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Uma Rosa Para Todo o Sempre

por Andrusca ღ, em 04.02.11

Capítulo 18

O Anjo da Morte

 

A vida é feita de escolhas. Na maioria, elas são fáceis. A maior parte nem nos apercebemos que estão a ser feitas, são simplesmente reflexos. Coisas banais que qualquer pessoa faz, mesmo sem estar completamente consciente. Coisas naturais, como virar à direita em vez de virar à esquerda. Agarrar um copo de vidro em vez de num de plástico. Usar uma caneta preta em vez de uma azul.

Mas há outras que são complicadas. Que não podem ser, nem de perto nem de longe, tomadas de ânimo leve. São essas que fazem com que pensemos nas consequências, nos riscos… que nos obrigam a pensar bem nelas. Ir ou não ir. Fazer ou não fazer. Mas não passam disso.

O grande problema são aquelas escolhas que nos fogem. Aquelas que não são escolhas nossas, que não podemos evitar que aconteçam ou forçá-las a acontecer. As escolhas que ocorrem naturalmente, como se fizessem parte de um grande plano destinado para cada pessoa individualmente. Como viver ou morrer.

Às vezes a realidade foge-nos das mãos, e tudo acaba numa décima de segundo. Num momento estamos vivos, no outro já não. Num momento somos alguém, respiramos, fazemos as nossas escolhas… e no outro estamos a ser enterrados, esquecidos, superados.

Essas escolhas, não se podem controlar. Essas escolhas… são livres. Essas escolhas decidem-se a elas próprias.

 

***

 

Quando acordei estava deitada numa coisa fofinha, mas não era um colchão. Doía-me a cabeça, mas nada mais, e pouco a pouco, a dor foi desaparecendo até ficar completamente boa, tudo numa questão de segundos. Abri os olhos devagar, sentia que o sol me batia e isso fazia-me aflição, pelo que tive que pôr a mão à frente para os conseguir abrir completamente. Apesar de estar sonolenta, não me sentia cansada, apenas confortável. Mas não estava numa cama, ou sofá, ou nada… estava no chão, deitada em cima de relva.

Levantei-me desajeitadamente, e percebi o porquê mal vi o que tinha vestido. Era um vestido vermelho, justo e até aos pés, de cavas e com um grande decote. Não sentia o cabelo nas costas, e senti-o apanhado. Ao levar-lhe a mão percebi que era um carrapito, e estavam apenas umas mechas soltas. Preso ao meu pescoço, estava agora o meu colar do crucifixo com o pentagrama que tanto tinha sentido a falta.

Reparei que sentia a relva nos pés, estava descalça. E só então é que reparei no sítio onde estava. Não o conhecia. Tinha a relva mais verde que alguma vez tinha visto, e ao longe, umas montanhas, também cobertas de relva. Ao pé de mim havia vários canteiros, e todos com rosas brancas. Era um sítio paradisíaco. Senti uma grande necessidade de aproveitar este momento e por isso fechei os olhos enquanto deixava que uma brisa me fizesse as poucas mechas de cabelo que estavam soltas, esvoaçarem.

Inspirei o ar fresco das montanhas e depois abri os olhos. Sabia bem, mas tinha que descobrir onde estava e o que se passava. Tinha que encontrar Derek e o resto das pessoas a quem pertencia.

Dei um passo em frente enquanto apreciava a beleza intoxicante deste lugar, mas fui parada ao ver uma imagem, aparecida do nada, a poucos metros de mim.

Era um homem com o cabelo preto, mesmo escuro, e um sorriso nos lábios. Os seus olhos eram castanhos, e brilhavam como se estivesse prestes a chorar. Tinha umas calças de ganga vestidas, e uma camisa branca, que lhe ficava a matar. Se não o conhecesse, dava-lhe trinta e nove, quarenta anos, mas como conheço, sei que tem trinta e sete. O meu pai sempre aparentou ser mais velho do que é.

Caiu-me uma lágrima pelo rosto ainda antes de eu perceber que ela se tinha formado, mas não a combati. Era uma lágrima de felicidade. Estava finalmente frente a frente com o meu pai… mas como?

Ele começou a andar para mim, e quando finalmente conseguiu chegar perto o suficiente, abraçou-me. Deixei-me ficar quieta, enquanto era envolvida nos braços dele. Um abraço tão quente, tão sentido… um daqueles abraços que só ele sabe dar.

Houve alturas na minha vida em que senti uma grande necessidade de ter este abraço, de ter o meu pai junto a mim, de ouvir a sua voz a reconfortar-me ou de o ouvir simplesmente a dizer que estava disponível para qualquer coisa que eu precisasse.

Eu simplesmente precisei dele durante toda a minha vida.

- Como? – Perguntei, quando ele finalmente me largou e se pôs quieto à minha frente – Onde é que estamos? Como é que estamos juntos?

Apesar de adorar estar com ele e poder vê-lo, senti-lo, nada disto fazia o mínimo sentido.

- Lamento querida, isto é o Céu – ele só disse isto, mas foi suficiente para a minha mente fazer as ligações todas.

Ele está morto. E eu estou com ele... no Céu. E a minha mãe partiu-me o pescoço. Estão… eu estou morta. Mas não, não pode ser. Eu não posso estar morta.

- Isto não é real, estou a sonhar – murmurei. Isto não podia ser real, era completamente impossível.

- Lamento – repetiu.

- Não! Isto é só um sonho!

- Não querida, não é – disse-me.

- É sim! Eu tenho estes sonhos esquisitos, mas no fim são só isso, sonhos!

Agora já estava praticamente a gritar de desespero. Eu não podia estar morta. Tomei todas as providências para que isto não acontecesse. Fiz tudo o que devia fazer para continuar a viver, mesmo que algo deste género se passasse. Fiz tudo direitinho, e fiz o que tinha que fazer para garantir que mesmo que fosse morta, voltava a acordar.

- Chloe… - ele começou a abanar a cabeça – isto é real. Lamento imenso querida mas… tu morreste.

Notei a tristeza dele ao pronunciar isto. E ao ver essa tamanha tristeza, comecei mesmo a acreditar que era real.

- Não pode ser – murmurei, já mais baixo – Não pode ser, eu bebi sangue! O sangue da Charlotte!

Bebi o sangue da Charlotte e quase que vomitei aquilo tudo, mas por saber o que me ia acontecer não o fiz. Aguentei. E agora não serviu para nada.

- Eu sei.

- Eu bebi sangue que ficaria no meu sistema durante uns dois dias! Não posso estar morta! Já devia ser uma vampira!

- Tu não te transformaste. Não percebo porquê, mas não transformaste.

- Mas… - agora caiu-me outra lágrima, mas esta era de desespero – então e o Derek? E os meus irmãos? E os meus melhores amigos…? Então e eu?

- Tu ficas aqui comigo, e quanto a eles… como eu disse, lamento imenso querida.

- Porquê?

- Porque… - voltou a abraçar-me – não estava destinado…

- Mas pai… - comecei a andar de um lado para o outro como se fosse alguma louca – O que é que vai acontecer aos meus irmãos? Eles são apenas crianças eles… eles precisam de mim, eu preciso deles e…

- Chloe – agarrou-me pelos ombros e olhou-me nos olhos –, lamento imenso ter deixado isto acontecer, mas espero que saibas que os teus irmãos nunca ficarão sozinhos.

Ainda não estava completamente convencida de que isto era real. Sim, não estava a sentir aquela dor que Derek me dissera que se sente ao sermos transformados. E tudo bem, também já devia ter acordado vampira e isso ainda não tinha acontecido. Mas mesmo assim… eu não estou morta. Simplesmente não é possível.

- Eu sei que pensas estar a sonhar… - continuou ele, enquanto se aproximava de uma árvore e se sentava encostado a ela – Vem, senta-te aqui.

Obedeci-lhe e sentei-me lentamente, com as pernas dobradas, e agarrei num pequeno galho que estava no chão e comecei a quebrá-lo aos poucos, enquanto esperava que o meu pai dissesse alguma coisa.

- Eu sei que tudo isto parece um sonho – disse ele –, mas não é. Eu lembro-me de como me sentia nesses… sonhos.

Espantei-me ao ouvir isto e olhei para ele surpreendida. Ele sorriu.

- Pois – continuou – Por fora és parecidíssima à tua mãe mas… és tal como eu por dentro.

- Tu tinhas estes sonhos? Pensava que era a única pessoa que os tinha, que…

- Sim, tinha esses sonhos. Foi assim que me comecei a interessar pelo sobrenatural.

- Pai… - havia uma pergunta que tinha que lhe fazer enquanto ainda tivesse oportunidade. Mas não sabia ao certo se queria saber a resposta, porque uma coisa são explicações da minha cabeça, ideias minhas, e outra é uma afirmação vinda dele –, quando o Aisaec… te matou, de que acordo é que estavas a falar? Disseste-lhe que não tinham concordado fazer as coisas assim. Que coisas? E assim como?

Agora foi a sua vez de olhar para a relva intensamente. Talvez não devesse ter sido tão directa, mas tenho pensado numa resposta para esta pergunta desde o dia em que sonhei com a sua morte.

- Transformar-me em vampiro – disse ele, por fim, confirmando o meu grande medo, que ainda antes, tomara como certeza.

- Porquê? – Perguntei. Porque se queria tornar-se vampiro então isso significava que eu e os meus irmãos não éramos suficientemente bons para o fazer feliz, que não gostava da vida que tinha, e eu odiava saber isso.

- Eu amava-te. E aos teus irmãos. Ainda amo – disse-me, muito calmo –, mas sempre tive este… fascínio sobre vampiros. Sempre quis saber mais. Algures pelo caminho, encontrei esse colar – levei instantaneamente a mão ao pescoço onde se encontrava o meu crucifixo com o pentagrama, repousado –, e bem… algumas outras coisas. Conheci o Aisaec numa noite em tinha saído para ir ao café. Mas bem, isso era apenas uma desculpa. Nessa altura estavam a haver alguns assassínios na nossa zona. Coisas estranhas, corpos completamente drenados… eu sabia que eram vampiros mas tinha esta grande fixação em prová-lo, em vê-lo com as minhas próprias mãos. Sabes filha, ao contrário de ti, eu pensava que os vampiros podiam ser bons. Por isso nessa noite, fui à procura de um, e acabei por o encontrar. Aisaec. Falámos por um pouco, e notei o seu interesse em mim, apesar de não perceber o porquê nem me importei. Acho que era ingénuo.

- Era por causa da mãe – interrompi – Ele cheirou a mãe em ti.

- Sim – concordou – Após uma semana, concordámos que ele me iria transformar.

- Nós não éramos suficientes? – Perguntei, sem aguentar mais, com os olhos fixos na relva – Quer dizer… eu, a Abby e o Dylan?

- Eram. E não vos ia deixar. Nunca. O plano era transformar-me e continuar com vocês. Sabia que me iria conseguir controlar se me esforçasse. Quis tudo, e acabei sem nada. Morto. E pior que isso, nesse dia, matei a fé de alguém. E perdoa-me por isso Chloe.

- Continua a história – pedi. Não me apetecia entrar em assuntos de perdas de fé.

Ele assentiu com a cabeça e retomou de onde tinha parado.

- Tínhamos a data marcada, tudo a postos. E depois o dia do aniversário do Dylan chegou. Nós e a Abby ficámos sozinhos, como te lembras, e depois ouvi um barulho que me fez perceber que talvez não devesse ter confiado tanto num vampiro. Mandei-vos esconderem-se mesmo a tempo de ele aparecer. Agarrei numa faca, mesmo sabendo que não serviria de nada se ele me quisesse morto.

- E queria mesmo – murmurei, mas acho que ele não me ouviu.

- Apareceu à minha frente tão rapidamente e… bem, acredito que sabes o que se passou a seguir. Lembro-me de que nos meus últimos segundos o vi dirigir-se à despensa e de rezar para que não vos encontrasse. E lembro-me que depois fugiu, graças a alguém que apareceu. E depois disso, nada.

- Tu sabias que não podias confiar nele totalmente – afirmei –, porque me deixaste aquela carta. E o colar.

- Esperava poder confiar, mas sim, temia que ele podia não estar a ser completamente sincero.

- Sabias que ele estava apaixonado pela mãe?

- Sei agora. Desde que vim para aqui que vos observo. Sei que não estou convosco em presença, mas o meu espírito nunca vos abandonou Chloe, nem por um segundo. E só de pensar que fui eu que pus todos estes perigos na vossa vida… perigos esses que levaram à tua morte…

- Pára – interrompi –, a culpa não é tua. Aquela pessoa que apareceu, que afugentou o Aisaec naquele dia, era o Derek.

Os seus olhos arregalaram-se e olhou para mim agora surpreso, ao que eu sorri.

- Bem, então acho que sempre estiveste bem guardada – disse-me.

- É por isso que não acredito que tudo acabou assim – desabafei – Não acredito que a mãe me torceu o pescoço e acabou tudo. O amor não devia poder vencer tudo?

- O amor vence tudo. Mas às vezes demora um pouco, e outras vezes não é como esperamos que seja.

Estivemos um pouco em silêncio e dois segundos foi o tempo que demorou até que a minha mente começasse a divagar de novo. Agora pensava em várias coisas simultaneamente, o que me fazia perguntar-me como tal era possível.

Uma dessas coisas era Margaret Simms. O que lhe terá acontecido depois de me ter partido o pescoço? Aliás, o que terá acontecido a todos depois de ela me ter morto?

E como é que ela teve coragem? Que não era boa pessoa toda a gente sabia, mas matar a própria filha? Ninguém devia conseguir fazer tal coisa.

Uma mãe dá vida num momento, e retira-a no outro.

Tudo bem que nunca foi minha mãe, mas mesmo assim, será que os nove meses que me teve dentro dela não contaram para nada?

E a Abby e o Dylan? Será que também os detesta assim tanto ao ponto de os fazer reféns durante todo o Verão?

- Estás a pensar na tua mãe – disse ele, muito calmamente. Virei a cabeça para ele e uma mecha de cabelo caiu sobre os meus olhos, madeixa essa que foi desviada segundos depois pela mão do meu pai –, não mates a cabeça por isso, o que está feito está feito.

- Não foi a ti que ela matou – deixei sair, arrependendo-me no momento em seguida. Olhei-o a medo. Temi que tivesse ficado chateado. Mas não, nada disso. Olhava-me ainda mais docemente.

- As coisas não vão ficar más para sempre.

- Não pai… - abanei a cabeça – Porque o para sempre não pode existir quando estou sozinha.

- Então não fiques sozinha. Fica aqui comigo.

- Eu não pertenço aqui, não percebes? – Apesar de me sentir revoltada, a minha voz estava calma – Eu amo-te, és o meu pai, e amo-te, mas eu não pertenço aqui. Eu pertenço lá, com eles, viva.

- Eu sei querida, e daria qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para poderes voltar para ao pé deles.

- Há só uma coisa que não percebo – murmurei, agora já com um tom frustrado – Não percebo como é que a deixei convencer-me. Não percebo como não notei que se passava qualquer coisa de errado. Fui tão cega!

- Sabes o que reparei em ti?

- O quê?

- Tu vives a acreditar que há mal em todas as pessoas, mas quando chega a hora… tudo o que consegues ver é as boas partes.

- Isso não é verdade.

- Sim, é. Apenas escondes isso ao veres primeiro os defeitos mas… no fundo, queres acreditar que todas as pessoas são boas.

- Estás errado. Não acredito nisso. O Josh não era bom. O Aisaec… ele era o demónio em pessoa. E a mãe… - abanei a cabeça antes de continuar – a mãe foi o maior desapontamento da minha vida.

- Tu nunca suspeitaste que ela podia ser uma vampira?

- Não! Quer dizer… ela saía do hospício quando havia sol!

- Alguma vez viste?

Comecei a reviver os dias passados naquele hospital psiquiátrico um por um. Cada hora passada com ela. Cada visita em que tive que a suportar.

- Não… - murmurei, desapontada comigo mesmo – E havia mais… houve uma vez em que pousei uma mola num sítio e depois já estava noutro, e ela estava no quarto… o meu quarto que estava sempre escuro. E quando nos aproximávamos da varanda… ela ficava sempre na sombra.

Agora ainda me sentia pior. De novo, os sinais estavam todos lá, e mesmo assim não consegui reconhecer um vampiro. Não suspeitei do frio, a minha mãe sempre foi fria, e não só por dentro.

Levantei-me e dei poucos passos em frente, sentindo a relva nos meus pés, o que me fazia cócegas, e observei o horizonte. Não podia passar a minha eternidade aqui. A minha eternidade era para ser passada junto a Derek.

Senti uma presença atrás de mim e dei com o meu pai a observar-me directamente.

- Como é que sabias se estavas a sonhar, ou era realidade? – Perguntei-lhe, sem pensar muito.

- Apenas sabia.

Uma resposta vaga. Não ajudou em nada.

Mas de alguma maneira ele estava certo. Eu simplesmente sabia que estava a sonhar. Não era uma vontade, era uma certeza. E ia acordar, mais cedo ou mais tarde.

Lembro-me de uma vez em que falei com Derek sobre a transformação, quando ele disse que há pessoas que têm pesadelos horríveis, e outras que sonham com coisas maravilhosas.

Será isso que me está a acontecer? Estarei apenas a sonhar durante a minha transformação, sem sentir nenhuma dor, nada?

Observei a imensidade de verde que se estendia à minha frente, que juntamente com o azul do céu as colinas, era uma visão de sonho.

Mas mesmo assim sentia-me vazia.

Olhei de novo para o meu pai e num impulso abracei-o. Não consigo explicar, precisei de o abraçar, senti que podia ser a última vez que o fazia.

E devagar, ele começou a desviar-se de mim como se fosse puxado por algum campo invisível, e tudo começou a desvanecer-se. A relva, o céu, tudo.

 

***

 

Que tal?

Quanto mais comentarem, mais depressa têm o próximo capítulo ^^

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