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Uma Rosa Para Todo o Sempre

por Andrusca ღ, em 20.01.11

Acho que este é o capítulo mais triste... mas não se preocupem, porque a partir do próximo as coisas melhoram ^^

 

Capítulo 10

Loucura

 

Corri pelo corredor até que encontrei uma pequena porta de madeira que dizia “interdito a pacientes”. Não quis saber, se aqui toda a gente é maluca, então ninguém liga aos sinais. Abri a porta e entrei, esbarrando num homem com talvez trinta anos. Ele olhou para mim muito espantado, mas ao olhar para ele era como olhar para uma criança. Este devia ser um daqueles três pacientes que chegou a uma certa idade e parou de crescer mentalmente… apenas fisicamente. Portanto por fora parece um homem, mas por dentro e tal e qual como um miudinho de cinco anitos ou menos.

Se pensarmos bem, é triste.

- O que é que estás aqui a fazer? – Perguntei. Este era suposto ser o meu esconderijo!

- Estou a caçar formigas – respondeu, com um fio de baba a cair-lhe pelo canto da boca. Deus, eu odeio este sítio! – E tu?

- Estou-me a esconder da minha mãe – disse-lhe –, e desculpa, mas os meus motivos são melhores que os teus.

Puxei-o para fora do pequeno armário de arrumação e fechei-me lá dentro. Suspirei e deixei-me cair no chão. Tive um bocado de pena de o tratar assim, mas a verdade é que já “deito malucos pelos olhos”.

Estava escuro e a pouco luz que vinha por baixo da porta não dava para nada, apenas para fazer mais sombras ao tocar nas velhas esfregonas e vassouras.

Encostei a cabeça à parede e pensei ao que eu cheguei. É ridículo esconder-me no armário das limpezas cada vez que sei que a minha mãe está a chegar.

Ouvi passos aproximarem-se do armário e sustive a respiração, enquanto estava quieta, e pedia a todos os santinhos lá de cima que não a deixassem encontrar-me. Mas foi em vão. A porta abriu-se e vi a figura da bela Margaret Simms, a olhar para mim com uma cara de espanto, inquietação e… raiva?! Eu é que devia mostrar raiva, não era ela!

- O que é que estás aqui a fazer? – Perguntou-me – Andas-te a esconder da tua própria mãe?! – Odeio que fale dela como “minha mãe”, por nunca o foi. Que hipócrita…

Engoli em seco. Precisava de uma desculpa.

- Não… - murmurei – Eu estava aqui a caçar formigas com o Larry… - nome completamente inventado – Tu sabes como é, temos que ser solidários para com quem está doente… mas depois ele fechou-me aqui.

- E não abriste a porta porque…

- Pensava que estava trancada por fora.

Levantei-me desajeitadamente e lá tive que ir com ela. Passámos a tarde inteira a falar, e mais uma vez fingi não acreditar no que acredito, e esconder quem sou. E mais uma vez, pela quinquagésima vez durante este mês, quase que acreditei em tudo o que ela dizia. Era simplesmente difícil, quase impossível, duvidar do que ela falava, ainda mais quando eu tinha que concordar com tudo e com a convicção com que ela dizia cada palavra que lhe saía pela boca.

Quando era pequena ouvia as velhas do bairro dizerem uma pequena frase que sempre me captou o interesse: se finges ser alguém durante muito tempo, em breve te tornarás nessa pessoa.

Será que elas tinham razão?

Depois da tarde de tortura, da comida horrível do hospício, e de ver Morris outra vez com a antena parabólica de volta de Carol a dizer que esta era um extraterrestre, subi para o quarto.

É incrível como esta vida cansa. Talvez incrível não seja a palavra certa mas… é no mínimo surpreendente.

Deitei-me na cama e agarrei numa caneta e no meu “diário”, onde comecei a escrever.

 

«Querido diário…

Começo mesmo a achar que estou a enlouquecer. Eles têm razão? Estou mesmo maluca e por isso é que vim parar a este sítio detestável? Não pode ser. O Derek tem que ser real. Os meus irmãos têm que estar vivos. A Gwen… a Verónica… o Gary… eles têm todos que existir. Eu sei que sim. Mas então… porque é que ainda ninguém me veio resgatar? Porque é que continuo sozinha, à espera que alguém miraculosamente apareça? Porque é que o Derek não apareceu? Porque é que não me salvou?

Se ele é real, porque é que me abandonou?

Tudo o que me lembro dele, agora é vago. Lembro-me vagamente da voz, das feições, dos olhos… dos lábios. Mas lembro-me. Se ele não fosse real, nunca me poderia lembrar. Eles são reais!

Só tenho medo de acordar uma manhã a pensar que nada é verdade… e sinto que isso já esteve mais longe de acontecer. Afinal, quando se tem toda a gente constantemente a dizer que certas coisas são reais e outras não, começa-se a acreditar neles aos poucos… certo?»

 

Fechei o pequeno bloco de notas e voltei a pô-lo por baixo da almofada.

Mudei de roupa e pus-me na cama. Só esperava que hoje sonhasse com a minha vida. Não a minha antiga vida. A minha vida real. A minha vida sem ser este desespero.

 

ღღღ

 

Mais três semanas se passaram, e agora sim tenho a certeza. Sei porque vim aqui parar. E sei porque resisti tanto. Pensava que era forte, mas não. Sou fraca. Desisti da minha vida pois era demasiado dolorosa. Por isso criei uma outra vida na minha mente. Uma vida com criaturas irreais. Criaturas que não existem nem hoje, nem existirão daqui a cem anos.

Suspirei e olhei para a rua. Aproximei-me da porta que dava para o jardim e saí.

Sorri ao sentir o sol tocar-me. É incrível o tempo que me demorou a conseguir pôr-me debaixo dele.

Sentei-me numa cadeira que estava de lado, dentro da sala de estar, perto da porta mas sem o sol me tocar, e olhava para a relva que agora estava num tom verde perfeito. Daqui a pouco a minha mãe estaria a chegar, e eu queria-lhe fazer mil e uma perguntas. Queria saber o que era inventado da minha cabeça, e o que era real.

Ainda me custa acreditar que nunca vou voltar a ver os meus irmãos, e que o meu amor platónico e amizades maravilhosas nunca existiram… cada vez que penso nisso – que é a toda a hora –, vêem-me as lágrimas aos olhos e um nó à barriga, mas já estava na altura de encarar os factos. Não foi uma criatura sobrenatural que tirou a vida ao meu pai. Foi um condutor bêbedo, que levou juntamente com ele os meus dois irmãos.

E tudo a partir daí fora criado por mim.

E agora percebo quão injusta fui para com a minha mãe. Ela sempre esteve aqui comigo, sempre me apoiou e quis que ficasse boa, e eu sempre a pintá-la de má da fita.

Senti um toque no ombro e olhei para cima, onde vi o cabelo dourado da minha mãe que lhe caía perfeitamente dos ombros onde algumas mechas repousavam, e um sorriso que desde que inventei aquela história toda na minha cabeça, nunca tinha visto.

- Estás bem filha? – Perguntou, ao sentar-se na cadeira em frente à minha.

- Mais ou menos, mãe – foi a primeira vez que lhe chamei de mãe sem que cuspisse a palavra ou tivesse um tom mais azedo. Era simplesmente uma palavra que representava a mulher à minha frente.

- Eu estou aqui para o que precisares – disse-me, tocando-me na mão. E pela primeira vez, não a desviei.

- O pai morreu mesmo num acidente de carro, certo? – Perguntei – E a Abby e o Dylan?

- Lamento querida, sim.

- Eu estou aqui desde essa altura?

- Tu cresceste aqui, sim. Uns dias estavas mais lúcida… outros… - vi nos seus olhos umas poucas lágrimas a quererem formar-se, por isso decidi interromper.

- Obrigada por teres cuidado de mim – disse-lhe.

- Eu sou a tua mãe – levantou-se e abraçou-me – Eu nunca te deixaria.

Mas como, como é que nesta minha cabeça, fui pintá-la logo como a má da história? A bruxa malvada que me estragou a vida? Porque agora que parei para observar bem, ela parece apenas uma mãe normal, que quer o melhor para a sua filha. Parece uma mulher que perdeu tudo, e quer apenas preservar a última coisa que lhe resta: eu.

Ela voltou para a sua cadeira e limpou a única lágrima que lhe tinha escapado ao controlo.

- O que queres saber mais? – Perguntou.

- A Gwen nunca existiu, certo? – Perguntei, a custo – Não era uma amiga minha de infância ou…

- Não querida. Essa rapariga nunca existiu.

Mas como? Desde que me lembro que Gwen sempre esteve comigo.

Ela estava comigo quando parti o braço a andar nos patins dela, esteve comigo há três anos quando tive que ir ao dentista e precisava que me segurassem na mão, porque apesar de não perceber porquê, nunca gostei de dentistas. Foi a ela que contei sobre o meu primeiro beijo, e foi a mim que ela contou sobre o dela, e mais histórias por adiante...

Como é que ela pode ser apenas fruto da minha imaginação?

Acho que fértil não é o nome indicado para a minha imaginação, acho que é preciso um nome muito mais forte para a descrever.

- Eu e o Dylan dávamo-nos bem? – Perguntei.

- Davam. Tu dizias que ele era o teu irmão preferido, e vice-versa. Houve uma vez que a Abby começou a chorar por causa disso, ela ainda era muito pequena.

Sorri. Disto sim, eu lembrava-me. Recordava que as melhores brincadeiras que tinha eram com Dylan, e que passávamos a vida os dois juntos. Mas então o pai morreu… e ele tornou-se naquele rapaz desobediente que dava problemas. “Não, não se tornou Chloe!”, repreendi-me “Ele também morreu!”. Por muito que me repetisse isto, era-me completamente impossível acreditar completamente, apesar de reconhecer agora que é verdade.

Senti um aperto no coração. Simplesmente era-me difícil não imaginar o Dylan respondão e malcriado – que infelizmente se tornou quando ficou a morar só comigo –, e depois de novo querido e mais responsável. Era-me completamente impossível imaginar a vida do meu irmão acabar quando este tinha apenas oito anos.

Espera lá…

- Mãe… eles morreram no dia dos anos do Dylan? Quando ele fez oito anos? – Perguntei.

- Sim. Eles iam os três no carro, tinham ido às compras e a Abby tinha feito uma birra que queria ir com eles. Tu estavas em casa, comigo.

A Abby é outra. Como é que me podem pedir, não, exigir, que pense que a minha irmã nunca chegou a ser aquela rapariga engraçada, simpática, querida e super sabichona que eu conheço? Como é que me podem dizer que eu criei isso também? E que ela também morreu quando tinha só três anos?

Não podem. Mas dizem na mesma. E o que mudou desde que acordei sóbria neste hospício, é que agora eu acredito, ou pelo menos não contesto.

Começou a formar-se vento e um funcionário foi fechar a porta, tapando a vista de sol e relva, que surpreendentemente era suficiente para mim.

- Bem querida, a mãe vai andando – disse-me a minha mãe, calmamente.

- Já? Mas ainda agora chegaste…

- Mas tenho… assuntos, para tratar.

Levantou-se, deu-me um beijo na testa e começou a afastar-se.

- Amanhã vens? – Gritei-lhe.

- Claro que sim. Adoro-te querida!

- Eu… - parei aí. Simplesmente não o consegui dizer. Esta mulher sacrificou tanta coisa por mim, para me manter bem, e eu nem um “adoro-te” lhe consigo dizer?! Mas que raios é que se passa comigo?!

Queria olhar para ela e dizer que também a adorava, mas um nó formou-se na minha garganta e não deixou a voz sair, como se tivesse vontade própria, como se não fosse eu a escolher as minhas próprias palavras, como se soubesse que eu me viria a arrepender de as dizer. Mas eu não me viria a arrepender, certo? Mais tarde ou mais cedo vou ter que lhe conseguir dizer isto.

Ela já tinha saído da sala, por isso levantei-me e fui-me sentar no sofá ao lado de Liz.

- Tudo bem? – Perguntei-lhe.

Ela olhou-me e o seu sorriso alargou ainda mais – como se fosse possível.

- Eu acredito que é amanhã – disse-me, toda contente.

- Acreditas que o quê é amanhã? – Perguntei, um quanto para o quanto confusa.

- Que os strungerberrys me vêm buscar, tola! – Disse-me, sem sequer diminuir o sorriso.

Pois, os strungerberrys, os tais bichinhos que Liz criou na sua mente.

É triste que não perceba que não são reais… agora que penso, eu já fui como ela, mas em vez de os meus bichinhos terem um nome estranho, eram chamados de “vampiros”.

- Quem sabe… - murmurei. A última coisa que queria agora era que lhe fosse retirado aquilo em que acredita. Afinal, temos que acreditar em qualquer coisa, certo?

Quando chegou a hora do jantar, fui buscar o meu tabuleiro à cozinha para o levar para o quarto, como já é hábito

Ia com ele na mão quando Kroll, o miúdo homicida, veio direito a mim e fez com que a maçã que tinha no meu tabuleiro caísse e rebolasse de novo pelas escadas a baixo.

- Desculpa – disse ele, com um olhar mortífero que me deixou sem reacção. Só momentos depois é que me apercebi que queria que dissesse qualquer coisa, e assenti com a cabeça.

Ele seguiu o seu caminho, escadas abaixo, e eu pousei o meu tabuleiro no chão e fui também, para apanhar a maçã.

Ao andar, sem querer, ele deu um pontapé na maçã e fez com que esta descesse mais um lanço de escadas. Parei subitamente ao aperceber-me que nunca tinha descido aquele lanço de escadas. Deviam ir dar a uma cave ao assim, visto que já estávamos no rés-do-chão.

Suspirei e desci as escadas lentamente. A luz era fraca e fazia-me confusão, mas lá consegui ver a maçã e fui apanhá-la. Quando me levantei é que reparei na porta de metal, que parecia… molhada?

Ia-lhe tocar mas vi uma sombra no chão a dirigir-se a mim, e num pulo, virei-me para ela.

- O que é que estás aqui a fazer? – Perguntou a minha mãe.

- Nada – mostrei a maçã – Vim só apanhar a maçã. Pensava que não voltavas hoje...

- Esqueci-me de uma coisa.

- Ok.

Encolhi os ombros e comecei a subir as escadas de novo, com ela atrás de mim, e então lembrei-me.

- Mãe? – Perguntei, ao parar e virar-me para ela – O que é que há depois daquela porta?

- É só uma cave velha – respondeu, o mais natural que uma pessoa consegue responder a uma pergunta.

Voltei a virar-me para a frente e subi até ao rés-do-chão, onde mais uma vez me despedi da minha mãe.

Subi para o corredor do meu quarto, agarrei no tabuleiro e entrei para o quarto.

Pousei o tabuleiro na cama e olhei para a maçã, já nele. Nem sei porque me tinha dado ao trabalho de a ir buscar, já nem a ia comer.

Mas de alguma maneira, aquela porta não me saía da cabeça. Porque raios é que uma porta estaria molhada?

Jantei e levei o tabuleiro de volta à cozinha, voltando em seguida para o quarto e deixando-me cair de novo na cama.

Voltei a ler o meu diário tanto quanto o sono me deixou, e pela primeira vez comecei a duvidar realmente de tudo o que estava lá escrito.

Peguei então na caneta e comecei a escrever a entrada de hoje.

 

«Querido diário…

Estou mesmo louca. O Derek não existe. Não pode existir. O Derek que eu conheço, ou que pensei conhecer, nunca me deixaria ficar aqui sozinha. Ele vir-me-ia buscar. Ele vir-me-ia salvar. E ele não vem. Por isso não é real.

Talvez a minha mãe tenha razão, talvez eu tenha criado este tipo de coisa na minha cabeça após a morte… dos meus irmãos e do meu pai. Talvez isto seja a realidade. Talvez isto seja demais para eu aguentar, por isso tentei fugir. Talvez… talvez eu esteja mesmo mentalmente doente.

Acho que talvez a tenha julgado mal. E se ela não é a pessoa que eu criei no meu mundinho imaginável mas sim uma boa mãe preocupada comigo?

O que me magoa mais é ter tantos “talvez” e tantas perguntas, e nenhuma resposta.

Só queria uma pista da realidade. Uma pista de que não inventei tudo de bom que vivi. Mas isso nunca vou ter. Agora chegou a altura de crescer e de finalmente perceber tudo… Eu estou mesmo doente, e este é o primeiro passo: admitir. Vou-me curar, vou sair deste sítio detestável, e depois vou viver com a única família que me resta. É o melhor.

Vampiros… sonhos que prevêem o futuro… pessoas que conseguem controlar o clima… nada disso é real. É completamente absurdo, e agora sim, vejo isso.»

 

Fechei o diário e voltei a guardá-lo, juntamente com a caneta.

Esta era a única entrada neste diário que consideraria real a partir de agora. A única à qual iria dar valor. A única que interessava.

Fui até à janela e olhei para o céu. Continuava limpo e deixava ver as estrelas na sua imensa perfeição. Uma parecia brilhar mais que as outras, e acho que ainda não tinha reparado nisso…

Puxei as cortinas e meti-me na minha cama, enquanto andava às voltas por causa do calor.

 

Volto a postar no Domingo ^^

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