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Uma Rosa Para Todo o Sempre

por Andrusca ღ, em 24.01.11

Como comentaram, eu postei ^^

Finalmente a Chloe vê-se livre daquele hospício...

Espero que gostem ^^

 

Capítulo 12

A Fuga

 

Passei o tempo todo a pensar numa fuga perfeita. Queria sair deste sítio o mais depressa possível.

Desde que tive aquele sonho, há duas noites, atrás, que não durmo bem. Ando irrequieta. Quero ser livre de novo.

Já ando a pé desde as cinco da manhã, à espera de ter alguma ideia brilhante que me tire deste sítio.

A minha primeira medida foi perceber que na minha situação, não existe tal coisa como “demasiado paranóica”. Em vez disso, devo desconfiar de tudo o de todos, a toda a hora.

Mas mesmo assim, há que confiar em alguém. E eu sabia exactamente em quem confiar. Ou pelo menos espero estar certa.

A segunda medida, como a primeira era desconfiar, foi continuar a escrever no “diário” como se acreditasse em tudo o que a minha mãe me dizia. A minha mãe… ela não se encaixava nada nesta história toda, mas agora também não queria saber.

Ao fim de duas horas às voltas pelo quarto, finalmente tive uma ideia.

Ia pôr o plano em vigor logo à tarde, e depois amanhã sim, estaria finalmente livre. Já não faltava muito.

A minha mãe disse-me que me vinha visitar hoje, mas que depois iria passar dois dias fora. Simplesmente perfeito.

Decidi tomar um duche para ver se disfarçava esta cara de cansaço quando a minha mãe me viesse ver.

Depois do duche, vesti aqueles fatinhos brancos odiosos e fiz tempo no quarto até serem oito horas. Isto de não dormir dá cabo do resto do dia.

Desci lentamente até ao rés-do-chão e fui tomar o pequeno-almoço. Sentei-me na sala de estar, com o meu tabuleiro em cima da mesa, e Donny estava a fazer partir a faca toda – ele tinha talheres de plástico por ser suicida, e Krull também, por querer andar a matar pessoas.

Eu e outros pacientes apenas diagnosticados como doentes mentais sem perigo, podíamos usar os talheres normais.

- O que é que estás a fazer? – Perguntei.

- Estou a tentar fazer um bocado tão afiado que corte o pulso e afecte logo a veia – respondeu Donny, sem se distrair do que fazia.

Ok, a minha vida é esquisita.

Cheguei a minha cadeira mais para ao pé dele e tirei-lhe os pedaços de plástico, provenientes da faca, das mãos.

- Donny, olha para mim – ele não obedeceu, por isso tive que me inclinar toda para que me olhasse nos olhos – Tu és um tipo bestial, e há montes de pessoas que se considerariam sortudas por te conhecer. Pára de tentar estragar a tua vida. Não queres sair daqui? Não queres que as pessoas vejam mais que um rapaz que se quer matar quando olham para ti?

- Nunca verão mais que isso – disse-me – Eu sou simplesmente esse tipo.

- Mas não tens que ser. Quer dizer, olha para ti, tu és engraçado, és giro… quando não te estás a tentar matar, és cinco estrelas.

- Tu estás aqui por acreditares em vampiros – disse-me – Como é que isso é melhor que eu querer-me matar?

- Eu já não acredito em vampiros – menti – E sinto-me envergonhada de alguma vez ter acreditado. Promete-me uma coisa. Promete-me que quando olhares para o espelho, e pensares que não mereces viver e que queres morrer, vais-te lembrar disto: vais sorrir, ainda que custe, e vais-te lembrar do que eu disse. Vais-te lembrar que és espantoso, e que ninguém te pode tirar isso.

- Porque é que te importas tanto?

- Porque… porque és da minha idade. E ninguém deve passar por coisas que tu, eu e o resto das pessoas aqui passam. Alguns são um pouco excêntricos, claro. Mas merecem ficar o resto da vida presos? Não. Queres mesmo passar o resto da tua vida aqui só porque o primeiro pensamento que tens ao ver um X-acto é cortar os pulsos? Não é mais simples evitar esse pensamento?

- Às vezes não.

- Não vale a pena, se a paga é a liberdade?

- Talvez.

Passámos o resto do pequeno-almoço calados, e depois de ir pôr o tabuleiro à cozinha, estive a jogar xadrez com Carol, que a cada jogada feita por ela ou por mim, se lamuriava. Não aguentei o jogo inteiro e escapuli-me para o jardim. Ela estava-me a pôr deprimida.

Enquanto o sol me batia nos olhos e me fez levar-lhes a mão, percebi o quanto ansiosa estava para que a minha mãe chegasse e se voltasse a ir embora, para poder finalmente pôr o meu plano em prática.

Olhei para o relógio que estava na sala de estar, ainda era bem cedo.

Vi Liz a passar da cozinha para as escadas e desatei a correr na sua direcção. Precisava da ajuda dela para que o plano saísse às mil maravilhas.

- Liz! – Chamei, quando ela já ia quase a meio do corredor. Ela parou e voltou-se para mim – Espera aí!

Aproximei-me dela rapidamente e puxei-a para dentro do meu quarto, mas não fechei a porta sem antes ver se estava alguém por perto, que não estava.

- Senta-te – pedi.

Ela obedeceu e eu fui correr as cortinas, deixando o quarto com apenas uma luz leve.

- O que se passa? – Perguntou-me ela, calmamente.

- Espera – pedi.

Voltei a abrir a porta e a espreitar. Até eu já achava que isto era paranóia a mais, mas nunca se sabe. E eu não me podia dar ao luxo de não conseguir sair daqui hoje.

Fechei a porta e sentei-me ao lado de Liz.

- Hoje à noite vamos sair daqui – disse-lhe.

Ela fez uma cara de choque misturado com espanto e uma pitada de medo.

- Mas eles vêm-nos buscar – sabia que se referia aos seus serezinhos imaginários e aos “meus” vampiros.

- Não Liz – disse-lhe – Ninguém vem.

Talvez tenha dito isto demasiado repentino. Talvez pudesse ter sido mais calminha e ter dito as coisas de uma maneira menos… forte? Sim, de uma maneira menos forte.

Ela parecia em choque e triste.

- Liz lamento… - murmurei – mas ninguém vem. Eles não vêm. Mas é porque não conseguem, não porque não querem. Eu sei isso. Ouve, desta vez vamos ter que ser nós a sairmos desta embrulhada. Vamos ter que nos safar sozinhas. Às vezes as princesas têm que fazer o trabalho ao contrário e serem elas a salvar o príncipe encantado, percebes? – Apesar de no meu caso ser praticamente sempre…

Ela fungou mas vi que não estava a chorar; graças a Deus.

Olhou para mim e pela primeira vez desde que estou aqui, vi isto nos olhos de alguém: determinação.

- O que é que fazemos? – Perguntou-me.

Sorri, triunfante.

- Eu tenho um plano.

Contei-lhe o meu plano e combinámos tudo. Agora só espero é que ela não se desmanche…

A hora de almoço até chegou depressa, e com ela, a hora das visitas.

Depois de almoçar, sentei-me nos sofás da sala de estar com a minha mãe. Já tinha reparado, em poucas situações, quão boa mentirosa me posso tornar se me esforçar, e não estiver a mentir às pessoas de quem gosto ou a ser pressionada, mas nunca assim. Quase que nem me reconheci. Os sorrisos, as gargalhadas, as conversas… nada daquilo parecia falso, e por breves momentos, nem eu acreditei que fosse.

Parece que estou errada quando digo que não sou nada como a minha mãe. Infelizmente, tenho muito dela em mim, e não só apenas a aparência. Aparentemente também herdei a sua faceta para actriz.

Mas há algo que eu tenho que ela nem sabe o que é. Coragem. Coragem e lealdade. Tenho a certeza absoluta que isso herdei do meu pai.

- Bem querida, tenho que ir – bem ditas palavras, estava a ver que não.

- Já? – Perguntei, com uma voz triste – Podias ficar mais um bocadinho, já que não vens amanhã nem depois de amanhã…

- Desculpa querida. Mas quando voltar venho logo cá, pode ser? – Perfeito, está confirmado que amanhã não está por perto.

- Tudo bem – murmurei, com uma voz que desse a entender que estava triste.

- Não fiques triste.

Levantou-se e deu-me um beijo na testa. Tive que lutar contra todo o meu ser para não a desviar de mim, e felizmente, foi uma luta que venci.

Ela desviou-se e eu sorri-lhe enquanto a via afastar-se mais lentamente do que eu desejava.

Ela chegou à entrada da sala de estar, virou-se para trás e acenou-me com a mão, e eu fiz o mesmo.

Quando ouvi a porta da rua bater, apressei-me a levantar-me, ir espreitar e subir as escadas num ápice. Estava na hora de começar a fazer qualquer coisa que não fosse só pensar e planear.

Atravessei o corredor dos quartos até a um quarto onde sabia que ia encontrar o que precisava.

Entrei e fechei a porta. Era o quarto de uma das poucas enfermeiras que viviam realmente cá.

Ela era magrinha e baixinha, e foi por isso que escolhi roubar-lhe o que precisava a ela, por achar que era do mesmo número que eu, mais ou menos.

Comecei a vasculhar nas gavetas da cómoda – visto não haver um roupeiro – e ao fim de pouco tempo ouvi passos em direcção ao quarto. Fechei as gavetas e apressei-me a ir para a porta, mas ouvi os passos cada vez mais perto, não ia conseguir sair sem ser vista.

Corri para debaixo da cama mesmo a tempo da porta se abrir e uma pessoa começar a caminhar para dentro do quarto.

Encolhi-me toda e praticamente que rezei para que não deixasse cair nada para não ter que se inclinar e me ver debaixo da cama, mas também, era preciso mesmo muito azar se isso acontecesse…

Mas não. Após poucos segundos no quarto, este voltou de novo a ficar vazio à minha excepção. Ela deve ter vindo buscar qualquer coisa ou assim. Respirei de alívio.

Saí de debaixo da cama e voltei à minha busca nas gavetas. Realmente a roupa dela aparentava servir-me.

Escolhi roupas claras, para que depois não se notassem.

Saí do quarto e tive o cuidado de deixar tudo como estava. Apressei-me a chegar ao meu e fechei a porta. Pus a roupa dentro da cómoda e deixei-me cair para cima da cama.

A porta do meu quarto abriu-se bruscamente e a figura da minha mãe, um pouco chateada diga-se de passagem, entrou no quarto.

- Chloe Simms, andaste a roubar?!

Engoli em seco. Mas como é que ela sabia?!

- O quê? – Perguntei, fazendo-me de desentendida.

- Não me venhas com essa vozinha. Andaste a roubar roupa, acabaram de me telefonar e eu voltei logo para trás.

Telefonaram-lhe? Mas quem? Ninguém sabia o que eu tinha ido fazer, nem sequer Liz…

- Mãe…

- Devolve a roupa Chloe. E para que é que a querias de qualquer das maneiras?

Levantei-me da cama e encolhi os ombros.

- Era divertido ver a enfermeira depois à procura dela – respondi, enquanto abria a gaveta da minha cómoda e tirava de lá umas calças e uma blusa.

- Ai Chloe… por momentos preocupaste-me, pensei que quisesses fugir ou assim…

Fechei a gaveta e vi que ela se tinha sentado na cama. Sentei-me ao seu lado e passei-lhe a roupa para as mãos.

- Para onde iria? – Perguntei, encostando a cabeça ao seu ombro. Por favor, matem-me já – Não tenho mais ninguém, tu és a minha família – mudei de ideias, dêem-me só a arma, eu consigo matar-me sozinha.

Mas ao menos resultou e ela sorriu.

- Muito bem, agora tenho que ir.

Levantou-se e despediu-se de mim com um abraço.

- Adeus mãe – disse-lhe, pela segunda vez do dia.

- Porta-te bem, que não posso cá voltar – espero bem que não volte mesmo. Limitei-me a assentir-lhe com a cabeça.

Ela saiu do quarto e eu deixei-me cair para trás, ficando deitada. Não sei como ela consegue, mas esta mulher é totalmente o contrário de Derek. Enquanto ele está sempre nos locais certos à hora certa, ela está nos mais inoportunos à pior altura possível.

O que vale é que me tinha prevenido logo.

Apesar de ter ficado surpreendida quando ela me pediu a roupa, não posso dizer que não tivesse pensado em algo do género. Só gostava de saber como ela descobriu. Mas eu tenho tempo para pensar nisso quando sair daqui.

Abri a gaveta da minha mesa-de-cabeceira e tirei de lá a tesoura, e em seguida fui buscar as calças que tinha ido tirar ao quarto da enfermeira – já estava à espera de um imprevisto, por isso trouxe duas calças e duas blusas.

Para isto resultar, tinha que parecer normal, por isso as calças não se podiam ver… cortei-as com a tesoura à medida de uns calções e depois voltei a guardá-los.

Estava quase na hora do jantar quando voltei a descer as escadas. Jantei calmamente e depois perguntei a Liz se estava tudo pronto, o que ela confirmou.

Assim que acabei de falar para ela, fui à pressa tomar banho antes que começasse a fazer a digestão do jantar, e vesti os – agora – calções, e uma blusa de alças branca. Vesti uma das camisas de noite brancas, até abaixo do joelho e com manga curta. Verifiquei ao espelho montes de vezes se dava para se notar que tinha roupa por baixo da camisa de noite, mas concluí que não.

Calcei os meus All-Star – que ficavam a matar com a camisa de noite, mas não me importei – e depois de secar o cabelo, voltei a descer as escadas. Liz já me esperava na sala.

Ela deu-me um saco e eu levei-o para o quarto de Morris, e ficou combinado de Liz trazê-lo a ele para cá daqui a cinco minutos.

Abri o saco e sorri. Esta Liz é mesmo demais.

Agarrei no saco velho de batatas com os furos nos sítios dos olhos e enfiei-o na cabeça, vestindo em seguida um robe verde que ela tinha arranjado de um dos médicos. Pus o robe ao contrário, para não se ver que era um robe. Notava-se na mesma, mas Morris não ia descobrir de certeza.

Em seguida meti daquelas bandeletes com antenas, que não faltam cá, visto que metade dos pacientes tem espírito de crianças.

Mandei o saco que estava em cima da cama para o chão mesmo a tempo da porta de abrir e de Morris ficar especado a olhar para mim.

- Olá terráqueos – cumprimentei, a ele e a Liz.

- Tu… tu… tu… - Morris não passava disto.

- Venho anunciar que este sítio será, de agora em diante, a nossa base – disse, tentando fazer uma voz meio “à robô”.

- Mas… mas… - gaguejou Morris.

- Vai e salva-te! – Gritei-lhe, com a mesma voz.

O rosto dele estava aterrorizado, e por isso senti remorsos, afinal mete-me pena ter que o assustar, mas por outro lado ele parecia radiante por finalmente ter as provas que tanto precisava. E acho que nisso o fiz um pouco mais feliz, afinal, ele não tem que saber que é tudo mentira.

Ele deixou cair a antena parabólica no chão e começou a correr pelo corredor.

Eu não consegui deixar de sorrir, e Liz disse-me para me despachar.

Tirei o meu “disfarce” e corremos as duas pelas escadas abaixo.

Quando chegámos ao rés-do-chão, Morris já tinha aterrorizado todas as pessoas. Era incrível como se deixavam enganar tão facilmente… era tal e qual como daquela outra vez que Liz me tinha que ele tinha feito isto.

Os pacientes começaram todos a querer fugir e os seguranças, médicos e enfermeiros não os conseguiam conter a todos, eram demasiados.

Corri em direcção à saída, à minha liberdade, e passei por Carol que estava sentada com uma cara de enterro.

- Não vens? – Perguntei.

- Não vale a pena. Os extraterrestres não me vão querer, sou demasiado insignificante.

Nem me dei ao trabalho de discutir com ela, e segui o meu caminho.

Saí do hospício e corri pela rua como se a minha vida dependesse disso. E não dependia? Sim, claro que sim, porque se não tiver Derek, os meus amigos e a minha família, mais vale estar morta.

 

Volto a postar na quarta-feira ^^

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