Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 19.09.10

Olá...

Antes de tudo queria pedir desculpa por ontem não ter postado nada,é que fui a um casamento, e como eu ir foi uma decisão de última hora, não tive tempo para nada, e quando cheguei já era bastante tarde.

Por isso, hoje têm dois capítulos, o de ontem e o de hoje.

Espero que gostem ;)

 

 

Capítulo 11

De Volta à Cidade

 

Abby chegou cinco minutos depois de Derek ter saído, e perguntou-me logo se tinha estado a chorar. Eu inventei uma alergia e ela começou a falar em termos científicos em relação às alergias. Mentir a esta miúda é perigoso.

Dylan chegou pouco depois.

Depois de jantarmos, arrumei a cozinha e fui para o quarto. Estive a fazer um trabalho de Filosofia no computador mas depois, ao olhar pela janela, vi Gwen a aproximar-se da casa.

Desci as escadas e quando abri a porta ia ela bater. Olhei bem para ela. Estava muito arranjadinha, pintada e tudo, mas todo o esplendor era estragado pelas lágrimas que lhe escorriam pela cara.

- Gwen… o que é que aconteceu? – Perguntei, alarmada.

Ela entrou e eu fechei a porta. Ficámos as duas a olhar uma para a outra, ali no meio do hall, com ela aos soluços.

- Foi o Tom – disse-me, ainda a soluçar.

O Tom! Com tudo o que se passou à tarde, esqueci-me do encontro que Gwen tinha com ele.

- O que é que ele fez? – Agarrei-lhe na mão e conduzi-a até ao sofá, onde nos deixámos ambas cair.

- Eu cheguei à discoteca e vi-o agarrado a uma… uma…

- Calma Gwen, respira – disse-lhe, quando vi que ela estava a ficar sem ar de querer falar tudo ao mesmo tempo e do choro.

- Eu pensava que ele era o meu príncipe – Bolas, agora meteu-me pena.

Aproximei-me dela e agarrei-lhe nas mãos.

- Gwen… tu andas no secundário, não é um bocado cedo para andares à procura de alguém?

- Não. Porque se eu não procurar… eu não quero acabar sozinha numa casa com sete gatos Chloe… não quero.

- Querida, não vais, ok? Isso é ridículo. Ouve bem porque eu não digo isto muitas vezes – Pedi. Ela levantou o olhar e olhou para mim, na expectativa. – O teu príncipe encantado está por aí algures, e ele quer encontrar-te a ti tanto quanto tu o queres encontrar a ele, mesmo que ainda não saiba.

- Tu disseste “príncipe encantado” – e sorriu. – Isso é raro.

- Pois é.

Gwen saiu daqui quase à meia-noite, e eu fui tomar um duche rápido e encaminhei-me para a cama.

Acordei bem, sem sobressaltos, sem pesadelos. Era de aproveitar. Acho que o dia me vai correr bem.

Acordei os meus irmãos e despachámo-nos para irmos para as escolas.

A minha primeira aula, História, até foi interessante, estivemos a ver um vídeo. Gwen, ao meu lado, passou a aula toda a olhar para Tom e a fazer desenhinhos no caderno.

Tom… estes tipos metem-me nojo.

Quando tocou, saímos e parámos no corredor para eu tirar o telemóvel da mala. Tom saiu logo a seguir e veio ter connosco.

- Ei Gwen, não te vi ontem… - disse ele.

- Desculpa, depois vens ter comigo? – Perguntou-me ela, que, sem esperar uma resposta, começou a andar para o exterior da sala.

- Claro – murmurei, para mim.

- O que é que lhe deu? – Mas é que além de ser estúpido, faz-se de burro.

- O que é que achas?! – Perguntei, chateada.

- Não faço ideia… enfim, então e tu, queres sair logo à noite? – É que é preciso ter uma grande lata…

- Tu devias ter vergonha de ti mesmo! – Respondi-lhe, à bruta – Eu preferia andar com um… um vampiro, do que contigo!

- Uhh, estás-te a fazer de difícil, não faz mal, eu também não gosto que aceitem à primeira, dá a sensação de que são demasiado fáceis.

Aproximei-me mais dele e se conseguisse, tinha-o evaporado só com o olhar.

- Tom, eu sei que é difícil para uma pessoa limitada como tu perceber, por isso vou simplificar isto. Tu ser estúpido, mim não querer estar com tu.

- Boa…

- Eu estou-te a avisar, afasta-te da Gwen e nem sequer penses em aproximar-te de mim.

Passei por ele, dando-lhe um encontrão no ombro, e continuei a andar. Derek apareceu à minha frente na curva, pregando-me um susto enorme.

- Whoa! Estás a ver se me matas?!

- Desculpa – o seu sorriso e os olhos cintilantes não mudaram nada desde ontem à tarde. Ontem à tarde… tenho que falar com ele sobre isso.

- Podemos falar?

- Claro.

Fomos para o exterior da escola e sentámo-nos nas escadas.

- Derek, sobre ontem …

- Eu sei que forcei um bocado com a história do teu pai, e sei que não queres que ninguém saiba, por isso não precisas de te preocupar. Os meus lábios estão selados.

- Obrigado mas…

- Sim, eu não conto nem à Verónica nem ao Gary.

- Derek, posso falar? – Credo.

- Desculpa. Diz.

Respirei fundo e olhei para ele.

- Ontem eu estava… carente. Lembrar-me do que se passou abalou-me mais do que devia e… enfim, eu só queria esclarecer que eu continuo a odiar vampiros, e tu ainda és um…

- Eu sei.

- Eu só pensei… por causa do abraço…

- Tu acabaste de dizer que estavas carente. Achei que não ia fazer mal nenhum dar-te um abraço.

- Ok, então é tudo.

Levantei-me mas ele agarrou-me na mão para me impedir de andar.

- Tu trouxeste o colar – observou, enquanto se levantou também.

- Trouxe. Não é o meu estilo mas… é a última coisa que tenho dele por isso…

- E protege-te.

- Sim… acho que sim.

- Oh, é mesmo verdade que preferias estar com um vampiro do que com o Tom?

- Como é que tu… não, era uma maneira de falar.

- Oh, ok.

Quando finalmente cheguei a casa estava de rastos, já eram quase seis da tarde. Estive a trabalhar num café aqui perto. Cada vez que a empregada falta, eles chamam-me a mim.

Abby e Dylan já lá estavam. Deixei a mala no sofá e subi para ver deles. Abby estava no quarto a fazer os trabalhos de casa e Dylan estava no quarto a fazer não sei o quê, se perguntasse alguma coisa ele mandava logo vir comigo, por isso fiquei quietinha.

Quando o dia acabou estava estafada, e adormeci mal caí na cama.

Tal como ontem, hoje voltei a acordar sem quaisqueres vestígios de pesadelos.

No caminho para a escola reparei que Dylan tinha um telemóvel novo, mas esperei até Abby sair para lhe perguntar onde o tinha arranjado.

- Telemóvel giro – disse-lhe.

- Obrigado – ele continuava a mexer no novo brinquedinho e não me ligava nenhuma.

- Onde é que o arranjaste? Porque eu não te dei dinheiro, e tu não trabalhas…

- Hum… achei-o.

- Achaste-o? Vá lá Dylan, diz a verdade.

- Não o roubei, se é isso que estás a pensar.

- Hum… - ele até parecia verdadeiro, mas é o Dylan, e o Dylan mente melhor que ninguém – Então como é que ele te foi parar às mãos?

- Tu não vais gostar da resposta.

- Tenta – desde que ele não o tenha roubado…

- A mãe deu-mo.

Parei o carro de repente e olhei para ele. Ouvi uma buzinadela e regressei ao mundo real. Continuei a conduzir.

- O quê?! O que queres dizer? Ela está aqui?

- Sim.

- Desde quando?

- Faz uma semana amanhã.

Eu estou a ficar chateada, e quando conduzo chateada não acontecem coisas boas.

- Uma semana… e nem sequer falou com os filhos – resmunguei.

Aquela mulher é mesmo um caso perdido, o que vale é que já não tenho um único pingo de fé nela.

- Ela falou comigo – disse-me ele.

Estacionei o carro e saímos os dois. Começámos a caminhar em direcção à entrada.

- Tu sabes que ela não vai ficar, certo?

- Não sabes isso. Ela disse que desta vez vai ficar cá e que vai arranjar um emprego.

- Dylan… ela diz isso de todas as vezes.

- Mas desta vez é diferente, ok? Eu sei que é – Às vezes tenho pena dele. Tenho pena que continue com esperanças nesta mulher…

- Onde é que ela está?

Ele disse-me o nome do hotel em que ela estava e depois separámo-nos no corredor. Fui directamente para a sala e pus os fones nos ouvidos, à espera que o resto das pessoas entrasse.

A aula foi uma amostra de inferno, não me consegui concentrar por um único minuto e todos os meus pensamentos iam dar uma miserável pessoa: Margaret Simms. A pessoa que até hoje me desiludiu mais que qualquer outra.

As aulas da parte da manhã pareceram todas iguais, apesar de não haver nada de igual e Inglês e Trigonometria, por exemplo.

Quando chegou a hora de almoço, sentei-me numa mesa com Gwen e comecei a mexer com o garfo na comida.

- Ok, o que é que aconteceu? – Perguntou ela – Eu estava à espera que desabafasses antes de eu perguntar, mas já vi que isso não vai acontecer.

Pousei o garfo e apoiei a cabeça nas mãos.

- A minha mãe voltou.

- Auch. Como é que estás?

- Bem, só descobri no caminho para a escola, esta manhã, por isso não sei.

- Como estão os teus irmãos?

- A Abby não sabe, e o Dylan está… a acreditar nela. Ele acredita que é desta que ela fica.

- Estás preocupada com ele.

- Ele pode ser uma dor de cabeça constante mas não merece isto. Aquela mulher vai e vem, e magoa toda a gente por onde passa.

- O que é que vais fazer?

- Sei o que não vou fazer. Não vou evitá-la como costumo fazer cada vez que ela cá está.

- Que quer dizer…

- Que vou ao hotel falar com ela.

- Tens a certeza?

- Gwen, aquela mulher abandonou-me quando eu mais precisei de alguém. Eu tenho a certeza. Está na hora de lhe dizer as coisas que tenho atravessadas.

- Vais contar à Abby?

- Não sei…

Depois de Espanhol saí da escola à pressa e fui até ao hotel onde Dylan disse que ela estava e pedi ao recepcionista para me dizer o número do quarto dela. Ele estava teimoso, mas eu fui mais.

Subi até ao quarto e respirei fundo aí umas três vezes, antes de bater à porta. Quando ela abriu a porta, ficou especada a olhar para mim. O seu longo cabelo loiro estava esticado e os olhos verdes, a maior semelhança que tem comigo, infelizmente, observavam-me de alto a baixo. Ela estava com umas roupas muito finas, e estava cheia de maquilhagem.

- Chloe! – Exclamou – Que bom ver-te. Estás tão diferente, tão bonita…

Avançou para me abraçar mas eu desviei-me.

- Sim, passaram-se quê? Ano e meio, dois anos? – Perguntei, com a voz dura – Posso entrar?

- Oh, claro, por favor – desviou-se e eu entrei. Ela fechou a porta e voltou a olhar para mim, com um sorriso parvo na cara.

- O que é que está aqui a fazer? – Se há uma coisa que aprendi com ela, é que se lhe queremos perguntar alguma coisa não podemos adiar muito, porque ela já se pode ter ido embora.

- O que queres dizer? Vim ver-vos.

- Poupa-me. Estás em Great Falls há uma semana e ainda não falaste connosco. O que é que estás mesmo aqui a fazer?

- Chloe, querida, não entendo.

- Não me chames “querida”, perdeste esse direito no momento em que saíste pela porta e não voltaste.

- Oh, já percebi onde queres chegar. Desculpa ter falado com o Dylan e não ter falado logo contigo. Não precisas de ter ciúmes.

- Ciúmes? Tu achas que eu tenho ciúmes?! És tão hipócrita!

- Olha o respeito, eu sou a tua mãe.

- Não, não és. Podes ter andado comigo na barriga por nove meses, mas não és a minha mãe. Nem minha, nem do Dylan, e muito menos da Abby. Tu não nos conheces. E nunca quiseste.

- Não ouses falar-me assim Chloe.

- Nunca foste a minha mãe. Porque é que continuas a aparecer? Ainda não percebeste que ninguém te quer cá?

- Chloe, eu não te admito isso. Eu vim para cá para passar algum tempo contigo e com os teus irmãos…

Olhei para cima da cama e vi um bilhete de avião para Itália.

- Vais a algum lado? – Perguntei. Claro que vai.

- Não, porque é que dizes isso? – Pegou no bilhete e meteu-o dentro da mala.

- Tu não mudas. E não prestas mesmo. Porque é que continuas a dar esperanças ao Dylan e à Abby? Não achas que já passaram por demasiado?!

- Oh, por favor. Não te venhas queixar de como tiveste uma infância difícil, e isto, e aquilo.

- Não, não vou.

- Óptimo.

- Eles não merecem Margaret. Ninguém merece.

- “Margaret”? Tu devias chamar-me “mãe”.

- Talvez chamasse, se algum dia o tivesses sido.

- O que é que vieste cá fazer, mesmo?

- Dizer-te para te afastares de nós. Vai para Itália, vai para África se for preciso, não me interessa, mas afasta-te de nós, de vez. Pára de agir como se importasses e acaba de uma vez com isto.

- Vocês são os meus filhos, eu nunca vos abandonaria.

- Tretas. Já abandonaste. Nós podíamos estar a morar debaixo de uma ponte e não termos comida e tu não te importavas, porque o que interessava era que estavas a viajar e a realizar um sonho. Sabes que mais? Eu também tenho sonhos. E um deles é nunca mais ter que olhar para a tua cara outra vez.

Dirigi-me à porta e bati com ela, ao fechá-la.

Fiquei no carro durante algum tempo e depois conduzi para casa. Dylan e Abby estavam ambos na sala, a ver televisão e a conversar.

- Cheguei – disse-lhes, enquanto ia para subir as escadas.

- Espera! – Pediu Abby. Aproximei-me deles e apoiei-me nas costas do sofá – É verdade que a mãe está cá?

Olhei para Dylan. Este rapaz só faz é asneira.

- É – respondi –, mas não é por muito tempo.

- Não sabes isso – disse logo Dylan.

- Acredita, sei.

- Eu não quero jantar com ela – disse Abby – Não gosto dela.

- Porque é que vocês são assim?! Ela está aqui, isso é que devia importar! – Gritou Dylan.

- Nós não vamos jantar com ela, porque é que disseste isso? – Perguntei, para Abby.

- Porque o Dylan disse que ela vinha cá comer. Acabaram de falar ao telefone… - respondeu-me ela.

Olhei para Dylan e explodi por completo.

- Tu convidaste-a para jantar?! – Perguntei, perplexa.

- Convidei.

- Com que direito?! Dylan, ainda há bocado estive a discutir com essa mulher!

- “Essa mulher” é a nossa mãe! Raios Chloe – levantou-se. Avizinha-se uma discussão…

- Ela não é a minha mãe. Ela não me é nada.

- Não sejas estúpida e deixa-me em paz. Ela vem jantar e pronto!

- Eu não a vou ter na mesma mesa que eu.

- Tudo bem, então não comas.

- Tudo bem.

- Tu precisas de aprender a perdoar – virou costas e encaminhou-se para o quarto.

- Eu sei perdoar! Eu fi-lo das primeiras duas vezes que ela voltou e se foi embora.

- Não me interessa, quando é que percebes? Não me interessa se ela nunca te deu as boas prendas ou te agarrou ao colo quando choraste.

- Na terceira vez que ela apareceu, eu parei de perdoar! Eu olhei para a cara dela e lembrei-me do que tu e a Abby choraram abraçados a mim das outras duas vezes que ela se foi embora – ele ficou a encarar-me – Tu podes não te lembrar, tinhas doze anos, mas eu nunca me vou esquecer.

- Ela continua a ser a nossa mãe – e encolheu os ombros.

- Ela sabe que tu andas a consumir drogas? A baldar-te às aulas? Ela esteve em alguma das festas da escola da Abby? Sabe que ela foi convocada para o concurso de soletrar? – Ele continuou quieto e calado – Mesmo entre todas as visitas, alguma vez ela te perguntou se eras feliz? Se estavas bem? – Ele baixou a cabeça e olhou para o chão – Ela não é nossa mãe. É triste, mas é a verdade. E eu não vou comer com ela.

- Tu é que sabes, mas ela vem cá comer.

- Tudo bem, espero que sejas um bom cozinheiro.

- Eu tenho que comer com ela? – Perguntou Abby.

- Sim! – Respondeu Dylan, ao mesmo tempo que eu respondi que não – O quê?! Tem sim!

- Não tem não! É a escolha dela.

- Tudo bem, tu queres comer com a mãe, certo Abby? – Dylan quer mesmo que isto resulte, o que ainda me faz ficar pior ao saber que nunca vamos ter o que ele quer.

- Não – respondeu Abby – Eu não gosto dela, e não quero comer com ela.

- Eu vou encomendar pizza para nós, ok? – Perguntei. Apesar de não gostar de ver Abby contra a própria mulher-que-não-é-a-mãe-mas-que-a-deu-à-luz, acho que ela fez a escolha certa. Mesmo com dez anos, é mais inteligente que Dylan.

Encomendei a pizza e quando eram sete e meia a nossa… Margaret chegou. Dylan ficou felicíssimo em vê-la, apesar de já a ter visto desde que ela chegou. Tive que a ver a apertar as bochechas a Abby enquanto dizia o quanto ela tinha crescido e tive que me desviar não sei quantas vezes dos abraços que me queria dar. É preciso muita lata para vir aqui agora, depois do que eu lhe disse ainda há bocado. Há pessoas mesmo sem vergonha nem moral nenhum.

- Bem, o que é o jantar? – Perguntou ela, a olhar para mim.

- Porque é que estás a olhar para mim? Eu não sou a tua empregada – Disse-lhe, azedamente – Eu e a Abby vamos jantar no meu quarto. Tenham um bom jantar.

- Mas… eu pensava que isto ia ser um jantar de família.

- Pois, e podia ser, mas tu estás cá, logo já não é.

- Chloe – Então mas agora até Dylan me repreende? Ele que cale a boca. Subi as escadas com Abby e fomos para o quarto.

Comemos a pizza que tinha chegado há pouco tempo e jogámos às cartas e ela leu enquanto eu estive no computador.

Quando eram quase onze horas, bateram à porta e abriram-na em seguida. Eram Dylan e Margaret.

- Que foi? – Perguntei.

- Vou embora – disse ela. – Queria despedir-me – E abriu os braços, como se esperasse um grande abraço. Eu e Abby ficámos a olhar para ela como quem diz “continua a sonhar”.

- Vá lá pessoal – pediu Dylan.

- Posso ficar sozinha com a Margaret? – Pedi.

Abby e Dylan saíram e fecharam a porta, mas tenho quase a certeza de que ficaram do lado de fora a ouvir.

- O jantar estava tão bom… eu adoro passar tempo assim com vocês, apesar de tu e a tua irmã não terem sido lá muito cooperativas – riu-se e piscou-me o olho.

- És surda? Depois do que eu te disse hoje, és surda?

- Não, eu só quero uma segunda oportunidade…

- E tiveste-a. Não consegues ver?! Nós demos-te não sei quantas oportunidades, mas agora acabaram-se. De mim não esperes mais nada. E se achas que me compras com prendas estás muito enganada…

- Querida…

- Não me chames “querida”. Eu percebo o Dylan, ok? Durante muito tempo, eu também quis uma mãe, mas acabei por ter que perceber que certas coisas nunca vão mudar. E estou orgulhosa da Abby, por ela ter percebido isso em menos tempo que eu percebi.

- Não digas isso, eu sou a vossa mãe.

- Qual é a minha cor preferida? Ou a minha comida preferida?

- O quê?

- E a do Dylan? E a da Abby?

- Eu… eu não sei.

- Vês? Uma mãe saberia. Tu não és uma mãe. És o mais parecido que há a uma barriga de aluguer. O que nos fizeste não tem perdão. Agora sai da minha casa.

- A tua casa?

- Eu trabalho para a pagar, por isso sim, a minha casa.

- Tu vais-te arrepender, um dia.

- Não me parece.

- Adeus.

Ela abriu a porta e saiu, amuada. Vi pela janela ela a entrar para um BMW e começar a ir para longe.

Dylan não me falou mais, enfiou-se no quarto e assim ficou. Abby também se foi deitar, e eu vesti o pijama, pus-me na cama e telefonei a Gwen, a contar-lhe das novidades. Ficámos na conversa quase até à uma da manhã, e depois adormeci.

De manhã Dylan continuou sem me falar e não quis boleia para a escola. Depois de deixar Abby na dela, corri a escola inteira à procura de Dylan, mas não o vi em lado nenhum.

À hora de almoço também não havia sinais dele, e descobri pelos colegas dele que ele não tinha ido às aulas. Ia ter quinze minutos livres, por isso fui para a rua e sentei-me na relva, sozinha.

- Ei! – Era a voz de Dylan.

Olhei para trás e vi-o em pé, parecia estar fulo comigo. Levantei-me e olhei para ele.

- Porque é que faltaste às aulas? – Perguntei – Onde é que estiveste?

- Espero que estejas feliz – disse-me. Estava mesmo chateado – Passei no quarto de hotel da mãe e ela não estava. Deixou um bilhete a dizer que se tinha ido embora.

Eu sabia que isto ia acontecer.

- E o que é que é novo? – Murmurei. Depois mudei de tom, mudei para um tom compreensivo e preocupado. – Dylan, olha, lamento, mas já a conheces…

- Cala-te! Ela ia ficar! – E desatou aos berros – Ela ia.

- Não ia não… Ela foi para Itália. Quando a fui ver ao hotel vi o bilhete de avião…

Começaram todos a olhar para nós, o que vale é que não está aqui muita gente.

- Porquê?! Se tu não fosses tão estúpida para ela, talvez ela ficasse!

- Encara a verdade Dylan! Nem tudo é culpa minha – Ok, o tom de boa irmã acabou, se ele grita comigo, eu também grito com ele.

Ele aproximou-se de mim, estava tenso e tinha as mãos fechadas em punho.

- Quem me dera que tu estivesses morta – disse-me.

- O quê? – A minha voz soou a puro desespero.

- Preferia ter-te morta e ter a mãe e o pai aqui, do que isto.

- Tu odeias-me assim tanto…

- Seja qual for a quantia que estás a pensar, é o dobro.

Olhei para a relva e voltei a olhar para ele. Sentia os olhos enlagrimados e já começava a ver tudo distorcido.

- É bom saber – disse-lhe, com a voz a falhar-me.

Agarrei na minha mala, que estava na relva, e comecei a andar em direcção ao bosque. As lágrimas começaram a cair mas eu não ia dar a parte fraca até saber que ninguém me ia ver.

Entrei bastante no bosque, e só então é que me deixei cair no chão e deixei as lágrimas correrem à vontade.

A minha relação com o meu irmão nunca foi um mar de rosas, mas nunca esperei ouvir isto, nem nada parecido, vindo dele. Tudo bem que eu estou sempre a dar-lhe na cabeça, mas é porque me preocupo.

«Quem me dera que estivesses morta…» estas palavras ecoaram na minha cabeça durante não sei quanto tempo.

Ouvi passos atrás de mim e virei-me repentinamente.

- Eu vi – disse-me Derek – Como é que estás?

- Nada bem – admiti, enquanto tentava secar as lágrimas.

Ele sentou-se ao meu lado e eu encostei a minha cabeça ao seu ombro. Apesar de ser a mesma coisa que estar encostada à árvore, sabia-me bem.

- Sabes… desde que te conheci que ando a chorar mais vezes.

- É pena.

- Obrigado pela paciência.

- E também andas a agradecer mais vezes…

Deixei escapar um pequeno risinho e depois desviei-me de repente e olhei para ele.

- Mas se disseres a alguém que me viste a chorar eu nego – assegurei.

- Nem estava à espera de outra coisa.

Escapou-me outro pequeno risinho. Era fácil sorrir quando estava ao pé dele.

 

Capítulo 12

Opiniões

 

- Eu não quero ir para casa – admiti. Por muito que deteste admitir, estar aqui no meio do bosque com Derek foi a melhor coisa do dia. E por estranho que soe, baixei um bocado a guarda.

- Podes ir para a minha, se quiseres – ofereceu.

- Não, não posso.

- Prometo que não mordo.

Levantei a cabeça do seu ombro e olhei para ele. Esbocei um sorriso.

- Não é por isso. A Abby já deve estar quase a chegar e… eu não posso fugir e esconder-me cada vez que as coisas ficam mal.

- Sabes… eu admiro-te. A sério, eu estás com um vampiro no meio do nada e dizes que não vais com ele, mas não é por medo, é por pensares na tua irmã.

- Pois… acho… acho que se me quisesses matar já o tinhas feito. Espero que sim…

Ele soltou uma gargalhada.

- Tu és uma boa irmã. Tenho a certeza que o Dylan não quis dizer o que disse.

- Pois, isso acontece muitas vezes com ele, mas o problema é que diz na mesma.

- O que é que vais fazer em relação a ele?

- Não sei. Desta vez vai ter que ser ele a dar o primeiro passo. Cansei-me de pedir desculpas por coisas que não fiz.

- Ok – o meu telemóvel começou a vibrar no bolso das calças e vi que era a Gwen – Não vais atender?

- Não, porque depois ia ter que lhe explicar o que aconteceu, porque é que faltei à aula e ela ia fazer perguntas e eu ia ter que dizer onde estava, e ia ter que lhe mentir e dizer que estava bem… só quero tranquilidade agora.

- Eu posso-me ir embora, se quiseres.

- Não, eu quero que fiques.

- Chloe Simms, é possível que estejas a mudar de opinião acerca dos vampiros? – E fez uma cara de espanto.

- No geral não.

Ficámos sentados em silêncio durante algum tempo até que eu tive mesmo que me vir embora. Levantámo-nos e olhei em volta.

- Eu… não faço ideia de onde estou… - apercebi-me. Haviam árvores de todo o lado, e parecia tudo igual.

- Pois, eu calculei, por isso é que vim atrás de ti. Anda – puxou-me para um lado e começámos a andar.

Andámos durante o que parecia uma eternidade, ambos em silêncio, e a paisagem não mudava. Decidi quebrar o silêncio.

- Tens a certeza que é por aqui?

- Tenho. Eu conheço isto muito bem, não te preocupes.

- É que… - e pousei as mãos nos joelhos, inclinando-me. Já estava cansada. – Eu não tenho ideia de ter andado tanto.

- Não duvido, nem viste para onde é que ias.

- Pois…

- Queres que te leve? Eu posso levar-te ao colo se quiseres, e se eu corresse chegávamos a lá mais rápido…

- Não. Eu ando, obrigado.

Andámos mais um bocado e permanecemos calados até sairmos do bosque. Ele levou-me até ao carro e fomos cada um para o seu lado.

- Como foi o teu dia? – Perguntei a Abby, depois de lhe dar um beijo na bochecha.

- Bom, e o teu? – Perguntou ela.

- Respondo-te quando acabar.

Dylan ainda não tinha chegado, ainda bem. Eu tinha que dizer a Abby que a Margaret voltou a fugir, e não ia conseguir fazer isso com Dylan a mandar-me morrer.

- Abby, vem comigo – agarrei-lhe na mão e sentámo-nos no sofá – Abby, eu sei que isto não é fácil para ti, por isso lamento, mas a mãe foi-se embora outra vez.

- Não faz mal – respondeu logo ela, sem sequer pestanejar duas vezes – Eu não gosto quando ela está cá. Põe-nos sempre uns contra os outros.

- Eu sei, mas também sei que sentes a falta dela e é normal.

- Chloe, tu és a minha irmã, e és mais que ela alguma vez foi. Eu adoro-te.

- Obrigada querida – e abracei-a – Também te adoro.

Ela foi fazer os trabalhos de casa para o quarto e eu fui fazer o jantar. Dylan não apareceu para jantar.

Eram quase onze horas quando desliguei a televisão e dirigi-me às escadas, quando ouvi a porta da rua a abrir. Assim que deu um passo em frente, Dylan olhou para mim.

- Oi – disse-me, com a maior das naturalidades – Ainda há jantar?

Eu não respondi e continuei a subir as escadas.

- Então? – Perguntou, enquanto fechou a porta. Começou a andar na minha direcção e parou no princípio das escadas – Que bicho é que te mordeu?

“Que bicho é que me mordeu?!” ele só pode estar a brincar comigo.

Desci as escadas e fiquei à frente.

- Tu querias-me morta – disse-lhe. – Podes começar a fingir que estou, porque é assim que vai ser.

- O quê?! Então não vais falar comigo, é?!

Pessoas mortas não falam… Voltei a subir as escadas e fui para o quarto deitar-me.

Não dormi praticamente nada, e quando estava prestes a pegar no sono, o despertador tocou.

Levantei-me e acordei Abby. Foi ela quem acordou Dylan. Vesti-me e preparei o pequeno-almoço para mim e para Abby. Estou a ser criança? Provavelmente sim, mas também mereço.

- Onde está o meu pequeno-almoço? – Perguntou Dylan.

Eu continuei a comer, sem sequer levantar os olhos da tigela de cereais, e Abby encolheu os ombros.

- Vá lá Abby, despacha-te, daqui a pouco chegamos atrasadas – Já estávamos mesmo no limite da hora.

- Então é assim?! Não me falas mais? Tudo bem. Vamos ver quem é que cede primeiro – Disse Dylan, tirando o leite do frigorífico.

Assim que eu e Abby acabámos de comer, fui levá-la à escola e fui para a minha. Estacionei o carro e corri pelos corredores, já vazios, até à sala de aula.

- Posso? – Perguntei, depois de bater à porta.

- Sim, entra lá – respondeu-me a professora.

Fui para a minha mesa e sentei-me. Passei as coisas que já estavam no quadro e depois apoiei a cabeça nas mãos, a ouvir o que a professora dizia. Senti um toque nas costas e virei-me. Phil, o meu colega de trás, entregou-me um papel e disse que era de Derek. Olhei para ele e ele sorriu-me. Desdobrei o papel.

 

«Como estás? E o Dylan? Espero que se tenham entendido ontem…»

 

Voltei a olhar para ele e depois para a professora, que estava a escrever mais coisas no quadro. Peguei numa caneta e escrevi em baixo do que ele tinha escrito.

 

«Não sei o que dizer ou o que fazer, mas por enquanto estou-lhe a fazer a vontade. Desta vez não vou ser eu a ceder, ele tem que aprender que o que faz tem consequências.»

 

Devolvi o papel a Phil, que o passou a Derek.

Passou-se uma semana e eu continuava sem falar com Dylan. Não falava com ele, não lhe lavava a roupa, não lhe fazia a comida, e nem lhe dava boleia para a escola. Surpreendentemente, e apesar de me doer como tudo, mantive-me fiel à minha palavra, e não me deixei ir abaixo uma única vez… à frente dele.

Abby apercebeu-se do mau clima entre nós, também só um cego é que não via. Ela perguntou-me o que é que Dylan tinha feito, mas eu não lhe disse. Há certas coisas que é melhor manter em segredo.

Eventualmente tive que contar a Gwen o que se passou, e ela, tal como Derek, disse-me que Dylan estava completamente errado e que de certeza que não queria ter dito o que disse.

Durante esta semana falei bastante com Derek, ele também me falou dos irmãos dele, e dos problemas que enfrentaram, mas eles nunca tiveram muitos, foram sempre unidos… quem em dera. É a primeira vez que tenho inveja de um vampiro.

É esgotante estar chateada durante tanto tempo.

Finalmente chegou o fim-de-semana. O sábado passou a correr e então o domingo chegou, e nenhum dos meus irmãos ia passar a tarde em casa. Tocaram à campainha e fui abrir.

- Preparada? – Perguntou-me Derek, assim que abri a porta.

- Sim, vamos.

Agarrei nas chaves e no telemóvel e saí. Derek levou-me no carro dele para a escola, estacionou o carro e caminhámos até ao bosque. Andámos à volta de vinte minutos, até que Derek finalmente parou.

- Estás pronta? – Perguntou-me.

- Sinceramente não sei… - Ok, esta é a altura em que percebo que isto é um erro e que não devia ser feito.

- Vá lá, tu prometeste que me deixavas mostrar-te.

- Eu sei mas… e se eu vomitar?

Ele riu-se.

- Não vais vomitar. Vá lá, é fantástico. Das melhores sensações de sempre.

- Derek eu…

- Como é que alguma vez vais mudar a tua opinião sobre os vampiros se não me deixas mostrar-te as coisas?

- Tudo bem…

Ele começou-se a aproximar de mim e desviou-me o cabelo para trás da orelha. Sorriu.

- Sobe para as minhas costas.

- Mas… não me vais deixar cair, pois não?

- Não. Chloe pensa apenas que te vou mostrar as boas coisas em ser-se vampiro.

Respirei fundo e contornei-o. Subi para as suas costas e agarrei-me aos meus braços, enrolados no seu pescoço. Ele pediu-me para cruzar as pernas, porque ia precisar dos braços livres.

- Posso? – Perguntou.

Eu fechei os olhos com força e apertei-o mais.

- Podes.

Comecei a sentir o vento a passar-me na cara, mas não era mais que uma brisa. Será que ainda não tinha começado a correr?

Decidi abrir os olhos, espreitar só um bocadinho não vai fazer mal.

Ao abrir os olhos vi que íamos colidir com o ramo de uma árvore mas antes que pudesse avisar Derek, já o tínhamos passado, e agora o obstáculo era um pedregulho enorme, que Derek subiu sem qualquer problema.

O bosque aproximava-se de mim a uma velocidade inacreditável, e era difícil manter os olhos abertos por causa do vento, mas eu fiz de tudo para não os ter que fechar.

- Estás bem? – Perguntou ele.

- Estou! – Gritei. A velocidade e o vento davam a entender que se respondesse com o meu tom de voz, ele não me ia ouvir bem, por isso escolhi gritar em vez de ter que lhe dizer outra vez e distrair-me do que estava a experimentar.

Ele continuou a correr durante minutos, e depois parou em frente a uma árvore altíssima.

- Chloe, agora vais-te agarrar com toda a força, ouviste? – Pediu-me.

- Tu não vais subir isso, pois não? – Perguntei, com o receio à flor da pele.

Ele deu uma gargalhada.

- Acho que vais gostar. Fecha os olhos, é melhor.

E antes que pudesses discutir sobre o assunto ele estava a subir a árvore a uma velocidade menor do que corria, mas nem assim menos impressionante. Olhei para baixo, grande erro. Comecei a sentir vertigens e a perder as forças.

- Chloe, agarra-te bem – avisou ele – Estamos quase lá.

- Ok… - respondi, com a voz a tremer.

Eu normalmente não tenho medo de alturas, mas isto parece-me tudo tão… impossível, que se fosse com ele, acho que até a dez metros ia ter vertigens.

Tentei agarrá-lo com mais força, porque se havia uma coisa que não queria era cair dali abaixo.

Finalmente a subida acabou e estávamos no topo. Ele estava em cima de um ramo e agarrado a outros dois enquanto eu via a vista. Conseguíamos ver a cidade quase toda dali.

- Uau… - murmurei – Isto é… apavorante.

- Eu acho que é uma vista linda – disse ele.

- E é. Eu estava a falar da subida… e da descida…

- Não te preocupes com isso.

- Claro… - Olhei em volta e observei tudo – Ok, isto é uma das vantagens de se ser vampiro, entre todas as outras desvantagens.

- Já viste bem a vista? – Perguntou.

- Sim, porquê?

- Faças o que fizeres, não te largues – falou tão depressa que eu quase que não o percebi.

De repente largou-se e estávamos numa queda livre para o chão. O chão aproximava-se tão rapidamente que o pavor não me deixou sequer soltar um guincho pequeno, quando mais um berro com todo o ar que tinha.

Apertei Derek com força enquanto o chão se aproximava. Era uma queda de metros, de maneira nenhuma que vou sobreviver a isto. No fim de tudo, eu tinha razão, Derek queria-me mesmo matar… e então o chão chegou, e ele dobrou um pouco os joelhos, aterrando perfeitamente.

Eu estava em estado de choque. Esta altura é normal para ser saltada por eles? Ia-me dando um ataque cardíaco.

- Chloe… - Era pouco mais que um murmúrio, mas apenas porque eu estava enterrada nos meus pensamentos e nas memórias do terror acabado de passar – Chloe… já me podes largar, estamos no chão.

Larguei-o e pus os pés no chão, mas os joelhos fraquejaram e ele agarrou-me.

- Estás bem?

- Bem, eu não quero vomitar… mas é porque não sinto nada – murmurei. Até a voz me custava a sair – Como? O quê? Nós…?

- Acalma-te. Já estamos no chão, está tudo bem. Não caímos, aterrámos.

- Ok…

Depois de eu me acalmar e começar a sentir coisas de novo, sentámo-nos encostados a uma árvore e começámos a falar. Já era quase de noite quando ele me levou a casa, e Dylan e Abby já lá estavam.

Sentámo-nos um bocado ao lado de Abby a ver televisão e ela começou a olhar para nós de uma maneira um bocado intimidadora vinda de uma rapariga de dez anos.

- Queres perguntar alguma coisa Abby? – Perguntou Derek.

- Estou feliz que tenhas perguntado Derek – Abby levantou-se e começou a andar à frente do sofá de um lado para o outro, ajeitando os óculos vezes e vezes de seguida – Tu és mais bonito que o Josh, mas atencioso e sem dúvidas mais simpático…

- Abby, o que…

- Não interrompas – Interrompeu-me ela – Derek, apesar de eu gostar mais de ti do que do último namorado da minha irmã, tenho que perguntar isto. Quais são as tuas intenções para com a minha irmã?

- O quê?! – Perguntámos eu e Derek ao mesmo tempo.

- Abby, o Derek não é meu namorado – disse-lhe.

- Não? – Agora parecia desiludida.

- Não – afirmou Derek.

- Porquê? Vocês são cegos?! – Porque é que tenho a impressão que estou a ter uma discussão amorosa com uma rapariga de dez anos?

- Não somos cegos, nós só… só… - faltaram-me as palavras.

- Não sentimos nada disso – continuou Derek – A tua irmã é divertida, bonita, sensível, engraçada, fica cómica quando tenta ficar chateada, é independente…

- Vais chegar a algum “mas” ou vais só elogiá-la? – Interrompeu Abby.

- Mas… - continuou ele – Não ia dar certo entre nós.

- Porquê? – Bolas, quando esta rapariga quer consegue mesmo ser irritante.

- Porque… porque eu não sou… não sou o tipo de rapaz que a tua irmã quer – e olhou para mim. Não sei porquê, mas os seus olhos manifestavam traços de angústia, misturada com aquele intenso brilho. Tive que desviar o olhar.

- Ela andou com um parvalhão como o Josh e agora não te quer a ti?!

- Abby! Esta conversa acabou, ok? – Agora foi a minha vez de falar.

- Ok. Mas ele não vai estar cá para sempre – desviou-se e começou a subir as escadas.

- O que é que acabou de acontecer? – Perguntei, encostando-me às costas do sofá.

- Acho que a tua irmã acabou de nos dar na cabeça… - respondeu ele, encostando-se também.

- Sabes… eu diverti-me hoje.

- Tu divertiste-te hoje? Entraste em estado de choque…

- Eu sei mas… - sorri – Foi divertido.

- Chloe Simms, estás a gostar da companhia de um vampiro?

- Vais-me perguntar isso até eu dizer que sim, não vais? – Ele afirmou com a cabeça – Sim, hoje, foi uma grande companhia.

- Eu sabia que ia mudar a tua opinião.

Ouvimos passos e olhei para trás. Dylan estava parado a olhar para nós.

- Posso falar com a minha irmã a sós? – Pediu.

Derek olhou para mim e levantou-se.

- Claro, eu ia-me embora de qualquer maneira – levantou-se.

- Já? – Perguntei, levantando-me também.

- Sim eu… estou a ficar com fome.

- Oh… ok.

- Mas nós temos comida no frigorífico, podes-te servir, se quiseres – ofereceu Dylan.

- Pois… obrigado mas… estou a fazer dieta, ordens do médico – E encolheu os ombros.

Levei-o até à porta e ele saiu, virou-se para mim e olhou-me fixamente.

- Ouve-o. Isto é mau para vocês os dois – disse-me.

- Eu vou ouvir, não prometo é que vá responder.

Ele foi-se embora e eu fechei a porta. Virei-me para Dylan e fiquei parada à espera que ele falasse.

- Não me vais dizer nada? – Continuei imóvel – Nem sequer vais gritar por eu ter o quarto desarrumado ou ter chegado atrasado às aulas? – Parecia decepção na cara dele, mas eu continuei quieta – Ok… ouve, desculpa. Eu magoei-te e peço desculpa, ok? – Continuei parada – O que é que queres que diga? Que fui um otário? Fui um otário.

Dirigi-me ao sofá e sentei-me. Ele seguiu-me e sentou-se ao meu lado. Eu peguei numa revista mas ele tirou-ma das mãos.

- Olha para mim Chloe. Por favor… - agora parecia implorar. Expirei com força e olhei para ele. Apareceu um pequeno sorriso nos seus lábios – Eu sei que a mãe faz sempre a mesma coisa, mas o que é que queres? Ela ainda é a minha mãe… e cada vez que vem para a cidade eu começo a pensar como seria se ela cá ficasse de vez, e começo a ficar iludido. E no meio disso tudo acabei por te magoar. Tu gritas, chateias-me e tentas-te impor, mas é porque gostas de mim. Eu sei disso, só… tu não és a mãe, e nem devias ser. Desculpa… e nunca, nunca quereria ter-te morta. Contigo morta… não seriam drogas, ou roubos, nem bebidas. Contigo morta eu morria, fosse overdose ou coma alcoólico. Eu preciso que tomes conta de mim…

- Estás a exagerar um bocado, não achas? – Perguntei.

Ele sorriu.

- Estás a falar comigo – e suspirou de alívio.

- Acho que acordei dos mortos – revirei os olhos.

Ele chegou-se ao pé de mim e abraçou-me. Não me consigo lembrar há quanto tempo é que Dylan não me abraçava…

Ele subiu para o andar de cima e eu fui para a cozinha fazer o jantar.

Ouvi um grito estridente vindo da rua e corri até lá. Fiquei petrificada ao ver o que via. Nos meus olhos só estava uma coisa: decepção. Decepção nua e pura.

Vi uma rapariga mais ou menos da minha idade, com a garganta cortada, e vi Derek ao pé dela. Ele deve ter sentido que estava lá alguém, porque virou-se. Tinha os vasos sanguíneos dos olhos a vermelho-vivo e os dentes maiores e pontiagudos. Tinha sangue nas mãos, e olhava para mim de uma maneira tresloucada.

- Não… - murmurei.

Senti uma lágrima a correr-me pela face, virei-me e comecei a correr em direcção a casa. Mas ele apareceu, caído sei lá de onde, à minha frente.

- Chloe… não fui eu – Disse-me.

- Afasta-te de mim! – Gritei.

Corri até casa e fechei a porta. Deixei-me cair no chão e envolvi as pernas com os braços. Começou a cair outra lágrima.

Ele matou uma rapariga. Depois de hoje quase que me enganou. Depois de hoje quase que acreditei que vampiros poderiam de facto ser bons.

Acho que estava errada. Acho que há uma razão para a qual eu ter sempre acreditado no mesmo. Porque é a razão certa. A opinião correcta. A minha opinião. Um vampiro, vai sempre ser um vampiro.

 

9 comentários

Comentar post