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Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 13.09.10

Obrigadíssimo pelos comentários, assim vale a pena postar coisas ^^

É bom saber que estão a gostar, espero que continue assim.

Beijinhos

 

Capítulo 6

Descobertas

 

Passaram-se duas semanas desde o acidente, e já tinha o meu carro arranjado. Usei o resto do dinheiro que a minha mãe nos mandou no mês passado e o que tinha ganho numa pequena reportagem que fiz para o Great Falls Tribune para pagar a Verónica pelo arranjo.

Regressei à escola e a minha vida voltou à normalidade. A última nódoa negra que tinha feito no acidente finalmente desapareceu.

O espaço que pensei que Josh me ia dar tinha acabado, se é que alguma vez começou. Ele estava de volta à activa, e fazia de tudo para ter a minha atenção, por muito infantil que fosse. As crises de ciúmes continuavam e eu juro que estou por um fio de cabelo com ele.

Derek, agora que comecei a ficar mais atenta, andava estranho. Não se é algum tipo de sexto sentido, mas algo me diz que ele não está bem.

- Ei – disse Gwen, ao sentar-se ao meu lado. – Estavas com a cabeça longe…

- Estava a pensar numa coisa – Como: que tipo de alergia é aquela que Derek tem de tempos em tempos? – Tudo bem?

- Tudo. Não sabes a melhor – e esboçou um sorriso vaidoso.

- Que foi?

- Há rumores de que o Derek está prestes a pedir-te em namoro – e não conteve o enorme sorriso que estava desejosa por esboçar desde que chegou.

- O quê? – Não faço a mínima ideia de porque é que a minha voz saiu tão aterrorizada. Derek era um bom rapaz, mas não sei até que ponto é que quero namorar com ele, e além disso tenho o problema de Josh, nós ainda não acabámos… e Derek sabe disso.

- Porquê essa voz? – Perguntou, desiludida – Já vi como é que ele se comporta perto de ti, e tu dele. Não negues, há aí qualquer coisa…

- Não há nada – retorqui – Somos só amigos – e de alguma maneira ele está sempre no sítio em que preciso dele.

Ela ia continuar a insistir, mas vimos o professor a entrar para a sala e por isso seguimo-lo. As aulas de Francês são uma seca, não por não gostar, mas porque o professor não sabe cativar os alunos.

Procurei por Derek em todo o lado, no intervalo, mas não o encontrei. Às vezes parece que evapora.

O dia correu normalmente, e Josh andou sempre em cima de mim, parecia um cachorrinho abandonado.

Quando ia para o estacionamento vi-o. Estava perto de onde o bosque começava, um pouco à frente das mesas, na entrada da escola. Estava de costas a falar com Verónica, que me viu. Ela fez-me sinal para me aproximar e eu nem pensei duas vezes antes de o fazer. Aproximei-me deles e eles viraram-se os dois para mim.

- Olá – cumprimentei – Pensava que estavas doente – dirigia-me agora a Derek.

- Estou bem, foram só uns problemas – respondeu-me, com o seu sorriso.

- Eu vou deixar-vos falar – prontificou-se Verónica – Diz-se por aí que precisam.

Ela começou-se a afastar e eu olhei para Derek. O que é que ele me iria dizer? Pior, o que é que eu lhe iria dizer a seguir?

Continuei a observá-lo, estava quieto como uma estátua. Mordi o lábio e quando lhe ia perguntar o que é que ele me dizer, ele começou a falar.

- Ouve Chloe… - e de repente parou.

- Continua – pedi.

- Eu… - e parou de novo. Olhou para a floresta e voltou a olhar para mim. – Podes esperar aqui um bocado? – E começou a andar para dentro do bosque sem sequer ouvir a resposta.

- Definitivamente não – murmurei, baixinho, enquanto o seguia.

Ele andava muito depressa, era-me quase (aliás, mesmo) impossível alcançá-lo. Nós já estávamos bastante dentro do bosque quando o deixei de ver. Eu sabia onde estava, mas não queria voltar atrás sem ele. Continuei a andar até que ouvi um rugido enorme. Parecia de urso, mas pior e mais aterrador. Olhei em volta e não vi nada, e quando voltei a olhar para a frente vi Derek. Tinha os vasos sanguíneos dos olhos a vermelho vivo, e os seus olhos verdes estavam agora quase cinzentos-escuros.

- Eu fui tão cega – sussurrei, enquanto ao ver aqueles dentes pontiagudos e branquíssimos sentia um turbilhão de emoções. Nesta fracção de segundo senti tudo. Senti ódio, frustração, tristeza, raiva, revolta, mais ódio…

- Eu disse-te para esperares – disse-me ele, enquanto voltava ao normal. A voz dele continuava normal, sedutora e harmónica.

Dei meia volta e comecei a andar rapidamente para sair da floresta. Conseguia ouvi-lo atrás de mim, mas não me ia voltar. Não agora. Ele era um vampiro. E agora… agora eu odeio-o.

- Ei, o que é que foi? – Perguntou ele, tocando-me no braço – Eu não te vou magoar.

- Não me toques! – Ordenei, desviando o braço à bruta.

- Não tens que ter medo Chloe, eu sou o mesmo rapaz que…

- Rapaz? Tu não és um rapaz. Tu és um monstro! – Eu não soava desesperada, aliás, eu não estava desesperada. Desorientada sim, chateada sim, mas desesperada não.

- Auch, essa foi um bocado dura, não achas?

Continuei a andar e a ignorá-lo.

- Estava tudo lá – murmurei, para mim – O frio, a dureza, os olhos, estar sempre no sítio certo à hora certa… eu fui tão estúpida! Como é que não vi?!

- Ouve, eu sou exactamente como tu, só que…

- Tu não és nada como eu – acusei, com uma voz dura. – Tu és um assassino, um monstro duro sem alma.

- Porque é que estás a ser assim? Pensava que até gostavas de mim…

Já conseguia avistar a escola, estávamos a cinco passos de sair do bosque. Virei-me de frente e encarei-o. A cara dele já estava normal, e os caninos já não estavam tão compridos, já estavam normais.

- Eu nunca poderia gostar de um monstro – assegurei – Nunca.

Dei meia volta e saí do bosque, dirigindo-me ao carro. Não o ouvi a mover-se, mas vi na sua cara, antes de me virar, que tinha ficado magoado. Ele é um mostro, como é que pode ficar magoado por um par de palavras ditas pela rapariga que seria provavelmente a sua próxima vítima?

Abby saía mais tarde da escola, por isso fui directa a casa. Assim que cheguei fui para o meu quarto e abri o roupeiro. Pus-me em cima da cadeira da secretária, e tirei da última prateleira do roupeiro uma pequena caixa quadrada, com enfeites cor-de-rosa e a tampa dourada.

Sentei-me na cama, com as pernas cruzadas e a caixa à frente, e abri-a. Comecei a tirar tudo o que lá estava para fora e comecei a remexer em velhas recordações. Pouco a pouco, ao ver as velhas fotos do meu pai, vieram-me as lágrimas aos olhos. A última fotografia que tenho com ele foi do dia em que fiz dez anos. Éramos tão felizes e depois… a morte.

Passei o resto do dia num silêncio de morte. Reparei na cara de Abby que ela estava preocupada comigo, mas também vi que não se sentia confortável ao perguntar. Eu podia pôr um sorriso, dar uma gargalhada e dizer que estava tudo bem. Mas não está. Existem vampiros. Como é que sei que alguém está a salvo?

Passei a noite completamente em claro. Não porque estava assustada, mas porque estava demasiado chateada para dormir.

Levantei-me antes de o despertador tocar e tomei um duche rápido. Vesti uns calções de ganga, com umas collants por baixo, uma blusa e calcei umas botas. Penteei-me e só depois de estar despachada é que acordei Abby e Dylan. Esperei que se despachassem e tomámos o pequeno-almoço juntos. Depois de deixar Abby na escola, Dylan finalmente reparou que algo não estava bem.

- O que é que tens? – Perguntou – Parece que morreu alguém.

«Morreu alguém…» estas palavras ecoaram na minha cabeça até me conseguir concentrar durante tempo suficiente para lhe responder.

- Eu estou bem – respondi.

- Ok – ele também não se estava para chatear, porque a verdade é simples: ele não se importa.

Quando chegámos ainda era cedo, faltavam quinze minutos para as aulas começarem. Sentei-me no banco de uma das mesas da rua, virada para o bosque, e continuei a recapitular a conversa e as descobertas do dia anterior, até que Gwen me interrompeu os pensamentos.

- Bom-dia – cumprimentou, entusiasmada – Então, ele pediu-te?

Sei perfeitamente ao que é que ela se refere, e nem me vou dar ao trabalho de responder.

- Não quero falar Gwen – murmurei.

Ela reparou que algo não estava bem no meu tom de voz.

- O que é que se passou? – Agora já estava preocupada.

- Nada, a sério. Eu só…

- Olá – fui interrompida por uma voz que mais parecia uma melodia, e que pertencia a um monstro sem escrúpulos. Posso não o conhecer, mas de certeza que bom é que não é.

- Vamos embora Gwen – levantei-me e puxei-a, sem sequer olhar para Derek.

- Não vás – pediu ele – Não podemos falar?

- Não – eu continuava a puxar Gwen, que olhava para nós, confusa.

- Por favor… ouve, eu não sou um monstro.

- Nem me faças começar a falar.

Ele agarrou-me no braço e virou-me para ele. Era mais forte que eu aí umas cinquenta vezes, por isso não tive alternativa senão fazer o que ele queria.

- Fica aqui Gwen – pediu – Nós não nos demoramos.

Arrastou-me, literalmente, para onde o bosque começava e ficou a observar a minha expressão irritada durante uns momentos, antes de começar a falar.

- Lamento que tenhas descoberto assim – começou.

- Porquê? Preferias que descobrisse quando estivesses prestes a cravar os teus dentes do meu pescoço?

- Eu não ia fazer isso. Eu não te quero magoar Chloe, e não vou.

- Tu és um vampiro, isso é o que os vampiros fazem.

- Nem todos.

- Certo, porque há bem feitores entre os da tua espécie, porque há uns quantos que se preocupam com a vida humana, porque há vampiros bons – acho que se notou perfeitamente o sarcasmo na minha voz em toda a frase, mas na parte dos «vampiros bons» fiz questão de ainda o aumentar um pouco.

- E há. Tu não sabes nada de vampiros! Não tens como saber se somos bons ou maus! E não podes julgar.

- A sério? Um vampiro será sempre um vampiro Derek, não me venhas com tretas.

- Sabes que mais? Eu adoro ser um vampiro. Adoro. É fantástico. Não o trocava por nada.

- E sabes que mais? Eu preferia morrer, a transformar-me numa.

- Porquê? – O tom de voz dele agora estava rígido.

- Porque não ia suportar viver ao saber que era uma monstruosidade.

- Não podes falar do que não sabes.

- Só… - respirei fundo para não começar aos berros – Afasta-te de mim, e dos meus irmãos. Ok? Finge que nunca nos conhecemos, e afasta-te.

- Porque é que faria isso? Se sou tão mau assim, porque é que iria fazer o que me pediste?

- Não irias. Mas estou a pedir na mesma.

Dei meia volta e comecei a retornar à escola. Gwen estava sentada nas escadas, aproximei-me dela e fomos as duas, em silêncio, para a sala.

- O que é que ele disse? – Perguntou ela, curiosa.

- Gwen, eu quero que te afastes dele – pedi, fazendo um esforço para que a voz já não saísse áspera, como esteve na conversa com Derek.

- Porquê?

- Dele e dos irmãos. Eles são perigosos Gwen. Promete-me que te vais afastar deles.

- Mas…

- Sem mas. Por favor.

Ela deve ter visto a necessidade que eu tinha que ela aceitasse no meu olhar. Eu precisava que ela aceitasse. Não me posso dar ao risco de perder a minha melhor amiga e os meus irmãos. Não posso. Não para aquelas coisas.

- Ok. Mas qualquer dia vais ter que me explicar porquê.

A aula começou e Gwen foi para o seu lugar. Quando tocou para o intervalo, saí da sala e fui para a casa de banho. Estava a lavar as mãos quando vi uma figura atrás de mim.

- Olá Chloe – disse-me, com uma voz simpática. Como se Verónica precisasse de ser simpática, como se não lhe bastasse agarrar uma pessoa e cravar-lhe os dentes.

Fechei a torneira, arranquei um bocado de papel, agarrei na minha mala e saí, sem lhe pronunciar qualquer palavra.

A pior parte foi ao almoço. Ficaram os três, Gary, Verónica e Derek, a olharem para mim durante o tempo todo. Era óbvio que Derek já tinha contado aos irmãos que eu sabia. Será que eles são mesmo irmãos?

Quando saí das aulas rumei à escola da Abby, para a ir buscar, mas ela não estava no portão à minha espera como era habitual. Saí do carro e fui ter com a funcionária que lá estava.

- Desculpe, viu a Abby? É uma rapariga de óculos, mais ou menos desta altura… - E fiz a altura com a mão.

- Sim, eu sei perfeitamente quem a Abby é. Aprendi imenso sobre baleias com ela – e riu-se. Sobre baleias? Ok, mesmo sem contar com vampiros, a minha vida é esquisita.

- Onde é que ela está?

- Saiu com um rapaz de cabelos castanhos, mais ou menos desta altura… - e ela fez a altura com a mão.

Fui invadida pelo pânico. Teria Derek apanhado a minha irmã? Como é que ele foi capaz?! Ainda esta manhã me disse que não nos queria magoar e agora… é claro que ele é um vampiro, vampiros mentem.

- Há quanto tempo? – Perguntei, apressada.

- Talvez dez minutos…

- Obrigado.

Voltei para o carro e desatei a acelerar estrada fora, à procura dela. Foram os quinze minutos mais aflitivos da minha vida. Vi-a por trás de uma cerca, estacionei o carro e corri até ela.

- Abby, onde é que tens andado? – Perguntei, agarrando-lhe nos ombros. – Estás bem? Aconteceu alguma coisa?

- Posso ajudar-te? – Perguntou um moço da minha idade, parado à nossa frente – Chloe, o que é que foi?

Suspirei de alívio.

- Eu anteontem disse-te que o irmão da Amy nos vinha buscar à escola para irmos para a casa dela… - explicou Abby, um bocado atrapalhada.

Ao lado de Tucker estava Ammy, a sua irmã, a amiga da minha irmã. As memórias começavam a surgir. É verdade, ela tinha-me dito. Acho que com isto tudo não ando com a cabeça no sítio certo.

- Eu sei, desculpa querida – pedi – Eu esqueci-me.

- Bem… tenho que ir para casa agora?

- Não, podes ir com a Amy. Precisas que te vá buscar?

- Não, ela janta lá – disse Tucker – A minha mãe pensou em dar-te a tarde e o jantar de folga.

- Obrigado – sorri.

Voltei para o carro, já mais descansada, e liguei-o. Afinal não era vampiro nenhum, hoje.

- Não te passes – disse uma voz, assustando-me. Dei um pulo enorme no banco e um grito que de certeza se ouviu fora do carro. Olhei para o banco de trás.

- O que é que estás aqui a fazer?! Ouve, tu pareces uma boa pessoa, mas o facto é que não és uma pessoa, ok? Sai do meu carro!

- Calma, eu pedi-te para não te passares – pronunciou Verónica, calmamente. A voz dela fazia-me sentir calma, mas é provavelmente só mais um veneno de vampiro – Deixa-me explicar-te as coisas.

- Não. Eu não quero ouvir nada Verónica. Sai!

- Por…

- Eu vou começar a gritar «vampiro» se não saíres!

- Tudo bem, desculpa. Mas devias mesmo ouvir o que tenho para te dizer. – Abriu a porta e saiu.

Encostei-me ao banco e respirei fundo. Vi-a a caminhar para longe. Ainda bem. Levei a mão ao bolso dos calções e tirei o telemóvel. Marquei o número de Gwen e esperei que ela atendesse.

- Olá – atendeu ela.

- Olá Gwen, queres ir dar uma volta? – Era mais como uma súplica.

- Claro. Onde?

- Eu passo por aí, tenho um sítio em mente.

Passei pela casa de Gwen e levei-a até ao Giant Springs State Park.

- Uau, não vínhamos aqui juntas desde que éramos pequenas… - recordou ela, enquanto caminhávamos.

- Eu sei. As coisas eram tão simples…

- Tu não pareces bem, o que é que se passou? Eu sou a tua melhor amiga, podes confiar.

- Eu preciso que me fales de vampiros – pedi. Sendo ela uma expert no assunto, acho que é a pessoa ideal para me dar as indicações.

- Ok…

- Como é que eles são?

- Bem, eu imagino que sejam uma mistura de Brad Pitt e Tom Cruise. Eles têm que ser lindos de morrer, é como se fosse tradição… – e deu uma pequena risada.

- Não, não estou a falar de aparência. Como… - Porque não ir já directa ao assunto? – Como é que se mata um? Ou impede que se aproxime?

A cara dela ficou séria e ficou a fitar-me durante um bom bocado.

- Porquê? Chloe, tu sabes que vampiros não existem…

Correcção: vampiros bons não existem.

- Eu sei, é curiosidade.

- Bem, cada coisa que lês dá-te maneiras diferentes de os matar, tens estacas no coração, queimar, decapitar, desmembrar e então queimar…

- Qual é que é a real? – Interrompi. Ela ficou a olhar para mim como se eu fosse uma maluca. Decidi reformular a frase – Quer dizer, se eles fossem reais, qual seria a mais provável estar certa?

- Não faço ideia.

- Ok, e o que é que se pode fazer para os repelir?

- Na série da Buffy a Caçadora de Vampiros usam cruzes, mas na maior parte das coisas que leio isso não resulta.

- Então e alho? E prata? Água benta…

- Não sei. São só histórias Chloe, como é que queres que saiba?

- Tens razão, desculpa. Mais alguma coisa?

- Bem, o sol magoa-os, e pode matá-los. Nos livros da Stephenie Meyer só os põe a brilhar…

- Certo, isso faz sentido – murmurei. Por isso é que os dias têm estado tão enublados desde que eles chegaram. Mas como é que eles fizeram o clima mudar?

- Para quê esse entusiasmo repentino? Há dois dias nem querias ouvir falar de vampiros e agora… bateste com a cabeça? Já sei, foi do acidente, não foi?

- Não, a sério, eu estou bem. É só…

- Curiosidade? – Interrompeu.

- Exactamente.

Quando cheguei a casa eram quase seis horas, e Dylan ainda não tinha chegado, não vi as coisas dele espalhadas como estavam sempre.

Só para confirmar, decidi ir até ao quarto dele para ver. Subi as escadas, abri a porta e vi uma visita indesejada.

- O que é que estás aqui a fazer?! – Perguntei – O que é que fizeste ao meu irmão?! – Peguei no taco de baseball que estava no chão, ao alto, encostado à cómoda.

- Não… - e dei com ele na cabeça de Derek. O taco partiu-se em dois e eu fiquei a olhar para ele, de boca aberta, sem reacção – Eu avisei-te.

- Onde está o Dylan?!

- Não sei, juro.

- Porque é que havia de acreditar em ti? – Perguntei, sem um pingo de simpatia na voz.

- Porque estou a dizer a verdade – até parecia sincero, e um bocado magoado, mas não me posso esquecer: vampiros mentem – Ele não está em casa, deixou-te um papel em cima da mesa da cozinha. Eu estou no quarto dele porque estava a ganhar coragem para ir falar contigo, ouvi-te chegar e entrei para a primeira porta que vi… desculpa.

- É bom que estejas a dizer a verdade – saí do quarto e comecei a descer as escadas.

- Ou o quê? – Ouvi-o dizer, baixinho, mas ignorei. Ele tinha razão, contra ele, sou como uma formiga, é que nem a mosca chego…

Cheguei à cozinha e vi o papel de Dylan, dizia que ia ficar a jantar na casa de um amigo. Aquilo era código para: vou passar o resto do dia a drogar-me e a embebedar-me. Estou a pensar seriamente em mandá-lo para um centro qualquer para ele se endireitar, mas que autoridade é que tenho? Mas agora também não é altura de pensar nisso, tenho um vampiro encostado à ombreira da porta.

- Então o que é que queres? – Perguntei, azedamente.

- Nem um pedido de desculpas? Uau, deves mesmo odiar vampiros.

- Odeio – respondi, sem pestanejar.

- Eu quero falar. Aparentemente tens o resto da tarde livre. Vem comigo.

- Ir contigo? Definitivamente não.

Ele revirou os olhos e voltou a olhar para mim.

- Tudo bem – em menos tempo no que demora piscar os olhos, ele estava à minha frente, a agarrar-me nos braços – Queres ver um vampiro? Eu mostro-te um vampiro.

Num movimento repentino e extremamente veloz, que nem me deu tempo para ripostar, eu estava ao colo dele, e depois já estava dentro do seu carro, estacionado nas traseiras da minha casa. Ele já estava no lugar do condutor e eu no banco de trás. Ele arrancou a toda a velocidade.

- Isto é rapto! – Gritei.

- Eu sou um vampiro, não me interessa – respondeu, serenamente.

- Deixa-me sair!

- Ou o quê? Achas mesmo que podes fazer alguma coisa contra mim? – Ok, agora, apesar de ser verdade, parecia convencido.

- Eu salto!

- Força nisso, antes de atingires o chão já estás dentro do carro outra vez.

- Desgraçado – resmunguei, demasiado baixinho para alguém conseguir ouvir.

- Eu ouvi isso. – Disse-me. – Encosta-te e aproveita o resto da viagem.

Ele não disse mais nada, e eu também fiquei calada. Estes são provavelmente os últimos momentos da minha vida e estou metida com um monstro num carro, que sonho. Só espero que ele me drene o sangue todinho em vez de me transformar.

Não sei durante quanto tempo andámos, mas foi pouco (ou então a velocidade era muita). Reparei, pelas placas, que já tínhamos saído da cidade, e que estávamos num sítio completamente deserto. Tinha algumas árvores em volta, mas não muitas. Passámos por um portão muito chique e entrámos para um jardim que parecia nunca mais acabar. Aí sim, haviam árvores, relva, arbustos, e posso jurar que até vi um coelho, mas é difícil de dizer, devido à velocidade. Vi uma fonte ao longe. Ele parou o carro em frente de um enorme casarão. Acho que casas destas, só dois tipos de pessoas podem ter: jogares de futebol que sejam mesmo muito famosos e milionários (mas mesmo muito ricos), e actores muito famosos e bem pagos. Mas ainda há outra opção, claro, que é para quem vive durante centenas de anos para juntar tanto dinheiro (claro que agora são vampiros, logo não contam como pessoas…)

Num segundo ele estava dentro do carro e no outro já me estava a abrir a porta. Eu olhava para a casa estupefacta.

- Acho que viver-se durante centenas de anos tem as suas vantagens – murmurei, sem pensar.

- Uau, isso nem soou como um insulto – gozou ele.

- Não te habitues – e cá está ela de volta, a minha voz de má.

- Anda lá – disse, agarrando-me no braço. Retirei o braço com brusquidão da mão dele.

- Eu sei andar sozinha, obrigado.

- Sabes, nós não te vamos comer.

- Sim, obrigado por dizeres – murmurei. Parei repentinamente e olhei para ele – A sério, o que é que estou aqui a fazer?! – Perguntei, já a passar o meu limite de raiva.

- Eu não te percebo – disse ele, calmamente –, tu dizes que odeias vampiros, mas não pareces estar com medo…

- Não estou com medo – assegurei – Estou com nojo.

Ele deu uma pequena risada.

- Bem, estares aqui, podes agradecer à minha irmã, foi ela que me pediu para te ir buscar.

Agora estávamos de novo a encaminharmo-nos para a entrada do enorme casarão. Subi meia dúzia de escadas, na entrada, e passei por entre um arco branco. A casa estava pintada em tons de branco e castanhos.

Ele abriu a porta, mas eu estagnei antes de entrar. Voltei a olhar para ele. A minha voz não saiu tão rabugenta nem chateada como nas outras vezes, acho que no fundo o que mostrava mais era curiosidade.

- Como é que se mata um vampiro? – Perguntei. Ele soltou uma gargalhada.

- Eu não te vou dizer – assegurou.

- O quê? Porquê?!

- Porque queres matar-me. Não te vou dizer como.

- Vá lá, eu sei como matar todos os meus amigos. Veneno, um tiro… também quero saber como matar vampiros.

- Desculpa, talvez noutro dia. Vais entrar ou vou ter que os chamar aqui?

Dei uns quantos passos para dentro da casa e ele fechou a porta. Fiquei sem palavras ao ver aquele espantoso casarão por dentro. O hall de entrada fazia quase duas da minha sala. A casa estava decorada com um óptimo gosto, por muito que me custe admitir. Tinha vários pilares e uns quantos espelhos e molduras. O candeeiro era de tirar o fôlego, parecia feito de diamantes, e não duvido se for mesmo.

- Anda por aqui – indicou ele.

Ia a segui-lo mas a olhar para todos os lados ao mesmo tempo, tropecei num degrau que ia dar à enorme sala de estar, mas recompus-me logo. Vi Verónica e Gary sentados no sofá de canto, bege.

- Estou feliz que tenhas vindo – disse Verónica, levantando-se e vindo ter connosco.

- Não tive escolha – refilei.

- Ela não teve escolha – disse Derek, ao mesmo tempo que eu.

Vi um sorriso formar-se no rosto de Gary, mas ele reparou que eu não estava feliz com a situação por isso conteve-o.

- O que é que eu estou aqui a fazer afinal? – Perguntei.

- Nós queremos contar-te a nossa história, explicar-te o que ainda não sabes – esclareceu ela.

- E se eu não quiser ouvir?

- Estás no teu direito – interpelou Gary – Mas já cá estás, o que é que perdes em ouvir? – Raios, não sei, talvez o bom senso…

- Senta-te, por favor – disse Verónica, estendendo-me a mão para eu a agarrar. Em vez disso passei por ela e dirigi-me ao sofá. Sentei-me e fiquei a olhar para eles.

- Então, não falam? Quanto mais depressa se despacharem mais depressa eu me posso ir embora.

- Ok, para começar tens que saber que nós não somos como os outros vampiros… - começou Gary – Nós somos…

- Se disseres «bons» juro por Deus que saio daqui agora – disse-lhe.

- Menos maus – disse Verónica, sorrindo-me.

- Verónica, deixa-me só dizer uma coisa – pediu Derek – Quando me viste transformado no bosque, eu ia ter com o Gary, mas ouvi alguém com ele que não conhecia, e…

- Provavelmente ele queria partilhar a refeição – interrompi.

- Não, era um outro vampiro, mas não te preocupes, já se foi embora – continuou ele – Nós não matamos para sobreviver.

- Certo, porque agora conseguem viver do ar…

- Não, mas temos outras formas – disse Gary.

- O quê? Comem esquilos?

Vi um sorriso aparecer nas bocas de cada um deles. Será que disse uma coisa assim tão disparatada? Eu continuei com cara de quem não estava a gostar nem um bocadinho da situação.

- Não – foi Verónica quem me respondeu – Nós obtemos o sangue do hospital. Temos um amigo nosso que nos arranja o sangue.

- Hum… - foi o melhor que consegui arranjar.

Ela veio-se sentar ao meu lado e eu levantei-me.

- Nós não te vamos magoar – disse-me. Mas eu por acaso disse que achava que sim?!

- Isso não significa que tenho que gostar disto – respondi.

- Ok – Verónica olhou para o chão e depois voltou a olhar para mim – Nós somos mesmo irmãos. A nossa tia, uma tia verdadeira mas muito distante, transformou-nos em 1874.

- Isso deixa-vos com… - Demorei um bocado a fazer a conta, por isso Gary respondeu por mim.

- Com 136 anos.

- Todos nós – continuou Verónica – Eu fui transformada com dezasseis, o Derek com dezoito e o Gary também.

- Espera – pedi – Porque é que eu tenho que saber isto tudo?

- Porque podes não o saber ainda, mas como sabes de nós, dá jeito saberes certas coisas. Continuando, desde que ela nos transformou, que só bebemos sangue dos hospitais. Temos o cadastro completamente limpo.

- Que bom – murmurei, sarcasticamente.

- Posso-te fazer uma pergunta? – Perguntou ela.

- Já fizeste – respondi.

- Porque é que nos odeias? – Engoli em seco.

Porque é que os odeio? Tenho tantas respostas ao mesmo tempo e no entanto nenhuma que se adeqúe agora.

Desviei o meu olhar para o chão e a garganta começou a arder-me, por estar a esforçar-me para que as lágrimas não começassem a escorrer desalmadamente.

- Eu só tinha dez anos – suspirei – Não é justo.

- O quê? – Insistiu Gary.

- Não é… não é que vos odeie como pessoa, se é que a podem ser. Eu odeio o que vocês são.

- Porquê? Tu não pareceste surpresa ao saber que vampiros existiam. Já conheceste algum? Ele magoou-te? – Perguntou Derek.

- Magoou, mas não da maneira que estás a pensar – respondi, ainda a observar o soalho.

Verónica notou, tal como Derek e Gary, que eu estava a ficar desconfortável em vez de chateada, por isso mudou o rumo da conversa.

- Tens alguma pergunta para fazer? – Perguntou – Sobre vampiros.

Pensei em ficar calada, pensei em sair pela porta, pensei em chamar-lhes nomes de novo por me fazerem remexer em recordações passadas, mas não ia valer a pena.

- O sol mata-vos? – Perguntei.

- Não, mas é como se estivesses a ser queimada por dentro, e não acaba até te pores à sombra – respondeu Derek – Depende um bocado da quantidade de sol apanhada, às vezes até na sombra, minutos depois de saíres do sol, ainda te sentes a queimar.

- Como é que fazem com que o clima fique enublado? Para onde os vampiros vão as nuvens aparecem?

Vi um sorriso vaidoso formar-se nos lábios de Verónica.

- Não, sou eu que faço – disse ela – Eu consigo mudar o tempo. Se eu quiser que chova, chove. Se quiser que esteja sol, fica sol – então é por culpa dela que eu não tenho sol…

- Sempre? – Insisti.

- Não, na maior parte dos dias não faço nada, só quando o tempo ameaça expor-nos ou magoar-nos.

- Hum… então e a vossa tia? Vocês disseram que…

- Ela está fora, a viajar – interrompeu Gary – Ela mora aqui, foi ela quem mandou construir a casa, mas passa a vida de um lado para o outro.

- Ok… uma última coisa: vocês precisam de autorização para entrar na casa de alguém? Porque da primeira vez que o Derek foi lá a casa ele não entrou antes de ser convidado…

- Eu estava só a ser educado, não é preciso um convite – esclareceu. Notei que estava a ser sincero, mas também notei que não me estava a contar tudo.

Dei uns poucos passos e aproximei-me dele.

- Sabes… a janela do meu quarto tem estado aberta de manhã, mas eu fecho-a à noite… por acaso não sabes nada sobre isso, pois não? – Perguntei, enquanto lhe fitava o rosto.

- Talvez… talvez não…

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