos brilhantes, como quando se tiram fotografias e os olhos ficam vermelhos, só que neste caso estavam brancos, e com a pele mais velha e rugosa, ela olhou para o reflexo, e por conseguinte para mim, e sorriu, maleficamente. Desviei o olhar do espelho e olhei-a. Ela estava agora a olhar para mim, e a sorrir, com a sua pele perfeita e os olhos azuis.

- Desculpem. – Disse eu, levantando-me e agarrando no telemóvel. – Eu preciso de ir à casa de banho.

Dirigi-me à casa de banho, que ficava a talvez trinta metros da mesa, à direita de onde eu estava sentada e entrei para uma pequena salinha que depois se dividia para o lado masculino e feminino. Mandei uma mensagem a Jason para que fosse lá ter comigo e poucos segundos depois, ele apareceu.

- O que é que aconteceu? – Parecia preocupado.

- Há um problema. Olha, eu sei que vais odiar que eu diga isto mas… a Kelly é um demónio.

- Oh, vá lá, outra vez não…

- Estou a falar a sério Jason. Olha por aquele espelho, o reflexo dela é diferente. – Apontei para o espelho.

Ele obedeceu e depois de olhar, virou-se para mim de novo.

- Qual é o problema? Está normal…

- O quê?! Não, a imagem estava… - Olhei para o reflexo e a sua imagem estava normal, como ela se parecia no dia-a-dia. - … Diferente.

- Melanie, ok, percebi, tu não gostas dela, tudo bem, mas…

- Não. Eu não gosto dela porque ela é um demónio. Eu não estou a inventar isto, juro-te que o reflexo estava diferente Jason.

- Que queres que diga?

- Que acreditas em mim. – Observei o seu rosto e fiquei decepcionada. – Mas não acreditas… eu não acredito nisto, depois de tanto tempo e não acreditas em mim quando te digo que uma desconhecida é um demónio?!

- Ela não é uma desconhecida Mel, ela está lá em casa há uma semana, se nos quisesse matar, já o tinha feito.

- Então é isso, não acreditas mesmo em mim…

- Desculpa. Acho que estás a ser paranóica.

Abanei a cabeça, a olhar para baixo, desiludida.

- Se ela te tentar matar, ou ao Bryan, não vai ser por culpa minha, por isso não vou ser obrigada a estar lá, nem a ver, nem a fazer de saco de pancada porque vocês não acreditaram em mim. Eu espero que não, mas se ela por acaso vos magoar… eu não acho que estarei lá… porque depois deste tempo todo, vocês ainda não acreditam em mim, é incrível, eu pensava que os problemas se tinham resolvido e que já confiavam um bocadinho no meu julgamento e…

- Mas não há problemas Mel, não há.

- É porque eu não digo o que queres ouvir? É por isso que não acreditas em mim? Porque se eu simplesmente o dissesse tu confiavas em mim e não duvidavas de nada? Tu perguntaste-me quão perto estavas de conseguir ouvir o que querias… agora acabaste de ficar mais longe, porque eu estava prestes a dizê-lo. – Arrependi-me mal acabei de falar, não conseguia mesmo ficar calada.

Ele ficou incrédulo a olhar para mim.

Saí daquela pequena salinha e dirigi-me à mesa. Agarrei na minha mala, bruscamente e olhei para Kelly.

- Parabéns, conseguiste o que querias! Mas eu aviso-te, se tu fizeres a estupidez que estás a pensar fazer, vais-te arrepender. Se eu sei que lhes tocaste de alguma maneira, bem podes começar a correr.

- Desculpa eu… eu não sei do que é que estás a falar… - Disse ela, com uma voz com uma inocência falsa.

- Nem eu estava à espera de outra coisa.

Saí do restaurante e dei uma volta pela rua. Devo ter andado à deriva durante umas duas horas e a minha cabeça não parava de andar à roda, com tantos pensamentos. Como é que ao fim de todo este tempo, eles ainda desconfiavam assim de mim?!

Vi uma daquelas camionetas que vende sorvetes, encontrei uns trocos no fundo da mala e fui comprar um. Ia a andar por uma rua mais movimentada que as outras quando vem um homem contra mim. Levantei os olhos por dois segundos e reconheci-o de imediato. Ele viu-me mas continuou a andar. Dei meia volta e comecei a correr atrás dele, indo de encontra às pessoas que passavam, e quando finalmente chegámos a um sítio menos movimentado e menos barulhento, ele começou a abrandar o passo.

- Tom espere! – Eu continuava a correr atrás dele. – Espere! Tom!

Ele parou e voltou-se para mim. Diminui a velocidade e caminhei até ele. Era um homem com aproximadamente um metro e setenta, com cabelo grisalho e um bigode da mesma cor. Vestia uma gabardine castanha e umas calças de ganga, e uns sapatos castanhos. Quando finalmente cheguei ao pé dele, fiquei especada a olhar.

- Não vais dizer nada? – Perguntou, muito calmo.

- É um fantasma? – Perguntei. Ele aproximou-se e tocou-me no braço. – Não é um fantasma. Mas como…

- É que aqui estou?

- Sim, não estava mantido prisioneiro no Inferno?

- Submundo…

- Vai dar ao mesmo…

- Estava, mas fugi, mas apenas por este pouquinho, não tarda eles vêm-me procurar e levam-me de volta. Podemos falar Melanie?

- Porquê? Você nunca gostou de mim e nunca fez nenhum esforço para o esconder… além disso, o dia não correu nada bem e não estou com muita paciência…

- É sobre os meus filhos.

- Olhe… eles decepcionaram-me… muito, e não quero falar sobre isso.

- Eles estão em perigo, tu sabes, eu sei… vamos sentar-nos um bocadinho.

Fomos para um banco que estava há aproximadamente vinte metros e sentámo-nos.

- Eu sei que eles podem ser difíceis de aturar… - Disse Tom Whichmonth.

- A sério? – A minha voz soava a puro sarcasmo.

- Queres ouvir uma história?

- Tenho mesmo?

- Sim. Lembras-te de quando os conheceste? No secundário…

- Claro que me lembro.

- Lembras-te de quando se vieram embora?

Baixei os olhos.

- Como se tivesse sido ontem. – Como é que alguma vez poderia esquecer?

- Eu tive uma grande discussão com o Jason nessa noite. Cheguei a casa, depois de uma caçada e disse que nos íamos voltar a mudar. E ele não queria, porque dizia que estava feliz ali, e que não ia sair de lá. O Jason foi sempre o tipo de rapaz leal, que só queria era aproveitar o que a vida tinha para dar, incluindo raparigas, mas obedecia-me sempre. Essa foi a primeira vez que ele me questionou a sério. Ele conheceu uma rapariga, uma rapariga morena, bonita, que tinha tudo para ser feliz, mas precisava de mais, o dinheiro não era suficiente pois ela tinha a cabeça na terra, sabia que não se podia comprar a felicidade nem o amor. Desde o momento que ele lhe pôs os olhos em cima que se esqueceu de todas as outras raparigas e das ordens, que até lá, eram sagradas. Essa rapariga eras tu.

- E…

- E nessa noite ele alegou que não se ia mudar para lado nenhum, porque estava apaixonado pela rapariga, que ela era a razão para ele viver naquele mundo horrendo, como ele mesmo disse. Não o podia obrigar a vir comigo, ele já tinha dezoito anos, por isso chateámo-nos e ele saiu do hotel, para ir ter contigo. Quando regressou ao hotel estava desfeito, não só por fora, mas por dentro. Tinha as roupas rasgadas e o cotovelo e um joelho esfolados, e notava-se que por dentro estava inconsolável. Ele disse que quando te foi ver, viu um demónio na parte de trás da tua casa, pronto a entrar pela varanda do teu quarto. E lutou com ele, acabou por ganhar, mas percebeu o que eu mais cedo lhe tinha dito. Ele não te podia proteger para sempre, ia haver um momento em que não ia estar presente e alguma coisa te ia acontecer, algum demónio ia atacar, porque isso é o acontece quando uma pessoa se dá com caçadores e não sabe do segredo, e muito menos como se defender. Ele disse que se ia mudar comigo e com o Bryan e ficou dois meses e tal sem tocar no assunto, aliás, nunca voltou a tocar nesse assunto como antes… e mesmo depois de tantos anos, tantas horas nos bares com mulheres e bebidas, eu podia notar, que ele nunca mais gostou de ninguém como gostou de ti. – Ficou a olhar para mim, com a esperança que dissesse alguma coisa.

- Eu não sei o que dizer…

- Tinhas razão, eu não fazia esforço nenhum para evitar tratar-te mal quando te via, mas não era por não gostar de ti, porque pessoalmente, acho-te uma pessoa formidável, cheia de garra e agora percebo que és, de facto, boa para os meus filhos, tanto para o Jason como para o Bryan. Eu tratava-te assim porque sabia que mais cedo ou mais tarde teríamos que nos mudar, e sabia que o Jason ia ficar assim…

- Porque é que me está contar isto?

- Tu lutaste um wendigo, um ser que nem sabias que existia, por causa de dois rapazes que tinhas conhecido há cinco anos, e depois mais tarde, enfrentaste um vampiro, sem qualquer conhecimento importante sobre eles, só para libertares os meus filhos. Limpaste o sangue do Bryan e curaste a amargura do Jason… nunca desististe deles, nem no secundário, nem nos dias de hoje. E agora, o que é que estás a fazer?

- Estou a comer um gelado… - Respondi, desanimada. – Já consegui perceber onde queria chegar…

Era triste, ao fim de tantos dias, tantas semanas, doze meses… estar a desistir e sentada a comer gelado.

- Boa.

- Se fosse para desistir deles, era há um ano, não agora. Se eles precisam de mim, estou lá. Foi sempre assim…

- Estou orgulhoso de ti, e do meu filho, agora sei o que ele viu de tão especial em ti.

Enfiei o resto do cone do gelado na boca e levantei-me, com pressa. Dei uns passos apressados e depois voltei-me para Tom.

- Eu vou libertá-lo. Vou fazê-lo, não sei como, mas prometo que o vou fazer. Você não vai ficar preso nesse Inf… Submundo para sempre.

- Obrigado.

Corri até casa de Phil e verifiquei que nem Jason nem Bryan nem Kelly lá estavam. Phil, Gabriel e Vicky estavam a dormir, e em cima da minha cama, estava um bilhete.

«É uma pena que eles não acreditem em ti… tens até à meia-noite, eu não os quero, eu quero-te a ti. Encontra-me no descampado ao lado do supermercado. Se não vieres, quem paga são os teus queridos amiguinhos.»

- Eu sabia! Eles nunca acreditam em mim, nunca. Desta vez vou fazer os possíveis para que sejam alvejados “acidentalmente”! – Resmunguei.

Saí a correr da casa de Phil e fui até ao supermercado. Fui para o descampado ao lado mas não estava lá ninguém. Aliás, não estava lá nada, estava completamente vazio.

Comecei a andar de um lado para o outro e reparei que havia uma parte da areia mais dura que as outras. Fui pegar uma pá, às obras do outro lado da rua e comecei a escavar. Encontrei uma tampa de esgoto e com muito esforço, abri-a. Desci as escadas e fui dar a uma zona completamente seca. Segui pelo corredor e ouvi a voz de Kelly.

- Ela não vai vir. – Dizia ela. – Ela só se importa com o seu vestido Dolce e os seus sapatos finos… e em estar bem arranjada…

- É bom saber. – Disse eu, virando a esquina, ficando atrás dela. – Se eu soubesse que estavam na conversa, tinha mudado de roupa.

- Então vieste.

- O que é que posso dizer? Quando se trata deles, não consigo ficar afastada. – Olhei para Jason e Bryan, eles estavam como que hipnotizados, como se não tivessem noção do que estava a acontecer. – O que é que lhes fizeste?

- Tu não sabes? Eu consigo controlar pessoas quando elas estão muito em baixo. É óptimo. Queres ver? Jason, querido, porque é que não agarras naquela pistola ali ao canto e te dás um tiro na cabeça? – Jason começou a dirigir-se para a pistola.

- Não! – Gritei histérica.

Kelly virou-se para mim e derrubou-me, com um simples gesto. Agarrou-me, levantou-me e voltou a mandar-me a chão. Agarrou num punhal e pôs-se em cima de mim, a tentar espetá-lo no meu coração. Ao mesmo tempo que fazia força para que o punhal não me espetasse, via Jason, a agarrar na pistola.

- Jason não! Não faças isso! – Gritei eu, quase sem fôlego, da força que ela fazia sobre a minha barriga. Estava quase inconsciente, quase a perder todas as forças devia à falta de ar. – Eu amo-te. – Afirmei, com a voz já frágil.

Estava prestes a ficar K.O. quando Kelly é empurrada de cima de mim e começa a lutar com Jason.

- Acorda o Bryan. – Pediu-me ele.

Eu ainda tossia, deitada no chão.

Levantei-me.

- Como?

- Não sei, mas arranja uma maneira. Faz como fizeste comigo!

- Não vai resultar. – Sussurrei. Corri até Bryan. – Bryan, estás aí? – Perguntei, balançando a mão à frente dos seus olhos.

- Ninguém gosta de mim. Tenho que morrer. – Ele parecia um robô a falar.

- O quê? Eu gosto de ti. Vá lá, tens que acordar.

- Ninguém gosta de mim. Tenho que morrer.

- Ok, sabes que mais? Eu quero mandar-te um tiro, se morreres, vai ser assim, mas como eu não vou dar o tiro, não vais morrer, por isso acorda! Ok, eu sei que isto não se deve fazer mas tempos desesperados merecem medidas desesperadas. – Dei-lhe um murro, que o deitou ao chão.

Levantou-se agarrado à bochecha.

- Para que é que foi isso?!

- Óptimo, já mostras indignação, é bom, chega por agora.

Quando me virei vi um vulto vir direito a mim e mandar-me ao chão. Caí toda direita no chão, com Jason em cima.

- Desculpa. – Disse ele, levantando-se. – Estás bem?

- Definitivamente não. – Respondi, levantando-me.

Estávamos os três frente a frente com Kelly, a demónia.

- Da próxima vez que duvidarem de mim dou-vos um tiro. Estou a falar a sério. – Disse eu.

- Eu não acredito que o meu irmãozinho não conseguiu lidar com vocês. – Disse Kelly. – São tão fracos…

- Stolas. – Sussurrei. – O teu irmão é o Stolas, vocês dão-me os mesmos enjoos…

- Ele menosprezou-vos, mas eu soube mesmo onde atacar certo Mel? Vês, eu não os quero, a não ser para te apanhar, eles são o meio, mas tu és o fim. E contigo morta, o fim não vem. – Fez outro pequeno gesto e mandou-me contra uma parede. Caí em seguida para o chão.

Levantei-me comecei a sentir um turbilhão de coisas, senti raiva por o que ela estava a fazer, senti pena por provavelmente morrer, agora que finalmente tinha dito a Jason o que sentia, e sentia amor, tanto por Jason como por Bryan. Sentia saudades dos momentos que passámos… e depois, comecei a sentir o meu corpo a aquecer, como se me estivesse a aproximar-me lentamente de uma lareira. Senti um grande choque eléctrico e sem pensar, estiquei os meus abraços e apontei para a demónia, fechei as mãos e abri-as, o que fez com que ela… se despedaçasse em milhões de pedacinhos. Era exactamente como quando eu sonhava que explodia coisas. Só que desta vez não tinha sido um sonho. Era real. Era bem real.

O sítio em que nos encontrávamos começou a abanar, devido à explosão e eu comecei a sentir-me de novo sem forças. Caí de joelhos no chão, a olhar incrédula para as minhas mãos e vi Jason e Bryan a virem ter comigo. A última coisa que me lembro antes de desmaiar é deles me estarem a levantar.

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