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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 15.11.10

Eu não sei porquê mas tenho uma panca qualquer por sereias xD

Espero que gostem ;)

 

Capítulo 26

O Fundo do Oceano

 

- Vais mesmo obrigar-nos a fazer isto? – Perguntou Jason, enquanto eu o puxava em direcção à areia.

- Absolutamente. – Respondi.

- Mel, não leves a mal, mas não me apetece nada ficar a tarde toda na praia. – Refilou Bryan.

- Pessoal, vá lá. Pela primeira vez em muito tempo acabámos um caso num dia, e agora podemos relaxar um bocadinho antes de nos virarmos para outro… é só uma tarde, qual é a pior coisa que pode acontecer em passar-se uma tarde na praia?

- Sabes, quando as pessoas perguntam qual é a pior coisa que pode acontecer, as coisas pioram sempre, de uma maneira ou de outra… - Disse Jason.

- Está bem, está.

Já nos encontrávamos na areia.

Deixei a toalha cair e pousei a mala. Despi dos calções e a blusa, ficando com o meu biquíni azul e castanho e contemplei o mar.

As ondas estavam calmas, faziam várias tonalidades de azul esverdeado ao subirem e descerem… respirei fundo, o cheiro do mar era dos meus preferidos, e só de observar a sua formosura, a sua graciosidade, ficava mais calma. A praia era, definitivamente, dos meus sítios preferidos desde que me lembro.

Pus os óculos de sol na cabeça e estendi a toalha. Pusemos protector solar e depois estendi-me na toalha. Passados poucos minutos já estava a queimar, precisava de ir dar um mergulho.

Sentei-me na toalha.

- Eu vou dar um mergulho. Não querem vir? – Perguntei.

- Não… acho que vou ficar aqui mais um bocado. – Respondeu Bryan.

- Eu vou. Não fico aqui a fazer nada. – Jason levantou-se e estendeu-me a mão, para me ajudar a levantar também.

Deixei os óculos de sol na toalha e encaminhámo-nos de mão dada até à beira da água. A água não estava gelada, mas também não estava quente, estava… agradável. Estava um bocado reticente à entrada, depois de ter estado a apanhar sol, o choque da água era maior. Jason assim que lá chegou, entrou repentinamente, mergulhando logo de cabeça. Eu molhei-me até à cintura, a pior parte vinha agora, a barriga e as costas.

- Então, não te molhas? – Perguntou ele, com um sorriso travesso, dirigindo-se a mim.

- Jason, nem penses nisso! – Tarde demais, agarrou-me, levantou-me e deixou-me cair na água, deixando-me completamente submersa. Voltei à tona. – Tu és terrível!

- Eu sei, mas tu gostas. – Riu-se e beijou-me.

Abanei a cabeça e respirei fundo.

- Que foi? – Perguntou.

Olhei para ele e sorri.

- Eu vou vingar-me. – Disse eu.

- Ui, que medo. – Brincou, mandando-me água.

Olhei em volta e, tendo a certeza que ninguém nos observava, com um pequeno gesto debaixo de água, criei uma pequena onda que o mandou abaixo. Jason era um excelente nadador, aquilo, para ele não era nada. Ficou submerso durante uns segundos e depois surgiu por trás de mim, pondo os seus braços à volta da minha cintura.

- Isso foi muito mau. – Queixou-se.

Ri-me e virei-me para ele. Pus os meus braços à volta do seu pescoço. Agora, como estávamos, fez-me lembrar de quando namorávamos há seis anos e íamos para a praia, lá em Los Angeles.

- Eu sei. Mas agora estamos quites. – Sorri.

- Eu sou vingar-me. – Avisou.

- Vou estar à espera.

A tarde correu mais tarde do que desejava, era agradável estar ali na praia, na companhia deles os dois, era quase como se as nossas vidas fossem normais. Vicky e Gabriel apareceram por lá quando eram quase seis horas e eu e Jason aproveitámos para irmos dar um passeio pela praia e namorar um bocadinho, sem que tivéssemos que deixar Bryan sem companhia.

Passeámos à beira mar até ao sol se pôr e quando estávamos prestes a voltar para trás, uma coisa chamou-me a atenção.

- Jason, queres ir até ali? – Perguntei.

- São só rochas Mel, o que é que achas que lá há?

- Não sei, é que… eu sinto que devíamos lá ir… não consigo explicar lá muito bem…

- Está a ficar tarde.

- Eu sei, eu sei. São só cinco minutos. – Larguei a mão dele e comecei a caminhar em direcção àquela enorme parede de rochas.

- Eu não acho que isto seja boa ideia. E se há uma derrocada? – Ele continuava a vir atrás de mim.

- Não te preocupes. Entramos e saímos, tão simples como isso.

Desviei uma pedra enorme com os meus poderes e baixei a cabeça enquanto entrava pelas rochas. Jason vinha atrás de mim. Parei e fiquei de boca aberta.

- Estás a ver o mesmo que eu estou a ver? – Perguntou Jason, surpreendido.

- Acho que sim… uau.

À nossa frente estava uma pequena fonte, feita por buracos nas rochas que deixavam entrar a água do mar e que formava uma pequena lagoa. Exactamente no meio da lagoa estava uma ilha minúscula, apenas com uma arca aberta em cima, com moedas e pedras preciosas lá dentro. Tudo, à excepção da pequena lagoa, era de areia e tinha, pelo chão, espalhadas várias moedas e colares de pérolas, coroas de ouro e rubis. Parecia-se como os sítios em que os piratas se encontram nos filmes, aquelas pequenas grutas onde escondem os seus tesouros.

- Fixe! – Gritou Jason. – Piratas!

- Nós não sabemos isso. – Adverti.

- Oh, vá lá, vais dizer que não era bem fixe que encontrássemos piratas?

- Jason, os piratas são descritos como pessoas más… não sei até que ponto os boatos são reais, além disso… já não existem piratas como existiam antigamente…

- Mesmo assim. Já viste isto tudo?! É espectacular. – Ele parecia completamente maravilhado.

Aproximei-me da extremidade da lagoa e espreitei para o seu fundo. Encandeava um brilho muito intenso, como se tivesse diamantes lá em baixo. Inclinei-me lentamente, quase em transe devido ao brilho intenso irradiado pelo fundo da lagoa.

- Whoa. – Disse Jason. Olhei para ele, estava também inclinado, mas agora, a tentar recuperar o equilíbrio. – Tem cuidado com a extremidade, é escorregadio.

- Ok.

Continuei a contemplar as pedras preciosas e estava tão intrigada que me devo ter aproximado demasiado da beira, a terra desabou e eu caí, para dentro de água.

Voltei à superfície segundos depois, Jason estava inclinado, à espera que eu dissesse alguma coisa.

- Estás bem? – Perguntou, estendendo-me a mão. – Eu avisei-te.

- Eu sei, eu… eu estou-me a sentir um bocado esquisita… - Murmurei, dando-lhe a mão.

Ele largou-a, sem me puxar e ficou a olhar assombroso para mim.

- Mel… tu… tu tens um… rabo… tu és uma sereia. – Murmurou.

Olhei para o resto do meu corpo.

Jason tinha razão, aquilo fora tudo demasiado rápido para eu notar, mas de facto, o meu corpo estava diferente. Tinha um rabo de sereia, lilás clarinho e a parte de cima de um fato de banho cai-cai, preto. Tinha uma flor no meu cabelo, que tinha várias pequenas tranças feitas ao longo.

- Oh meu Deus. – Suspirei. – E sou uma… sereia. – Olhei para Jason. – O que é que fazemos agora?

- Fica aqui, eu vou buscar o resto do pessoal, não demoro, prometo. Não vás a lado nenhum. – Disse ele, saindo.

- Onde é que podia ir?! – Perguntei-me, depois de ele sair.

Voltei a olhar para o fundo da lagoa, onde me encontrava dentro. Fechei os olhos e mergulhei a cabeça durante um tempo. Abri-os segundos depois e constatei que conseguia respirar. Comecei-me a rir. Fui até ao fundo, que ainda era muito fundo, e agarrei num diamante. Era tão brilhante, mesmo debaixo de água. Voltei à superfície. Era incrível como o meu corpo trabalhava, era exactamente como ter pernas, só que… diferente. A minha “barbatana” fazia exactamente o que o meu cérebro mandava, tal e qual como acontecia com as minhas pernas. Podia respirar debaixo de água como se fosse um peixe e conseguia, de facto, nadar até grandes profundidades sem sentir qualquer tipo de má disposição devido à profundidade ou até à temperatura da água. Era uma sereia, e até agora, não era nada mau.

- Mel! – Gritou Jason.

- Estou aqui! – Respondi.

Eles aproximaram-se e das caras que fizeram, só me apeteceu rir. Pareciam surpreendidos mas ao mesmo tempo horrorizados. Pus o diamante na margem.

- O fundo da lagoa está cheio deles. – Afirmei.

- Como é que isto de aconteceu? – Perguntou Gabriel.

- Não sei… eu caí aqui e depois puff, já tinha um rabo de peixe. – Respondi.

- Uau… isso é tão estranho. – Disse Bryan.

- Mas até não é mau, dá uma sensação de… liberdade.

- Isso é o chamamento do mar, querida. – Disse Vicky. – Faças o que fizeres, não te deixes ir por ele, ou podes nunca mais voltar.

- É assim tão mau? – Perguntou Jason.

- O mar tem vários chamamentos, e todos os sentimos, mas para as sereias é mais intenso, mais especial. O seu habitat é nos mares e oceanos, por isso, quando se encontram neles, raramente saem. A Mel é agora, uma sereia, por isso vai-lhe acontecer o mesmo. – Explicou Gabriel.

- Então e se a tirarmos da água? – Perguntou Bryan.

- Morrerá. Sereias não conseguem sobreviver fora de água, porque são, no fundo, peixes. – Disse Vicky.

- Ei! – Disse, com um tom ofendido. – Eu não sou um peixe! Sou uma sereia bruxa e caçadora!

- Na verdade, és apenas uma sereia. Sendo sereia, já não tens os teus poderes. – Disse Gabriel.

- O quê? – Tentei explodir uma rocha. Nada. – Oh não! E agora?

- E agora não podes sair daí. – Disse Jason. – Nós vamos encontrar uma solução.

- Vão-me deixar aqui sozinha? – Apesar de normalmente não me importar de ficar sozinha e até gostar de não ser controlada, a verdade é que nesta situação não me conseguia defender de nada.

- Claro que não. Vamos fazer turnos. – Respondeu Vicky.

- Eu fico com o primeiro. – Disse Jason, sentando-se no chão. – Vão lá tentar descobrir qualquer coisa.

- Ok, eu venho trocar contigo dentro de duas horas ok? – Perguntou Bryan.

- Combinado.

Jason ficou lá comigo e passado pouco tempo a escuridão inundou a pequena gruta em que nos encontrávamos. Jason acendeu uma lanterna que, direccionada para as pedras preciosas fazia luzes e reflexos de todas as cores. Passados uns minutos ele adormeceu. Voltei a submergir e dei várias voltas à pequena ilha, enquanto dava piruetas e cambalhotas.

- Melanie. Vem. Melanie. – Disse uma voz.

Procurei de onde vinha, mas não encontrei nada além de um buraco que ia dar ao oceano, um buraco suficientemente grande para eu passar por ele.

- Melanie, estás aí?!

Esta voz sim, conhecia. Voltei à superfície e observei Vicky. Não tinha dado por Bryan ter trocado de turno com Jason nem de Vicky ter chegado.

- Novidades?

- Nada de novo. – Respondeu ela.

- Ouve… posso estar a delirar, talvez por ter o cérebro inundado mas… podia jurar que ouvi alguém chamar o meu nome…

- Enquanto estavas debaixo de água?

- Sim.

- Como é que soava?

- Não sei explicar bem, era como um eco… uma coisa muito leve, como um suspiro…

- Faças o que fizeres, não sigas essa voz Mel.

- Porquê?

- É o chamamento do oceano.

- O oceano sabe o meu nome? – A minha voz estava agora céptica.

- É verdade. – Reforçou ela.

- Tudo bem. Acho que por esta altura até estou disposta a acreditar no Pai Natal. Posso voltar para baixo de água?

- Não faças estupidez nenhuma Melanie McKensie.

- Credo, pareces os meus pais. – Mandei-lhe água. – Não te preocupes, eu não vou a lado nenhum.

Voltei a mergulhar, agora já me sentia melhor dentro de água do que fora, era como se no fundo, fosse mesmo uma sereia. Uau, uma sereia. Quão estranho era aquilo? Afinal, depois de tanto tempo a combater monstros, nunca sequer pensei que aqueles em que se ouve falar mais existem. É tão estranho perceber que não tenho problemas em acreditar em fantasmas ou lobisomens mas quando se trata de sereias ou do pé grande é diferente.

Ao longo do tempo descobri que não se perde nada só por se acreditar. As pessoas não perdem nada por acreditarem numa coisa, mas podem ganhar muito. Depois de todos estes monstros, acho que não seria assim tão difícil de acreditar no grande homem das neves ou em faunos… afinal, a maioria das pessoas também não acredita em vampiros e bruxas, e eu sou uma.

Comecei a ouvir de novo aquele suave murmúrio a chamar-me, a puxar-me. Voltei a aproximar-me do buraco e observei o oceano. Visto daqui de baixo, não se parece, de maneira nenhuma com o oceano que se costuma ver à superfície. Aqui as coisas são sempre calmas, estão sempre tranquilas, quase sem movimento. Apenas uma grande intensidade de uma cor azul esverdeada. “Não vai fazer mal só uma espreitadela”, pensei. Saí pelo buraco e senti-me bem, tinha aquele enorme oceano à minha espera e não tinha nada que me impedisse de o ver de uma ponta à outra.

- Vem a mim. – Sabia que era o chamamento do oceano e que estava errado segui-lo, mas a esta altura era demasiado tarde para voltar para trás, já lá estava, já estava numa espécie de transe, como se o meu corpo agora já não se importasse com a minha vontade e pior, como se a minha vontade fosse realmente viajar pelos sete mares.

Comecei a nadar de um lado para o outro, sentia-me livre, como se pudesse fazer qualquer coisa, como se fosse imbatível. Coleccionei algas e conchas e enfeitei o meu cabelo, nadei com vários tipos de peixes e sentia-me como nunca me tinha sentido antes. Já estava a começar a ficar cansada quando adormeci, em cima de uma rocha. Acordei um bocado sobressaltada, como não estava à espera. Como era possível ser uma sereia e continuar a ter os meus sonhos mágicos mais não poder explodir ou mover coisas? Mas talvez isso agora seja a última prioridade para me preocupar. Agora tinha era que me preocupar com o que tinha visto.

Vicky e Gabriel disseram que as sereias não podem sair da água, e não têm a força para sequer sair do oceano. Mas eu não era uma sereia, eu sou uma bruxa, uma caçadora, e estava a misturar as coisas. Comecei a nadar de volta para a gruta e quando estava prestes a entrar nela, comecei a ouvir de novo a “voz” do oceano.

- Melanie… vem a mim, vem a mim…

- Lamento, não vai dar. – Respondi, entrando na gruta.

Nadei até à superfície e espreitei. Vi-os, aos meus amigos, encostados à parede por sete… piratas.

- Piratas. – Estremeci. – Vá lá, eu não posso ser uma sereia, não agora, eu preciso de ser humana…

Olhei para baixo, para a infinidade de diamantes que estavam no fundo da lagoa. Apanhei uns quantos e mandei um, a um dos piratas, que se voltou. Mergulhei para me esconder. Fiz este processo durante um tempo até que eles começaram a ficar transparentes. Aos poucos, foram desaparecendo, e com eles, toda a riqueza naquela gruta. Submergi para ir buscar mais diamantes para o caso de voltarem. Agarrei três e mais ou menos a meio do caminho para cima comecei a ficar sem ar. Olhei para o meu corpo, estava normal, tinha os meus pés de volta e estava com o meu biquíni azul e castanho vestido, tal e qual como quando caí à água.

Larguei os diamantes e comecei a nadar para a superfície. Era inútil, os meus pulmões estavam sem ar e o meu coração a bater cada vez mais rapidamente, até que começou a abrandar, cada vez mais, e comecei a ver as coisas turvas.

Não sei se estava longe ou perto da superfície, apenas que estava a perder as forças e a afundar cada vez mais. Vi uma imagem, parecia um deus grego, agarrou-me e começou a levar-me para a superfície. Estendeu-me de barriga para cima, na areia.

- Vá lá Mel, respira. – Dizia ele.

Comecei a tossir e queria dizer-lhe que estava bem, queria dizer-lhe que me tinha salvado a vida, e quando comecei a respirar normalmente, sentei-me.

- Estou bem. – Pronunciei, calmamente.

- Graças a deus. – Disse Jason, abraçando.

- Não. – Sussurrei ao seu ouvido. – Graças a ti.

Afinal, aquela gruta era uma gruta fantasma que aparecia a cada 300 anos com os piratas que lá guardavam o seu tesouro. Os piratas eram tão gananciosos que amaldiçoaram aquelas águas, para transformarem quem entrasse nelas, em meio humano, meio peixe, para que nunca pudesse sair com o tesouro.

- Não percebo. – Disse Bryan. – Se ela era uma sereia, como é que sonhou connosco?

- Acho que isso já vai além dos seus poderes. – Elucidou Gabriel. – Ela já tem uma relação tão forte convosco, que o seu sexto sentido desperta, assim que vocês são postos em perigo.

- Todos vocês. – Corrigi, tossindo em seguida.

Fomos para o hotel e descansámos. Seguiríamos viagem no dia seguinte, depois do almoço.

Levantei-me e vesti um biquíni roxo e branco. Fui para a praia e sentei-me na areia, com os braços a envolver as pernas. Observei o mar, tão calmo, e mesmo assim, tão chamativo. É verdade, o mar chama todas as pessoas de maneira diferente. Faz com que algumas o temam, com que outras o amem, mas no fim, todas acabam por ir ter com ele. Despi os calções castanhos e a blusa branca e corri na sua direcção. Um último mergulho antes de me ir embora.

- Eu sabia que te ia encontrar aqui. – Disse Jason, sentado na areia, ao lado das minhas coisas, quando saí da água. – Ainda não estás farta de água?

- Não. Eu adoro isto. – Sorri. Observei-o e depois abracei-o.

- Mel! Estás gelada! – Dizia ele, tentando esquivar-se.

- Exacto! – Brinquei.

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