Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 14.11.10

Capítulo 25

Tengu

 

Phil mal me deixou sair da sua vista nos três dias em que estivemos lá em casa. O choque que apanhou ao pensar que eu ia morrer, como todos pensámos, mexeu muito com ele e acho que estava a tentar compensar o susto.

Eu gosto que Phil se preocupe comigo, e especialmente que diga que tem orgulho em mim, que é uma coisa que não oiço todos os dias.

Quando conheci Phil ele era muito amargo comigo e raramente me dirigia a palavra, mas quando pedi para treinar com ele e nos começámos a aproximar mais, acho que de certa forma nos afeiçoámos um ao outro. Acho que de certa forma, Jason e Bryan eram como filhos para ele, e eu também já tinha alcançado esse estatuto.

Quando lhe dissemos que eu e Jason estávamos juntos ele agiu como se não fosse uma grande surpresa, apesar de não fingir indiferença como Bryan e Gabriel ao pé dos meus pais.

Ele agiu como se já estivesse à espera, aliás, ele já estava à espera, todos estavam. Era uma daquelas coisas que ia acabar por acontecer, demorasse o tempo que demorasse.

- Chegámos. – Disse Jason do lugar do condutor, acordando-me.

Eu estava deitada, ainda que encolhida, no banco de trás do carro. Tínhamos ido à caça de um demónio e viemos fazer o check-in num hotel. Este era um daqueles casos que não fazíamos ideia do que estávamos a combater. Endireitei-me.

- Desculpa, não sabia que estavas a dormir. – Disse ele.

- Não faz mal. – Respondi. – Onde é que estamos mesmo?

- Trenton, New Jersey. – Respondeu Bryan, a bocejar.

Saímos do carro e entrámos no hotel, eu e Jason ficámos num quarto e Bryan ficou noutro, como já estava a ser habitual. Ainda era de manhã, Jason tinha estado a conduzir durante a noite toda, por isso ficou a dormir um bocado enquanto eu e Bryan decidimos dar uma volta pela cidade, para vermos se descobríamos alguma coisa que nos ajudasse a determinar o que é que estávamos a enfrentar.

- Odeio este tipo de casos. – Disse Bryan, enquanto caminhávamos.

- Que tipo de casos?

- Quando vamos enfrentar uma coisa às cegas, sem saber o que é.

- Também não posso dizer que gosto, mas pensa positivo, há coisas piores.

- Talvez sim. Então, o que achas que pode ser esta criatura que estamos prestes a enfrentar?

- Pensei em várias coisas, é óbvio que gosta de traquinices, e leva as pessoas à loucura… e faz com que se matem, mas não parece ser o tipo de coisa com que temos lidado. Tecnicamente, ele não mata ninguém, as pessoas é que se acabam por suicidar…

- Não quer dizer que ele não tenha influência…

- Não, claro que não, ele influência tem, mas não acho que seja de propósito…

- Achas que estamos a lidar com uma criatura boa?

- Não sei… acho um bocado difícil, mas já estou por tudo.

- Então e mudando de conversa… como é que vão as coisas com o Jason?

- Normais.

- Bem, que entusiasmo... – Disse ele, fazendo gestos com as mãos.

- Estão bem Bryan, não tens nada com que te preocupar.

- Ainda bem.

Passámos montes de tempo na rua, a falar com as pessoas e à procura de qualquer coisa que nos desse qualquer pista, mas nada. Mais tarde Jason juntou-se a nós e passámos a tarde também a fazer perguntas às pessoas que encontrávamos.

Jantámos hambúrgueres num bar que encontrámos e depois voltámos para o hotel, um bocado desiludidos.

Fui para a casa de banho do quarto e tomei um duche. Quando voltei para o quarto Jason já estava enfiado na cama. Vesti o pijama e deitei-me ao lado dele.

- As coisas hoje não deram em nada. – Lamentou ele.

- Pois não… mas foi só o primeiro dia, não podemos desanimar já.

Bocejou.

- Tens razão. Estou cheio de sono, boa noite.

- Não tens vergonha? Passaste a tarde toda a dormir e já estás com sono outra vez? – Ele não me respondeu e quando me virei para ele vi que já estava a dormir.

Enrosquei-me nos lençóis e adormeci rapidamente. Quando acordei já estava sozinha no quarto. Levantei-me e vesti uns calções pretos e uma blusa verde clara. Calcei umas botas pretas, curtas e deixei o cabelo solto.

Ao sair do quarto choquei com Bryan.

- Estás com pressa. – Não era uma pergunta.

- Desculpa. – Pedi. – Viste o Jason?

- Sim, ele está no meu quarto, como estavas a dormir não te quis acordar. Aconteceu uma coisa estranha durante a noite, vai ter com ele, eu vou buscar pequenos-almoços e já lá vou ter.

- Ok.

Fui ter com Jason. Dei-lhe um beijo e sentei-me na cama, ao lado dele.

- Bom dia! Então, que aconteceu?

- Eu tive um sonho. – Revelou ele. A sua cara estava pensativa, e um bocado distante.

- E isso é estranho porque…

- Foi do teu tipo de sonho.

- Tipo… previsões?

- Acho que sim…

- Bem, sonhaste com o quê?

- Eu estava numa sala muito escura, e tinha esta coisa, este elfo, ao pé de mim, a andar à minha volta aos saltos e a gozar comigo…

- Um elfo? – Abafei um riso. – Tens a certeza?

- Acho que sim…

- E porque é que achas que é um sonho como os meus?

- Porque foi intenso… foi como se fosse real… foi estranho…

- Ok… reconheces esse elfo em algum livro?

- Não, eu e o Bryan já procurámos mas ainda não encontrei nada.

De repente tive uma ideia.

- Jason, ainda te lembras de como era o aspecto do elfo?

- Sim, acho que sim…

Peguei num papel e num lápis que estavam em cima da mesa-de-cabeceira e pedi a Jason que me dissesse os pormenores e as feições do elfo. Passado poucos minutos Bryan chegou e ficou de boquiaberto com o desenho, que, apesar de ainda não estar terminado, estava a ficar espectacular.

- Acho que os olhos eram mais pequenos. – Disse Jason, apontando para o desenho. – E o nariz… o nariz era definitivamente maior…

- Mais largo ou mais longo? – Perguntei.

- Mais largo. E a boca, era mais estreita. Ah, e tinha barba.

Bryan e eu ficámos a olhar para ele, o desenho, apesar de estar a ficar fabuloso, estava a ficar bizarro, e cada vez mais, com as coisas que ele me mandava acrescentar ou tirar. Acabei e mostrei-lhe o desenho.

- É isso mesmo! – Aclarou ele, feliz.

- Então… - Disse Bryan. – Estás a dizer que sonhaste que uma coisa com cabeça de pássaro, com um nariz comprido e barba gozava contigo? – Desatou-se a rir, e eu também não me aguentei.

- Não tem graça! Foi isso mesmo! Esse foi o monstro do meu sonho! – Objectou ele.

- Desculpa Jason mas… isso é um bocado ridículo… - Disse eu. – Talvez fosse apenas um sonho esquisito e não do meu tipo de sonho…

- Vocês não acreditam em mim. Perfeito! Eu estou a dizer que foi isso e que é o responsável das mortes na cidade, seja por que for, é isso.

Passámos o resto do dia sem encontrar qualquer explicação para as mortes na cidade e fomos a uma cena de crime, da última morte, que tinha ocorrido anteontem.

A casa da vítima estava uma bagunça, tinha sapatos pendurados nos candeeiros e os móveis fora dos sítios, alguns mesmo amontoados uns nos outros. Não encontrámos mesmo nada que nos fosse útil. Voltámos para o hotel, já um bocado frustrados e fomos para o meu quarto e de Jason. Bryan deixou-se cair na cama, exausto.

- Que raiva! Isto não está a dar em nada! – Queixou-se.

Sentei-me ao lado dele.

- Vou ter que concordar. É um bocado para o frustrante. – Disse eu.

- Estou-vos a dizer, são aqueles elfozinhos que andam a fazer isto tudo. – Jason parecia mesmo determinado, parecia mesmo acreditar no que dizia, apesar de ser completamente ridículo.

Fomos dormir e como estava estafada, assim que caí na cama adormeci. Acordei com Bryan a abanar-me.

- Mel, preciso de ver o desenho do elfo. – Disse ele.

- Porquê? – Perguntei, bocejando.

- Ele sonhou com ele. – Respondeu Jason, já levantado e vestido.

- Estás a brincar certo? – Perguntei levantando-me, e alcançando o desenho que estava dentro da minha mala. Dei o desenho a Bryan.

- Não. Foi com isto que sonhei. Eu estava num sítio escuro e esta coisa andava à minha volta, a cantarolar e a gozar com a minha cara. – Disse Bryan.

- Tu também?! – Suspirei. – E os vossos sonhos foram idênticos?

- As coisas batem certo… - Respondeu Jason. – Vale a pena investigar.

- Tudo bem. – Cedi. – Vamos lá investigar então um elfo… vou só tomar um duche e já vou ter com vocês lá abaixo.

Fui para a casa de banho e pus a toalha pendurada no puxador da porta, por cima de outra, mais pequena, para embrulhar o cabelo. Pus a água a correr e entrei para a banheira. Quando ia alcançar o meu gel de banho não o vi.

- Que estranho, ia jurar que tinha deixado o gel de banho aqui…

Acabei por usar o de Jason. Saí da banheira e embrulhei-me na toalha, quando olhei para o puxador da porta, já lá não estava a toalha mais pequena para o cabelo. Ouvi um pequeno ruído.

- Está aí alguém? – Perguntei. – Não tem graça. Quem está aí?

Os meus chinelos de enfiar o dedo também já lá não estavam por isso saí da casa de banho descalça e observei o quarto, muito cuidadosamente. Vi os meus chinelos em cima do roupeiro. “Que raio…”, pensei, desconfiada. Pus-me em bicos de pés e tirei-os de lá de cima. Pu-los no chão e calcei-os.

Fui até à outra extremidade do quarto e quando abri a minha mala para tirar roupa… nada. Estava completamente vazia.

- Ohh já percebi. Jason, Bryan, desculpem não ter acreditado em vocês… já me podem devolver as coisas?

Ouvi passos pequenos a andarem de um lado para o outro, como passos de ratos, mas não vi nada.

- Ok… já estou a ficar assustada…

Voltei a ouvir os pequenos passos e olhei para baixo. Estavam umas criaturas estranhíssimas ao pé dos meus pés. Tinham umas cabeças de pássaro com os narizes muito longos e bigodes. Não eram mais altas que um polegar e estavam vestidas com trapos.

Sorriam-me malignamente com as suas bocas estreitas e com os seus pequenos olhos a olharem-me. Uma delas espetou-me uma coisa no pé e eu, como reacção, dei-lhe um pontapé. Ela voou para o outro lado da cama e as outras desapareceram. Pus-me em cima da cama, deitada e espreitei. Ela continuava a sorrir-me maliciosamente. Moveu-se a uma velocidade sobrenatural e de repente desapareceu. Que coisa seria aquela?

Mandei uma mensagem a Jason para que viessem ter comigo ao quarto visto que não tinha roupa. Sentei-me na cama à espera.

- Então Melanie, que aconteceu? – Perguntou Jason, ao entrar sobressaltado no quarto, com Bryan atrás dele.

- Eu fui atacada.

- Pelo quê? – Perguntou Bryan. – E não tiveste tempo de te vestir?

- Eles roubaram as minhas coisas. Coisas minúsculas, do tamanho de um polegar… com cabeça de pássaro e nariz comprido… com barba. – Até eu achava isto ridículo, mas sabia o que tinha visto.

- Estás a gozar connosco? – Perguntou Bryan, com uma feição chateada.

- O quê? Não! Aquelas coisas são reais, eu vi-as. Elas roubaram-me as roupas e o gel de banho!

- Melanie… isso soa um bocado mal… ridículo… - Disse Jason.

- A sério?! Vocês fazem de tudo para me convencer disto e quando finalmente acredito pensam que estou a gozar?

- Não é isso, é só que… não tens mesmo nada para vestir? – A voz de Bryan parecia agora uma voz de quem estava a apreciar que eu estivesse tão embaraçada.

- Não… podes-me emprestar qualquer coisa? – Pedi, a olhar para Jason.

- Claro. Tira o que quiseres, nós esperamos lá fora. – Respondeu ele.

Segundos depois de eles saírem, bateram à porta e Jason voltou a entrar. Trazia na mão um sutiã preto, com umas rendas a cor-de-rosa claro e umas cuecas também pretas.

- Achámos isto ao pé das escadas… - Disse ele, mandando-me as coisas. – Tenho a certeza que é teu.

- Obrigado. – Respondi, agarrando as coisas.

Vesti uma t-shirt do Jason, azul escura, que me dava abaixo da cintura, com umas calças cinzentas de fato de treino, que eram as únicas que não me caíam pelas pernas abaixo e continuei com os meus chinelos pretos, de enfiar o dedo. Prendi o cabelo com um elástico que tinha no pulso, visto que não tinha o meu secador para o secar. Desci as escadas. Quando cheguei ao pé deles, começaram-se a rir.

- Uau Mel, acho que estás no ponto alto do teu charme. – Gozou Bryan.

- Mais bonita que nunca. – Disse Jason, pondo o seu braço à volta da minha cintura e dando-me um beijo na cabeça.

- Gozem, gozem. Pode ser que os próximos sejam vocês. Olhem lá… - A minha atenção estava agora virada para um pequena maleta, que estava dentro do vaso de uma planta artificial. – Aquilo não é o meu estojo de maquilhagem?

Não esperei pela resposta e aproximei-me, constatando que de facto, era o meu estojo de maquilhagem.

- Perfeito! As minhas coisas andam espalhadas por todo o lado. Tudo o que poderia desejar para hoje…

Agarrei na pequena maleta e levei-a para o quarto.

Fomos tomar o pequeno-almoço a um bar na rua ao lado e depois voltámos para o hotel. Eu sentei-me na cama, com o computador portátil, a ver se encontrava qualquer coisa que nos ajudasse a identificar aqueles serezinhos minúsculos, enquanto Jason e Bryan davam uma vista de olhos pelos livros que tínhamos levado.

- Encontrei! – Gritei. Eles sentaram-se ao meu lado, um de cada lado. – São Tengus!

- Até o nome é esquisito. – Brincou Jason. – Diz aí que são criaturas com cara de pássaro, narizes longos, blá blá blá… não diz é como é que os matamos…

- Olha para esta parte aqui. – Disse eu, apontando para o monitor. – Diz que eles podem mudar de forma, teletransportar-se, e penetrar nos sonhos dos mortais, isso explica porque é que vocês sonharam com eles.

- Também diz que gostam muito de pregar partidas e causar desordem… por isso é que as pessoas ficam malucas… - Continuou Bryan.

- Mas mesmo assim, não nos ajuda a saber como os matar. – Disse Jason.

- Eu sou a favor de os pisarmos. – Disse eu, pondo o braço no ar.

- Não… eles podem teletransportar-se…

- Podia explodi-los… - Pensei em voz alta, baixando o braço.

- Não… o mais certo era explodires o chão, porque eles se teletransportavam… - Disse Bryan.

- Vocês falam, falam, mas não vos estou a ouvir a dizer ideia nenhuma. – Queixei-me.

Comemos pizza, que tínhamos encomendado para o almoço.

Olhei para o meu pé, o pé em que tinha sentido a picada. Estava a começar a inchar um bocado, será que me injectaram veneno? Não faz sentido, afinal, eles nunca contribuem para a morte das vítimas, não directamente. Comecei a ver as coisas à roda e a minha cabeça começou a doer.

- Eu… não me estou… a sentir… muito bem… - Sentia-me como se estivesse a alucinar.

Vi as coisas a aumentarem de tamanho, tudo, as mobílias do quarto, Jason e Bryan, as almofadas, o computador, tudo. Olhei para cima, Jason e Bryan pareciam completamente confusos, a olhar em todos os lados, à minha procura. Nada tinha aumentado de tamanho, eu é que diminuí.

- Estou aqui! – Gritei, aos saltos no colchão fofinho. – Jason! Bryan! Estou aqui, olhem para baixo!

Não estava a resultar, a minha voz não era suficientemente alta para chegar aos seus ouvidos, afinal, eu estava do tamanho de um polegar, se não mais pequena.

Subi, a muito custo, para o computador portátil que estava em cima da cama e pus-me lá aos saltos, até que finalmente me viram.

- Mel! – Gritou Jason, quer dizer, para mim parecia que ele tinha gritado por estar tão pequena, mas ele falou num tom normal. – O que é que aconteceu?

Levei a mão aos ouvidos.

- Fala mais baixo! – Gritei. – Vais-me rebentar os tímpanos!

- O quê? Não conseguimos ouvir! – Disse Bryan, agora, de certeza, a gritar, como se eu é que não os ouvisse.

Comecei a andar lentamente até Jason e a trepar pela sua blusa. Ele agarrou-me, muito gentilmente e pousou-me no sou ombro. Aproximei-me da sua orelha.

- Encolhi! – Gritei.

- Ai! – Estremeceu ele. – Não precisas de gritar. Já percebi que encolheste! Mas como?

- Não sei… espera… eles picaram-me, com qualquer coisa… talvez tenha sido isso que me encolheu…

- O que é que ela está a dizer? – Perguntou Bryan. Jason fez-lhe um sinal para esperar.

- Oh não. – Murmurei.

- Que foi?

- Problemas a chegar! – Disse eu, apontando para talvez quinze tengus a subirem para a cama. – Eu vou dar em louca! – Deixei sair. – Eu vou dar em… LOUCA! É isso Jason, eles encolheram as pessoas e depois mataram-nas, por isso é que quando elas voltaram ao tamanho normal não se conseguiu notar nada!

- Como é que os impedimos de te fazerem o mesmo? – Perguntou Bryan, com a sua orelha encostada ao ombro de Jason, onde eu estava.

- Sei lá, soprem! – Disse eu. – Eu vou lutar. Não se mexam, vou saltar!

Saltei do ombro de Jason e aterrei no colchão, fofinho. Fiquei aos saltos, do impulso, durante um tempo, até que me consegui pôr em pé, ainda que um bocado tonta. À medida que eles se aproximavam, eu ia afastando-os, até porque não sabia como os matar, mas eles eram cada vez mais. Chegou-se um ao pé de mim, e largou a espada que tinha na mão, que caiu para o colchão.

- Nós não queremos lutar. – Disse ele, com uma voz muito fininha.

- Vocês é que mataram aquelas pessoas, não fui eu. – Retorqui.

- Nunca quisemos magoar ninguém, só queríamos brincar. Eu sou Akhu, o líder. E nós viemos em paz, queremos apenas divertirmo-nos.

- Eu sou Melanie, a caçadora. – Disse eu, engasgando-me ao tentar imitar o tom de voz dele. – Porque é que me encolheram?

- Não fomos nós. Foi Akhi. Ele é mau, ele sim, matou aquelas pessoas.

- Então… tu és o Akhu, o bom, e ele é o Akhi, o mau?

- Sim, nós precisamos da tua ajuda para o destruir, precisamos que nos auxilies nesta luta.

- E porque é que me roubaram as coisas?

- Porque precisávamos de chamar a atenção.

- E precisaram de espalhar a minha roupa interior porque…

- Isso foi só porque achámos engraçado. – Disse ele, rindo-se e riram-se todos, atrás dele.

Revirei os olhos.

- Então, onde é que está o Akhi?

- Aqui.

- Foi o que eu disse… - Será que não me percebiam?!

- Não, o Akhi está aqui. – Disse ele, apontando para outro ser igual a eles, outro tengu, porém, de cor avermelhada, que vinha, a correr, ter connosco. Senti-me a corar, por não ter percebido quando ele o disse pela primeira vez.

- Ok, eis o acordo, eu mato o Akhi e vocês devolvem-me tudo.

- Ok.

- Empatem-no. – Pedi.

Virei-me para Jason e Bryan e comecei aos pulos e a fazer gestos, até que eles finalmente perceberam e me agarraram. Jason voltou a pousar-me no seu ombro. Bryan aproximou-me.

- Ok, oiçam bem. – Disse eu. – Estão a ver aquele vermelhinho ali?

- Estamos. – Respondeu Bryan.

Estremeci.

- Não precisas de gritar, estou pequena, não surda. Ok, eu vou atraí-lo para o chão e quando estiver longe dele, vocês pisam-no, ok?

- E se te pisarmos a ti? – Perguntou Bryan.

- Se eu vir que algum de vocês me vai a pisar expludo-vos o pé, por isso, um pequeno conselho: se querem manter o pé, não me tentem pisar.

- Boa sorte. – Disse Jason, agarrado em mim e pondo-me de volta na cama.

Os outros tengus já se tinham ido esconder, alguns atrás de almofadas e outros estavam a subir por Jason e Bryan, que os iam agarrando.

- Pronta para morrer? – Perguntou Akhi, com uma voz muito fininha.

- Só se for pela tua voz. Desculpa lá, mas assim não metes medo a ninguém… - Gozei.

Ele veio contra mim com uma força gigantesca e, com um pontapé no ar, derrubou-me. “Ok, talvez não estivesse a ver muito bem as coisas”, pensei. Levantei-me e comecei a atravessar a cama e mais rápido que consegui. Agarrei-me às partes laterais da colcha e deslizei até ao chão, com Akhi sempre a seguir-me.

Começámos a lutar, ele era muito bom nas artes marciais e deitou-me ao chão umas quantas vezes. À distância a que estávamos um do outro era impossível para Jason ou Bryan pisarem-no sem me pisarem a mim. Explodi-o, porém, como o líder dos tengus me tinha dito, não funcionou. Olhei para os meus amigos, que observavam a luta, prontos para deixarem o pé cair assim que houvesse oportunidade.

- Ok, plano B. – Murmurei.

Com um pequeno gesto com a mão, Akhi “voou” para talvez cinco metros de onde eu estava, isto, visto na minha perspectiva, porque foi à tira que Bryan o pisou sem me acertar.

Comecei a ver as coisas a diminuírem de tamanho e em poucos segundos estava do meu tamanho normal. Aproximei-me do líder os tengus e pu-lo ao pé do meu ouvido.

- Obrigado pela ajuda. – Disse ele.

- De nada.

- As tuas coisas estão debaixo da cama, pedi a uns súbitos meus que as trouxessem há poucos segundos atrás.

- Ouve… como é que voltei ao meu tamanho normal? Não é que me esteja a queixar…

- Apenas Akhi tinha o poder de diminuir as pessoas, com ele morto, elas voltam ao seu tamanho normal. Agora vamos embora. Mais uma vez, obrigado.

Eles foram-se embora e eu recuperei as minhas coisas, e mudei de roupa. Bryan foi ao quarto buscar um casaco para irmos jantar. Sentei-me na cama.

- Pareces cansada. – Observou Jason.

- Isto de ser encolhida tem muito que se lhe diga.

- Eu cá acho que estavas fofinha. – Brincou ele.

- Pois… - Virei-me para ele. – Mas com aquele tamanho há bastantes coisas que não podíamos fazer.

- Lá isso é verdade. – Beijou-me.

- Então, já estão preparados? – Perguntou Bryan, com a cabeça dentro do quarto.

- Já não há privacidade nenhuma. – Queixou-se Jason.

Soltei uma gargalhada.

10 comentários

Comentar post