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Uma Rosa Para Todo o Sempre

por Andrusca ღ, em 26.01.11

Este não é dos capítulos mais interessantes, mas cá vai...

 

Capítulo 13

Obstáculos

 

Após correr duas ruas, já estava prestes a ter um ataque de coração. Olhei para todos os lados, e ninguém me seguia. Respirei de alívio, despi a camisa de noite ficando apenas com os calções improvisados e a blusa, e meti-a no caixote do lixo que estava do meu lado esquerdo.

Caminhei pela noite que, por ser Verão, não estava fria e procurei desesperadamente uma praça de táxis, sem ter qualquer sucesso.

Apesar de Helena ser relativamente perto de Great Falls, eu nunca cá venho, por isso não conheço bem a cidade. Já para não falar que em termos de tamanho não se comparada à pequena cidade onde vivo.

Olhei por um vidro de uma parede de um café e vi no relógio que estava na parede que eram quase dez horas.

Entrei no café para pedir direcções, afinal não ia ficar perdida este tempo todo.

O empregado foi super prestável e disponibilizou-se logo a levar-me à praça de táxis se eu esperasse dez minutos, que era quando o turno dele acabava. Era um moço mais ou menos da minha idade, com o cabelo castanho claro e umas poucas sardas. Era muito bonito, sem qualquer sombra de dúvida.

Quando ele se despachou, saímos do café e começámos a caminhar, eu para onde ele ia.

- Então, o que te trás a Helena? – Perguntou-me.

- Adorava saber… - deixei escapar. Ups. Ele olhou para mim – Quer dizer, eu acho que foi uma surpresa qualquer e agora… eu meio que quero que acabe.

- Hum… Detesto essas surpresas.

- Também eu.

- Para onde é que vais?

- Great Falls.

- Moras lá?

- Moro.

- Não queria estar a fazer perguntas a mais mas… tu estás bem? Pareces um bocado preocupada…

- Estou bem – menti.

Eu não estava bem. Não estava bem porque estava sozinha numa cidade que mal conhecida. Não estava bem porque acabara de fugir de um manicómio onde no princípio das férias tinha sido fechada. Não estava bem porque não sabia o que fazer agora, ou quando chegasse a Great Falls. E definitivamente não estava bem porque não sabia nada de Derek ou do resto das pessoas mais importantes da minha vida.

Continuámos a nossa marcha e mais uma vez foi ele a falar primeiro.

- Tens alguém à tua espera? Eu não quero parecer chato mas… acho que fiquei meio preocupado contigo…

- Eu… - baixei a cabeça e senti os olhos enlagrimados ao perceber que não sabia o que lhe responder. É claro que esperava que eles lá estivessem e me esperassem, mas e se não estivessem? – Eu não sei…

- Como assim? – Olhou para mim preocupado, mas nem assim diminuímos a velocidade do passo. Nem eu queria.

- Eu… eu espero que haja lá alguém mas… não sei porquê, mas acho que não vai lá estar ninguém. Acho que se pode dizer que estou à procura deles. Vamos só dizer que tem sido um Verão um bocado louco – sem trocadilhos pretendidos.

- Bem – ele parou e apontou para a entrada de um prédio –, eu fico por aqui. A praça de táxis é já ali – apontou para a frente e já consegui ver alguns táxis estacionados – E Chloe, espero que encontres seja quem for que andas à procura.

Sorri-lhe. Já não me lembrava do nome dele, é triste, eu sei, mas é verdade. E ele ainda se lembrava do meu.

- Obrigado mais uma vez – disse-lhe.

Ele entrou para o prédio e eu lá fui num passo mais apressado para ao pé dos táxis.

Aproximei-me deles e comecei a espreitar pelas janelas. Estavam todos vazios.

- É preciso ter azar – reclamei, para mim mesma – É que devo de andar amaldiçoada.

Ia voltar para trás sem ter qualquer tipo de plano quando vi um homem entrar para um táxi. “Aleluia, a minha salvação”, pensei.

Corri até ao táxi e bati no vidro. O homem, que estava sentado no lugar do condutor a ler um jornal, abriu-o e ficou a olhar para mim e eu para ele, parecíamos dois maluquinhos.

- Queres alguma coisa? – Perguntou-me.

- Sim – disse-lhe – Queria ir para Great Falls, se faz favor.

Ele sorriu. Não gostei daquele sorriso, previ logo uma coisa má.

- Azar miúda, estou ocupado – e ia fechar o vidro mas eu pus as mãos.

- Desculpe, o quê? – Perguntei, num tom azedo – Você está a ler o jornal!

- Vais ter que esperar pela manhã ou então pedir a outro taxista.

Olhei em volta.

- Mas não está aqui mais ninguém – reclamei – Olhe, é mesmo importante que eu vá para Great Falls, ouviu? Por favor, leve-me lá.

- É tarde, vai para casa, dorme, amanhã logo vais.

Mas que idiota meu Deus!

- É exactamente isso que estou a tentar fazer! – Gritei – Não está no seu horário de trabalho?! Então faça isso, trabalhe!

- Mas tu não tens mais nada que fazer miúda?

- Leve-me para Great Falls! – Acho que agora já estava a gritar alto demais, mas pouco me importei.

Ele pegou-me nas mãos, tirou-as da janela e fechou-a. Ainda bati no vidro mais umas quantas vezes, mas ele aumentou o som da música e retomou a sua leitura. Era escusado.

- Idiota! – Gritei-lhe, batendo pela última vez no vidro da janela.

É que é preciso ter-se cá uma lata. Realmente, fugi de um manicómio e agora cá fora é que encontro coisas destas. Isto só a mim.

Comecei a afastar-me dos táxis e caminhei sem destino. Queria encontrar alguém para pedir direcções, mas não passava uma única alma pela rua.

Encontrei um café com um aspecto muito rasca, e senti um calafrio ao ponderar a possibilidade de lá entrar. Noutras circunstâncias afastar-me-ia dali com toda a rapidez, mas agora? Agora tenho que fazer tudo o que estiver ao meu alcance para voltar para casa.

Respirei fundo e abri a porta, e todos os olhares dos homens se viraram logo para mim. Engoli em seco, que ambiente de cortar à faca.

Caminhei calmamente até ao balcão e esperei que alguém me viesse perguntar o que queria.

- O que deseja? – Perguntou-me um homem com uma fita na cabeça, cabelo loiro até quase aos ombros e ar de mauzão. Parecia pertencer a um gang qualquer.

- Direcções – disse-lhe – Queria saber como ir para Great Falls.

- A esta hora? O mais seguro seria de táxi – disse-me ele.

- Eu sei mas… isso não é um opção.

- Você percebe que vai demorar muito tempo a chegar lá, certo? E que o tempo está a ameaçar chover…

Quando ele disse isto, olhei para a rua pela janela. Ainda não tinha reparado, mas era verdade, as nuvens tinham coberto o céu por completo.

- Certo… - murmurei, pessimista. Ele notou a minha decepção.

- Digo-lhe o seguinte, vá para um motel, é mais barato, e amanhã de manhã vá de táxi.

- Mas amanhã de manhã é tarde demais. Eu preciso de ir agora.

Ele revirou os olhos. Mas qual é o problema das pessoas nesta cidade? É assim tão difícil dar um par de direcções?

- Muito bem – cedeu – Segue naquela direcção… - começou a apontar e depois desenhou um pequeno mapa num guardanapo de papel, enquanto me explicava tudo.

- Perfeito, obrigada – agradeci, agarrando no papel – Outra pergunta: onde fica a casa de banho?

Ele apontou e eu lá fui.

Saí do café e olhei para a estrada que tinha que seguir. Ele tinha razão, eu ia demorar séculos a chegar a Great Falls. Olhei em seguida para o céu, se não chovesse hoje seria milagre.

Lá comecei a caminhar pela estrada fora.

Depois de quase meia hora a andar, cheguei a uma estrada completamente às escuras. Não tinha candeeiros, não passavam carros e não se ouvia um único ruído. Era completamente aterrador.

- Tem calma Chloe – murmurei, para mim.

Ouvi uma coruja e assustei-me logo, mandando um guincho para o ar.

Só me vinham cenários de histórias de terror à cabeça, e quais as maneiras como alguém me poderia matar aqui e agora.

Começou a chover, e não foi aos poucos, foi logo como me estivessem a despejar uma piscina em cima. Mas nem por isso a temperatura diminuiu, o que era de estranhar.

Já estava a ficar farta. Afinal o mais complicado não era sair do hospício mas sim chegar a casa. Como é que isso é possível?

É que só mesmo com a minha má sorte.

- A sério?! – Gritei, para o céu, não sei bem para o quê – Porque é que isto está a acontecer?! Eu só quero ir para Great Falls! Pode ser assim tão difícil?! Raios!

Ouvi alguém clarear a garganta por trás de mim e virei-me de súbito. Estava tão concentrada na minha discussão com ninguém, que nem me tinha apercebido das luzes de uma carrinha de caixa aberta, que estava agora estacionada no meio da estrada. Olhei para o homem que tinha clareado a garganta e engoli em seco. Ele tinha uma cicatriz perto do olho e um chapéu que cobria quase todos os seus cabelos grisalhos.

Era mesmo o tipo de homem que os produtores iriam buscar para fazer de assassino num filme para maiores de dezoito anos.

“Raios! Agora é que é”, pensei.

- Estás perdida? – Perguntou-me.

- Não – respondi. Era óbvio que não ia dizer que sim, mesmo se fosse um bocadinho verdade.

- Estás sozinha? Precisas de boleia?

Se estou sozinha? Quem me dera poder dizer que não.

- Não – menti, de novo – Os meus pais estão mesmo ali à frente, com o meu tio polícia – dei bem ênfase a esta última palavra – e nós estamos bem. Não precisamos de boleia.

Sorri para tentar disfarçar o meu nervosismo.

- Tens a certeza? – Perguntou – Porque a mim parece-me que estás sozinha. Devias saber que é perigoso para uma rapariga da tua idade andar assim sozinha na rua a estas horas.

- Mas não estou sozinha – insisti.

- Ouvi-te dizer que ias para Great Falls. Eu vou para Black Eagle, podes vir comigo e só tinhas que fazer mais três quilómetros a pé. Que achas?

Um estranho que aparece a meio da noite numa estrada por onde ninguém passa e que oferece boleia. Hum… acho que já vi isto num sítio qualquer. E infelizmente não acaba bem.

- Como é que te chamas? Eu quero ajudar – disse-me – Não tens que ter medo.

“Não tens que ter medo? Ai, que conveniente”.

Mas depois de breves segundos a pensar, talvez estivesse a exagerar. Sim, ele tinha um aspecto duvidoso, e sim, a carrinha era bastante assustadora e esta situação toda também mas… ficar a três quilómetros de Great Falls seria bem melhor do que passar o resto da noite aqui às voltas.

- Ok – acabei, por dizer.

- Muito bem.

Ele subiu para o lugar do condutor e eu para o do pendura, e ele começou a conduzir. A carrinha fez um barulho estranho a arrancar que não me inspirou confiança nenhuma. Vi no rádio que já eram quase três da manhã, nem tinha ideia que tinha passado tanto tempo.

De vez em quando via-o a olhar para mim pelo canto do olho, mas quando se apercebia que eu também o olhava, desviava o olhar. E assim seguimos, em silêncio, durante mais ou menos vinte minutos.

Estava a começar a arrefecer por causa da chuvada que me tinha caído em cima, por isso ele ligou o ar-condicionado.

Deixei-me absorver em pensamentos enquanto via e ouvia a chuva a cair no vidro da frente do carro, e seguia os limpa-pára-brisas com o olhar.

- Estás metida em algum problema? – Perguntou-me.

- Não – respondi, com a voz um pouco baixa devido ao nó que se formara na minha garganta devido ao quase ataque de pânico que estava prestes a ter. Mas também, se ele me quisesse fazer mal, já o teria feito, certo?

- Posso perguntar porque é que andavas sozinha a estas horas?

- É complicado.

Ele sorriu.

- Na tua idade já tens coisas complicadas? Bolas, começam cada vez mais cedo.

Sorri também. Ele tinha uma certa de razão.

Depois de quebrarmos o gelo, ele começou-me a falar da sua vida, da sua mulher, das duas filhas e um filho, e de que como tem que andar sempre de um lado para o outro nunca pode estar com eles durante tempo suficiente para matar as saudades.

A chuva finalmente tinha parado.

Chegámos a Black Eagle mais ou menos uma hora depois de termos começado a viagem, e eu agradeci e segui o meu caminho. Agora já sabia como chegar a casa.

Senti-me mais aliviada ao ver que as estradas aqui eram bem mais iluminadas.

Andei durante um pouco, mas fui forçada a sentar-me num banco à beira da estrada devido ao cansaço, apesar de este se encontrar completamente encharcado. Estava completamente de rastos e doía-me o corpo de toda a chuva que apanhei.

Recuperei durante meia dúzia de minutos e voltei a pôr-me em marcha. Tinha que aguentar, não ia poder parar agora. Não com as coisas que tenho para fazer, que tenho para descobrir.

Já caminhava lentamente, estava cheia de sono e mal conseguia manter os olhos abertos. Mas não ia desistir.

Bocejei umas poucas vezes e quando encontrei a placa que dizia “Great Falls”, sorri. Finalmente, já não faltava quase nada para chegar a casa.

Ainda a escuridão reinava quando comecei a avistar a minha casa ao longe. Aleluia.

Mesmo depois do taxista arrogante, da chuva, da estrada deserta e falta de orientação da minha parte, do homem assustador que se revelou uma boa pessoa, e do meu cansaço, consegui. Tinha atingido a minha meta.

Quase que me arrastei até à minha casa, e abri a porta com a chave suplente que estava sempre escondida por baixo do tapete.

Olhei para a escuridão que habitava na casa, e acendi a luz do hall. Estava tal e qual tudo como me lembrava. Excepto Dylan no sofá, e Abby a tagarelar de um lado para o outro. E isso meteu-me pena. Demasiada pena.

- Dylan? Abby? – Gritei, enquanto subia as escadas – Estão aqui? Pessoal!

Ninguém respondeu, para meu grande desânimo. Além de mim, a casa estava completamente vazia.

Deixei-me cair para o sofá, completamente devastada.

Acho que no fundo sabia que não ia encontrar nada. Sabia que ninguém ia cá estar. Mas mesmo assim tinha aquela pequena esperança de que estivesse enganada e que os encontrasse sãos e salvos.

Suspirei. Afinal, tanto esforço para nada. Agora que tinha fugido, continuava sozinha e sentia-me mais impossibilitada que nunca. O que é que iria fazer para os encontrar? Afinal, eu não sou nada mais que uma mera rapariga humana.

Uma lágrima fugiu ao meu controlo e agarrei numa almofada apertando-a para mim com toda a força que tinha.

Como é que podia estar tudo aqui menos eles?!

Sentia-me frustrada, como se o mundo me tivesse sido retirado todo de uma vez de baixo dos pés, como se este abismo sem fundo nunca fosse acabar.

Olhei pela janela da sala e observei ainda a escuridão. Esta estava a ser a noite mais longa de toda a minha vida.

Quando as lágrimas foram obrigadas a parar de escorrer por mim, levantei-me e subi até ao meu quarto. As chaves do carro estavam em cima da secretária, onde eu as costumava deixar sempre. Olhei para cima da mesa-de-cabeceira com a falsa esperança de ver lá o meu colar especial e o anel que Derek me dera, mas tal como tinha antecipado, não estavam lá. As coisas simplesmente não desaparecem de um momento para o outro, certo?!

Suspirei pela milionésima vez da noite e voltei a descer as escadas.

Queria ter ido ao quarto dos meus irmãos. Queria entrar lá e vê-los a fazer as coisas que faziam no dia-a-dia. Queria simplesmente abraçá-los e cheirar os seus perfumes.

Mas sabia que iria ser em vão. Que iria apenas encontrar quartos sem qualquer traço de vida.

E sei perfeitamente que quando entrasse em qualquer um dos dois, me ia dar um ataque incontrolável de choro. E nesta altura não me podia dar ao luxo de chorar.

Sabia onde tinha que ir. Talvez o único sítio que me restava.

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