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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 18.11.10

Capítulo 29

Jogos

 

Acordei eram cinco horas da manhã, tinha tido uma noite daquelas que são perfeitas para serem esquecidas. Não dormi nada de jeito por causa dos meus queridos pesadelos, e o pior era que quando acordava e me voltava a deixar de dormir, eles recomeçavam.

Levantei-me e vesti uma saia castanha-clara, com uma blusa branca de atar ao pescoço e umas sandálias também castanhas. Pus o meu colar e umas argolas de prata. Agarrei em dois bocadinhos de cabelo à frente e prendi-os atrás com uma mola pequena. Observei Jason, estava tão calmo. Acordou de todas as vezes que eu acordei, e ficou sempre à espera que me deixasse de dormir para ver se estava tudo bem, e por fim acabou por não descansar nada. Ultimamente andava muito preocupado comigo, o que era bom para mim, mas esgotante para ele. Há uma semana lutámos contra um vampiro que quase me mordeu, e isso fez com que ele começasse a ser super protector, não do género de me proibir de fazer as coisas como era antes, mas do género de estar sempre comigo quando as fazia e medir os perigos.

Aproximei-me dele e dei-lhe um beijo na bochecha, depois saí do quarto e fechei a porta devagar, para não o despertar.

Desci as escadas e fui dar uma volta, a fazer tempo até que eles acordassem para pormos mãos à obra. Íamos ter um dia em cheio.

Parei num jardim e sentei-me num banco a descansar um bocado. Vi um miúdo de talvez doze anos a passear com a mãe e depois vi um homem a segui-los. Este tipo de coisas acontece a toda a hora, até podia não os estar a seguir, podia estar simplesmente a seguir na mesma direcção, mas mesmo assim despertou-me o interesse.

Levantei-me e comecei a andar atrás deles, com um espaço seguro. O meu telemóvel começou a tocar e o homem voltou-se. Levei a mão ao bolso e vi quem era. Jason.

- Estou amor, diz. – Atendi.

- Onde estás?

- Na rua… acordei cedo e vim dar uma volta.

- Ok, podes voltar já para o hotel? Precisamos de combinar as coisas para a noite.

- Ok, estou aí em quinze minutos, até já.

- Beijos.

Voltei a pôr o telemóvel no bolso das calças e parei de andar. Observei o homem e dei meia volta. Comecei a regressar ao hotel mas ainda me virei para trás para observar melhor o homem. Era esguio, já tinha o cabelo grisalho e devia estar na casa dos sessenta anos, vestia umas calças de bombazina castanha com uns sapatos castanhos-escuros e um pólo bege. Ele olhou para mim e acenou-me. Fiquei perdida naqueles olhos tão escuros, não completamente escuros como os demónios mas mesmo assim arrepiantes. O meu telemóvel voltou a tocar.

- Que foi?! – Perguntei, com uma voz chateada, apesar de não ter razões para o estar.

- Eia, tem calma. Nós vamos sair. – Disse Jason, inocentemente. – Temos que arranjar umas coisas, por isso não precisas de vir já.

- Ok. Obrigado por teres avisado. Eu depois vou ter ao hotel. – Desliguei o telefone sem lhe dar tempo para responder.

Esperei que o homem dobrasse a curva para o continuar a seguir. Não sabia o que esperar, mas os meus instintos não adivinhavam nada de bom, e o pior é que normalmente estão certos.

Segui o homem até às duas e quarenta e cinco da tarde e ele não fez nada de especial ou de suspeito. Passou a manhã quase toda a jogar snooker e depois deu uma volta pela cidade. Comeu um hambúrguer e uma cerveja e depois foi para uma casa, que supostamente, era a dele. Fiquei à porta durante um tempo e depois desisti, não se passava nada de especial.

Voltei para o hotel, mas o mau pressentimento continuava.

Quando cheguei ao quarto Jason e Bryan estavam a ver a planta do museu. Entreguei-lhes uma sandes a cada um, que tinha comprado no café à frente do hotel e depois eles disseram-me o plano. Não lhes contei nada sobre o homem que tinha andado a seguir, como não tinha acontecido nada de especial limitei-me a dizer que andei a dar voltas pela cidade.

Quando finalmente chegou a noite, jantámos no restaurante do hotel e depois subi para mudar de roupa enquanto eles ficaram à minha espera no hall.

Vesti umas calças pretas e uma blusa também preta, de cavas. Calcei uns ténis pretos e fiz um rabo-de-cavalo. Vesti o meu casaco de cabedal.

Quando desci as escadas fizemos tempo e quando eram três da manhã dirigimo-nos para o museu. Estava em exposição um amuleto muito perigoso capaz de libertar Lúcifer antes do tempo e haviam vampiros a tentar pegá-lo. A única solução seria destruí-lo. Que Lúcifer ia voltar à terra já nós sabíamos, mas enquanto pudéssemos evitar, evitávamos.

Jason forçou a entrada no museu e Bryan desactivou as câmaras de segurança. Dirigimo-nos para a sala em que o amuleto estava.

- Não acredito que estou a assaltar um museu. – Confessei.

- Eu sei, mas tem mesmo que ser. – Disse Jason, num tom consolador.

- Não é isso, eu sei que não é coisa boa de se fazer mas… é por uma boa causa. – Aclarei.

Tínhamos conseguido, tínhamos talvez a vinte metros, o amuleto. Eu ia andando até que Jason me agarrou e puxou para trás.

- Espera. – Disse-me.

Bryan mandou um pozinho qualquer e começaram a aparecer raios infra-vermelhos.

- Como é que vamos passar por isto? – Perguntou Bryan.

- Vai ser complicado… - Disse Jason, pensativo. – Estão numa posição impossível.

- Pelos lados não dá… nem por baixo… nem por cima… - Eu ia pensando em voz alta.

- É isso Mel! – Disse Jason de repente. – Vamos por cima.

- Como? Que eu saiba ainda não tens asas… - Disse eu.

- Já percebi! – Bryan já tinha percebido tudo, mas eu continuava sem perceber absolutamente nada. – Tu podes passar-nos por cima.

- Como?

- Com os teus poderes… - Agora sim, já percebi.

- Ahh… isso é uma péssima ideia. – Disse eu com um tom pessimista. – Eu nunca tentei levantar coisas tão pesadas… ou bem… não num clima calmo, foi sempre em casos de vida ou de morte…

Jason aproximou-se de mim e deu-me um beijo. Ficou com as suas mãos na minha cara e olhou-me nos olhos.

- Eu sei que consegues fazer isto. Sem pressão.

Claro, sem pressão, se eles caíssem e se magoassem não fazia mal nenhum.

Acabei por consentir e levantei-os um de cada vez, primeiro Bryan e depois Jason. Quando já tinham passado para o lado de lá dos infra-vermelhos e eu pude finalmente respirar fundo, ouvi um ruído atrás de mim. Virei-me e levei com um murro que por pouco não me fez tocar num infra-vermelho. Eram três vampiros.

- Perfeito. – Disse eu, sarcasticamente.

Começaram a atacar-me e consegui explodir dois, porém, o outro estava mais complicado de derrotar, era como se soubesse a minha próxima jogada, o que ia fazer a seguir.

Deu-me um pontapé que me fez cair para trás. Fiquei a fazer a ponte, com as costas quase a rasar num infra-vermelho e dei-lhe um pontapé que o fez dar dois passos atrás. Levantei-me lentamente para não tocar em nada e voltei a atacar, mas ele, mais uma vez defendeu-se.

Mandou-me ao chão e desta vez fiquei a poucos milímetros de um dos raios, que me ficou por cima da cabeça. Rastejei e saí de debaixo dele. Dei outro murro ao vampiro e explodi-o, sem lhe dar tempo para me atacar.

Jason e Bryan já tinham o amuleto por isso trouxe-os de volta para o lado de cá e pusemo-nos fora dali.

Jason queimou o amuleto e fomos todos para o hotel dormir para amanhã sairmos daqui.

Esta noite foi quase tão má como a anterior, mas não acordei cedo, pelo contrário, quando acordei já eles estavam acordados e despachados.

Vesti-me e tomámos o pequeno-almoço, depois pusemo-nos no carro e saímos dali. Passámos pelo jardim e vi uma coisa que me chamou a atenção.

- Jason pára. – Pedi.

Ele parou o carro bruscamente.

- Que se passa? – Perguntou-me alarmado, olhando para o banco de trás, onde me situava.

- Não vejo a mãe daquele miúdo. – Murmurei.

Saí do carro e fui ter com o rapazinho que tinha visto no dia anterior a passear com a mãe. Ele estava muito quieto, sentado num banco, a fazer um desenho.

- Olá. – Disse eu, aproximando-me. Ele olhou para mim. – A tua mãe está aqui?

- Não. – Respondeu-me, dirigindo de novo a sua atenção para o seu desenho.

- Sabes onde está?

- Foi levada.

- Sabes por quem?

Ele olhou para mim e virou o seu desenho para mim. Estava lá desenhado uma cara muito esquisita, com uns olhos muito chamativos, mas o que me fez perceber o desenho foram os longos e afiados dentes.

- Por um vampiro? – Perguntei.

- Sim.

- Tu estás bem?

- Eu quero a minha mãe.

Respirei fundo, aparentemente o nosso trabalho em Iowa ainda não estava concluído.

Levámos o miúdo para o hotel e voltámos a fazer check-in.

Ele estava muito assustado como era de prever e não dizia nada. Jason e Bryan não sabiam como se comunicar com ele, tal e qual como eu. Ele sentou-se a um canto, no chão, e não disse mais nada.

- Então, continua na mesma? – Perguntei a Bryan.

- Continua. Não diz nem uma palavra.

- É normal, está em choque… o Jason?

- Foi buscar almoço.

- Tudo bem. Olha, eu vou tentar falar com o miúdo… outra vez…

Afastei-me de Bryan e sentei-me no chão, ao lado de miúdo. Fiquei uns momentos a olhar para ele sem me pronunciar, para ver se ele dizia alguma coisa, mas nada.

- Eu chamo-me Melanie. – Pronunciei, por fim. – Como é que te chamas?

- Gary.

- Olha Gary…

- Estou assustado. – Desabafou. – O vampiro tem a minha mãe. Eu quero a minha mãe.

- Eu sei, nós vamos trazê-la de volta. Prometo. Ei, queres ver uma coisa muito fixe? Mas não podes ter medo…

- Quero.

- Ok… estás a ver aquela almofada ali? – Ele acenou afirmativamente. – Ela vai-se aproximar de ti e depois vai explodir, prepara-te.

Fiz com que a almofada que estava em cima da cama se aproximasse e explodi-a, fazendo com que chovessem penas por todos os lados. Gary achou piada e riu-se.

- Vês? Nem tudo é mau… nós vamos encontrar a tua mãe.

- Obrigado. – Aproximou-se e deu-me um abraço.

Fiquei sem jeito e por fim acabei por enrolar os meus braços nele também. Normalmente não era muito boa com crianças, pelo menos é o que achava.

Passado pouco tempo levantei-me e fui ter com Jason, que já tinha chegado e assistido a tudo.

- Tenho que começar a ter cuidado. – Disse-me ele. – Ainda perco a namorada para os minorcas…

Ia a empurrá-lo devagar na brincadeira mas ele agarrou-me e puxou-me contra ele, até ficarmos a uma distância de poucos milímetros.

- Tem cuidado. – Disse-me. – É perigoso atacar um caçador. Os reflexos não respondem bem…

- Olha que uma bruxa também não é fácil de mandar abaixo. – Brinquei.

Ele respirou fundo e largou-me.

- Então estamos quites. – Declarou. – Como é que está o rapaz?

- Assustado, mas eu fiz com que falasse e com que se risse um bocadinho mas… Jason, nós temos que encontrar a mãe dele…

- E vamos. Tenho a certeza que vamos.

Numa pequena fracção de segundo passou-me uma ideia que ainda não tinha considerado. E se o velho que vi a seguir a mãe do miúdo e o miúdo tivesse apanhado a mãe? Não, não fazia sentido, afinal, o miúdo dizia que um vampiro tinha levado a mãe… mas de novo, não ia fazer mal nenhum investigar, e se estivesse errada, pelo menos ficava mais descansada ao saber que não encontrei nada e que não foi por falta de tentar.

Chamei Jason à parte enquanto Bryan ficou com o miúdo e contei-lhe do que tinha visto ontem de manhã e de como fiquei arrepiada ao ver o velho. Ele achou que valia a pena investigar e saímos. Jason abriu o carro e eu pus lá a minha mala, depois fomos beber um café num instante e quando voltámos Gary estava lá e afirmava vezes e vezes sem conta que também queria ir. Sabíamos que seria uma estupidez levarmos o miúdo mas não lhe conseguimos tirar aquela ideia da cabeça, por muito que lhe explicássemos que era absurda. Bryan acabou por vir connosco também.

Bryan destrancou a porta da cave da casa do velho e nós entrámos. Eu dei a mão a Gary.

- Não te armes em espertinho, por favor. – Pedi-lhe. – Eu quero entregar-te bem à tua mãe.

Ele fez que sim com a cabeça e prosseguimos. Estava tudo muito escuro, não havia um único foco de luz até que se acenderam vários. Fiquei encadeada e quando finalmente consegui abrir os olhos e ver bem, percebi que estávamos uma espécie de sala rectangular, muito cinzenta. Havia marcas horizontais no chão, como se alguma coisa tivesse feito pressão naquele sítio e também cinco máscaras de oxigénio penduradas do tecto. Reparei que em vários sítios estavam câmaras de vigilância e ventiladores.

- O que é que se está a passar aqui? – Perguntei.

A porta atrás de nós fechou-se e não a conseguíamos abrir. Gary agarrou-se a mim e eu envolvi-o no braço.

- Isto não é bom… - Murmurei.

- Mais alguém está a cheirar isto? – Perguntou Jason.

- Gás… - Murmurou Bryan.

- Raios! – Disse eu.

- Se querem viver, ponham as máscaras. – A voz vinda dos altifalantes ao lado das câmaras de vigilância era completamente arrepiante.

Pus o meu braço a tapar o nariz e a boca.

- O que é que fazemos? – Perguntei, aterrorizada.

- Obedecemos. – Respondeu Bryan, com um ar derrotista.

Ele e Bryan ocuparam duas máscaras e eu e Gary outras duas. Tive que soltar a sua mão para que ele fosse para lá, visto que as distâncias entre as máscaras ainda eram bastante grandes.

Comecei a ouvir um ruído e de súbito quatro paredes caíram, dividindo a enorme sala em cinco mais pequenas. Fez com que cada pessoa ficasse num pequeno compartimento. Gary gritava que queria sair dali, estava assustado. Conseguia ouvir Jason a gritar para ele pôr a máscara de oxigénio na cara, senão estaria morto em breves segundos, mas ele não obedecia pois continuava a gritar. Inspirei e larguei a máscara de oxigénio. Olhei para o ventilador e usei a telicnese para o fechar. Depois aproximei-me da parede.

- Gary, estás aí? – Perguntei, rezando para que não tenha sido tarde demais.

- Eu quero ir para casa… - Murmurou ele.

- Ok ouve, eu vou precisar que te desvies o máximo que puderes da parede ok? E quando contar até três viras-te de costas e tapas os ouvidos, combinado?

- Sim.

- Ok, um… dois… três! – Explodi a parede e corri até ele.

Pus-lhe a máscara de novo e fechei aquele ventilador. Explodi a outra parede e fui ter com Jason e depois com Bryan, fechando sempre os ventiladores.

- Isso não é possível. – Disse a voz do altifalante.

- Acredita, é. – Respondi.

Eles tinham as máscaras e eu já mal me aguentava sem a minha por isso dirigi-me a ela. Deviam faltar talvez dois metros para chegar a ela quando o chão debaixo de mim caiu e eu caí com ele.

- Ahhh! – Gritava, à medida que ia caindo.

Caí dentro de água e nadei de volta à superfície.

- Ahhh! – Estava aterrorizada, estava a nadar com montes de cadáveres a flutuar ao pé de mim.

Apressei-me a sair de lá de dentro e olhei para cima. Estava definitivamente a muitos metros abaixo de onde o resto do pessoal se encontrava.

- Melanie! – Gritou Jason.

- Estou bem! – Apressei-me a responder.

Vi-o deitado no chão, empoleirado sobre o rebordo do buraco, a espreitar.

- Consegues subir? – Perguntou.

- Definitivamente não.

- Toma isto. – Deixou cair a minha Desert Eagle e eu imobilizei-a antes que caísse na água.

Trouxe-a para mim com a telicnese e agarrei-a.

- Obrigada. Eu tenho que continuar por aqui! É o único caminho…

- Boa sorte. Tem cuidado!

Dirigi-me para o único caminho que tinha, que era de areia, e comecei a andar atenta ao que se passava ao redor, que sinceramente, não era nada.

- Bem-vinda à segunda ronda. – Disse a voz horripilante. – Os mais fortes ganham… os outros… morrem.

- Deixa-me adivinhar… ninguém nunca ganhou?

Não obtive resposta e continuei a andar. A poucos metros à frente encontrei mais esqueletos, mais restos mortais do que, provavelmente, foram outras vítimas.

Estava escuro e eu estava completamente gelada, por causa do banho forçado que tinha acabado de tomar.

Comecei a ouvir uns barulhinhos muito suaves. Olhei para baixo e comecei a estremecer.

- Isto não pode estar a acontecer. – Murmurei, enquanto observava as carradas de aranhas que se aproximavam de mim vindas de todos os lados.

Apontei a minha pistola, mas não sabia para onde disparar, eram demasiadas.

- Isto é ridículo!

Prendi a arma no cinto e imobilizei o espaço em que estava, fazendo com que as aranhas se parassem de mexer. Passei por cima delas e continuei o meu caminho.

Vi uma mulher desesperada e aproximei-me lentamente dela.

- Por favor que ela não se vire a mim, por favor que ela não se vire a mim. – Ia dizendo eu, enquanto me aproximava.

Era o que normalmente acontecia, os maus fingiam-se de bons e sofredores, nós aproximávamo-nos e eles pumba, atacavam-nos.

Mas não desta vez, se fosse para me atacar, já me tinha atacado, além disso, não estava à caça de demónio nenhum, estava debaixo da casa de um psicopata, o que até não é muito mais reconfortante.

Pus a mão no ombro da mulher e ela continuava a tremer, a chorar.

Observei-a melhor, estava completamente desgraçada, como eu fiquei quando fui torturada pela primeira vez, pelo mesmo vampiro que matou a mãe de Jason e de Bryan.

- Consegue-se levantar? – Perguntei.

Ela negou com a cabeça.

- Há quanto tempo é que aqui está?

- Parecem dias mas… apenas umas horas. – Respondeu, a soluçar.

- Você é a mãe do Gary?

Ela olhou para mim ao ouvir o nome.

- Sou… ele está bem?

- Não sei, ele está com dois amigos meus mas… eles estão aqui… algures….

- Ele vai apanhá-los. Ele apanha sempre.

- Quem é “ele”?

- Um homem velho, com um sorriso endiabrado… faz jogos connosco, e no fim os jogos acabam por nos matar.

- Não é verdade. Você ainda está viva. – Usei uma voz encorajadora, ela já estava assustada o suficiente.

Inspirei e depois soltei o ar. Continuei a falar.

- Vá lá, tem que se levantar, temos que ir ter com o seu filho.

- Não consigo, a minha perna…

Olhei para o tornozelo dela, tinha umas daquelas armadilhas que se metem no chão escondidas para caçar ursos e lobos. Tinha os dentes a penetrar o seu tornozelo e aparentava ser bastante forte. Ela já lá devia estar há algum tempo sentada com aquilo, porque já não deitava sangue.

Rasguei um bocado da minha camisola.

- Ouça, eu vou tirar-lhe isso, mas vai doer. – Avisei.

- Eu tentei. Não consigo… é demasiado forte.

- Confie em mim. Não tenha medo, eu não vou magoá-la. – Dei-lhe a mão e com a outra fiz um pequeno gesto para a esquerda, que fez com que a armadilha se abrisse e ela tirasse o tornozelo.

Pressionei imediatamente a ferida e depois atei-lhe a bocado da blusa que tinha rasgado ao tornozelo.

Ajudei-a a levantar-se e começámos a andar, ela apoiada em mim, e muito devagarinho.

Chegámos a uma parte em que o chão estava horrível e haviam correntes nas paredes, com cadáveres lá presos. Vi uma metralhadora ao lado de um corpo com o tornozelo e o pé mais afastados. Fazia lembrar os filmes do Saw, e fizesse-se o que se fizesse, morria-se na mesma.

- Isto nunca mais acaba. – Murmurei, quando nos sentámos no chão.

Keira, a mãe de Gary, estava aflita do tornozelo e eu do ombro onde ela se vinha a apoiar. Ela viu que como eu lhe tirei a armadilha não foi normal, mas no estado em que está, nem se incomodou em fazer perguntas, só queria sair dali.

Vi uma pontinha de luz vinda de uns metros adiante, disse-lhe e levantei-me. Estendi-lhe a mão e ajudei-a a levantar-se, apoiando-a de novo no meu ombro.

- Já não aguento mais. Vai tu. Já não aguento. – Disse-me ela, parando de coxear.

- Não. – Ripostei. – Ninguém fica para trás. Vamos lá, nós conseguimos isto, eu sei que conseguimos.

Fomos até à luz e subimos umas escadinhas com muito esforço. Eu depois usei magia para abrir a porta no cimo das escadas e entrámos para um corredor. Tinha uma carpete longuíssima em tons de bordô, tinha vários móveis e uns quantos espelhos. Começámos a atravessá-lo calmamente e sempre em alerta quando vimos uma figura a correr direita a nós. Era Gary, e vinha a fugir de alguma coisa.

- Melanie ajuda-o por favor! – Gritou, quando me viu.

Bryan vinha a correr atrás dele e abrandou quando nos viu.

- Que aconteceu? – Perguntei.

- Encontrámos o velho. – Disse Bryan apressadamente. – O Jason ficou a empatá-lo e eu ia pôr o Gary na rua.

- Fica aqui com ele e com a mãe dele. – Pedi eu, começando a correr na direcção de onde eles tinham vindo. – Ela está magoada. Vemo-nos lá fora.

Quando fiz a curva vi Jason no chão, com o velho por cima pronto a disparar uma espingarda. Sem pensar, levei a mão à minha Desert Eagle e disparei sobre ele, matando-o, e em menos de um segundo estava tudo acabado, era o fim do jogo.

Levámos Gary e Keira ao hospital e deixámo-los lá com o pai de Gary, depois voltámos para o hotel.

Já era de noite mas eu não tinha sono, a imagem do homem que tinha alvejado, apesar de ser um assassino, não me saía da cabeça.

Abri a janela do quarto e pus-me a observar o exterior.

Bryan já estava no seu quarto e Jason acabou de entrar no nosso e dirigiu-se a mim.

- Como é que estás? – Ele conseguia sempre perceber quando eu não estava bem, mas eu também sabia sempre onde a conversa ia dar.

- Eu tive que o matar. – Afirmei, com uma voz um pouco tremida.

- Eu sei, eu estava lá. Ele ia-me matar se não o matasses…

- Exacto, eu tive que o matar.

- Ele era um assassino.

- Exacto.

- E tiveste mesmo que o matar.

- Como eu disse.

- Mas é mais fácil quando são monstros não é? – Agora, sobretudo, notava-se compreensão na sua voz.

- Muito mais. Quero dizer… ele era um assassino e ia-nos matar a todos se eu não premisse o gatilho mas… porque é que me sinto tão mal por o ter morto? – Olhei para ele e observei a sua expressão, que se encontrava calma.

- Porque não és como ele, és uma boa pessoa. É muito mais fácil matar coisas sobrenaturais, monstros, mas nunca é fácil matar humanos. Matar um ser humano, por muito maldoso que seja, custa sempre.

- Sinto-me horrível…

- Eu sei. Eu conheço a sensação.

- Algum dia vai passar?

- Não… - Envolveu-me nos seus braços. – Nunca vai desaparecer, mas vai melhorar.

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