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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 17.11.10

Capítulo 28

A visita da cegonha

 

- Onde é que ele está? – Perguntou Jason, enquanto se virava para todos os lados.

- Não sei, perdi-o de vista! – Respondi, procurando o vampiro com os olhos.

- Está ali! – Gritou Bryan, seguindo atrás de uma figura que se movia demasiado rápido.

Jason seguiu-o e eu fui atrás.

Enquanto corria as coisas começavam a andar à roda, a ficarem desfocadas e eu estava a cambalear cada vez mais. Parei e inclinei-me, com as mãos nos joelhos e respirei fundo. Já era a terceira vez que isto me acontecia nesta semana, e a somar aos constantes vómitos e má-disposição que tenho tido, estava a ser levada à loucura. Neste momento via as coisas a dobrar. Encostei-me a uma das campas do cemitério e recomecei a respirar fundo. Não sei o que se está a passar comigo, mas já dura há três semanas e quero, não, preciso que pare depressa.

- Olhem quem se perdeu. – Disse uma voz áspera.

Virei-me, com um bocado de esforço e vi um homem, com dentes enormes e brilhantes, e os olhos vermelhos vivos.

- Óptimo, foram dois para ao pé de ti e tu vens é ter comigo.

Semicerrei os olhos, com esperança de o poder focar melhor, mas não dava, sentia-me como se estivesse a desfalecer. Vi um murro a vir na minha direcção mas os meus reflexos estavam fracos e não me desviei a tempo. Bati com a cabeça na campa e de repente tudo ficou escuro.

Acordei numa cama de hospital, com montes de fios ligados a mim e com Jason a dormir na cadeira ao lado da cama e a agarrar-me na mão. Olhei em volta. O quarto era em tons de branco e tinha muitas máquinas espalhadas. Havia a cadeira ao lado da cama, em que o Jason estava sentado e um sofá à frente da cama, que neste momento se encontrava vazio. Sentei-me, ainda encostada à cabeceira da cama e ajeitei a almofada atrás das costas. Estava dorida, e ainda muito mal disposta, mas não me conseguia lembrar de muita coisa do que tinha acontecido, apenas do vampiro se ter aproximado de mim e me ter mandado ao chão. Jason moveu-se e abriu os olhos.

- Acordei-te? – Perguntei, já sabendo a resposta. Ele parecia estafado. – Desculpa…

- Não faz mal. – Disse ele. – Como é que te sentes?

- Esquisita…

- Mas… melhor?

- Bem… tenho fome. – Ri-me. Ele também soltou uma gargalhada.

- Lembras-te do que aconteceu?

- Pouco… sei que desmaiei, mas pouco mais… vocês mataram-no?

- Sim… e depois trouxemos-te para aqui. Mel… ias-me matando, tu não andas bem e eu já te tinha dito que era melhor descansares mais…

- Eu sei… desculpa.

Bateram à porta e vi uma figura muito bem apresentável. Era um homem, talvez com os seus quarenta anos, com o cabelo escuro e olhos azuis. Tinha um sorriso capaz de entrar para um reclame da trident.

- Posso interromper? – Perguntou.

- Claro, entre. – Respondeu Jason logo em seguida.

- Quem é que… - Ia eu a perguntar, porém, o homem do sorriso super-star não me deu tempo.

- Eu sou o teu médico. – Disse-me ele. – Posso-te tratar por “tu”?

- Sim, claro. – Respondi.

- Bem… tenho boas notícias e más notícias.

- Pode dizer. – Disse Jason, agarrando a minha mão com força.

- Bem… o teu namorado disse-nos como te tens andado a sentir mal disposta, com tonturas… e os seus exames revelaram o que eu já tinha suspeitado. – A cara dele estava muito calma, e transmitia-a.

- Au… - Queixei-me, olhando para Jason. – Estás-me a magoar…

- Desculpa. – Disse ele, apertando-me a mão com menos força. – Mas então doutor, quais são as novidades?

- Menina McKensie, parabéns, você está grávida! – Ele sorriu ao dizê-lo, mas tenho a certeza que na minha cara se conseguia observar puro pânico.

- Grá… grávida? – Perguntei. – Tem a certeza?

- Sim. Foram os seus exames de sangue que mo revelaram.

Jason olhou para mim e notava-se que também estava assustado com a notícia que tínhamos acabado de receber, mas no meio de todo aquele temor, conseguia ver os seus olhinhos a brilhar. Tudo o que Jason sempre quis foi ter uma vida normal, casar, ter filhos… ao contrário de mim.

Eu não posso estar grávida, não agora, ainda não estou pronta, é demasiado cedo. Ainda tenho tantas coisas para fazer, para descobrir… ainda só tenho 23 anos. Nunca pensei muito em ter filhos ou em casar, excepto uma vez, há cerca de seis anos, quando conheci um rapaz que me fez sonhar mais alto do que devia, mas depois acabou e voltei a assentar os pés na terra. Mas agora pensar nisso não ajuda nada, o que passou já passou, e pensar que há seis anos pensei em tudo isso… faz-me perguntar porque é que agora que está a acontecer não me sinto feliz.

- E qual é a outra notícia? – Perguntei, agora sendo eu a apertar as mãos do Jason.

- Esta é a mais infeliz… você tem uma gravidez de risco. – Respondeu o médico.

Perfeito, combato demónios, sou bruxa e agora estou com uma gravidez de risco.

- Eu sugiro que descanse bastante e que não faça esforços absolutamente nenhuns, para que não tenha que cá voltar. – Continuou o médico.

- Ela não vai fazer esforços nenhuns. – Garantiu Jason.

O médico deu-me alta e assim que saímos do hospital Jason telefonou a Bryan, que já estava em casa de Phil, para dizer que íamos para lá e que tínhamos uma novidade.

Fomos para o carro e enquanto Jason ia a conduzir, eu ia ao seu lado, absorta nos meus pensamentos.

- Não dizes nada? – Perguntou Jason, depois de ter olhado para mim vezes sem conta.

- Não sei o que dizer. – Desabafei. – Isto é tudo novo.

- Pareces assustada…

- Estou. – Ele soltou uma gargalhada. – Que foi?

- Nada é que… tu combates monstros mas quando se tratam de bebés entras em pânico.

- Pois… acho que não estava preparada para receber uma notícia destas. E tu, como é que estás?

- Nervoso… assustado… - Olhou para mim por breves momentos. – Mas feliz.

Sorri.

- Óptimo. Porque eu não vou ser nada fácil enquanto estiver grávida. – Brinquei, para aliviar a tensão que se tinha instalado.

Quando finalmente chegámos à casa de Phil, respirei fundo e abri a porta, entrando para o longo e estreito corredor. Ouvi vozes vindas da sala e aproximei-me, com Jason atrás de mim.

- Mel. – Disse Phil, levantando-se e vindo ter comigo assim que me viu. – Como estás?

Agora estavam todos levantados, Phil, Bryan, Gabriel e Vicky, na sala, à espera de uma resposta minha, o problema era que não sabia bem que resposta dar. Abri espaço e sentei-me no sofá. Respirei fundo. Jason percebeu que eu estava um bocado abalada com a notícia.

- Nós temos uma notícia para vocês. – Adiantou ele. Olhou para mim.

- Eu estou grávida. – Pronunciei, por fim. Ficaram todos a olhar para mim. – Eu estou grávida. – Repeti, ainda sem ter reacção pela parte de alguém. – Oh por amor de deus, digam alguma coisa!

- Eu vou ser tio? – Perguntou Bryan, ao que Jason afirmou. – Isso é… parabéns! – Baixou-se e abraçou-me.

- Obrigada. – Disse eu.

Depois do choque inicial toda a gente recuperou as palavras e começaram a falar sobre a minha gravidez. Era estranho, mas apesar de não estar à espera, já não me sentia tão mal quanto a este assunto como sentia. Pouco tempo depois subi para o meu quarto e encostei-me à janela, a olhar para o exterior. A partir deste momento, o momento em que soube que uma vida estava a crescer dentro de mim, as coisas iam mudar bastante.

- Posso entrar? – Era Vicky, que estava à porta do meu quarto.

- Claro, entra. – Disse-lhe, sentando-me na cama.

Ela sentou-se ao lado.

- Como é que estás? Não pareces muito…

- Estou um bocado mal disposta, mas o médico diz que é normal. – Respondi. – E estou surpreendida.

- Como é que estás a lidar com a notícia?

- Acho que é cedo demais para te dizer…

- Posso-te fazer uma pergunta pessoal?

- Claro que sim. Estás-me a assustar…

- Eu sou um anjo e não devia dizer isto mas… com o tipo de vida que tens… já pensaste em fazer um… um aborto?

Considerei durante poucos segundos e depois olhei para ela.

- Não. Nem por um segundo. Eu não pedi por isto, nem estava à espera, mas aconteceu. É o meu filho, e o de Jason. Eu não o vou matar. Depois havemos de arranjar uma solução para o problema da caça.

Ela inclinou-me e abraçou-me.

- Podes contar comigo para tudo! – Exclamou. – Eu vou adorar ajudar-te em tudo o que precisares!

- Obrigado Vicky, isso é bestial!

Mais dias passaram e eu continuava mal disposta e enjoada a toda a hora. Jason fazia de tudo para que eu não fizesse esforços e estava sempre a ver como me sentia e se precisava de mais alguma coisa. Bryan fazia o papel de Jason quando este não estava em casa e Vicky estava sempre a falar comigo sobre coisas de bebés. Phil andava radiante por ir ter um bebé em casa, mas preocupado com a segurança dele. Gabriel quase nunca estava em casa por isso se partilhava as mesmas preocupações que os outros, não mostrava.

- Temos morangos? – Perguntei a Jason, enquanto estávamos os dois sentados no sofá a ver televisão.

- Não. Porquê, querias? – Perguntou-me ele.

- Queria… mas não faz mal, deixa lá.

- Já chegaste à parte dos desejos?

- Hã?

- Da gravidez. Já chegaste à parte em que tens desejos?

- Calma Jason. Eu já não como morangos há um certo tempo, só isso.

- Eu vou comprar. – Levantou e eu puxei-o de novo para baixo.

- Não vais nada. Fica aqui, descansa um bocado. Eu vou comprar os morangos. – Levantei-me.

- Mel… tu não podes fazer esforços. Sabes perfeitamente disso. – Tinha um tom reprovador na voz.

- Jason… eu estou grávida, não doente. Posso ir até à mercearia. E além disso, tu precisas de descansar um bocado. Eu levo a Vicky para carregar os sacos ok? – Baixei-me e dei-lhe um beijo e depois comecei a subir as escadas para ir chamar Vicky, sem ouvir a sua resposta.

Vicky e eu fomos até à rua e aproveitei que finalmente tinha saído de casa para me demorar um pouco mais.

Depois de comprarmos os morangos sentámo-nos num banco e comê-los. Íamos a regressar a casa quando passámos por uma montra de roupas. Vi um vestido lindíssimo, preto e prateado, de atar ao pescoço.

- Não queres entrar Mel? – Perguntou Vicky. – Vê se há o teu número.

- Vicky… daqui a poucas semanas já não o vou conseguir vestir.

- Não sabes disso, já estás grávida de um mês e não se nota nada. Vá lá, se não te gostares de ver não compras. Não custa nada.

Entrámos na loja e entrei nos provadores. Observei a minha barriga e Vicky tinha razão, eu não parecia grávida, apesar de só se começar a notar mais aos três meses de gravidez. Nunca pensei como seria estar grávida, mas acho que era normal ter um pensamento qualquer, sentir. E eu não me sentia grávida.

Experimentei o vestido e acabei por o comprar. Durante o caminho para casa de Phil deu-me uma tontura e Vicky segurou-me. Fui beber um copo de água com açúcar a um café e quando saímos vi o médico que me atendeu e que me tinha dito que estava grávida.

- Ei Vicky… aquele foi o médico que me consultou. – Disse eu, apontando para o médico.

A cara de Vicky tornou-se tenebrosa e ao mesmo tempo desgostosa.

- Sai daqui Mel. – Disse-me ela.

- Porquê? O que é que foi?

- Ele não é um médico. Ele é um…

- Demónio. – Constatei.

- De ilusões. Lamento imenso. – Disse-me, agarrando-me nas mãos.

- Eu não… eu não estou…

- Grávida.

Quando soube que estava grávida foi como se me tivessem tirado o chão de baixo dos pés, mas agora, que sei que não estou, é como e me tivessem mandado para este enorme buraco sem fundo. Olhei para a montra de uma loja e respirei fundo. No fundo eu sabia que não estava grávida, quer dizer, os sinais estavam lá todos, mas eu não me sentia… grávida, seja lá como isso for. Olhei para o “médico” e depois para Vicky. Ela percebeu logo o que eu estava a pensar.

- Melanie não! Ele pode controlar o que sentes… Ele é perigoso!

- Também eu! – Assegurei-lhe, antes de desatar a correr até ao demónio que começou a fugir de mim. Vicky ia atrás de nós.

Depois de muito corrermos fomos parar a um beco. Ele estava encurralado, entre mim e Vicky e a parede.

- Vejam se não é o bom doutor. – Disse eu. – É pena que não saiba diagnosticar bem os pacientes.

- Tu não eras suposta estares aqui! – Disse-me ele. – Eu ia-te matar sozinha. Acho que assim não tenho que esperar mais.

- Pois… eu não sou lá muito boa a seguir regras. – Respondi. – Dá tudo o que tiveres.

Dei-lhe um pontapé que o mandou ao chão, mas depois as tonturas recomeçaram e comecei a ver tudo a dobrar e à roda. Tentei dar-lhe um murro mas ele desviou-se com bastante facilidade devido aos meus fracos reflexos. Ele controlou também Vicky que, ao contrário de mim, já estava desmaiada. O meu corpo estava fraco e apetecia-me vomitar, queria mexer-me mas não conseguia por não tinha força para o fazer e queria encostar-me a qualquer sítio mas não sabia se me encostaria à parede certa ou à criada pela minha cabeça devido às tonturas.

Mas como é que este demónio me podia controlar quando todos os outros não puderam? Como é que resisti ao demónio da raiva, do sono e a todos os outros que me tentaram controlar? Como é que me estava a deixar afectar por este?

Olhei para ele, estava-se a aproximar e eu recuei, embatendo numa parede. Levei a mão ao pescoço e senti o meu colar do coração. “Jason”, pensei. Jason iria ficar tão triste quando soubesse que eu não estava grávida, quando soubesse que afinal não iria ter a vida com que sonha, uma criança para ensinar a jogar à bola e contar histórias de adormecer. Jason pode parecer bastante duro, mas no que diz respeito aos seus sonhos, fica devastado quando não os consegue atingir.

Até eu, que nunca sonhei com uma vida de casada, com filhos, como Jason sonhou, me desiludi ao saber que não ia acontecer.

Eu não vou ceder, não assim, não tão facilmente, posso ver tudo a dobrar e não ter força, mas enquanto houver ar nos meus pulmões e querença no meu coração, vou continuar a lutar, vou continuar a lutar até cair para o lado.

Ele aproximou-se e ia-me a dar um murro mas eu desviei-me, fazendo com que a mão dele batesse na parede. Dei-lhe um pontapé e ele caiu no chão. Semicerrei os olhos para tentar focá-lo melhor, de forma a que conseguisse explodir o demónio certo e não uma ilusão da minha cabeça, e explodi-o. No segundo em que ele explodiu, voltei ao normal, sem má disposição, sem enjoos, sem desejos e sem… gravidez.

Vicky também acordou e fomos as duas de volta a casa de Phil. Pedi para falar a sós com Jason e fomos para o meu quarto, que, de certo modo, era agora também dele.

- Jason eu… não sei como te dizer isto mas eu… não… estou grávida…

- O quê?

- Era um demónio, de ilusões. – A minha voz soava triste. – Ele plantou as provas todas para uma gravidez e… fez-se passar por médico… e lamento imenso…

Ele sentou-se na cama e olhou para mim. Parecia destroçado, mas teimoso como é, nunca iria admitir sem um empurrãozinho.

- Talvez seja melhor assim. – Disse, por fim. Eu fiquei a olhar para ele à espera de mais. – Não ia ser bom para uma criança viver num clima destes.

Ajoelhei-me na cama e abracei-o por trás.

- Eu também estou triste com isto. – Admiti.

- Eu não disse que estava…

- Mas sei que estás. Jason olha para mim. – Fiquei de joelhos ao lado dele. – Eu conheço-te e sei a importância que isto tinha para ti.

- Obrigado.

- Ainda não acabei. – Pus-lhe a mão no queixo, a obrigá-lo a olhar-me nos olhos. – Eu amo-te e quero ficar contigo e se estivesse mesmo grávida, seria um milagre, seria um milagre teu, que me iria pôr muito feliz.

- Mas não estás.

- Hoje não.

- O que queres dizer?

- Eu digo: porque não? Porque não casar e ter filhos? Por causa da vida que temos? Jason, isso não é justificação. Olha o vosso pai, ele criou-vos nisto e apesar de vocês serem casmurros como tudo, têm a cabeça no sítio…

- O que é que estás a dizer? Que queres casar e ter filhos?

- Hoje não, nem amanhã… mas um dia sim, porque não?

- Estás mesmo a falar a sério? Isso não é nada teu Mel… tu nunca gostaste dessas coisas e…

Olhei para baixo por segundos e depois voltei a encará-lo.

- Há seis anos conheci um rapaz. Até hoje, ele foi o único rapaz que me fez pensar em casamentos e filhos. O que é que isso te diz?

- Que no meio disto tudo sou sortudo…

Beijei-o.

- Nós vamos chegar lá. Quando for o momento certo, havemos de conseguir tudo aquilo com que sonhamos. – Acrescentei.

- Pois. – Disse ele, já com tom de brincadeira. – Mas eu não sei até que ponto é que aguento com filhos bruxos…

Ri-me e mandei-lhe com uma almofada. Ele agarrou-me e beijou-me.

- Mas não me importo nada de tentar. E vai ser contigo. Eu espero…

- Não sei não… se não queres filhos bruxos eu não quero filhos teimosos… - Gozei.

- Impossível… a teimosia vem do teu lado, não do meu… mas sabes… a melhor coisa em não estares grávida… é que podemos continuar a tentar.

Agarrou-me e beijou-me.

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