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Uma Rosa Para Todo o Sempre

por Andrusca ღ, em 18.01.11

E cá chegou o capítulo 9 ^^

Tenho reparado que os comentários diminuiram, o que é que se passa, já não gostam da história? :s

Eu sei que não é das partes mais interessantes... mas é importante.

 

Capítulo 9

Novos Companheiros

 

«Querido diário…

Os médicos dizem que estou a melhorar, mas não me deixam sair. Claro que estou a fingir. Porque no fundo eu sei. Os vampiros são reais. Assim como os meus melhores amigos e o meu namorado. Mas talvez se continuar a fingir estar normal, talvez se fingir não acreditar, eles me deixem sair. E depois posso procurá-los. Depois posso perguntar-lhes porque me abandonaram, porque não me vieram salvar.

O mais triste é que agora tenho que me repetir vezes sem conta que tudo foi real, que tudo é real, senão tenho medo de vir a parar de acreditar em tudo.

Passaram-se duas semanas desde que tentei fugir pela segunda vez, e que decidi mudar de comportamento para ver se conseguia sair daqui. Pelo menos ao jardim já me deixam ir, mas preciso de ser esperta. Não posso arriscar ser apanhada a tentar fugir agora e ter que começar tudo do zero. Não. Agora vou ter que jogar bem, vou ter que manter esta farsa e fazê-los acreditar que não acredito em nada.»

 

Fechei o meu diário improvisado e voltei a guardá-lo. Olhei para a janela. O sol penetrava no quarto, mesmo com o cortinado corrido. Contornava-o de uma maneira esplêndida e pequenos focos de luzes iam para todos os lados do quarto.

Ainda me fazia doer o coração quando via este espectáculo. O sol. E a verdade é que desde que vim aqui parar, ainda não esteve um único dia o céu nublado.

O mais difícil em fazer-me de ignorante e fingir que não acredito na minha vida, é ter que me dar bem com a minha amostra de mãe. Cada sorriso que lhe dou é como se me espetassem alfinetes directamente no corpo. Cada palavra simpática que tenho que pronunciar para aquela mulher egoísta e sem carácter faz-me querer desatar a fugir. Mas contenho-me sempre.

Acho que além da cor dos olhos e do cabelo, também herdei dela – infelizmente – o talento para representar. É pena que o descubra numa altura destas.

Já estava farta de estar fechada no quarto, por isso desci as escadas e fui para a sala de estar. Já tinha confraternizado com alguns pacientes além de Liz, apesar de ter sido ela a apresentar-nos.

Avistei o Kroll – ninguém sabe o seu nome verdadeiro, pois os seus pais quando o internaram, disseram que ele podia escolher o nome que quisesse. Acho que não o queriam irritar, e eu também faço os possíveis para isso, porque ele está aqui por ter tendências homicidas.

Mete-me pena que seja tão novinho – tem apenas catorze anos – e que já tenha que estar aqui trancado. O seu cabelo loirinho e olhos reluzentes azuis não denunciam nada o que ele fez. Quem olha para ele não adivinha que tentou matar os seus próprios pais e o gato.

Confesso que quando Liz mo apresentou, fiquei com receio de me aproximar. Mas agora que penso bem, eu passava o dia-a-dia com pessoas que me podiam matar num piscar de dedos.

Krull estava a falar com Carol, que se devia estar a queixar da vida.

Carol tem uns longos cabelos escuros, olhos castanhos-claros e infelizmente… uma grande depressão em cima. Ela veio cá parar porque já desde há cinco anos que está deprimida. E pelo que Liz me contou, a vida nela nem sequer era má. Mas acho que há pessoas assim, que não gostam do que têm. E depois há as desgraçadinhas como eu, que gostam e depois acordam num dia e já não a têm.

Carol não parece ser perigosa, de ela não tenho medo. Ela só parece mesmo é querer paz e sossego, e como veio cá parar, dá cabo da cabeça dos outros a falar de problemas e como não vale a pena viver. No fundo mete pena.

Deixei que os meus olhos vagueassem pela sala mais um pouco e senti um encontrão de trás. Virei-me e vi Morris. Lá estava ele com aquele chapéu ridículo às bolinhas vermelhas com as palhinhas enfiadas como se fossem microfones e a agarrar na antiga antena parabólica.

Ele nem deu por mim e continuou a andar com o braço esticado para que a antena ficasse alta, e a falar sozinho.

Morris tem o cabelo grisalho e eu suponho que esteja na casa dos sessenta anos. É um homem magro e aparentemente simpático, mas é obcecado em Extraterrestres e acredita que fala com eles através da antena parabólica.

Liz contou-me que uma vez, antes de eu chegar, ele conseguiu convencer todos os pacientes que ia haver um ataque alienígena e que se puseram todos a fugir. Eu ri-me quando ela disse isso, devia ser giro de ver toda a gente a fugir por causa disso.

Cada pessoa que aqui estava tinha o seu mundo, e eram poucos os que acreditavam nos mundos das outras pessoas. Excepto Liz. Para ela era tudo real. Ela acreditava nos seus serezinhos, nos meus vampiros, os extraterrestres de Morris, que as grandes depressões de Carol eram causadas por forças invisíveis e sobrenaturais e por aí fora.

Ia-me aproximar de Kroll e Carol quando vi o Donny atrás de um sofá com a tampa daquelas latas de pêssegos.

Estava a tentar cortar os pulsos… outra vez.

Aproximei-me dele e tirei-lhe aquilo das mãos. Ele olhou para mim chateado, mas depressa fez um sorriso.

- É mais forte do que eu – limitou-se a dizer, enquanto se levantava e afastava.

Revirei os olhos e deixei-me cair do sofá.

Donny era um rapaz fabuloso, tinha a minha idade e parecia extremamente normal. Mas de vez em quando tinha ataques suicidas. Os pais dele passavam muito tempo a viajar e como não o podiam controlar, mandaram-no para aqui.

Fui pôr a tampa da lata na cozinha, onde todos me olharam de lado e me queriam expulsar, e depois voltei para a sala de estar. Vi Liz encostada à ombreira da porta que dava para o jardim e fui ter com ela.

- No que é que estás a pensar? – Perguntei.

- Em tudo, em nada… não sei. E tu?

- No que estou sempre a pensar.

Ela olhou para mim e soltou um pequeno riso.

- Deixa-me perguntar-te uma coisa – pediu – Amas o teu namorado vampiro?

- Claro.

- E ele ama-te?

- Sim.

- Então ele vem-te buscar.

- Assim tão simples, hum?

- Assim tão simples.

Fiquei o resto da tarde com ela e depois fui para o quarto. Hoje foi a minha mãe quem me veio trazer a comida. Trouxe-me o tabuleiro com uma sopa qualquer, um copo de água e uma maçã, e pousou-o na cama.

- Não queres comer? – Perguntou.

Eu estava à janela, a olhar para a rua. O melhor desta hora é que o sol já não se nota tanto nem emite aqueles raios que me fazem querer fechar os olhos e meter-me no canto mais escuro que encontrar, e assim gosto de ver o que se passa lá fora.

- Já como – respondo.

- Não estás à espera de nada, pois não? – Agora soava desconfiada.

- De quem é que querias que estivesse à espera? – Virei-me para ela e sentei-me na cama.

- Talvez do teu namorado… o vampiro? – Ok, isto é ridículo, agora estava-me simplesmente a testar.

- Pensava que tinhas dito que vampiros não existiam.

- E não existem. Ainda acreditas neles?

- Eu acredito… em muitas coisas. Isso não me faz maluca. Mas não, vampiros estão a começar a fazer parte da lista de coisas em que não acredito. Afinal… se eles existissem tinham-me vindo salvar daqui.

Odeio tanto estes momentos. Odeio ter que mentir tão descaradamente. Odeio sorrir para esta mulher e dar-lhe razão. Odeio tudo.

- Chloe, falas disto como se fosse algum tipo de prisão.

- E não é? – Murmurei, revirando os olhos.

- Não. É um sítio que ajuda pessoas com problemas. Devias estar contente por teres quem te ajude.

- Claro, tanto faz.

- Bem, eu tenho que ir embora – aleluia, estava a ver que não –, ficas bem?

- Aqui? Claro, porque não? – Cem por cento pergunta retórica.

Ela chegou-se a mim, deu-me um beijo na testa enquanto eu lutava contra todo o meu ser, com todas as forças que não sei onde fui buscar, para não a afastar, e em seguida saiu, fechando a porta atrás de si.

Sentei-me na cama e comi lentamente. Quando acabei, agarrei no tabuleiro e fui pô-lo à cozinha.

Reparei que Carol estava sozinha no jardim – um pequeno espaço com relva, dois baloiços, umas mesas e umas cadeiras, e totalmente vedado –, e apesar de não estar com paciência para as suas coisas deprimentes, ela chamou-me e não tive remédio se não ir ter com ela.

Saí para o jardim, através de uma porta na sala de estar, e sentei-me numa cadeira ao lado da de Carol, que observava o céu.

- As estrelas são lindas – disse ela. Estranho, ela elogiar uma coisa não faz parte da rotina, e eu já cá estou há tempo suficiente para saber a rotina dela.

- Pois são – concordei, ao olhar para cima.

Aqueles pequenos pontinhos no céu irradiavam uma luz que ao mesmo tempo dava esperança, e a tirava. Significava que mais um dia se tinha passado e eu continuava aqui fechada.

Carol suspirou, o que me fez olhar para ela.

- O que foi? – Sabia que me ia arrepender de ter perguntado, mas também sabia que se não perguntasse, ela ia continuar a suspirar até eu o fazer.

- É deprimente.

- As estrelas serem lindas é deprimente? – E pronto, já estava arrependida de lhe ter dado a possibilidade de começar a conversa.

- Sim.

- Como?

- Mostram-nos que nunca seremos assim. Nunca seremos tão belos.

- Carol… tu sabes que estrelas são rochas grandes no espaço… certo?

- Talvez… mas se estiver uma pessoa no espaço e olhar para mim, eu não sou reluzente, não sou bela. Não sou nada.

- Estás a exagerar um bocadinho. És uma mulher linda que tem tudo o que podia desejar Carol.

Ela encolheu os ombros e limitou-se de novo a olhar para o céu.

- Já alguma vez pensaste em suicídio? – Perguntou, quebrando o silêncio que se instalara.

- Claro que não. E por favor não me digas que estás e pensar nisso.

- Mesmo que pensasse… sou demasiado insignificante para isso. Mesmo que me suicidasse, não serviria de nada. Eu não significo nada.

- Estás a exagerar.

Voltou a encolher os ombros.

- Pelo menos encaro o que sou: uma pessoa que não vale nada. Pelo menos não espero que criaturas místicas e produtos da minha imaginação me venham buscar ao sítio onde pertenço.

Retirei de novo os olhos de céu e encarei-a. Sei que não o disse por mal, e até pode não ter sido a pensar em mim, porque vamos encarar: ela é doente. Mas mesmo assim magoou-me. Eu não estou à espera de criaturas místicas e inexistentes. Estou à espera da minha família, amigos e namorado.

- Eu tenho que ir – disse-lhe rapidamente enquanto me levantava e corria de novo para dentro daquela prisão que Carol denomina por “sítio onde pertencemos”.

Corri escadas acima mas não aguentei até chegar ao quarto para as lágrimas desatarem a cair. Mas também, os corredores estão sempre vazios, quem é que por alma de Deus me iria encontrar? E melhor, quem é que se importaria comigo?

Encostei-me à parede gélida e deixei-me escorregar lentamente, até ficar sentada. Encolhi as pernas e pousei nelas a minha cabeça, enquanto deixava as lágrimas escorrerem-me pela face à sua vontade.

Logo agora, que tinha aguentado uma semana inteirinha sem chorar.

- O que é que estás a fazer? – Olhei para cima ao ouvir esta voz e vi Morris.

Mas o que é que lhe parece que estou a fazer?!

- Nada – respondi, com a voz seca e com a garganta a latejar por estar a tentar suprimir o choro.

- Diz-me a verdade. Os extraterrestres raptaram-te e fizeram experiências contigo, não foi?

Ele parecia muito sério ao fazer esta pergunta. Este assunto para ele era incontestável.

- Não Morris – tentei dar-lhe um pequeno sorriso, mas falhei.

- Então o que aconteceu? – Pousou a antena parabólica velha, e sentou-se ao meu lado.

- Eu quero sair daqui – murmurei.

- Eu sei o que queres dizer. Aqui é mais propício para os extraterrestres atacarem. Mas não te preocupes, eu protejo-te deles.

Agora sim, consegui sorrir.

- Eu sei que consegues – disse-lhe, enquanto limpava as lágrimas.

Só mesmo o Morris para me pôr a sorrir enquanto estava com esta sensação horrível dentro de mim.

Ele levantou-se e esticou-me a mão para me ajudar. Depois de já estarmos os dois em pé, agarrou na antena parabólica, voltou a esticar o braço para que ela ficasse bem no cimo, e começou a andar.

- Morris – ao chamá-lo, ele voltou-se e baixou o braço, o que fez com que antena viesse direita à minha cara, mas eu baixei-me a tempo. Ele ficou a olhar para mim – Obrigada.

- Ora essa. De extraterrestres percebo eu.

Deu-me um sorriso e seguiu o seu caminho.

Abanei a cabeça e voltei a limpar as lágrimas. Caminhei ao longo do corredor até entrar no meu quarto e deixei-me cair na cama. Procurei por baixo da almofada o bloco de notas que fazia de meu diário e comecei a lê-lo do princípio.

Há alturas em que me sinto a desesperar e preciso de algo urgente que me faça não me desmanchar toda em lágrimas e ficar com uma depressão igual – ou pior – à de Carol. Preciso de coisas que me vou esquecendo aos poucos.

Esta não é, definitivamente, a maneira como queria passar as minhas férias de Verão. Tudo o que tinha programado… as idas à praia e à piscina dos Thompson… estar com Derek… tornar-me finalmente num ser como ele… estava tudo arruinado.

Troquei o pijama branco pela camisa de noite, depois de tomar um bom banhinho, e meti-me na cama apenas com o lençol em cima.

Lembro-me que quando descobri que os meus sonhos tinham aquele toque especial e esquisito, me passei e achei que não era normal – e não é – e que era uma aberração, mas agora, além de continuar a acreditar nisso, quero voltar a tê-los. Quero sonhar com qualquer coisa que me diga que é tudo real, que está tudo bem, e que mais importante: eles vêm-me buscar.

Já estão é a demorar demasiado.

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