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Uma Rosa Para Todo o Sempre

por Andrusca ღ, em 15.01.11

Hello ^^

Hope u like it

 

Capítulo 8

Revoltada

 

«Querido diário…

Se não estava maluca quando cheguei aqui… agora já falta pouco.

Estou aqui há três semanas e não há sinais nenhuns que alguém me venha resgatar.

Aqui, nesta situação, sinto-me mesmo como uma pessoa doente da cabeça. Eu preciso que me tirem daqui. Preciso de abraçar os meus irmãos, de ver que eles estão vivos e de boa saúde. Preciso de ver Derek novamente. De o abraçar, de o beijar. Mas mais importante, de constatar que não é da minha cabeça. Preciso de saber que ele é mesmo real.

As pessoas continuam a olhar para mim como se fosse uma louca, e já não suporto a companhia da minha mãe. Ela deixa-me completamente fora de mim. Só não percebo como tudo isto pode ser possível. Como da noite para o dia vim parar aqui. Tudo bem que Helena não é longe de Great Falls, mas mesmo assim. Não percebo como os meus irmãos, os Thompson e Gwen desapareceram num piscar de olhos. Não percebo como vim aqui parar. Simplesmente não percebo nada. E quero perceber tudo.

Neste momento, dava tudo. Tudo para voltar a tê-los juntos a mim.»

 

Há uma semana tinha roubado um bloco de notas a um médico, e uma caneta, e tinha feito dele o meu diário. Acho que precisava apenas de algo para me distrair. Tenho escrito nele todos os dias desde então.

Não me deixam fazer nada de nada, por isso estou sempre enfiada no quarto, com o cortinado o mais fechado possível. É deprimente. Mas ver o sol deprime-me mais. Significa que eles não estão a chegar.

Todos os dias da parte da tarde, a minha mãe vem ter comigo. Vais valia era ficar onde quer que estivesse. Ela só me sabe dizer que eu estou doente, e que preciso de admitir. Os médicos também só abrem a boca para dizer essas barbaridades. E depois drogam-me quando eu digo coisas que não devo.

Já não aguente mais. Estou no meu limite. Na primeira semana mal dormi, mas então o sono foi mais forte e comecei a dormir bem. Também já parecia uma zombie.

O que me inquieta mais são os sonhos. Eu devia sonhar com alguma coisa. Alguma pista que me ajudasse a desvendar o que se passa. Mas nada. Nem um maldito pedaço de amostra do subconsciente.

A porta abriu-se mas eu não liguei. Para quê? Quem eu queria ver não era.

- Chloe, querida – disse Margaret Simms – Já estás acordada?

- Não – respondi, afundando mais a cabeça a almofada e tapando-a com os lençóis, enquanto escondia o pequeno bloco de notas na fronha.

- Bem, eu trazia boas noticias… mas sendo assim…

- Boas notícias? – Levantei-me num ápice – Posso sair daqui?

- Não querida. Ainda é cedo. Mas podes porém sair do quarto. Vai conhecer…

- O hospício? – Via-se na minha voz que não achava piada nenhuma à boa notícia que ela trazia.

- Não faças essa cara Chloe. Dá-te por contente por não teres que ficar aqui trancada.

Aproximou-se de mim e ia-me dar um beijo, mas eu desviei-a, como sempre faço. Ela fez-me um sorriso forçado e virou-me costas, saindo do quarto e fechando a porta em seguida.

Fui até às gavetas da cómoda e troquei a minha camisa de noite por um daqueles pijamas brancos odiosos. Era uma blusa de alças, branca, e umas calças da mesma cor. Calcei os meus All-Star e agarrei na mola do cabelo e pu-la em cima da cómoda.

Sentei-me na cama a atar os atacadores e a porta voltou a abrir-se. Olhei e vi de novo a figura de Margaret.

- Esqueci-me de te dizer uma coisa querida – disse-me – Eu amanhã não vou poder vir visitar-te, desculpa.

Graças aos santinhos todos lá de cima.

- Ok – limitei-me a responder.

Levantei-me e dirigi-me de novo à cómoda, para ir buscar a mola, mas não a vi. Olhei em volta mas não a encontrava.

- Viste a minha mola laranja para o cabelo? – Perguntei, à minha detestável mãe.

- Está mesmo ali.

A amostra de vedeta de Hollywood tinha apontado para a mesa-de-cabeceira, e de facto a mola estava lá.

- O quê? – Perguntei, a olhar para a cómoda e para a mesa-de-cabeceira. Eu não a tinha deixado ali – Mas eu deixei a mola aqui em cima. Como…?

- Chloe, se calhar devias ficar a descansar e só sair do quarto amanhã.

- O quê? Não, eu pu-la aqui, tenho a certeza!

- Bem, eu pareço ter-me mexido?

Realmente não. Estava no mesmo sítio. Mas bolas, eu não estou maluca, eu pus mesmo a mola em cima da cómoda e não da mesa-de-cabeceira… não pus?

Agarrei na mola e dirigi-me ao espelho, para prender bem o cabelo. Depois a minha mãe seguiu para baixo, e eu fui com ela.

Na sala de estar estavam várias pessoas, mas eu não sabia o que devia fazer. Devia tentar comunicar e integrar-me? Ou simplesmente observar a uma distância segura? Tudo bem que as doenças que estas pessoas têm não se pegam mas… e se eu me começo a dar com elas e então fico mesmo maluca de vez, certo?

Vi a Margaret sair pela porta e fui-me sentar num cadeirão livre enquanto observava o que se passava à minha volta.

Todas as pessoas usavam a mesma roupa: os malditos pijamas brancos e uns ténis quaisqueres. E todos estavam entretidos. Uns jogavam xadrez, outros simplesmente conversavam, e outros batiam, literalmente, com a cabeça nas paredes.

Estava a dar em louca.

Uma rapariga, que aparentava ser um pouco mais velha que eu e tinha uns olhos e um cabelo cor de caramelo, aproximou-se e com um sorriso de orelha a orelha, sentou-se no cadeirão à minha frente.

- O que se passa? – Falou tão normalmente, tão simples, que não parecia ter qualquer motivo para estar aqui metida. Não parecia ter doença nenhuma. E aquele sorriso… era um sorriso tão caloroso, simpático… ela era uma pessoa normal. Talvez estivesse doente, mas não deixava de ser uma pessoa normal.

- Várias coisas – respondi, sorrindo também, embora sem vontade – Como te chamas?

- Liz. E tu?

- Chloe.

- Não me lembro de te ver por aqui, és nova?

Não consegui deixar de me surpreender pela maneira como ela falava. Eu esperava que ela fosse falar toda descoordenada, ou até a babar-se sei lá, mas não, nada disso. Falava tal e qual como eu ou qualquer outra pessoa que não estivesse doente. E se ela não se lembra de mim então como posso estar aqui internada ao tempo que a minha mãe disse?

Há muitas coisas que não batem bem, nada faz sentido. Mas decidi não dizer nada a Liz, afinal, ela não tem nada a ver com os meus problemas, de certeza que já os seus próprios.

- Sou – disse-lhe – Posso-te perguntar uma coisa?

- Força.

- Porque é que aqui estás? Quer dizer… pareces tão normal.

Pareceu ofendida. Realmente, quando é que perdi a minha sensibilidade? Ah, quando fui feita refém num hospital qualquer.

- Desculpa – disse eu, um pouco atrapalhada – Não foi isso que eu quis dizer… eu só… eu quis dizer que… bem, nem sei o que quis dizer.

- Não faz mal – sorriu-me ao pronunciar isto, e pareceu extremamente sincera – De facto, também não sei porque aqui estou.

- E não te incomoda?

- Claro que não, eu sei que eles me vêm buscar.

- Eles? Eles quem?

- Os strungerberrys.

- Os quem?! – Não devo ter ouvido bem. Ou então ouvi e percebi uma coisa completamente diferente.

- Eles são pequenos, e da forma de morangos – ela encolheu os ombros e riu-se – Vêm-se de Strungland. É um planeta perto de Marte. Eu fui uma deles, mas por causa de um meteorito fiquei assim, humana. Eu sei que eles me vêm buscar.

Sorri forçadamente quando ela acabou, mas deve-se ter notado o meu espanto misturado com pavor. Bolas, pensei mesmo que não era a única pessoa aqui que estava lúcida. Por momentos achei que tinha encontrado uma aliada para uma possível fuga. Uma outra pessoa para me ajudar a rebelar. Mas não. Afinal ela está aqui porque inventou um planeta com um nome esquisito e uns habitantes com um nome ainda pior.

Mas ao olhar para ela de novo, quase que acreditei que o que dizia era verdade. Ela dizia tudo com tanta convicção. Acreditava vivamente em tudo o que saía da sua boca, e mantinha esta estranha esperança que estes seres estranhos a vinham resgatar.

Fez-me soltar um sorriso mais genuíno. Ela era como uma criança pequena que sonhava. Uma criança inocente e ingénua que não se calava só porque as outras pessoas não acreditavam nela.

- E tu? – Perguntou, ao fim de uns momentos de silêncio.

- Bem… - credo, já todos me acham maluca, por isso porque não? Não é como se perdesse alguma coisa… - não sei como nem porquê, mas acho que o meu namorado e os irmãos dele, todos eles vampiros, se foram embora e me deixaram… mas devem ter tido um motivo qualquer. A minha melhor amiga e os meus irmãos também não dão provas de vida… mas o que me inquieta mais é que não ando a sonhar com nada desde que vim para aqui.

- Como assim? – Pareceu extremamente interessada, e que não duvidava de nada que saía da minha boca.

- Tu ouviste a palavra “vampiro”, certo? – Só queria confirmar se ela tinha ouvido bem ou não tinha captado essa parte.

- Claro. Fala-me dos sonhos.

Ok… isto é estranho, ela não duvidou de nada nem me acusou de ser uma lunática...

- Eu descobri o ano passado, no Natal, que conseguia sonhar com o futuro, mas eram sonhos assim… meio codificados, e muito difíceis de decifrar… e agora não… não funcionam, por assim dizer.

- Não preocupes – esticou-se e tocou-me nas mãos, com as suas – Os sonhos hão-de voltar. E o teu namorado e os teus amigos também.

Eu continuo sem acreditar que ela não duvidou do que eu disse. E pior, não consigo perceber como me foi tão fácil resumir-lhe tudo assim, sem a conhecer de lado nenhum. Se Dylan aqui estivesse, certamente diria que é porque um maluco entende outro maluco, mas eu não ia achar graça, porque eu não sou maluca. Não sou nem vou ser. Eu sou sair daqui. Só gostava de saber era como.

- Acreditas mesmo nisso, não acreditas? – Perguntei.

- Claro, porque não? E quem sabe, talvez estejam a trabalhar com os strungerberrys para nos tirarem a ambas daqui.

Espero que não, senão bem posso esperar sentada. Mas numa parte ela deve ter razão, Derek está a trabalhar para me tirar daqui, ele nunca me deixaria aqui sozinha assim.

- Quem sabe… - murmurei-lhe.

Ela levantou-se e foi ter com outros pacientes, enquanto eu decidi explorar um bocadinho mais o hospital. Afinal, se queria sair daqui, tinha que saber como.

Por cima do corredor do meu quarto, havia outro igual. Metia impressão, parecia que tinham tirado o meu corredor e posto aqui.

Depois dos corredores, voltei para o andar de baixo e espreitei para a cozinha, onde vi uma porta para a rua. Sorri triunfante. Só tinha que esperar que todos adormecessem, e então poderia finalmente sair deste inferno. A minha mãe amanhã não vinha, por isso seria esta noite sem dúvida. Quando dessem pela minha falta, já estaria longe.

Voltei para o meu quarto e deixei-me cair para cima da cama. O quarto estava escuro, mesmo depois de três semanas, ainda não tinha desviado o cortinado. O sol metia-me impressão. Lembrava-me que eles não estavam a caminho pois não podiam. Mas então porque é que Verónica não muda o clima?

Decidi deixar de pensar nisso, em breve teria respostas. Quando saísse daqui ia apanhar um táxi que me levaria à casa dos Thompson, eles depois logo me emprestavam dinheiro para pagar ao taxista. E então sim, eles iam-me explicar esta história toda.

Lembrei-me de uma coisa que ainda não me tinha passado pela cabeça: estariam os meus irmãos com eles? Sim, têm que estar, senão onde estariam?

Comecei de novo a pensar em Liz. Será que todos os pacientes daqui estão aqui metidos por acreditarem em coisas absurdas? Ou haverá razões mais fortes?

Tudo bem que acreditar naquelas coisas que Liz me disse que acreditava não é normal, mas não a consigo ver a fazer mal a alguém por causa disso, logo isso não a torna indefesa? Não faz com que possa estar lá fora em vez de ficar aqui fechada?

Soltei um sorriso débil e triste ao perceber uma coisa, e enterrei a cabeça na almofada. Quem sou eu para dizer que o que Liz acredita é ridículo? Afinal, eu acredito em vampiros. Eu acredito que os meus sonhos são previsões do futuro. Por isso… eu não a posso julgar. Por tudo o que sei, aqueles serezinhos de que fala até podem existir. Há milhares de milhões de pessoas no mundo que não acredita em vampiros, e todas elas me chamariam de louca por acreditar. Só porque não se acredita numa coisa não quer dizer que não existe.

A cabeça começou a doer-me, de tanto pensar.

- Estou a ficar maluca! – Murmurei, de encontra à almofada.

A tarde passou rápido, e quando chegou a noite deitei-me normalmente e esperei pacientemente que o barulho acabasse. Olhei para o relógio na mesa-de-cabeceira, três e meia da manhã. Ouvi uns passos em direcção ao meu quarto e fingi que dormia. Os seguranças verificavam todas as noites se os pacientes estavam adormecidos, antes de se irem deitar.

Esperei mais quinze minutos até me levantar. Calcei os meus All-Star e pus a mola no cabelo e abri a porta lentamente. Espreitei para o corredor e nada. Silêncio de morte. Senti mais um arrepio. Desde que vim aqui parar que sinto uns vinte por dia.

Pus um pé de fora, em seguida o outro, e fechei a porta. Só queria sair daqui. Corri silenciosamente até ao rés-do-chão e entrei na cozinha.

Ouvi um barulho de passos de novo, por isso baixei-me atrás do balcão, mesmo a tempo de ouvir pessoas a abrirem a porta. Só gostava de ter deixado que Derek me ensinasse a lutar, assim podia pô-los inconscientes e sair daqui.

Demorou um pouco até que a cozinha voltasse a ficar silenciosa e vazia, e então levantei-me. Caminhei até à porta sem fazer barulho e abri-a.

Comecei a correr pela rua coberta com a escuridão da noite e sentia finalmente liberdade. Sentir o vento na cara, olhar as estrelas… é tudo muito melhor que estar fechada por três semanas num quarto.

Continuei a correr até que já não via o hospício, e por isso diminuí a velocidade, até ficar simplesmente a andar.

Respirei fundo e olhei em volta. Não conhecia muito bem Helena, por isso não sabia onde era a praça de táxis. Suspirei, isto já não estava a correr assim tão bem.

Ouvi vozes e passos na minha direcção por isso escondi-me nuns arbustos, se alguém me visse assim vestida, adivinhava logo de onde tinha vindo, e mandava-me na hora de volta para o manicómio.

Quando vi que o caminho estava livre, saí do esconderijo e voltei a andar sem rumo. Umas vezes mais à pressa, outras mais devagar.

De um momento para o outro o céu encheu-se de nuvens, cobrindo todo o brilho das estrelas, e senti um pingo pousar-me na testa. Quando olhei para cima, começou a chover violentamente.

É preciso ter sorte, realmente.

Corri até que tive que esperar numa passadeira, e quando finalmente pude avançar e corri de novo, e vi uns faróis aproximarem-se de mim a uma grande velocidade. Passou-me tudo pela cabeça, desde que nasci, até conhecer Derek, até ter ido parar àquele sítio odioso. O carro aproximou-se de mim e parou, dando-me tempo suficiente para me desviar para trás, com o coração a palpitar.

O condutor saiu lá de dentro todo preocupado e assim que olhou para mim o seu ar mudou para fúria.

- Só podem estar a gozar comigo – murmurei, frustrada.

Comecei a correr mas o médico do hospício agarrou-me com força demais e impossibilitou-me a fuga. Virei-me para ele e puxei o braço atrás. Nunca tinha aprendido a dar murros. Nunca pensei precisar. Mas nunca era tarde demais parar aprender.

Fechei a mão em punho e dirigi-a à cara dele com toda a velocidade. Eu não ia voltar para aquele sítio. Já não aguentava mais. Não podia voltar, qualquer dia sufocava lá. Ele agarrou-me na mão antes que esta lhe tocasse na cara, e ficou a agarrar-me por momentos, com cara de mau.

- Onde pensas que vais? – Perguntou – Não podes continuar com este tipo de comportamento Chloe. É perigoso para ti. Vamos.

Começou a levar-me para dentro do carro enquanto eu gritava por socorro, mas não estava ninguém perto, não havia ninguém para me ajudar.

Escorreu-me uma lágrima pela face, e apenas a distingui por ser mais quente que as gotas de água da chuva, que escorriam pelo meu corpo. Era o Derek que me safava sempre destas situações. Era ele que estava sempre pronto para me acudir. Mas agora que não está cá… quem é que me vai ajudar?

- Essa faceta de revoltada vai ter que acabar – disse o médico, ao abrir-me a porta, depois de chegarmos ao nosso destino.

Ele agarrou-me no braço e levou-me para dentro, debaixo de chuva.

Olhei para ele e soltei-me.

- Eu vou sair daqui. Custe o que custar – disse-lhe. E então comecei a subir as escadas em direcção ao meu quarto.

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