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Déjà Vu Sobrenatural

por Andrusca ღ, em 28.11.10

Capítulo 39

Cartas

 

O fim está perto, eu sei, consigo senti-lo.

Quando acordei Jason já não estava ao pé de mim, já se tinha levantado. Fui até à janela e desviei o cortinado para observar o tempo, estava acinzentado, ao contrário do que tinham anunciado na meteorologia.

Faz uma semana desde a última vez que vimos Lúcifer, e hoje está na altura de o voltarmos a ver.

Já sonhei sobre hoje, hoje é o dia em que tudo, ou nada, acontece. É o dia do juízo final, como muitos lhe chamam. O verdadeiro dia do começo do verdadeiro Apocalipse.

Vesti umas calças de ganga e uma blusa verde seco com uns ténis e deixei o cabelo solto.

Quando desci as escadas ouvi-os a falar. Estavam a falar num plano qualquer, e aparentemente Phil ia fazer uma espécie de acordo para ficarmos mais fortes, mas de acordo com eles, eu não ia entrar neste combate, porque de acordo com os anjos, não estava pronta.

Não conseguia acreditar no que estava a ouvir, é absolutamente e completamente ridículo. Dei um par de passos e entrei para a sala.

- Já repararam que há sempre um momento em que nos tentamos sacrificar porque acreditamos que estamos a salvar um amigo? – Todos os olhares se viraram para mim.

- Mel… - Disse Bryan.

- Nós estamos nesta juntos! – Gritei. – Ninguém fica para trás. A Vicky e o Gabriel não ficam para trás por serem anjos. O Phil não fica para trás por ser o mais velho. E eu não fico para trás por ser rapariga. Quando é que percebem que às vezes só dois heróis não chegam?! Que às vezes, só às vezes, podem precisar de apoio, de reforços?!

- Mel… - Disse Jason.

- Não! Eu ouvi-vos a falar bolas! Nós precisamos de estar todos juntos. Vai ser uma luta infernal e temos que estar todos juntos nela!

- Mel, nós…

- Vocês não me podem obrigar a ficar. Eu vou para aquela luta. Não quero acordar um dia e pensar que tudo o que fiz até agora não serviu de nada. Não quero acordar e perceber que foi tudo em vão.

- Não te conseguimos mesmo tirar essa ideia da cabeça pois não? – Perguntou Phil.

- Não. Para onde vocês forem, eu vou.

- Podemos falar a sós? – Pediu Jason. – Vamos para o quarto.

Subimos as escadas e entrámos no quarto e eu sentei-me na cama.

- Mel… - Disse ele, lentamente, chegando-se ao pé de mim. Levantei-me e ficámos frente a frente. – Estive a falar com o Bryan e… nós vamos embora.

Com a entoação que deu à frase, não precisei de muito tempo para perceber qual era o seu verdadeiro significado. Baixei a cabeça e encarei o chão, sentia-me como se mo tivessem tirado de baixo de mim. Jason continuou.

- Lamento imenso… é melhor assim, é… - Olhei-o e dei-lhe uma chapada. Ele levou a mão à cara e voltou a olhar-me. – Eu merecia essa.

- Tu não vais a lado nenhum. – Disse eu. Definitivamente não era uma pergunta, e ele percebeu isso muito bem.

- É pelo melhor. Tu não queres isto, é egoísta da minha parte manter-te a fazer coisas que não queres… só por minha causa, por isso estou-te a libertar.

- Do que é que estás a falar? Eu estou bem onde estou, não preciso de ser libertada de nada porque não estou presa a nada!

- Tu não estás pronta. Como bruxa… não estás pronta…

- Sou eu que decido isso, não são vocês ou os anjos, sou eu!

- Eu conheço-te ok? E por isso é que era melhor que lutássemos só nós, era melhor que nos fôssemos embora de vez. – Ele pronunciava isto como se não fosse nada, como se não lhe custasse nada deixar-me.

Sentia-me a desabar por dentro, as minhas forças deixaram-me, e a razão de as ter tido durante tanto tempo estava a desistir de mim, estava a afastar-se de mim. A expressão dele estava calma, como se não se estivesse a passar nada de especial, como se fosse apenas um dia completamente normal. As emoções que senti quando ele me deixou há seis anos voltaram todas. Senti-me desamparada, triste, abandonada… mas desta vez as coisas não iam ser iguais, as coisas iam melhorar, quer ele quisesse acreditar quer não, mas iam.

- Amas-me? – Perguntei, a observar a sua expressão, que agora já se mostrava abalada. Era evidente que não estava à espera deste tipo de pergunta.

- Mel, essa não é a questão…

- Amas-me? Sim ou não?

Olhou para o chão durante uns instantes e depois voltou a encarar-me.

- Amo.

- E se fosse ao contrário, se fosse eu a pedir para me deixares ir, deixavas?

Voltou a pensar durante uns instantes na resposta.

- Não.

- Ainda bem, porque assim percebes porque é que não vou desistir.

- Não podias facilitar isto um bocadinho?! Achas que é isto que eu quero fazer?! Estou a fazê-lo a pensar em ti Melanie!

- Então pára. Eu preciso de ti… para continuar a viver. E não te vou deixar ir, não te vou abandonar e não me vou afastar, a não ser que seja o que realmente queres. Mas não é, pelo menos desta vez, não é. Por isso vou continuar por perto.

Aproximou-se mais e pôs as suas mãos no meu rosto.

- É mesmo isto que tu queres?

- Eu quero-te a ti. E onde tu fores, eu vou. Eu estou contigo Jason, lida com isso.

- Não te ias embora, nem que a tua vida dependesse disso?

- A minha vida não vale de nada se não tiver ninguém com quem a partilhar. Tu ias?

- Nunca. Para te proteger… com muita força, mas para me proteger, nunca.

Sorri e puxei-o para mim.

- Óptimo. – Disse, beijando-o.

O beijo não durou muito porque ele se afastou de mim e agarrou na minha Desert Eagle, que estava em cima da mesa-de-cabeceira.

- Lamento imenso. – Disse-me, enquanto se afastava e saiu pela porta.

Ia atrás dele mas ele fechou a porta e trancou-a.

- Jason! – Gritei. – Jason abre a porta, ou eu expludo-a. Jason!

- Não consegues. – Disse-me, com um tom um pouco abalado. – Lembras-te de como não conseguiste usar os teus poderes naquela vampira, Anabelle? A Vicky tinha mais desses talismãs.

Oh não, agora sim, percebi a sua ideia.

- Jason não faças isto! Se forem sozinhos para aquela batalha vão morrer! – A minha voz soava desesperada. – Por favor!

- Amo-te. Por isso é que tenho que fazer isto.

Tentei explodir a porta, ignorando o aviso dele sobre os talismãs, mas como ele disse, não resultou. Dirigi-me à janela, que também não conseguia abrir de maneira nenhuma, natural ou sobrenatural.

Vi-os a saírem de casa, todos, Jason, Bryan, Vicky, Gabriel e Phil, e entraram para o carro de Jason e começaram a afastar-se rapidamente. Estava definitivamente sozinha naquela casa.

Como é que eles puderam ir para aquela batalha e deixar-me aqui?! Serão assim tão estúpidos? Tão ignorantes? Será que não percebem que Lúcifer os mata assim que chegarem a dez metros dele?! Tenho que fazer alguma coisa, não posso ficar aqui sem fazer nada enquanto os meus amigos se conduzem para o suicídio, tenho que os ajudar, mas como? Eles deixaram-me trancada porque sabem perfeitamente que não consigo arrombar uma porta, e deixaram a chave do lado de lá porque assim não a consigo abrir com gancho nenhum, e usaram os talismãs para não a explodir, estudaram tudo até ao mais pequeno pormenor, para o azar deles.

Agarrei no puxador da porta e comecei a forçá-lo e a empurrar a porta para que esta se abrisse, mas em vão. Acabei por me deixar cair no chão, encostada à porta, sem quaisqueres esperanças.

Vi que estava um envelope no chão, deslizei até ele e abri-o. Tirei de lá um pedaço de papel e comecei a ler.

 

«Melanie…

Eu sei o que deves estar a pensar sobre nós agora… tenho a certeza que já pensaste em milhões de nomes para nos chamares e tenho um pressentimento em como já explodiste o quarto quase todo, mas também sei que estás preocupada e neste momento, ao leres isto, deves estar fula comigo, por isso desculpa, por tudo. Tu foste, és, a melhor coisa que já me aconteceu e és tu que me dás força para continuar a lutar. Desta vez não vou desistir, tu ensinaste-me que se queremos uma coisa, temos que lutar por ela, seja o que for, e tinhas toda a razão ao dizeres para não desistirmos. Tenho que ser honesto, não estou optimista com esta batalha, sei a realidade do que está prestes a acontecer, mas também sei que não podia ir abaixo sem dar luta, por isso, e por tudo o que aprendi contigo, vou à luta, vamos todos, e tenho a certeza de que percebes esta necessidade, o mundo está nas nossas mãos e não o vamos deixar em baixo, não te vamos desiludir. Sei que querias vir connosco e lutar ao nosso lado, mas gosto demasiado de ti para te permitir isso, para te sacrificar assim. Espero que depois de tudo isto, não te armes em heroína e não tens apanhar o Diabo sozinha, se ele nos matar. Quero que tudo te corra bem, e que sejas feliz. Amo-te, hoje e para sempre.

Jason.»

 

Caiu-me uma lágrima. Ele espera que eu seja feliz?! Mas eles são ignorantes, néscios, burros?! Não percebem que eu só sou feliz com eles?! Que apesar de ultimamente andar em baixo é porque me preocupo com eles?! E que apesar das dores de cabeça que me dão é com eles que quero estar?! E agora deixam-me trancada neste quarto e esperam que não faça nada?! Que não me arme em heroína?! Já me deviam conhecer melhor, já deviam ter a obrigação de saber que não ia ficar de braços cruzados enquanto eles são mortos pelo desgraçado do Diabo! Mas numa coisa Jason acertou, se o Diabo não o matar, eu não o vou deixar em muito bom estado, nem a ele nem aos outros. Depois de me terem deixado aqui trancada, é que nem sonhem que se safam assim sem nada. Para o bem deles, é bom que eu saia daqui, mas se por acaso não sair, vou arranjar uma maneira qualquer deles me ouvirem, ai vou sim.

 

Ano de 2004

 

Não podia estar mais feliz. Namoro há quase nove meses com o rapaz dos meus sonhos, estou finalmente livre de tudo aquilo que me fazia mal e mais importante, sinto-me bem, muito bem, como já não me sentia há muito tempo.

A minha mãe continua a detestar Jason, ainda mais depois de saber que namoramos, e também não gosta nada de Bryan. Consigo ouvir o meu pai a falar com ela sobre eles, sobre como eu estou feliz com eles e como ela devia estar feliz por eu estar feliz. A verdade é que ela não se importa se estou feliz, importa-se com quem é que estou feliz.

Deitei-me na cama a ouvir música, já era de noite e tinha sido um dia esgotante.

Estive a ajudar Jason e Bryan a arrumarem o quarto do hotel, sim porque eles vivem num hotel, porque o pai deles chegava à hora do jantar.

O pai deles viaja bastante em trabalho, por isso é que não têm uma morada fixa.

Ouvi ruídos vindos da rua por isso levantei-me e fui à varanda espreitar. Não consegui ver nada, provavelmente era só o gato da vizinha que tinha vindo outra vez para o nosso jardim. Voltei para dentro, estava frio. Era Dezembro, as férias estavam quase a começar e eu, Jason e Bryan tínhamos mil e um planos para as férias.

Ouvi a campainha e segundos depois bateram à minha porta.

- Entre. – Disse eu.

Fiquei pasmada ao observar Jason. Estava coberto de arranhões, com as calças e a camisa rasgadas, e observava-me com um ar cuidadoso.

- Jason, oh meu Deus. – Disse eu, aproximando-me dele. – Estás bem? O que é que aconteceu?

- Estou bem. – Pronunciou.

- Foste assaltado ou assim? – Perguntei, com a mão na sua cara, a ver os pequenos arranhões.

- Ou assim. Ouve Mel, nós temos que falar.

- Ok, deixa-me ir só buscar os primeiros socorros e depois falamos. – Respondi, pronta a sair pela porta para ir buscar a caixa dos primeiros socorros à casa de banho.

- Não. – Agarrou-me no braço e fez-me recuar até ficar à sua frente. – Eu preciso de dizer isto já.

- Ok, estou a ouvir. – Ele estava bastante esquisito, o que é que terá acontecido? Acho que nunca o vi assim tão preocupado. Mas do nada as suas feições mudaram, não sei exactamente para quê.

- Nós vamos embora.

- O que é que queres dizer?

- O nosso pai vai trabalhar para outro sítio e nós vamos com ele. – Explicou, referindo-se a ele e a Bryan.

Fui invadida por uma onda de pânico, como se me estivessem a tirar tudo.

- Mas tu podes ficar. – Disse rapidamente. – Tens 18 anos, se quiseres podes ficar cá em casa e…

- Não quero. Mel, eu... quero ir. – Parecia tão à vontade enquanto dizia isto.

- Tu… queres ir? – Acho que me sentia prestes a desmaiar. – Mas então e… nós?

- Nós… não pode ser. Não pode haver mais “nós”.

- Jason…

- Desculpa, isto é uma coisa que tenho mesmo que fazer. – E saiu porta fora sem olhar para trás.

Deixei-me cair, sentada na cama, e as lágrimas simplesmente começaram a correr enquanto agarrava com força no meu colar dado por Jason.

Ele estava diferente, distante, frio… simplesmente diferente. E pareceu que não lhe custou absolutamente nada deixar-me.

Agora sinto-me perdida, desamparada, sem rumo, mas mais que isso… abandonada.

«16.12.2004

Querido diário…

Eles foram-se embora há uma semana e eu sinto-me perdida. Como se me estivessem a deixar sem ar, como se me tivessem tirado a vida como se estivesse à deriva num oceano enorme e interminável.

Eu sei que foram apenas nove meses mas sinto-me como se tivesse sido uma vida inteira e agora, sozinha, sem eles, que me compreendiam e me ouviam, e me diziam que as coisas iam correr bem, sinto-me afogada. Dói dizer o nome deles, magoa pensar neles e lembrar-me das suas caras, aleija pensar naqueles sorrisos marotos e bem-dispostos que faziam… nas coisas que fiz, que finalmente fiz, por causa deles. E sobretudo, é insuportável a dor que sinto quando penso que NUNCA mais os vou ver.»

 

Ainda sinto a dor que as palavras de Jason provocaram em mim ao ir-se embora.

Ainda sinto o que senti ao descobrir que não era nenhuma piada de mau gosto, e esta sensação vai-me acompanhar para o resto da minha vida.

Eu sempre tive o que precisava, ainda tenho o que a maioria das pessoas sonha em ter mas parece que sem eles nada importa, que sem eles nada interessa e nada me complementa, porque falta o mais importante, falta aquilo do que eu mais saudades tenho, faltam-me eles.

Daria tudo, daria o meu estúpido dinheiro, desistiria do meu estúpido estatuto, e tudo o mais que fosse preciso, apenas para os voltar a ver.

Lembro-me de uma vez quando tinha sete anos e uma das minhas melhores amigas se mudou e eu perguntei à minha mãe se alguma vez a iria voltar a ver. A minha mãe respondeu-me que se eu o desejasse com muita força, iria acabar por acontecer. Por isso vou desejar com todas as forças que tenho e todos os dias para que os volte a ver.

Saí da sala de aula e enfiei-me na casa de banho, já não conseguia suportar ouvir as pessoas todas a falar de mim e deles. Estou farta que metam o nariz onde não devem.

- Estás bem? – Era a voz de Maddison, claro, porque de certeza que esta estava muito preocupada comigo. Aposto que nem conseguia dormir à noite.

- Vai-te embora Maddison. – Respondi.

- Ai, que sensível. Só pensei que ias querer alguém, visto que foste completamente abandonada. – E riu-se.

 

«17.12.2004

Querido diário…

Consegui convencer a minha mãe a deixar-me ficar em casa, disse-lhe que não me estava a sentir bem, o que não é mentira e ela deixou-me faltar à escola, até porque as férias estão mesmo a começar. Tenho a certeza que sabe os meus motivos, e apesar de já ter passado uma semana e um dia desde que fui completamente abandonada pelo meu namorado e meu melhor amigo por eles, não consigo encarar as pessoas, não por saber que andam a dizer que eles me abandonaram e que ninguém me quer, apenas porque sei que não vale de nada olhar, porque não muda o facto de terem ido embora.»

 

Mais dias passam, nada muda, nada se altera, continua tudo igual, como se o tempo tivesse parado e o pior, a minha dor não passa.

O que me lembra que eles foram reais, além das fotografias, que agora são completamente vazias, não representam nada, é a dor.

A dor que sinto ao pensar neles.

As pessoas vêm-me na rua e perguntam porque é que ultimamente não tenho andado risonha como costumava, porque é que deixei de ir às festas, porque é que ando calada e deprimida, porque pelo ponto de vista delas eu tenho tudo. Tenho tudo o que podia desejar, tenho tudo para me fazer feliz, porque do ponto de vista delas, dinheiro é tudo. Por isso, eu tenho dinheiro, logo sou feliz, mas não é bem assim. Preferia mil vezes ser pobre e tê-los de volta do que rica e nunca mais lhes pôr os olhos em cima. O dinheiro, em várias ocasiões, não passa de papel ou pedaços de metal que acabam por não significar nada.

 

«24.12.2004

Querido diário…

É véspera de natal, e a única prenda que quero é vê-los uma vez mais, uma última vez. Ter a oportunidade de me despedir, de saber o porquê desta retirada de um momento para o outro mas sobretudo porque tenho saudades deles.

A minha mãe diz que eu devia ir a um psicólogo, porque não ando eu, ando distante, sempre a ouvir música triste e melancólica e choro. Eu nunca choro por rapazes, acho um desperdício de tempo, porque são apenas pessoas que nos fazem sofrer mas agora, agora choro, e choro quase todos os dias, se não forem mesmo todos. Eu apeguei-me demasiado a eles, e agora, agora não sei como me despegar.»

 

- Chocolate quente? – Perguntou o meu pai, ao sentar-se na cadeira do jardim, ao meu lado.

- Não tenho sede.

- Boa, porque isto, sobretudo, alimenta.

- Não tenho fome.

- Melanie, eu sei que é difícil, mas tens que fazer um esforço, tens que comer. Estou preocupado contigo e sinceramente… começo a achar que a tua mãe tem razão, talvez, não sei, talvez seja altura de procurarmos alguém experiente nestas coisas…

- Não. – Olhei para ele e peguei-lhe na mão. – Eu fico bem. Não façam isso. Eu prometo, eu vou ficar bem.

- Não é por mim Mel, é por ti.

- Eu sei… é por mim.

 

«16.01.2005

Querido diário…

O meu pai está preocupado comigo, estão todos e o grande problema é que… eu também estou. Eu não sou esta pessoa miserável e infeliz, ou pelo menos não costumava ser. Eu culpo-me por isso. Não a eles, não aos meus amigos mimados, não aos meus pais… a mim, porque eu deixei que eles me magoassem, porque eu não soube afastar-me quando todos me disseram para o fazer… porque… eu adorava-os.

Tenho que acabar com isto, com esta onda de tristeza, com esta infelicidade, com isto tudo. Por isso vou tentar mudar, tentar sorrir, pelo menos parecer feliz, para que eles fiquem mais descansados

 

Ando-me a esforçar por parecer feliz, por me sentir feliz, mas quando olho para a mesa que fica ao lado da minha em História, onde tinha combinado com Bryan para este se sentar, fico de novo em baixo.

Ir para o refeitório e sentar-me numa mesa sozinha enquanto vejo os outros a divertirem-se e a comer enquanto eu apenas observo é… devastador.

Por muito que tente, continuo vazia, e não vejo nada que possa preencher este enorme buraco no meu peito.

Aderi a mais actividades da escola, inscrevi-me no coro e no grupo de desenho, e também no jornal. Arranjei trabalho num café, em part-time, e estudo, estudo cada vez mais para ocupar a minha cabeça, para não pensar em coisas tristes, para não pensar neles.

Ando cansada, desgastada de tudo, e agora já não é só psicologicamente, é também fisicamente.

Estar aqui na escola, enquanto só me apetecia estar a ouvir música deprimente em cima da cama, é quase como uma tortura.

Vi uma rapariga a chorar e fez-me lembrar de quando era eu, de quando estive a chorar sem parar, e de quando isso de vez em quando ainda acontece.

Eu sei que nessas alturas dizemos que queremos estar sozinhos e ser deixados em paz, mas não é verdade, ninguém, nunca, quer ficar sozinho.

Levantei-me e fui ter com ela. Pus-lhe a mão no ombro e ela olhou para mim.

- Problemas? – Perguntei. Ela afirmou com a cabeça. – Tu vais ultrapassar.

- Não sei se consigo. – Soluçou.

- Eu sei que consegues.

- Ele acabou comigo, o meu namorado…

- E estás a chorar por isso? Ele é só um… rapaz. – Fez-se luz na minha cabeça. – É só um rapaz. – Sussurrei.

- Como é que superaste? A ida do teu namorado…

Sorri, e como já não sorria desde há muito tempo, apesar de a pergunta não ter nada de bom. O Jason era apenas um rapaz, o lindo deus grego que eu amo, mas ele foi-se embora, já não está cá. Podia perfeitamente ter sido o amor da minha vida, mas acabou. Por isso, porque é que eu ia continuar deprimida por causa dele? Finalmente percebi o quão estúpida estava a ser.

Falei mais um bocado com a rapariga e quando as aulas acabaram fui para casa.

Pus-me em frente ao espelho do meu quarto e respirei fundo.

Tirei o colar do coração, o belíssimo colar que Jason me tinha dado quando começámos a namorar.

Desci as escadas e fui para a cozinha. Segurei no colar durante um bocado e depois deixei-o cair no caixote do lixo. Respirei fundo de novo e voltei a subir para o quarto.

Depois do jantar fui apanhar ar para o jardim e a vi a minha mãe, sempre fina, a aproximar-se.

- Como é que estás? – Perguntou-me.

- Bem. – Ela sabia perfeitamente que era mentira.

- Sei que tenho sido dura contigo, mas é apenas porque me preocupo.

- Mãe, tu não tens que dar esse discurso do “preocupo-me contigo”, eu percebo, tu avisaste-me, eu não liguei, tu estavas certas. Podes dizer, podes dizer que me avisaste. Mas não te preocupes, eu vou ficar bem, a sério. As coisas vão mudar mãe.

- Eu não quero dizer isso. Mel, tu estás infeliz, triste a toda a hora… - Agarrou-me na mão e pôs-me lá uma coisa. – Mas sei que vais superar, tu és uma miúda forte. Não é por mandares coisas fora que as memórias desaparecem. Já está a ficar tarde, é melhor ires descansar. – E deu-me um beijo na testa.

Começou a afastar-se e eu abri a mão. Estava lá um lindo colar, com fio preto e um coração em prata, com pedrinhas. O meu, o meu lindo colar oferecido por Jason.

 

«05.03.2005

Querido diário…

Tu tens sido um óptimo amigo até agora mas… eu não acho que precise mais de ti, eu acho… eu acho que estou bem. Eu sinto coisas outra vez, e eu saio, e eu rio-me. E eu acho que estou recuperada, e talvez ainda não esteja completamente “eu”, mas estou num bom caminho. Até todos eles acham que estou diferente, mais leve, mais sorridente, mais… viva. Estou viva novamente.

Jason e Bryan Eles são história, agora tenho que seguir em frente, porque a vida não acaba porque uns míseros rapazes decidem mudar de cidade e deixam-me para trás. A vida continua, a vida não pára, por muito que desejemos que sim, e eu desejo isso a toda a hora.

Mas eu vou ficar bem, sei que sim. A vida é dura, mas eu vou sempre bater com a cabeça na parede até finalmente acertar na porta, e quando acertar (que vou acertar), vai ser das melhores coisas de sempre.

Melanie McKensie»

 

Fechei o diário, desci as escadas e fui para a sala. Olhei para ele uma vez mais e mandei-o para a lareira, onde o vi queimar.

 

Ano de 2010 (Presente)

 

Voltei a levantar-me e tentei abrir a porta de novo, mas em vão. Sentei-me na cama e comecei a pôr a cabeça a trabalhar, mas segundos depois ouvi um pequeno som e olhei para ao meu lado, em cima da cama. Estava lá uma criatura familiar, era um pouco mais pequeno que um polegar e tinha uma cabeça de pássaro, com barba e um nariz longuíssimo. Eram criaturazinhas difíceis de esquecer, e eu sabia exactamente que Tengu era.

- Akhu! – Exclamei. – O que é que estás aqui a fazer?

Ele teletransportou-se para o meu ombro e começou a falar ao meu ouvido.

- Recebi a notícia de que precisavas de ajuda. – Disse. – Por isso vim tirar-te daqui.

- Isso é óptimo! Como é que consegues fazer isso?

- É fácil, mudo de forma, de modo a ficar maior e depois destranco a porta. Assim já podes ir combater o Diabo.

E num piscar de olhos a porta já estava destrancada e meio aberta, e Akhu já estava de novo no meu ombro.

- Isso é fantástico Akhu. Obrigado.

- Há mais alguma coisa que possa fazer por ti?

- Na verdade sim… vou precisar de transporte…

- Para onde?

- Ainda não sei, mas já te digo. Podes ir buscar a minha Desert Eagle? – Pedi.

- Vais lutar com o Satanás, não achas que devias usar uma arma um bocadinho… maior?

- Eu reclamo sobre o teu tamanho? Não. Por isso não reclames com o tamanho da minha arma.

- Os seus desejos são ordens. – E desapareceu.

Fui até à mesa-de-cabeceira e abri a gaveta. Tinha que lhe deixar qualquer coisa, podia nunca mais voltar a vê-lo, ele tinha que saber como me sentia, e porque tinha que fazer o que vou fazer. Tinha que lhe dizer que o amo e que nunca o esquecerei. Peguei no meu caderno A4 de folhas de linhas e comecei a escrever.

 

«Jason,

Fui lutar com o Diabo, a minha vida sem ti não faz sentido e eu não quero viver assim, na expectativa do que poderia ter sido se tivesse combatido o Diabo. Isto é uma coisa que tenho mesmo que fazer e espero que percebas. Eu preciso que percebas o quanto gosto de ti e que entendas porque Não consegui ficar parada ao saber o perigo por que estavas a passar, eu amo-te muito e não conseguiria suportar se alguma coisa te acontecesse. Se leres isto é porque estou morta, mas Quero que saibas que És e sempre foste muito especial para mim. Beijos, Mel.»

 

Ai, que raiva! Falta qualquer coisa, não sei bem o quê, falta… paixão, mais eu, mais Melanie McKensie. Esta mensagem diz adeus de uma maneira demasiado fria, eu preciso de uma maneira apaixonada, sentida. Amachuquei a folha e mandei-a para o chão. Sabia que num momento destes era uma estupidez estar a preocupar-me com o que deixava escrito num bilhete de despedida, mas mesmo assim, eu queria certificar-me de que lhe ia conseguir dizer, de uma maneira ou de outra, tudo o sentia. Ao fim de poucos minutos consegui.

 

«Jason… eu espero que percebas o porquê do que tive que fazer e, se estiveres a ler isto, então fiz bem em fazê-lo porque manteve-te vivo. Ao leres esta carta, eu provavelmente já estou morta, mas tu continuas vivo, e esse foi sempre o meu objectivo e é tudo o que podia pedir. Eu sei que pensas que esta vida é tão má como o Inferno mas graças a ti eu nunca me senti assim, sempre me senti bem, como se estivesse no lugar certo. Tu fazias desta vida uma vida melhor, e cada vez que olhava para ti, que pensava em ti, via o porquê de continuar a viver e a lutar ainda mais e com cada vez mais força. A verdade é que graças a ti nunca desisti, e isso é uma coisa muito, muito boa, mesmo que penses o contrário. Esta vida não é tão má como pensas, e nem tudo é preto e branco, é claro que temos partes horríveis, mas depois também temos outras muito boas, e são dessas que te deves lembrar com frequência. Não me interessa se estou morta ou viva, estarás sempre comigo. Eu amo-te, nunca te esqueças disso. Melanie»

 

 

Pus dentro do envelope de onde tinha tirado a carta que ele me tinha deixado e risquei o meu nome, pondo o dele. Escrevi outra coisa num pedaço de papel e pu-lo no bolso.

Akhu encontrou a Desert Eagle e eu pu-la presa no cinto, depois subi para o sótão e procurei por uma espingarda. Sinceramente, duvido que alguma arma, seja de que tamanho for, consiga deitar Lúcifer abaixo.

- Como é que vais achá-lo, vais fazer algum feitiço com sangue? – Perguntou.

- Não, estou a poupar sangue. – Respondi, enquanto estava à procura do que precisava.

- Poupar sangue?

- Vou contra o Diabo, acho que vou perder bastante, por isso é melhor não o desperdiçar.

Estiquei um mapa na mesa e tirei o meu colar do coração.

- Por favor. – Disse eu. – Se me ouves, imploro-te. Ajuda-me. Aponta-me o sítio certo. Eu sei que Tu queres salvar o mundo tanto quanto eu. – E comecei a rodar o colar.

O colar parou na costa ocidental na Turquia, mais especificamente onde costumava ser Éfeso.

- É para ali que vamos. – Disse eu.

- A sério? – Perguntou Akhu, duvidoso. – Vais para um sítio porque um colar to apontou.

- Tempos desesperados requerem medidas desesperadas, mas não foi o colar, foi Deus. O que eu estou a ter, chama-se fé.

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