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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 12.11.10

Já que pediram, e eu estou-me a sentir boazinha (a) hoje...

Ps: Odeio o título, mas não consegui mesmo fazer melhor :s

 

Capítulo 23

Finalmente, amo-te

 

- Que queres dizer com “Stolas está aqui”? – Perguntou Jason.

- Quero dizer exactamente isso. Ele vem à vossa procura, de certeza, e não vai poupar a cidade até vos encontrar. – Assegurou Gabriel.

Era uma imagem que não conseguia imaginar, a cidade de Los Angeles ser transformada numa zona de guerra, numa zona de guerra sobrenatural. Dirigi-me à cozinha.

Ouvi passos a seguirem-me e vi que vinham todos atrás de mim, à excepção dos meus pais.

- Onde é que vais? – Perguntou Gabriel.

- Onde é que achas? Vou à cozinha tomar uma aspirina, a minha dor de cabeça ainda vai piorar mais daqui a pouco. – Respondi.

Entrei na cozinha, tirei as aspirinas do armário, enchi um copo com água e tomei uma aspirina, depois pousei o copo no balcão e virei-me para eles. Pareciam um bocado desconfortáveis.

- O que é que se passa? – Perguntei.

- Mel… nós temos uma coisa para te perguntar, sobre quando estavas possuída… – Disse Vicky, um bocado atrapalhada.

- Diz.

À minha frente estavam Vicky, Jason e Bryan, exactamente as mesmas pessoas que tentara matar enquanto estava possuída, e depois Gabriel, que ainda não sabia desta última aventura e ouvia a conversa, com uma atenção excessiva.

- Sabes… se por acaso nos tivesses morto… normalmente a última pessoa que matasses seria a pessoa de quem gostas mais… - Continuou.

- Por isso queríamos saber quem era o teu melhor amigo. – Disse Bryan.

- Não estava à espera dessa. – Disse, baixinho. Olhei para Vicky. – Vicky, tu és a minha melhor amiga, eu adoro estar contigo e posso falar de tudo contigo e isso é perfeito. Foste a única pessoa durante muito tempo que me tratou bem, quando eu quis entrar nestas coisas de caçadas. Eu adoro-te. – Depois olhei para Bryan. – Mas Bryan, tu também és o meu melhor amigo. Sempre foste e sempre vais ser e eu também te adoro. – Finalmente olhei para Jason. – Mas posso dizer com todas as certezas que o último a morrer serias tu. – Disse-lhe.

Saímos da cozinha e eu fui para o quarto mudar de roupa, porque ainda me encontrava com a saia comprida e top super curto que aquele clã de bruxas me tinha dado. Vesti umas calças pretas com uma blusa azul-turquesa, de alças e calcei uns ténis all-star azuis e pretos. Reparei que tinha ténis para condizer com a maior parte da minha roupa, porque era uma apaixonada por ténis e tinha-os de diferentes cores e feitios. Fiz um rabo-de-cavalo e prendi o punhal do lado direito no cinto. Vesti o meu casaco de cabedal preto e saí do quarto. Fui interceptada por Jason, no corredor, antes de descer as escadas.

- Mel… não leves isto a mal mas… eu acho que devias pular esta… - Disse-me ele.

- Como assim, porquê?

- Porque… o teu pai acabou de descobrir uma coisa muito forte e… o Stolas é perigoso e eu tenho a certeza que ele prefere que fiques aqui, em segurança… assim como eu prefiro.

- Jason não… sabes que isto é inútil, eu não vou ficar para trás. Vou lutar, com vocês, como sempre fiz.

- Mel…

- Eu sei, que me queres manter em segurança. E eu agradeço, a sério que sim, mas eu não posso ficar aqui sem fazer nada enquanto vocês vão para a batalha do século…

- Acho que essa vai ser contra o Diabo…

- Mais uma razão, é como uma preparação.

- Não sei o que fazer se alguma coisa te acontecer Melanie…

Abracei-o.

- Não te preocupes… não vai acontecer nada. – Sussurrei-lhe ao ouvido.

Descemos as escadas e fomos ter à sala, onde os meus pais permaneciam sentados e Gabriel, Vicky e Bryan nos esperavam.

- Melanie. – Disse o meu pai, levantando-se. – Tens a certeza que queres fazer isto? E se alguma coisa acontecer? Eu não te quero perder…

- Pai… já tenho feito isto há um tempinho. – Tentei dizer isto a sorrir, para que ele visse que eu estava confortável com esta situação, mas a verdade é que não estava. – Vai correr tudo bem, não te preocupes comigo, com sorte, à hora do jantar já cá estou.

Comemos sandes ao almoço, para nos despacharmos e depois metemo-nos no carro e fomos ao encontro de Stolas, que segundo Gabriel, estava numa floresta lá em Los Angeles, Angeles National Forest.

Quando lá chegámos o sol ainda estava bem no cimo, ainda era relativamente cedo, talvez três horas.

Saímos do carro e abrimos o porta-bagagens, começámos a tirar armas e munições, afinal, íamos ter uma daquelas batalhas para esquecer. Da última vez que tinha visto Stolas, acertei-lhe bem, mas o problema é que desta vez ele não vai estar sozinho, ele nunca nos viria enfrentar sozinho. Jason passou-me uma H&K MG45 para as mãos, uma metralhadora leve, muito precisa, especialmente nas minhas mãos, porque a minha pontaria agora já estava cinco estrelas.

- Tem cuidado com ela. – Disse Jason, referindo-se à arma. – Às vezes encrava.

- Ok… Jason ouve… não faças nada estúpido… não tentes ser um herói. – Pedi.

- Porque é que faria isso?

- Não sei, estou só a pedir…

Eu sabia perfeitamente que ele não ia ligar nenhuma, sabia que se tivesse uma oportunidade, iria tentar ser o herói do dia, mas avisar não custa.

Começámos a entrar na floresta, todos juntos e em pouco tempo perdemos o rasto para voltarmos ao carro. Se Stolas não nos matasse, a falta de orientação iria, mas acho que eu, pelo menos, se tudo corresse como estava a pensar, não iria ter problemas em voltar para o carro, aliás, não iria ter que voltar para o carro.

Avistámos umas casas muito pequenas. Pareciam mercearias, ali, no meio do nada, mas de novo, não me surpreendeu, já sabia como é que aquilo tudo ia acabar.

Olhei para o horizonte e vi Stolas, com talvez cem demónios atrás, ou mais. Mas nem tudo ia ser mau, se tudo corresse como planeado, os meus amigos sairiam bem daquela confusão toda.

- Vicky, Gabriel, vão por aquele lado, tenham cuidado. – Disse Bryan.

- Vocês também. – Disse Vicky, que num piscar de olhos desapareceu pela floresta, seguida de Gabriel.

- Estão preparados? – Perguntou Jason.

- Não sei, digo-te quando acabar. – Respondi. – Mas boa sorte.

O exército comandado por Stolas corria agora para nós.

Separámo-nos ligeiramente e começámos aos tiros a eles, enquanto ainda vinham longe. A minha metralhadora era, de facto, muito eficaz nos tiros que fazia, a maior parte acertava, mas mesmo assim, e mesmo com as armas de Jason e Bryan, eles estavam num número muito superior, quase imbatível. Fui agarrada por trás por um demónio que tinha chegado antes dos outros, apanhando-me desprevenida e mandou-me ao chão. Quando ia apanhar a arma, ele destruiu-a, como uma bola cinzenta que tinha criado com as mãos, uma bola de energia, como é chamada.

- E começou. – Disse eu, revirando os olhos, mesmo a saber que ninguém me estava a ouvir.

Explodi-o mas depois veio outro e depois outro e num piscar de olhos estávamos completamente rodeados por aqueles… demónios zombis. Ainda tinham bocados de carne a cair de todos os lados, eram almas condenadas ao Inferno, almas perdidas, e por isso faziam parte das legiões de Stolas.

Tentei explodir o máximo de zombis que apareciam, mas eles eram demasiados, e cada vez se aproximavam mais. Não eram muito fortes, mas em demasia, não nos davam espaço de manobra para atacarmos.

Vi Bryan no chão, mas sabia que ele não estava magoado. A minha preocupação estava centrada em Jason, que estava prestes a cometer um daqueles erros que depois se viria a arrepender.

Vi Stolas, no seu enorme cavalo preto e vi Jason atrás dele, prestes a atacar. Stolas viu-o e com um pequeno gesto mandou-o ao chão, saiu do cavalo e pôs-se de pé, à sua frente. Jason levantou-se e eu abri caminho, com toda a força, para chegar ao pé dele. Estava encostado à parede de uma das mercearias.

- Tu és tão ridículo. – Ouvi Stolas dizer. – É por isso que não passas de hoje.

Levou a mão ao cinto e ergueu uma enorme espada, muito bem polida e muito afiada. Jason estava imóvel, não tinha escapatória possível. Eu sabia que não ia conseguir destruir Stolas, por isso, as coisas iam acontecer como eu as previ. Stolas fez pontaria e mandou a espada, que acertou em cheio em… mim, mesmo na barriga, um pouco acima da cintura. Pus-me à frente de Jason, evitando que ele levasse com a espada, mas em troca, espetou-me a mim. Jason, pensando rápido, agarrou na arma dele que estava no chão e deu um tiro no ombro de Stolas, que soltou um grito. Bryan já estava ao pé de nós, tirou-me a espada da barriga e depois agarraram-me os dois e entraram comigo para a mercearia, pousando-me no chão e fechando as portas, trancando-as e pondo móveis à frente. Voltaram a agarrar em mim e sentaram-me, no chão, encostada à parede que ficava à frente da porta, talvez a vinte metros.

A mercearia tinha um estilo rústico, mas as prateleiras estavam praticamente vazias, eu tenho a certeza que não existia nada daquele género nesta floresta…

- Mel… raios Melanie… o que é que foste fazer?! – Perguntou Jason, visivelmente desorientado.

- O que é que achas? – Perguntei, com esforço.

Bryan, que tinha ido ver se achava qualquer coisa para estancar o sangue voltou, com apenas com um pano.

- Só isso? – Perguntou Jason.

- Foi tudo o que encontrei. – Respondeu Bryan.

Jason agarrou no pano, enrolou-o e depois pôs na minha ferida, quando eu tirei a mão cheia de sangue, pressionando-a. Passados poucos segundos estava a começar a ser difícil de respirar, o ar insistia em não entrar.

Jason estava sentado ao meu lado, mas agora quem pressionava a ferida era eu. Os zombis não paravam de bater na porta e todos nós sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, iriam entrar.

- Vocês têm que ir. – Pronunciei eu, lentamente e com os lábios a tremer.

- O quê?! Não. Nós não vamos a lado nenhum. – Disse Jason. – Vamos ficar aqui contigo.

- Bryan… - Apelei.

- Não. Ele tem razão. – Respondeu, firme.

- Pessoal, eles vão entrar a qualquer altura e depois… vão-vos matar. Vocês têm que sair daqui.

- Não, não te vou voltar a deixar Melanie. Não vou. – Disse Jason.

- É diferente. Desta vez, eu estou-te a pedir que o faças. – Proferi, com a voz muito fraca. – Eu preciso de saber que estão a salvo.

- Não. – Respondeu Jason. Arrepiei-me. – Que foi?

- Estou com frio. – Respondi.

Ele tirou o seu casaco e pousou-o sobre as minhas costas. Encostei-me a ele e pousei a minha cabeça no seu ombro. Ele pousou a dele na minha.

- Eu vou morrer. – Declarei, por fim. – Eu sei que vocês não queriam dizer isto, por isso digo eu. Eu vou morrer, estou sentada no meio do nada, com apenas um pano a prender-me as entranhas e mal consigo sentir as minhas pernas. Por isso preciso que vocês se vão embora, porque vocês não vão morrer.

- Tu já sabias disto? Que ias ser atingida… - Percebeu Bryan.

- Sonhei com isto. Há cerca de um mês… mas não sabia se era real porque eu aparecia a explodir coisas e isso tudo e…

- Não importa. – Disse Jason. – Eu não vou a lado nenhum.

Engoli em seco. O telefone de Bryan tocou e ele atendeu.

- Estou Phil? – Disse ele. – Não nós… não, não estamos nada bem. Entrámos numa batalha com o Stolas e a Mel… sim, sim, ela está viva mas… por pouco tempo. – Ele esforçou-se imenso por dizer esta última parte em voz baixa, mas eu ouvi na mesma. – Ele quer falar contigo. – Disse-me, dando-me o telemóvel para a mão.

Levei-o ao ouvido.

- Phil… - Pronunciei, baixo, apesar de neste ponto ser o mais alto que a minha voz permitia.

- Melanie, no que é que te meteste? – Ele parecia desesperado. – Eu avisei-te tantas vezes. E agora?

- Phil eu… peço desculpa, de todas as vezes que agi pelas tuas costas e isso tudo… peço desculpa.

- Como é que nos vamos arranjar sem ti? – Ele parecia tão triste quanto eu, apesar de eu tentar não mostrar. – Apesar do que aconteça, eu quero que saibas que tenho muito orgulho em ti.

- Óptimo! – Exclamei, sarcasticamente, enquanto me escorreu uma lágrima pelo rosto. – Estava a conseguir não chorar e tu agora vens e dizes essas coisas e, estou assustada… eu não quero morrer Phil…

- Querida…

Funguei.

- Mas é assim que a vida é. Não te preocupes, eu sou uma bruxa, para onde quer que vá vou estar sempre de olho em vocês. Tenho que desligar, adoro-te. – Desliguei o telefone sem lhe dar tempo para falar, até porque tenho a certeza que ele não saberia o que dizer.

Mais lágrimas correram, o que ainda fazia com que a dor aumentasse. Quando finalmente me consegui recompor, olhei para Jason e para Bryan.

- Vocês têm que viver. – Conclui. – E vocês vão viver, porque têm tanta coisa para fazer, para descobrir… rapazes, vá lá, pensem nisto como um último desejo. O meu último desejo é que vocês saiam daqui vivos. Podem respeitar isso?

- Mas Mel… - Sussurrou Jason. – Eu não te posso deixar assim…

Olhei para ele, directamente.

- Eu sei, que me amas e eu sei que não me queres deixar, e isso é o suficiente para mim, é mais que suficiente. Mas não podes ficar aqui, porque… eu amo-te e não quero que morras… - Caiu-me outra lágrima. – Eu amo-te, e não consigo suportar estar aqui, a morrer aos segundos, a saber que tu não vives por minha causa.

- Mel…

- E tu tinhas razão, eu estava com medo… não sei bem do quê, mas estava. Vão embora, eu imploro.

Ficámos uns segundos em silêncio e depois Jason levantou-se e pôs-se em pé, de frente para mim.

- Eu vou matar aquele filho da mãe. – Assegurou ele. – E depois voltamos para te vir buscar.

Afirmei com a cabeça e ele baixou-se e beijou-me apaixonadamente, acreditando, e sem errar, que era a última oportunidade que tinha para me beijar.

- Por favor… tenta… continuar viva. – Implorou.

- Vou tentar. Ei, toma o teu casaco, já anoiteceu e… eu não vou precisar dele. – Ele tirou o casaco de trás de mim e vestiu-o.

Bryan aproximou-se e deu-me dois beijos na cara, ele sabia tão bem quanto eu, e até quanto Jason, que daqui a poucos minutos estaria morta.

- Foi muito bom voltar a encontrar-te Melanie. – Disse ele. – Vou ter saudades.

- Acho bem que sim.

Segundos depois ouvi a porta das traseiras bater e já me encontrava sozinha, sentada no chão daquela mercearia, a rezar para que a morte chegasse depressa e as dores acabassem.

Comecei a lembrar-me de como a minha vida tinha sido, de quando entrei para a pré-escola, para a primária… até me mudar para Nova Iorque, trabalhar no New York Times, voltar a encontrar Jason e Bryan e tudo de novo que eles me mostraram.

As dores não paravam, era como se estivessem a pôr metal a arder dentro de mim, como se me estivessem a queimar por dentro.

Os zombis já não estavam a bater na porta com tanta força, agora já quase que não os ouvia.

Levei a mão ao peito, ao meu colar com o pendente em forma de coração e pensei na forma em como o tinha adquirido, como Jason mo tinha dado. Tinha sido um dos melhores dias da minha vida. Baixei a cabeça e olhei para o colar e então senti outro calafrio e começaram a surgir imagens na minha cabeça, eram como os sonhos, mas eu estava acordada, estava a ver as coisas acontecerem à minha frente antes que acontecessem, como uma previsão do futuro, uma premonição. Vi Bryan e Jason, deitados no chão da floresta, e Stolas, a mandar uma bola de energia a Bryan e a matar Jason com a mesma espada que me tinha ferido a mim. Fiquei sobressaltada ao ver aquelas imagens, que, de repente desapareceram.

Agora só via vários móveis e prateleiras, que estavam encostados à porta, impedindo que esta se abrisse. Olhei para a parede a que estava encostada e vi uma prateleira. Estiquei o braço e agarrei-a. Fazendo uma quantidade enorme de força no braço, levantei-me, com a outra mão ainda com o pano na ferida. Encostei-me à parede e respirei fundo, tinha que conseguir sair dali, tinha que os ajudar, não me mandei para a frente de uma espada para eles acabarem assim.

Mesmo que não pudesse lutar, que não podia, conseguiria sempre distrair Stolas. Comecei a arrastar os pés, a dar pequenos passinhos, muito lentamente em direcção à porta das traseiras. Abri-a e não vi zombis nenhuns no horizonte. Comecei a andar, a cambalear pela floresta, agarrada às árvores, em direcção ao sítio de onde ouvia ruídos. Parei, agarrada a uma árvore e estiquei o braço, para me agarrar à próxima, dei dois passos e depois tropecei, indo de encontra a outra árvore. Tentei equilibrar-me mas era em vão, estava a ver tudo à roda.

Comecei sentir-me muito fraca e comecei a ver uma luz branca ao longe, que se foi intensificando até que me mergulhou nela. Depois de a luz desaparecer estava num túnel de comboio, nos carris. Estava muita claridade, e à minha frente estava um homem mais ou menos do meu tamanho, com o cabelo grisalho e a barba por fazer, que vestia um fato branco. Ainda me sentia cheia de dores, apesar de estar de pé sem estar apoiada em nada. Continuava a pressionar a ferida com o pano, já completamente ensanguentado.

- Quem és tu? – Perguntei, muito mole, como se estivesse em transe. O homem apontou para o meu peito e eu olhei para o meu colar, vi que era ele que estava a iluminar todo aquele espaço, vi que era ele que irradiava enormes raios de luz em todas as direcções. – Tu és Deus. – Concluí.

- Sim, eu sou Deus. – Aproximou-se de mim e juntou a sua mão à minha ferida e senti um enorme calor, mas não ardente, um calor reconfortante. Quando a desviou, já não senti dor e as minhas forças estavam completamente restauradas.

- Como?

- Estou a dar-te uma segunda oportunidade. Não a desperdices.

- Mas… tu podes lutar com ele, com Lúcifer, tu podes destrui-lo.

- Sim, mas não vou. Não me está destinado lutar com Lúcifer, está-te destinado a ti.

- Mas eu… eu não acho que consiga…

- Tenho a certeza que consegues. Vais encontrar as forças suficientes para isso e para muito mais, acredita. Agora é melhores despachares-te, os teus amigos precisam de ajuda. – Estalou os dedos.

Quando abri os olhos estava na floresta, em pé, encostada à árvore em que tinha perdido as forças e ido parar ao túnel.

Já não tinha dores, até a dor da cabeça, da falta de descanso e da ressaca tinha passado. Levantei a blusa e vi que já não estava magoada, o sítio em que estava mortalmente ferida estava agora curado.

Ouvi um ruído vindo de alguns metros à frente e comecei a correr. Escondi-me atrás de uma árvore e vi Stolas e o seu exército de zombis, e vi Jason e Bryan, no chão, ao pé de Stolas. Despi o casaco e deixei-o cair para o chão. Fui dar uma pequena volta e subi um pequeno monte, talvez com dois metros e meio, atrás de Stolas. Comecei a explodir os zombis, um a um, até que Stolas notou e se virou para mim.

- Olá. – Acenei. – Tiveste saudades minhas? – Saltei do pequeno monte e com um gesto, mandei Stolas contra outro, maior. – Sabes o que é odeio mesmo? Quando monstros me tentam matar. Sabes quando é que fica pior? Quando eles quase que conseguem.

Ele levantou-se e olhou-me, de alto a baixo.

- Não é possível. – Disse ele, com a sua voz rouca e seca.

- Pois, tenho ouvido muito disso ultimamente. – Voltei a mandá-lo para longe. – Eu não gosto mesmo nada quando vocês, os que têm a mania que são espertos, se metem com os meus amigos. Isso aborrece-me mesmo muito, e tu sabes o que acontece quando eu fico aborrecida.

Ele permaneceu impávido, agora, encostado ao monte.

- Quando eu fico aborrecida… – Continuei. – As coisas fazem puff. É isso que tu vais fazer.

- Acredites ou não, tu és muito parecida comigo, e estás no lado errado da guerra…

- Tens razão, eu sou parecida contigo… nós não fugimos de lutas… mas ao contrário de ti, eu não tomo a vitória como garantida. Eu ia dizer “vai para o Inferno” mas… acho que mereces muito pior. – Explodi-o, e Stolas, tal como a irmã, fez uma explosão muito maior que os outros monstros, o que precisou de mais energia da minha parte, mas desta vez não desmaiei, tinha as baterias no máximo, graças a Deus, literalmente.

Virei-me para os zombis, que já estavam a correr por todos os lados, a fugir.

Corri até Jason e ajoelhei-me, ao seu lado.

- Jason, estás bem?! – Perguntei, ajudando-o a sentar-se. Bryan estava ao lado, já sentado.

Ficaram os dois a olhar para mim, espantados, e desconfiados.

- Eu sou real. – Disse eu, para ver se os tranquilizava. – Eu estou aqui, sou real. Não sou um fantasma, vez, sou tocável… - Disse, tocando com as minhas mãos num braço de cada um deles.

- Mas como? – Perguntou Jason, boquiaberto. – Não estou a queixar-me, de todo, mas…

- Deus salvou-me, ele curou-me.

- Deus? – Perguntou Bryan, sem acreditar.

- Sim, eu sei como isto deve parecer, mas é verdade, Deus curou-me! – Insisti.

- Ahh, quero lá saber como é que aqui estás, o que interessa é que estás! – Disse Jason, abraçando-me, seguindo-se de Bryan.

Vicky e Gabriel tinham estado a lutar contra outros zombis e chegaram ao pé de nós quando ainda estávamos nos festejos. Metemo-los a par de tudo e contei a todos sobre a minha premonição, Gabriel e Vicky disseram que era normal, que os meus poderes estavam a aumentar. Depois fomos para casa, para descansar os meus pais. Vicky e Gabriel transportaram-nos até ao carro.

Os meus pais ficaram muito tranquilizados ao saber que nada tinha corrido mal durante a luta, achei que não era preciso dar-lhes todos os detalhes, e ordenaram a Consuela que fizesse um jantar tardio para nós, visto que já eram dez horas. Subi para o andar de cima e tomei um banho relaxante, depois fui para o quarto e vesti um vestido preto, justo e curto, com umas pedrinhas roxas a enfeitar e calcei umas sandálias também pretas, de atar na perna. Enxuguei o cabelo e estiquei-o. Bateram à porta.

- Posso entrar? – Perguntou Vicky, espreitando.

- Claro.

- Como é que estás? – Sentou-se na minha cama.

- Mais calma. Eu pensei mesmo que ia morrer Vicky… foi horrível, pensar que ia deixar isto tudo para trás… mas agora está tudo bem, e eu estou viva, e vou fazer uma coisa que já devia ter feito há muito tempo atrás.

- Vais dizer-lhe que o amas?

- Vou reforçar isso.

Fomos jantar e depois decidimos ir celebrar, por isso fomos a um bar lá perto. Ia a sair quando a minha mãe me puxou.

- Tens a certeza que correu tudo bem? – Perguntou ela. Notava-se que estava preocupada.

- Mãe, tu não tens que te estar sempre a preocupar tanto. Eu estou bem, a sério. E eu percebo, porque fizeste o que fizeste, esconder-me a verdade e isso tudo. Eu não gostei, mas estavas apenas a tentar proteger-me, por isso eu compreendo. E eu perdoo-te, desde que nunca mais faças destas coisas.

- Prometo.

Quando chegámos ao bar, Vicky e eu fomos dançar enquanto Gabriel, Bryan e Jason ficaram na mesa, a beber uma cerveja.

- É agora… eu vou dizer-lhe. – Disse, a Vicky. – Deseja-me sorte.

- Não precisas disso.

Fui ter com Jason e pedi-lhe para falar com ele, encostámo-nos a uma parede, num sítio menos barulhento lá no bar.

- Eu disse-te que te amo… – Comecei.

- Tu não precisas de dizer nada. – A voz dele estava fria, quase irreconhecível. – Eu sei o que vais dizer, eu percebo, estavas a morrer, eu queria ouvi-lo. Sem problemas. – Deu meia volta e voltou para a mesa, deixando-me ali especada.

Não conseguia acreditar, depois de tanto tempo, finalmente lhe disse o que ele queria ouvir, o que eu sentia, e ele pensava que era apenas porque eu estava a morrer?! Saí do bar e dirigi-me a casa.

Os meus pais estavam na sala, a ver televisão, por isso fiz chocolate quente com marshmellows e fui para o jardim.

Sentei-me numa das cadeiras do jardim, em frente à piscina, pousei o chocolate quente com os marshmellows na mesa e reparei que a minha viola estava lá ao lado. Comecei a tocar uns acordes e a cantarolar, baixinho.

- Sabes, nunca descobri porque é que não levaste a tua voz mais a sério. – Disse-me o meu pai, ao aproximar-se. Sentou-se na outra cadeira.

- Às vezes nem eu. – Respondi, pousando a viola no chão.

- Problemas com o Jason? – Perguntou ele.

- Porque é que assumes isso?

- Bem, estás a beber chocolate quente com marshmellows e fizeste muito isso quando ele se foi embora. Não sei se te lembras mas costumavas vir para aqui à noite, cantarolar e beber chocolate quente com essas coisinhas que tanto gostas.

- Eu nunca poderia esquecer isso. Não sei o que fazer em relação a ele pai...

- Ama-lo?

Esperei um momento até responder.

- Amo.

- Então, qual é a dúvida?

- É que… com ele é sempre tudo tão incerto, e se acontece alguma coisa, e se ele…

- Te magoa outra vez?

- É estúpido mas… sim, tenho medo de me magoar outra vez. Quando ele se foi embora pareceu o fim do mundo. Eu não quero passar outra vez por isso, mas depois lembro-me dos bons momentos e de como ele me faz sentir e...

- Ele é bom rapaz… e se nunca tentares nunca vais saber se poderia ter resultado ou não. Digo-te isto: da maneira como ele olha para ti, nota-se ao longe que gosta tanto de ti como tu dele, eu sei isto porque é da mesma maneira que eu olho para a tua mãe e que ela olha para mim. Talvez te magoes, mas cabe a ti decidir se vale, ou não, a pena. – Levantou-se. – Vou-te deixar com os teus pensamentos. Boa noite.

- Boa noite.

Fiquei ali sentada durante mais um tempo, a acabar de beber o meu chocolate quente e a pensar nas palavras sábias do meu pai quando vi Jason a chegar do bar, sozinho.

- Jason! – Chamei, correndo até ele. – Podemos falar?

- Diz. – Disse ele, apressadamente.

- Aqui não. Anda comigo. – Pedi, puxando-o.

Entrámos em casa e subimos. Entrámos no ao meu quarto e sentei-me na cama.

- Senta-te. – Ele obedeceu. – Ok, hum… eu tenho uma coisa para te dizer…

- Diz.

- Não fales, por favor, senão eu paro a meio. – Pedi, levantando-me e andando às voltas no quarto.

- Ok…

- Eu disse para não falares. Quando te foste embora partiste-me o coração.

- Mel…

- Não, deixa-me acabar. Quando te foste embora partiste-me o coração e passado um tempo depois eu pensava que estava bem, com o passar do tempo comecei a ter outros namorados e pensei que tinha começado a amar outra vez. Mas de certo modo estava errada, até te voltar a ver. Porque no segundo em que te pus os olhos em cima, voltou tudo, as borboletas na barriga, tudo… e de repente era como se tivesse outra vez 17 anos e estivesse num namoro de liceu, mas não estou. Porque agora as coisas são mais sérias e eu… eu acho que tenho medo. Não tenho medo que me vás deixar ou uma coisa assim, eu nem sei do que é que tenho medo mas sei que quando estás por perto ele vai-se embora. E eu gosto dessa sensação. É como se nunca te tivesses ido embora.

- O que é que estás a dizer?

Voltei a sentar-me na cama, ao seu lado.

- O que eu quero dizer é que… eu amo-te. Eu sei que o disse quando estava a morrer… duas vezes… mas não quer dizer que não fosse verdade, porque era, é. Eu amo-te Jason Whickmonth. Amo-te por seres quem és e sei que odeias o facto de seres caçador mas tu és muito além disso, és corajoso, preocupas-te com as pessoas, és teimoso como tudo mas eu gosto de ti assim. E sei que já estou muito atrasada com estas palavras…

Ele chegou-se para ao pé de mim e beijou-me.

- Muito atrasada mesmo. Mas antes tarde que nunca. – Disse ele, beijando-me, apaixonadamente.

 

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