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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 07.02.11

Hi people

Prontos para ver o primeiro capítulo que escrevi em toda a minha vida? :o

(cuidado, não me responsabilizo por dados morais e/ou psicológicos)

Ps. Os primeiros 3 capítulos são um bocado chatos, porque são basicamente introduções...

 

Capítulo 1

O Regresso

 

Ainda me lembro daquele dia, o dia dos meus 15 anos.

De uma maneira foi o pior dia da minha vida, mas também, estranhamente, o mais revelador.

Lembro-me do calor, do sol que estava abrasador. Tinha almoçado na escola como faço todos os dias em que tenho aulas da parte de tarde. Almocei com os meus amigos ricos e populares e com o meu ex-namorado também rico e super mimado, e, apesar de quando estar com eles não gostar da pessoa em que me tornava tudo parecia mais...fácil, mas tornava-me... fútil. Quando saí, dei um passeio pela praia para espairecer um bocadinho. Lembro-me de ficar a olhar para o mar, a sentir o seu cheiro durante uma hora ou duas. A caminho de casa, num beco mais escuro que o costume, um homem agarrou-me, tentei libertar-me. Ele dizia vários palavrões e agarrava-me ainda com mais força, sei que não me queria roubar, queria outra coisa, uma coisa mais... prazerosa. Estava apavorada, não sei como aconteceu mas com um simples gesto que fiz com a minha mão livre, ele ficou parado como que congelado, nem piscava os olhos. Corri como se não houvesse amanhã.

Finalmente avistei-o, o meu enorme casarão. Era de uma cor azul clara e tinha uns pilares brancos. À frente, como já era costume naquela hora do dia, estava o carro do meu pai, um mercedes preto. O meu pai era rígido em muitas coisas, também não gostava da pessoa em que me tornava quando estava perto os meus “amigos” mas sabia respeitar. A minha mãe por outro lado queria à força que me tornasse numa modelo, qualquer outra escolha para ela seria devastador. Estava sempre a insistir para me tornar numa “senhora”, queria que fosse aos bailes de debutantes e comparava-me mil vezes por dia à Heidi Klum, mas no fundo sei que queria que eu fosse feliz. O carro dela, o descapotável vermelho vivo também já estava estacionado... o que não era normal, costumava andar com as amigas de um lado para o outro. Foi aí que vi, pela janela da sala... foi horrível, dois homens, com roupas rotas, castanhas acho eu... estavam frente-a-frente com os meus pais, pareciam discutir, foi então que nas mãos dos homens se formaram duas bolas de fogo. Mandaram-nas contra os meus pais, matando-os instantaneamente.

Abafei um grito, e escondi-me atrás de um arbusto a chorar mas a tentar não fazer muito barulho enquanto os via a lançar mais bolas de fogo para incendiar a casa.

Tenho estado praticamente sozinha desde então. Isolei-me dos meus amigos ricos e fúteis, mudei-me para Toronto, com uma tia minha, a única irmã da minha mãe que ainda estava viva, mas ela adoeceu e morreu um ano depois. Viajei durante muito tempo e desde aquele dia não descansei enquanto não descobri o que se passava comigo.

Perder os pais foi um grande choque, mas eu sentia uma coisa diferente, em cima da tristeza sentia-me... diferente... sabia que as coisas nunca mais iriam ser iguais, e mal sabia eu que tinha razão. As coisas mudaram, não sei se para melhor ou para pior, só sei que agora, com 21 anos, não sou nenhuma Heidi Klum nem coisa parecida.

Agora estou de volta ao local onde tudo começou, e apesar de ter vivido este enorme pesadelo aqui, em São Francisco, sinto bem, sinto-me... em casa.

- Menina Cronwell – Disse o taxista interrompendo os meus pensamentos. – Menina Cronwell, chegámos, o seu apartamento é ali.

- Obrigada, aqui tem. – Respondi, pagando.

Mal saí do carro o porteiro veio ter comigo e agarrou nas minhas malas. Rompi a “tradição de família”, apesar de ter muitos milhões de milhares de dólares que me foram deixados quando os meus pais morreram, em vez de comprar uma mansão optei por um apartamento, mesmo no centro da cidade de São Francisco.

- Quer que peça a alguém que leve as suas malas para o seu apartamento? – Perguntou o porteiro.

- Sim, obrigado.

Após me ter dado as chaves subi as escadas até ao segundo andar e entrei. Lá estava ele, o meu apartamento. Quando entrei reparei num espelho enorme ao fim do corredor, havia uma cómoda e as mobílias que tinha escolhido já estavam colocadas nos sítios. Nada mau para um apartamento e umas mobílias escolhidas pela internet desde Los Angeles.

A cozinha era enorme e estava muito bem decorada, tinha uma mesa média, castanha, com três cadeiras à volta pois era encostada à parede e tinha um cesto com frutas falsas no meio. Na bancada tinha o micro-ondas e uma máquina de fazer café. As máquinas de lavar roupa e loiça que eu escolhi já lá estavam. Por ter feito tantas compras, a loja online ofereceu-me o frigorífico, que também já lá estava.

Na sala havia um enorme LCD e umas colunas muito sofisticadas que vieram com ele, havia um sofá muito moderno, de canto e bege clarinho. A parede em que estava encostado era em tons de bordô. Tinha um tapete, também ele a condizer com tudo o resto e tinha uma mesa maior que a da cozinha para um jantar com muitas pessoas... como se com a minha vida algum dia fosse acontecer.

Fui ao meu quarto. A cama estava encostada a um canto, tinha uma colcha em tons de roxo e lilás clarinho e umas almofadas pretas. O roupeiro era enorme e tinha portas de correr e numa delas havia um espelho. Em cima de uma secretária tinha duas molduras sem fotografias. Havia um puff no lado contrário ao da cama e ao lado de uma arca.

Sentei-me na cama e pensei se conseguiria dar um rumo à minha vida.

Toc Toc – Ouvi. Abri a porta e era o porteiro.

- Peço imensa desculpa pela demora Menina Cronwell, não encontrei ninguém para lhe trazer as malas por isso vim eu mesmo trazê-las.

- Não era preciso, podia-me ter chamado que eu trazia-as. Ah, e já agora, pode-me chamar Jô.

- Jô... diminutivo de Joanna?

- Exacto.

- Bem, Jô, deixo-a com a sua nova casa, espero que esteja a gostar, quanto ao seu lugar na garagem...

Interrompi-o.

- Eu não tenho carro.

- Ah, bem, nesse caso, não teremos que fazer a reunião da garagem como sempre fazemos por causa dos lugares.

- Estou feliz que pude ajudar... Já agora, sabe de algum sítio giro na cidade? Para descontrair um pouco, talvez um bar, uma discoteca...

- Há um sítio a dois quarteirões daqui, chama-se High Spot. Tem um clima muito agradável. Tirando esse…

- Obrigado, talvez vá até lá...

Quando se foi embora levei as malas para o quarto e comecei a arrumar a roupa no roupeiro, uma grande parte foi para lavar, ou por estar suja de terra ou de sangue. Também mandei muita fora por estar rota.

Olhei para o espelho do roupeiro, eu sabia que a imagem que lá aparecia não era tudo o que eu era. Eu sou mais que uma rapariga de cabelo comprido castanho-escuro e olhos castanhos-escuros, sou mais que uma rapariga atlética nuns calções curtos e num top de alças branco. Sabia que as unhas pintadas de cores escuras, os brincos, o anel, sabia que não são quem eu realmente sou. Sim talvez eu fosse Joanna Marie Cronwell, mas não podia fugir da verdade, já aprendera a aceitá-la, já a abraçara e respeitara. Eu sei o que sou... uma bruxa. Estranhamente não tenho problemas em aceitá-lo, apesar de ter demónios, fantasmas e outras criaturas atrás de mim quase todos os dias e de estar sempre a lutar e a levar porrada, na maior parte dos dias sou feliz, porque sei a sorte que tenho, porque cada vez que mato um demónio ou um fantasma salvo alguém, alguém que precisa de ser salvo. É para isso que eu estou cá. Há bruxas e bruxas, há aquelas que dizem uns cantos e se podem intitular de bruxas, há também as crentes que se intitulam a elas próximas e há as outras, como eu, que têm, na realidade poderes.

No dia dos meus 15 anos, quando aquele homem me agarrou, apesar de eu não saber, imobilizei-o. Os poderes funcionam através das emoções, dos sentimentos, e naquela altura eu sentia-me aterrorizada, apavorada.

Mas imobilizar coisas não é tudo que posso fazer. Depois de investigar o assunto e de praticar, ao longo dos anos foram-me concedidos outros tipos de poderes. Posso parar o tempo, mas também acelerá-lo, explodindo o sítio para onde aponto. Há noites em que tenho pesadelos, sonhos proféticos, como são chamados. Isso não é muito divertido porque me mantém acordada uma longa parte da noite. O poder mais útil que tenho é a telicnese. Mover coisas é muito bom, especialmente com mudanças e objectos pesados. Mas claro que como todas as raparigas de 21 anos eu devia estar a pensar em moda e em rapazes. Ok, eu penso em rapazes, mas também tenho que pensar no futuro do mundo e nos demónios que tenho que matar amanhã. Foi isso que matou os meus pais, demónios, apesar de já ter morto montes deles, ainda não encontrei os culpados da morte dos meus pais. Apesar de os ter visto bem, o pavor não me deixa recordar as suas caras.

Quando os demónios não vêm ter comigo para me tentarem matar eu encontro-os, ou por acaso, ou através dos meus sonhos proféticos, é o meu destino. Sou mais forte que as raparigas da minha idade e tenho uma resistência e uma velocidade superiores, mas depois de enfrentar um deles acabo quase sempre ferida. Acho que a parte de me curar rapidamente também foi bem pensada. Isto de fazer do mundo um local melhor é muito giro e de boa samaritana mas nem tudo são rosas, graças ao que eu faço não consigo manter um emprego porque quando vou a uma entrevista e peço um horário flexível não posso dizer que é para combater as forças do mal. Não é que precise do dinheiro, porque não preciso, eu preciso é de uma actividade que me ajude, que me faça sentir... humana.

Também não consigo manter namorados. Normalmente duas semanas e saem a correr, também não os culpo, o último que tive foi atacado por um deles, eu salvei-o mas claro que nunca mais me quis ver. Mas agora, aqui, tenho um pressentimento que tudo vai mudar, eu sei que as coisas vão ser melhores, têm que ser melhores.

Procurei uma roupa gira e que de preferência não estivesse cheia de sangue para vestir. Decidi-me pelo meu vestido preto, tinha uma racha de lado e era perfeito para a minha primeira noite na cidade. Calcei umas sandálias de salto alto e saí porta fora.

Dei uma volta e como não tinha comida em casa acabei por comer num restaurante.

Resolvi ir ao bar que o porteiro falou, High Spot. Pelo nome parecia ser bom.

Tinha um óptimo aspecto visto de fora e as outras 50 pessoas na fila de entrada pareciam achar o mesmo. Demoraram séculos até que pudesse entrar. Quando o fiz, os meus olhos viraram-se logo para a banda que estava tocar, eram 3 Doors Down, uma das minhas preferidas. Pelo que percebi este clube era de uma mulher chamada Sheilla Connor, e havia uma banda todas as semanas e um dia de karaoke. Que sorte, eu adoro karaoke.

Dirigi-me ao balcão e pedi um Coco and Love, uma bebida de sumo de côco, álcool e água com gás. Nunca tinha provado mas como vi no menu não resisti a experimentar.

Peguei no copo e fui para a pista de dança. Comecei a dançar e a curtir o som. Ouvi dois rapazes a falar e percebi que estavam a escolher com quem passar a noite.

Um deles veio ter comigo. Era alto, moreno e tinha umas sardas. Começou a dançar ao pé de mim. Não é estar a gabar-me, mas sempre que algum rapaz tem ideias destas e eu estou ao pé, é a mim que vem, que sorte a minha, como se não tivesse mais nada que fazer.

- És nova aqui? – Perguntou.

- Sou. – Disse sem entusiasmo.

- Bem me parecia. Sabes, de todas as pessoas aqui tu saltas logo à vista.

- Todas as pessoas ou todas as mulheres?

- Bem... ambas. Tens nome?

- Joanna, tu?

- Brad. Então Joanna, moras perto?

- Mudei-me agora recentemente para o centro da cidade.

- Boa, eu sou do prédio no outro lado da rua.

Começou a dançar comigo, agarrou-me e dançámos juntos.

- Podíamos subir e... – Disse-me.

- Desculpa, Brad certo? Não estou suficientemente bêbeda para ir contigo, mas tenta amanhã, talvez tenhas mais sorte... mas eu duvido.

Largou-me e foi-se embora a refilar.

Reparei que estavam a olhar para mim de uma mesa à minha direita. Eram seis pessoas e olhavam mesmo fixamente. Ia perguntar-lhes o porquê mas um dos três homens levantou-se e veio ter comigo.

- És nova aqui não és? – Perguntou-me, apesar de ter a sensação de que não era isso que pretendia saber.

- Nota-se muito?

- É que não me lembro de te ver por aqui. Sou o Louis.

- Joanna. Vens cá muita vez?

- Já que é o clube da minha mulher Sheilla e que tenho bebidas à borla, sim.

- Hum... e estavam todos a olhar por mim porque...

- Não queríamos ficar a encarar, só reparámos que eras nova cá, só isso.

Vi um demónio a sair pela porta com uma rapariga, o mesmo com que sonhara há três dias atrás. A maioria dos demónios parecem pessoas normais, o que me faz saber que são demónios são os sonhos.

- Ok, bem, eu vou andando. – Disse, tentando não o perder de vista.

- Já? Não gostas de clube?

- Não é isso... amanhã tenho que me levantar cedo. Prazer em conhecer-te.

Não lhe dei tempo para me responder.

Sorte a minha, o demónio ainda lá estava. Estava nas traseiras do bar e a coitada da rapariga estava petrificada de medo. Era um demónio fraco por isso, e por sorte, consegui explodi-lo. Ajudei a rapariga e nem sequer fiquei ferida. Posso dizer que valeu a pena ter-me levantado da cama, apesar de esperar que não tivesse que enfrentar muitos mais. Já o faço há quase seis anos e mal tenho tempo para respirar, precisava de uma pausa. Por isso decidi mudar-me para cá.

Cheguei a casa completamente cansada, acalmar a rapariga foi mais difícil do que pensava, mas não me surpreende.

Vesti o meu pijama e pus-me na cama. A minha casa cheirava a nova, era agradável. Amanhã seria outro dia. Nessa noite não houve pesadelos.

 

Que tal?

Fantasminhas & Companhia, comentem, sim? (a)

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